os Animais e a Cultura- O Mocho, Sabedoria e Augúrios


O mocho  é um animal largamente incluído nos mitos e no folclore  de muitos  povos. Para isso contribuem algumas características da sua morfologia e comportamento, como os olhos grandes e vivos numa cabeça redonda que se  move curiosamente para um e para outro lado, hábitos noturnos , um piar que ecoa na noite de forma fantasmagórica, e o facto  de estar espalhado  geograficamente  por todo o mundo, sendo por isso um animal bastante familiar.
Nas muitas culturas que têm referência aos mochos, há dois aspetos que são recorrentes: a relação entre este animal e a sabedoria –  para a qual a aguçada consciência sensorial  em relação ao  ambiente, certamente contribuiu –  e a relação com os prenúncios de eventos nefastos ou relacionados com a morte.  Para alguns povos, o mocho é  um ser que protege dos males e da doença; para outros é o seu anunciador.  Em muitos povos veneram-se determinadas espécies de mochos como benéficas enquanto outras são encaradas como demoníacas ou maléficas.
Na civilização Suméria o mocho  está representado em tabuinhas de argila datadas de há cerca de 5000 anos: a deusa da morte, Lilith, aparece representada com características físicas do animal e também rodeada de mochos.
Entre os gregos antigos Atena , deusa da guerra e da sabedoria, era representada como tendo um mocho como companheiro e por vezes aparecia aos humanos sob a forma deste animal.  Os romanos também associavam o mocho com a deusa Minerva da sabedoria e atribuíam qualidades proféticas a este animal.  Alguns grandes autores clássicos como Virgílio, Homero, Plínio ou Horácio referem vários eventos em que mochos previram a morte de imperadores, incluindo Júlio César.
Vários povos consideravam que ter uma efígie de mocho pendurada na entrada de casa protegia de vários males: os romanos faziam-no para combater o «mau olhado», o povo Ainu do norte do Japão fazia-o para afastar a fome e a pestilência, os chineses faziam-no para proteger contra o  fogo em caso de queda de raio nas trovoadas, associando este animal à energia positiva ou yang.
Em muitos países africanos o mocho é associado a feitiçaria e bruxaria, considerando que, se um mocho grande voa em redor de uma casa isso é indicação de que ali vive um grande xamã . O mocho é, nestas culturas, um intermediário entre o xamã e o  «espírito do mundo».
No Médio Oriente o mocho é associado à ruína, destruição e morte: acreditava-se que estes animais representavam as almas daqueles que morreram injustiçados.
 Alguns povos asiáticos acreditavam que o mocho levava a alma do falecido. Esta é uma crença  comum  aos povos nativos da América do norte, onde se pensava que o mocho era o veículo pelo qual a alma de um falecido atinge a vida no além. Entre os Ojibwa a «ponte» pela qual passa o espírito de um falecido chama-se «ponte do mocho».  
Existe assim uma ambiguidade nas associações que se fazem ao mocho: na Europa acreditou-se que os mochos eram familiares das bruxas e são um prenúncio de morte;  mas na Babilónia antiga, por ex., acreditava-se que amuletos de  mocho protegiam as mulheres durante o parto; entre os índios Pawnee eram usadas penas de mocho para proteger as crianças  de todos os males. Na Índia, a «coruja das torres» é o veículo da deusa  Lakshmi, associada à abundância, sabedoria e aprendizagem.
Os mochos foram também sempre associados às mulheres: em Bornéu acreditava-se que o ser supremo transformou a mulher num mocho depois desta ter revelado segredos aos seres mortais. Em França existe uma crença no folclore segundo a qual , se uma mulher grávida  ouvir um mocho isso é indicação de que o bebé será uma rapariga.  Também no folclore polaco existe referência a este aspeto, embora com algumas nuances: acredita-se que uma rapariga que morra sem ter casado se transforma numa pomba enquanto uma rapariga casada que morre se transforma numa coruja
E há muitas outras referências a este animal nas lendas e mitos das várias culturas, expressão do fascínio e do interesse que o homem sempre sentiu por esta ave. Vamos seguidamente falar um pouco sobre o seu comportamento .
Características e Comportamento do Mocho
Existem mais de 140 espécies de mochos vivendo em todo o mundo à exceção da Antártica. Tanto podem viver em terras cobertas de vegetação verde como em zonas desérticas com pouca chuva. Há mesmo um mocho, o mocho da neve, que vive na tundra gelada do Árctico onde não existem árvores.  Gostam de nidificar em edifícios abandonados.
A maioria das espécies de mochos é ativa ao amanhecer e anoitecer. O dia é passado num poleiro,  sozinhos ou aos pares, mais ou menos imobilizados. Fora da estação de reprodução podem encontrar-se em bando. Muitas espécies têm dois tufos de penas no alto da cabeça, chamados «tufos de ouvidos» mas não estão associados aos ouvidos e não se sabe para que servem.  As penas em frente dos olhos funcionam como antenas,  refletem o som para a abertura do ouvido.
Os mochos possuem um corpo adaptado para a caça, com pernas e pés fortes e garras afiadas, apropriadas para despedaçar e cortar. As penas são macias e delineadas por filamentos semelhantes a cabelos que amortecem o som do voo, permitindo-lhes ter um voo silencioso e, desse modo, surpreender as presas.  Possuem um sentido aguçado de visão e audição e conseguem caçar no escuro ou com luz difusa. Mas também veem bem durante o dia. O seu sentido de audição é tão aperfeiçoado que eles conseguem ouvir a «altura» do som, percebendo exatamente onde este se origina. Isto permite-lhes ouvir  e localizar os sons das presas pequenas que se movem pela erva no chão, mesmo quando estão debaixo da neve.  Muitas espécies têm penas nas pernas e nos pés, o que lhes oferece proteção  extra. O bico é curvo e as suas partes, superior e inferir, funcionam como uma tesoura, poderosa para cortar e despedaçar.  O mocho alimenta-se de pequenos roedores embora, quando há escassez da sua fonte de alimento  ele ronde os quintais, não hesitando em caçar as aves domésticas .
O dia do mocho começa pela «higiene e grooming», cuidando das penas, limpando os pés e as garras. Após este cuidado, o mocho levanta finalmente voo, por vezes lançando um chamamento, especialmente se está na estação de reprodução.

A linguagem corporal do mocho é muito expressiva porque ele precisa de mover a cabeça – coisa que faz com grande facilidade, podendo mesmo virá-la completamente para trás –  para ajustar  a visão tridimensional e  compreender  melhor o que observam. Movem também o corpo para baixo e para cima se estão em estado de alerta  as penas retraem-se e  ficam agarradas ao corpo , que «cresce» para cima para adotar uma postura ameaçadora. Se estão relaxados, «engordam» com a plumagem fofa e solta. Se precisam de se defender a si próprios  ou as crias, podem ser muito agressivos, podendo mesmo atacar o ser humano. Adotam neste caso uma postura característica, com a cabeça baixa e as asas abertas a apontar para o chão.
O mocho possui um grande número de vocalizações , incluindo o célebre grito e piar mas nem todas as espécies emitem  o grito característico.  As vocalizações servem para marcar território  e também são incluídas nos rituais de acasalamento. Também emitem uma espécie de estalidos com a língua, como parte da expressão de ameaça.
Talvez por ser um predador, por vezes o mocho é alvo de ataque concertado por bandos de  pequenas aves, que o perseguem na  tentativa de o expulsar para outra área. Muitas vezes juntam-se outras aves a este bando de perseguidores que só em grupo se atrevem a afrontar o animal. Este raramente responde com agressividade a estes ataques, optando por ir embora.
Os mochos não são aves migratórias embora os que vivem nas zonas  do norte possam deslocar-se para sul para fugir aos rigores do inverno.
Proteção e sabedoria, má sorte e prenúncio de morte, feitiçaria ou mediação entre este mundo e o mundo dos mortos», o mocho continua a florescer no folclore e no imaginário coletivo pelo mundo fora. Abundante em outros tempos, o mocho  tem tido a sua população reduzida devido à destruição dos seus habitats.

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