os Animais e a Cultura. O Simbolismo da Serpente


Continuamos a descrever o simbolismo associado à  serpente, um animal que originou alguns dos símbolos mais antigos  num grande número de culturas conhecidas.  A palavra serpente significa «animal rastejante» e algumas das suas características morfológicas, como a renovação periódica  da sua pele, associaram-na com a imortalidade e com os ciclos da vida. Como essa renovação se repete continuamente, surgiu também a relação com a  eternidade e a regeneração contínua da vida.
Algumas culturas  consideram  que a serpente é o símbolo do «cordão umbilical» que liga a humanidade à Mãe Terra.  Na antiga civilização cretense a serpente era a guardiã dos mistérios da vida e da morte. As serpentes são  consideradas guardiãs naturais dos templos e de outros espaços sagrados, são  vigilantes  dos «tesouros secretos».
A associação entre as serpentes e a fertilidade é muito comum:  os índios Hopi, nativos americanos, têm uma dança anual ritual,a serpente, que celebra a união entre a serpente  celeste masculina  com a serpente fêmea que habita o submundo. Nessa dança erguem serpentes verdadeiras, que são soltas no final, nos campos, para renovar a fertilidade da natureza   e garantir boas colheitas.
A serpente «Ouroboros» é outro símbolo de fertilidade e de eternidade:  é  representada como uma serpente  dobrada formando um anel circular  e mordendo a própria cauda. Este símbolo revela a eterna renovação e continuidade dos processos da vida: a vida recria-se a si mesma à custa do seu autossacrifício: a serpente devora-se a si mesma pagando esse preço para que a vida possa continuar, transformada e renovada. Este símbolo também representa o infinito e  a totalidade da existência, bem como o caráter cíclico do cosmos. Os gregos e os egípcios partilhavam estes significados.
Algumas culturas juntam a este significado de fertilidade a associação entre a serpente e o arco – íris pois este está associado à chuva e ao processo regenerativo que é estabelecido pela união entre a Terra e a Água. Ora, muitas serpentes vivem na água ou em buracos no chão e a forma da serpente também a relaciona facilmente com o órgão genital masculino, tradicionalmente considerado como fecundador.   Na China  é tradicional a associação entre a serpente e a chuva que faz brotar e renascer a vida. Na Austrália e América do Norte e também em África, a serpente é relacionada com o arco-íris, partilhando o  significado da associação entre a chuva e a fertilidade.
Mas, para além destes significados, a serpente também foi desde tempos antigos associada à cura:  para os gregos a serpente era sagrada para Asclépio, deus da medicina, e este transporta um caduceu com 2 serpentes enroladas e que continua a ser o símbolo da medicina atual. O veneno das serpentes associava-as com as propriedades químicas das plantas que tanto podem curar como matar ou produzir efeitos alucinogénios, etc. Atribuía-se às serpentes o conhecimento das ervas e dos seus poderes  e isso fez com que fossem consideradas animais próximos do divino. Elas estavam simultaneamente próximas do divino e da terra pois habitam no chão e isso associou-as também com o submundo e a dimensão pós-terrena. E porque  as serpentes podem ser letais  pelo veneno que instilam sem aviso quando mordem, foram também consideradas  símbolos do bem e do mal. Algumas culturas veem-nas como as guardiãs do submundo. Esta ligação também fez surgir o significado de que elas representam a sabedoria dos mistérios, os conhecimentos ocultos e, como se crê que após a morte as almas habitam no submundo, a serpente foi associada à morte e ao mal.
A tradição hindu e budista contribuiu grandemente para a relação entre a serpente , o bem e o mal.  Esta mitologia fala do povo dos Nagas, com cabeça humana e corpo de serpente, que viviam debaixo da Terra e debaixo de Água e que se acreditava terem o poder de  controlar as chuvas. Serviam também de intermediários entre os homens e outros deuses. Para esta tradição, alguns destes  «deuses-serpente» eram bons, como o Rei-Serpente Muchalinda, que protegeu Budha durante uma tempestade, mas outros eram considerados maus e vingativos.

As mitologias antigas combinavam muitas vezes características de vários seres devido aos significados simbólicos que lhes atribuíam: assim, os dragões das diversas mitologias e as serpentes têm características semelhantes; na mitologia grega, por ex., Echidna, era semi-humana e semi-serpente, e incluía dragões na descendência; Quetzalcoatl, na tradição Tolteca e Azteca. era um deus semi–ave e semi-serpente. Na Europa dos tempos medievais, acreditava-se no Basilisco, uma serpente enorme com corpo de dragão, que matava apenas pelo olhar ou por respirar próximo das vítimas.

Nos mitos em que a serpente aparece como representação do mal, ela é vista como inimiga tanto dos homens como dos deuses. Inclui-se nesta categoria o mito do Génesis de que falámos na última semana. Na Mitologia Nórdica considera-se que uma enorme serpente, Midgard ou Jormungand estava enrolada à volta da terra no início dos tempos. Esta serpente vivia no mar e os seus movimentos causavam tempestades por todo o mundo. O deus Thor lutou com ela para ela libertar a Terra. Outro mito nórdico refere o monstro Nidhogg, uma serpente que se enrolou à volta das raízes do Yggdrasill, a Árvore do Mundo. Esta serpente ,eternamente, tenta destruir o mundo, apertando ou mordendo a árvore. Estes mitos têm a ver com a associação entre a Serpente e a eternidade: a finitude do mundo é assim descrita como a atividade desta serpente maléfica que é uma representação do tempo. (o tempo que em cada ciclo destrói a vida antes de a renovar).
No Egipto, o caos era representado  como a serpente Apófis que, em cada noite, atacava o deus- Sol Ra.  Outra grande serpente, Meheu, enrolava-se todas as noites à volta do barco onde viajava Ra, protegendo-o de Apófis  e garantindo desse modo que o dia voltaria a nascer como previsto.
Mas a serpente também aparece como símbolo do bem e da criação, como referido atrás.  Por ex., entre os índios Dieguénio, US, foi uma grande serpente chamada Umar- Huhhlya-Wit que deu aos homens os segredos da civilização.  Esta ideia aparece em muitas tradições em que «as serpentes» são a representação mítica de «seres sábios» mais do que humanos , que orientaram a humanidade quando esta estava pouco desenvolvida e lhes transmitiram muitos segredos e conhecimentos.
Em África, o povo Fon conta que Da, uma serpente de 3500 anéis, suporta o oceano cósmico  onde flutua  a Terra . Outros 3500 anéis suportam o céu. Quando há um arco-íris no céu ou quando a luz se reflete na água, isso é uma imagem de Da, que se  mostra aos homens nesses pálidos reflexos.
Na mitologia Chinesa a serpente faz parte do Zodíaco. Nesta cultura, a  simbologia da serpente está largamente espalhada na religião e nos contos tradicionais, sendo uma representação simbólica das mais significativas em termos culturais.
Misteriosa e insinuante, a serpente acompanha muitas representações das várias culturas mas também é um símbolo poderoso no plano  subconsciente, associando-se aos medos e às esperanças da humanidade; dualista, como é dual a eternidade/finitude da vida , o bem e o mal , a ignorância e o conhecimento, a que ela está associada.

Os Animais e a Cultura- A Serpente do Eden, Tentação pela Liberdade


A serpente, cobra ou «dragão» são animais que têm sido alvo, ao longo da história da humanidade, alvo de sentimentos ambivalentes: alguns  sentem-se atraídos e fascinados por eles; outros recuam com  aversão e repugnância pelos significados que eles evocam.  Mas, para além do animal físico que desperta estas emoções, há um vastíssimo mundo simbólico que inclui a serpente, a cobra ou o dragão, e lhes atribui significados extremamente ricos , embora por vezes contraditórios, sobre os mistérios da vida e da morte, do bem e do mal,  da ignorância e  do conhecimento, etc.
E, como em geral sucede com a generalidade das experiências humanas, nunca há só um lado da «história». E, porque este tema simbólico é tão recorrente na nossa e em muitas outras culturas, vamos demorar-nos um pouco a analisar alguns dos mitos que envolvem este animal e a sua simbologia. E começamos pela história bíblica da «tentação da serpente».
A história bíblica é bem conhecida: Satã, assumindo a forma de uma serpente , aproximou-se sub-repticiamente de Eva, no jardim do Eden, e sussurrou-lhe que,  se ela comesse o fruto de uma certa árvore, obteria o conhecimento que lhe permitiria distinguir o bem do mal» e se «tornaria, em via disso, semelhante a Deus pois saberia tanto como Deus.» O «convite» da serpente é uma tentação e é considerado maléfico porque, justamente, Deus havia proibido o casal de provar aquele  fruto. De acordo com a narrativa bíblica, Eva não resistiu à tentação e não só comeu o fruto como o  deu a comer ao seu companheiro Adão.  A narrativa continua informando que, após a transgressão,  ambos perderem a inocência e repararam que «estavam nus, etc». O resultado não se fez esperar: ambos foram expulsos do Eden para sempre como punição pelo seu pecado . 
Como todas as narrativas simbólicas, esta também tem várias leituras. A menos interessante é sem dúvida aquela que lembra que a serpente está associada ao órgão sexual masculino e que vê a Eva original  como a mulher que, originalmente,  tenta o homem para o pecado «do sexo» e  que vê a perda da inocência deste primeiro casal como a descoberta da sexualidade que lhes terá feito perder a dimensão casta original.
A nosso ver, existe uma outra leitura bem mais interessante deste mito. Centremo-nos na tentação da serpente: o que esta disse a Eva foi que, ao comer do fruto, adquiriria o poder de distinguir o bem do mal. Ora, tal poder apenas se pode desenvolver quando o indivíduo tem consciência de que «pode escolher». Como bem mostrou o filósofo kierkegaard, «Deus proibiu o homem de comer o fruto («deste fruto não comerás» ) mas proibiu-o precisamente  porque o homem podia desobedecer-lhe. A tentação da serpente no Eden corresponde deste modo ao momento em que o ser humano descobre que «tem» que obedecer (porque recebeu a ordem divina) mas «pode» desobedecer porque é livre de escolher.
E a consciência  de que podemos fazer escolhas é aquela que nos mostra que há mais do que  um caminho único e inexorável à nossa frente; a consciência de que alguém, um ser divino ou humano pode indicar-nos um caminho, pode até dizer-nos que aquele é o único caminho que podemos seguir mas, em última análise, quem decide se obedece ou se  escolhe um caminho diferente somos  sempre nós,  porque, dentro de todos os limites que cercam a nossa existência, nós podemos fazer escolhas e  esta consciência é simultaneamente fonte de angústia e de exaltação porque é a consciência da nossa liberdade individual. 
Tal consciência é a origem do conhecimento do «bem e do mal» porque, quando temos consciência da nossa capacidade para escolher, tornamo-nos responsáveis pelo caminho que escolhemos e pelos frutos que alcançamos no final desse caminho. Perdemos a inocência porque não podemos culpar o  «destino» ou as circunstâncias ou Deus, ou mil e uma outras razões pelas consequências das nossas decisões e das nossas ações.
Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, onde viviam inocentes porque não tinham consciência da sua liberdade e da sua capacidade de decisão individual. A sua «inocência» era a  ignorância de quem vivia a vida sem se aperceber verdadeiramente das suas possibilidades. Ficaram «nus» porque tiveram que tomar consciência de que mais nada nem ninguém, a não ser eles próprios, podia fundamentar as suas ações. Esta «queda» do Paraíso consiste na escolha de o homem viver a sua vida encontrando por si mesmo a «razão de ser» do próprio destino, em vez de ir buscá-la às crenças ou à religião. É um caminho solitário, muitas vezes mergulhado na escuridão e no sofrimento de quem  perdeu todas as crenças e tem que recomeçar o sentido da vida a partir do zero, no confronto  entre a consciência e a própria vida. E é um «pecado» ou um  «mal» porque o homem transgride desse modo as regras vigentes, atrevendo-se a querer um caminho que é o seu.
A «serpente» do Eden, é a curiosidade, o desejo racional de explicar e compreender por si o  que a vida e o mundo nos podem oferecer. Saliente-se que também no mito grego de Pandora, é  a figura feminina quem, movida pela curiosidade e pelo desejo de conhecer, acaba por roubar a chave da «misteriosa caixa» ao marido, Epimeteu, quando este , significativamente, estava a dormir.  E, tal como a caixa de Pandora liberta todo o tipo de males sobre a Terra mas deixa, no final, a Esperança para mover a  humanidade na sua luta, também a serpente do Eden significa o desejo de conhecer e compreender  o mundo, que é inerente a cada ser humano, dando-lhe assim um motivo- pode não ser o único nem o melhor ou o mais fácil, mas seguramente é um motivo importante- para ele viver: a liberdade de poder ser quem ele decidir ser, de ser o autor das suas vitórias e dos seus fracassos e de crescer com eles e através deles, rejeitando ser alguém totalmente definido à partida como se fosse uma figura inerte no jogo de Deus. Esta opção pela liberdade é também a origem do «mal» no mundo porque o conhecimento, como temos visto ao longo da história dos dois últimos milénios, pode ser usado para o bem mas também pode causar o mal. Temos um bom exemplo na história da ciência e da tecnologia que nos melhoraram as condições de vida mas também têm contribuído para a deterioração da vida na terra; a ciência salva vidas mas também pode destruí-las quando se aplica em armas de destruição maciça. Mas, em última análise, o conhecimento é neutro, são as decisões e as ações que o tornam «bom»  ou «mau».

os Animais e a Cultura- Os Gatos, Magia e Mistério

 
Os gatos têm apaixonado os seres humanos desde a Antiguidade : quando foram decifrados  os caracteres das tabuinhas de argila que revelavam aspetos da antiga civilização Suméria, a mais antiga a surgir no chamado «crescente fértil»,  encontraram-se frases como «cruzar-se com um gato preto dá azar» mostrando que muitas das ideias que fazem parte do folclore atual são muito antigas e que o interesse pelos gatos vem de há muito tempo.
A cultura que mais importância concedeu aos gatos, na Antiguidade parece ser, no entanto, a egípcia: o gato era considerado uma encarnação do deus Sol Ra, chamado Mau. No Egipto os gatos eram domesticados e eram membros importantes da família e muitos eram mumificados quando morriam. Quando algum gato morria  toda a família rapava as sobrancelhas em sinal de luto;  se algum ser humano matasse um gato a pena  que sofria  era a morte.
Os gatos eram muito valorizados no Egipto, não apenas por estarem associados aos deuses – o gato doméstico era considerado uma manifestação da deusa Bast, deusa protetora associada à Lua e à fertilidade e considerada protetora dos gatos e daqueles que cuidam destes animais- mas também porque desempenhavam tarefas muito importantes na sociedade : eram usados para caçar aves e peixe e para destruir os ratos que pululavam pelos depósitos de grão ao longo do rio Nilo. Este animal era também considerado um ícone de beleza para os egípcios.
Os gatos eram  adorados e reverenciados no Egipto e a sua exportação era proibida mas, furtivamente, fenícios e depois os romanos roubavam-nos e vendiam-nos para outros países do mediterrâneo. Nos séculos os gatos domésticos proliferavam por toda a Europa encontrando-se também na Índia, China, Japão e Médio oriente. Entre os séculos 9 e 11 era possível encontrá- los  como animais de estimação mas eram usados  principalmente na  função de caçadores de ratos: as cidades estavam infestadas com estes roedores, pelo que os gatos eram considerados preciosos, havendo multas pesadas  para quem os matasse: no século 9, por ex., quem matasse um gato teria que pagar 60 medidas de milho de multa. No século 11, devido à  infestação das cidades por  ratos,  a população felina aumentou consideravelmente.
Na Europa, no entanto, a história deste animal sofreu várias reviravoltas: a cristianização trouxe também a luta da Igreja para acabar com o «paganismo» e os gatos foram associados à crença  de que estes eram familiares das bruxas, ou mesmo encarnações das bruxas e isso fez com que tivesse havido uma perseguição sem quartel a estes animais, com muitas mortes que reduziram muito  a população. Com o número de gatos reduzido, doenças como a peste começaram a levar a melhor pois os ratos transportavam a doença. Os gatos foram usados instrumentalmente para combater os ratos mas, quando o número de roedores era  reduzido voltavam a ser caçados devido aos preconceitos e à associação entre os gatos, a bruxaria e a magia negra.
 
Mas nem todos os povos atribuíam características maléficas a estes animais na Europa: para os celtas, por ex.,, os gatos, domésticos e selvagens, eram vistos como os guardiões de um dos portões do «outro mundo» servindo de ligação espiritual entre o mundo dos humanos e o mundo espiritual.  Mas também entre os celtas os gatos pretos eram alvo de discriminação e eram sacrificados por serem vistos como maléficos.
 Nos países nórdicos os gatos estão associados à fertilidade e à beleza, de modo semelhante ao que acontecia no antigo Egipto: os gatos eram sagrados para a deusa Freya, deusa do amor, da fertilidade e da beleza. Esta deusa protegia os fracos e era uma curadora. Era  também vista como a fonte do amor e da paz . A sua carruagem era dirigida por dois grandes gatos de pelo comprido. Estes gatos simbolizavam a Terra Mãe, a fertilidade e a criatividade. Assim, nestes países, os agricultores  davam leite aos gatos para assegurar os favores da deusa na proteção das colheitas.
 
Outra crença da Idade Média refere que as mulheres dos pescadores conservavam um gato preto em casa porque isso assegurava que os maridos regressariam do mar. O gato era visto como tendo poderes mágicos. No território que é hoje a Checoslováquia, o gato tradicionalmente era associado à fertilidade.
No Japão o gato está associado à boa sorte: o uso de um ídolo de gato, o «gato feliz» que se popularizou no século 19 e 20  é considerado como trazendo boa sorte e prosperidade, espantando os maus espíritos. Marinheiros também colocavam, tradicionalmente, efígies de gato nos navios para lhes proporcionar sorte.
Na China, uma antiga lenda contava que o gato surgiu de uma relação entre uma leoa e um macaco, cada um tendo dado aos filhotes características específicas: a leoa deu-lhe dignidade; o macaco deu-lhe o espírito curioso e o gosto de brincar.
 
Uma antiga lenda polaca conta que uma mãe gata estava a chorar ao lado de um rio, impotente ao ver os seus gatinhos prestes a afogarem-se. Os salgueiros que estavam junto ao rio apiedaram-se  do sofrimento da mãe gata e estenderam os seus longos ramos até estes  entrarem na água  para salvar os gatinhos que tinham caído quando perseguiam borboletas. Os gatinhos agarraram-se aos ramos e foram trazidos a salvo para terra. Desde então, conta a lenda, na Primavera os salgueiros cobrem-se de botões que rebentam na zona usada pelos gatinhos para trepar.
O olhar misterioso dos gatos, a luz que refletem à noite no olhar, as características sensuais e felinas fizeram deste animal, ao longo do tempo, um ser admirado e adorado como um deus ou, pelo contrário, uma criatura  considerada maléfica, associada a rituais de feitiçaria combatidos pela igreja durante séculos. Porém, as suas capacidades de caçador largamente compensaram desde sempre os significados negativos atribuídos, pois este animal foi um elemento muito valioso na salvaguarda da vida humana ao manter as cidades livres dos roedores que transportavam doenças terríveis como a peste, para além de ter sido desde sempre apreciado como animal doméstico e membro das famílias. Símbolo de beleza, de  fertilidade e  de proteção, o gato mantém uma aura de mistério no imaginário coletivo, fruto do cruzamento de tantas crenças durante milénios.
Para saber mais sobre as características do comportamento deste animal, clique aqui.

Os Animais e a Cultura: a Águia, Hábil Construtora

A águia é um animal reverenciado por muitas culturas desde a antiguidade: entre os gregos, por ex., a águia Harpia atormentava a família dos que não prestavam as honras devidas aos mortos, sendo considerada uma entidade vingadora da honra familiar.
Mitos do médio oriente falam de uma relação estreita entre a águia e o Sol, frequentemente representado com asas de águia. Os antigos consideravam que a águia é a única que pode olhar diretamente para o Sol. Ela era considerada como um símbolo de coragem, de força, de poder e de liberdade. Os romanos também partilhavam esta simbologia.
Na América do Norte, a águia de cabeça branca (bald eagle) é o animal nacional dos US e um símbolo da liberdade; é reverenciada por todos os povos nativos, que a consideram uma mensageira do criador.
Para os Navajo, a águia surgiu quando um guerreiro, chamado Nayenezgani prendeu um monstro em Wings Rock e, depois, dirigindo-se para o ninho deste onde se encontravam dois filhotes, impediu que estes se tornassem maus quando crescessem, transformando o mais novo num mocho e o mais velho numa águia. Com as penas de ambos fizeram-se ritos especiais daí para a frente, e com os seus ossos, fizeram-se assobios.
Os índios Comanche contam que a águia apareceu quando o jovem filho de um chefe morreu. Inconformado com a sua perda, o chefe dirigiu preces aos deuses pedindo que  lhe trouxessem o filho de volta e o jovem foi transformado numa águia em resposta às preces do pai. A dança Comanche da águia celebra este acontecimento mítico.
Os índios Pawnee consideravam a águia um símbolo de fertilidade porque estes animais constroem ninhos muito grandes e protegem valentemente os seus filhos. Assim, faziam canções e honravam a águia com cantos e danças.
De modo geral, os índios norte-americanos consideravam que o relâmpago e o trovão eram causados por uma grande águia mítica quando esta batia as asas.
Em outros povos, como os Aztecas, estabelecidos no vale do México, a águia era reverenciada como um símbolo da força e as suas penas eram usadas apenas pelas elites sociais.
Entre o povo Kwakiutl há uma lenda que diz que houve um tempo em que a águia tinha uma visão fraca. Mas, como era capaz de voar a grande altura, e acima das copas das árvores mais altas, um chefe pediu a uma águia que vigiasse a possível chegada de canoas inimigas. Cheia de vontade de ajudar mas com medo de fracassar devido à falta de visão, a águia foi ter com a lesma que, naquela altura, tinha uma visão excelente e convenceu-a a trocarem de olhos temporariamente para poder desempenhar com sucesso a sua missão. A lesma aceitou mas,quando os deveres de sentinela da águia terminaram, feliz com a sua nova capacidade de visão, a águia recusou trocar de olhos outra vez. E, assim, a águia obteve a sua fantástica visão e a lesma, sem os os seus olhos , tornou-se muito lenta.
E poderíamos recordar muitas outras lendas sobre esta majestosa ave, pois ela encontra-se em todo o mundo (à excepção da Antártica) e tem fascinado os povos ao longo de tempo.
Mas, quais as características do seu comportamento? Vamos apresentar de seguida alguns elementos para conhecermos melhor este animal de respeito.
A Águia de Cabeça Branca , uma Construtora de Ninhos Gigantes
Conhecem-se várias espéceis de águias , com diferentes tamanhos, formas e plumagens, divididas por 4 classes: as do mar e que se alimentam de peixe; as que se alimentam de répteis; as Harpias; as águias calçadas. Encontram-se na Rússia, Europa e Ásia, mas, uma delas, a de cabeça branca, habita especificamente nos US. Esta águia foi uma espécie ameaçada até 1999. Vive na maior parte do território dos Estados Unidos e também na maior parte do Canadá e no norte do México. Encontra-se em habitats diferentes, incluindo as zonas desérticas de Sonorah e as florestas caducas do Quebec. Esta águia vive em qualquer zona húmida como grandes lagos, costas marítimas, rios, etc, onde pode encontrar água e peixe em abundância. Também precisam de árvores de grande porte , geralmente coníferas com madeira dura para nidificar ou se empoleirar, e com mais de 20 m de altura. Constrói o maior ninho de aves em toda a América do Norte e o maior de todo o reino animal construído em árvore: tem mais de 4 metros de profundidade com 2,5 metros de largo.
O macho e fêmea têm plumagem semelhante mas, ao contrário do que habitualmente sucede no reino animal, a fêmea é maior em tamanho do que o macho. Esta ave é uma voadora poderosa: atinge velocidades entre 56 e 70 km por hora e 48 quando carrega peixe.
É uma ave parcialmente migratória: se as fontes de água de que necessita para se alimentar congelam no inverno, migra para o Sul da costa. É um animal «oportunista«, isto é, aprendeu a usar em seu proveito as correntes de ar ascendente para impulsionar o voo.
Apesar de apreciar especialmente o peixe, tem capacidade predatória para um grande número de espécies: num estudo, verificou-se que cerca de 56 % da sua alimentação era composta por peixe, 28% por aves, 14 % por mamíferos e 2% por outros. Quando precisa de competir pela comida, pode roubar comida aos coiotes, raposas e corvídeos. Esta águia não tem predadores no estado adulto mas, ocasionalmente, os coiotes também podem roubar comida das águias se a ocasião se proporcionar.
Quando atingem entre 4 e 5 anos de idade estão prontas para acasalar e para se reproduzirem. Quando isso sucede regressam muitas vezes ao local onde nasceram. Pensa-se que estas aves acasalam para a vida. Porém, se um dos companheiros morre ou desaparece, encontram um novo companheiro. Os rituais de corte incluem chamamentos espetaculares e exibições de voo. Cada casal dispõe de cerca de 1 a 2 km de território junto a uma fonte de água. 
A época de reprodução estende-se de Fevereiro a Maio. Nos ninhos enormes que constroem são colocados entre 1 e 3 ovos, habitualmente 2, incubados por ambos os progenitores mas principalmente pela fêmea. Pelo menos um dos progenitores está permanentemente no ninho.
As crias, ao nascer, recebem um «imprint» , aspeto estudado por Karl Lorenz, e segundo o qual se constata que os animais seguem o primeiro ser  que veem ao nascer e que lhes dá comida ou assistência. Esta estratégia instintiva do imprint dura desde os 9 dias de idade até cerca das 6 primeiras semanas: durante este período o filhote aprende a distinguir a mãe e a sua espécie e adquire comportamentos específicos que lhe permitem sobreviver. Se, em vez da mãe, a jovem ave vir um ser humano, imprimirá de forma permanente esta espécie como se fosse sua e procurará os humanos para lhe darem de comer. É por isso que, nestas fase, não deve haver qualquer contacto entre os seres humanos e as crias. Um filhote que tenha feito o imprint de um ser humano recusar-se-á a acasalar com a sua espécie quando for adulto.
Por vezes, quando há uma diferença de tamanho entre as crias nascidas, o mais velho ataca e mata o mais novo. Quando têm 8 semanas de vida, as crias voam pela primeira vez mas permanecem perto do ninho e dos pais. Cerca de 8 semanas após o primeiro voo começam a dispersar . Nos 4 anos seguintes vagueiam até terem a plumagem adulta e poderem acasalar e reproduzir-se.
No estado selvagem, a águia vive em média 20 anos. O animal mais velho encontrado tinha 28 anos. Em cativeiro já se observou um que atingiu os 50 anos. Mas, nos US não é permitido capturar esta ave e só instituições públicas com fins educativos podem ter a ave cativa. Uma excepção são os animais feridos que, por causa disso, já não podem sobreviver sozinhos no estado selvagem.