Mitos da Cultura Ocidental, Hércules um Herói muito Humano

 
A referência a Hércules, coberto com uma pele de Leão  conservando a cabeça do animal agarrada, é um dos mitos mais conhecidos  e populares da cultura ocidental e também um dos que mais mudanças de interpretação  sofreram ao longo do tempo.
A história de Hércules
Hércules  corresponde ao símbolo por excelência do herói. Filho de Zeus e de uma mortal, Alcmena , foi fruto de uma das muitas  aventuras  amorosas de  Zeus, que assumiu a forma do marido de Alcmena, Anfitrião, para conseguir, desse modo, partilhar a sua alcova. É claro que Hera, a esposa de Zeus, ficou  furiosa por mais uma indiscrição do marido. Mas Zeus era o «pai dos deuses» pelo que ela, na impossibilidade de se vingar diretamente,   desviou contra o jovem Hércules a sua fúria vingativa : quando este era  bebé enviou duas serpentes para o matar mas a criança foi encontrada a tagarelar, encantada, com uma serpente morta em cada mão e a brincar com elas, após tê-las estrangulado. Durante anos, Hércules foi alvo do ódio de Hera, que lhe dificultou a vida sempre que pôde.
 
Hércules, apesar da mãe humana, era extraordinariamente forte, mais forte do que muitos deuses e era dotado de  grande coragem. Infelizmente, também era totalmente descontrolado no plano emocional, explodindo facilmente e reagindo com excesso de força em muitas situações, o que originou muitos dos trabalhos e dificuldades pelas quais passou. Quando ainda era jovem, num ataque  de fúria, matou o professor de música, Linus, pelo que, como castigo, teve  que pastar gado numa montanha. Segundo Pródico, Hércules foi nesta altura visitado pelas ninfas Prazer e  Virtude, que lhe  propuseram  optar por duas alternativas de vida: a ninfa  Prazer propôs-lhe uma vida confortável  e fácil; a ninfa  Virtude propôs-lhe uma vida de glória mas brutal. Hércules optou pela vida de glória. Mas Hera estava apostada em fazer-lhe a vida negra.
 
Assim,  o episódio mais infeliz da sua  vida foi causado por Hera, que , na sua sanha de vingança, lhe provocou  um ataque de loucura  que o levou a matar os filhos que teve com a primeira mulher, Mégara. Segundo algumas fontes, Mégara conseguiu escapar a este frenesim de loucura e fugiu.
 
Após este acontecimento terrível, Hércules quis purificar-se do crime, tendo interrogado o oráculo de Delfos sobre o que deveria fazer. Hera, sempre atenta para infernizar a sua vida, levou o oráculo a responder que Hércules deveria ir servir o rei Euristheus – rei de Micenas – durante 12 anos. Hércules, querendo  redimir-se, pacientemente, aceitou, tendo cada um desses anos correspondido a um dos seus 12 trabalhos (sobre os quais falaremos noutra altura). Durante estes anos, Hércules enfrentou perigos que mais ninguém conseguiu vencer e adquiriu fama, eternizando-se como herói, vencendo, deste modo, Hera e as suas más intenções contra ele.
 
Mas, filho de mulher mortal,  Hércules também enfrentou a morte,  ocorrida  através da  vingança de um centauro. O herói, sem suspeitar das más intenções do centauro, permitiu que ele levasse a sua mulher Deianara, na travessia de um rio mas, quando chegou à outra margem, o centauro atacou-a, o que levou Hércules a  matá-lo com uma seta (contendo veneno da Hidra  que ele matou num dos seus trabalhos). Antes de morrer, o centauro, astutamente, disse a Deianara que guardasse um pouco do seu sangue para fazer uma poção de amor. Desejosa de garantir a fidelidade do marido, Deianara colocou um pouco desse sangue na pele que Hércules usava sempre, sem saber que este estava envenenado e o herói , contraindo-se, morreu em agonia. Após a sua morte, foi resgatado como deus por Zeus.

Pistas Para a Interpretação do Mito de Hércules

Primeiramente considerado um bruto, uma poderosa máquina de  músculos sem controlo sobre  as suas  emoções  e com uma força indisciplinada, Hércules começou por ser a antítese do herói.
 
Ao longo do tempo, porém, e sobretudo através da admiração dos romanos, Hércules passou a ser motivo de admiração pela coragem, determinação e capacidade para aprender através dos próprios erros. Os romanos viram nele o ser humano que aceitou redimir-se das suas más ações , pagando pelos erros cometidos e desenvolvendo uma vida gloriosa de aventuras pelas quais venceu múltiplos perigos e se imortalizou.
 
 
 
Semi-divino por parte do pai e mortal por parte da mãe, Hércules simboliza o indivíduo que nasceu dotado de um conjunto de características- força extraordinária, coragem, perseverança, etc-  mas que, enquanto  não aprendeu a controlar  essas potencialidades, cometeu erros graves que incluíram crimes de sangue. Essencialmente, foi uma «vítima do destino»: filho bastardo, perseguido por essa razão (por Hera) não era  um homem como os outros mas também não era um deus. Era, no entanto, alguém que podia, por isso mesmo, escolher o seu destino – elevar-se à condição de um deus e ter uma vida gloriosa mas brutal, ou, pelo contrário, escolher o caminho fácil e acomodar-se a uma vida de conforto mas sem deixar memória. Este é o significado da proposta que lhe foi feita pelas ninfas, Prazer e Virtude. E, de acordo com a sua escolha, foi glorioso na luta mas morreu por causa das suas fraquezas : a mulher que, por ciúmes e, para evitar que ele a traísse, acabou por matá-lo sem querer.
 
Quando a ninfa determinou que o caminho de glória seria «brutal», exprimiu que o «caminho do herói» não é um caminho de facilidades nem de condescendências –  o herói paga um preço pelos traços que deixa ficar na memória coletiva. A admiração de que Hércules foi alvo mostra, desta forma, o ideal de vida masculina, associado às virtudes guerreiras, à prova da coragem e da valentia. O herói não se deixa vencer pelas vicissitudes, apesar das desgraças que o acometem , continua a perseverar no caminho traçado, que é o caminho do guerreiro. A valentia, a coragem e a força são aqui mais importantes do que a lealdade, o respeito pelos laços familiares, etc. Desde os ciúmes e a atitude vingativa de Hera à  loucura que acometeu Hércules, levando-o a matar os filhos, tudo isso é, ao fim e ao cabo, desculpável, nesta visão do mito, em nome do ideal do guerreiro imbatível  cuja força é superior à de qualquer outro homem e mesmo à de alguns deuses.
 
Este é um mito para alimentar guerreiros, é um mito dos tempos de guerra, não da vida citadina que criou a democracia e desenvolveu o discurso como arma fundamental de esgrima dos direitos e deveres dos cidadãos.
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