Animais como Nós, O Pardal, Uma Ave Muito Urbana

av3

O Pardal é a ave canora mais comum em todo o mundo. E, apesar de não ser uma ave que sobressaia pela plumagem ou até mesmo pelo canto, habituámo-nos a vê-la partilhar o ambiente à nossa volta ou até a atrever-se a vir para junto de nós a pedir comida  e sentimo-nos encantados com ela.

 Há muitas espécies de pardais, embora todas com características físicas algo semelhantes, pois as cores não variam muito, indo  do castanho  escuro  a tons mais claros e ao acinzentado passando pelo branco e pelo preto. Apesar disso, há umas espécies maiores do que outras e, devido à extraordinária disseminação desta ave pelo mundo inteiro – só não existem na Antártida as várias espécies desenvolveram características ambientais de adaptação aos diversos climas dos habitats onde vivem.

 O pardal não é uma ave migratória. Assim sendo, como se explica que exista em todo o mundo?

 A explicação é simples – esta ave foi levada sistematicamente para várias regiões do mundo pelo próprio homem. Calcula-se que o pardal tenha evoluído na região do mediterrâneo há muitos séculos atrás. E, à medida que as populações humanas se foram espalhando pela Europa, as aves acompanharam as suas migrações. O pardal raramente se afasta muito dos habitats humanos, preferindo as zonas da cidade pois  há muito que se habituou a tirar partido dos recursos  humanos para  seu proveito.

 Os pardais atuais são todos descendentes destes pardais europeus.  A razão pela qual chegaram à Índia , à  América Central e do Norte, Brasil, Havai, México, Bahamas,  teve origem no século XIX quando vários grupos destas aves foram largadas: primeiro em Brooklyn, Nova Iorque, no Outono de 1851 e na Primavera de 1852; depois mais aves  foram libertadas nas décadas seguintes: no Havai em 1871 , no Brasil em 1872, etc.

 Ora, o que levou a esta sistemática libertação  de pardais para fora do seu habitat de origem? A razão é simples –  na altura pensou-se que era uma excelente estratégia para diminuir os insetos nas colheitas: libertaram-se  pardais para este comerem os insetos que ameaçavam as culturas. As a estratégia foi baseada na ignorância dos hábitos alimentares desta ave, que  só se alimenta de insetos na estação reprodutiva, para alimentar os juvenis e, no resto do ano, come sementes e grãos: ou seja, procura alimento nas próprias culturas que era suposto proteger.

 Este é um caso flagrante de como a ação impensada do homem, baseada em suposições não fundamentadas, pode alterar gravemente os ecossistemas: ao tentar resolver um problema ,criou outro, pois as capacidades adaptativas desta ave fizeram com que a população crescesse estrondosamente, tendo levado, ainda no século XIX, a uma operação desenfreada de caça desumana às aves para controlar a sua disseminação.  Os animais acabaram por pagar pelo erro dos homens.

  A  partir da história evolutiva  considera-se  que todas as espécies de pardais pertencem a duas grandes famílias, designadas por «Pardais do Velho Mundo» e «Pardais do Novo Mundo». Os «Pardais do Velho Mundo espalharam-se pela Europa, Ásia e África. Um dos mais comuns, o «pardal doméstico», é de tal forma adaptável que , em muitas regiões, é considerado uma espécie invasiva.  Os «Pardais  do Novo Mundo» são comuns na América do Norte e do Sul e mostram muitas diferenças morfológicas e comportamentais devido à adaptação a habitats muito diversificados. O pardal  europeu conta com 11 subespécies com variações nos tamanho e diversas adaptações ao clima.

 Apesar destas diferenças, a plumagem tem cores semelhantes em todas, o que torna muito difícil distinguir as diversas espécies.

av

 Os pardais são espécies solitárias, encontrando-se aos pares ou em grupos familiares; mas, no Outono e no Inverno formam bandos mistos com várias espécies de pardais e incluindo várias grandes famílias.

 A alimentação dos pardais baseia-se essencialmente  em sementes e grãos – no sec. XIX  os pardais aproveitavam o facto de os grãos das colheitas serem transportados por cavalos, entornando-se quase sempre uma parte que caía dos sacos, para se alimentarem oportunisticamente.

 Na Primavera e no Verão, quando estão na estação reprodutiva, também ingerem uma quantidade   considerável de insetos pois as proteínas são  fundamentais para alimentar os juvenis.  Quando visitam os quintais à procura de comida não são esquisitos e comem de tudo: sementes de girassol, milho partido e milho painço, alpista, pão aos pedaços, etc. Quando  estão no habitat natural procuram  comida no chão  ou nas partes baixas das árvores ou arbustos , bicando com os seus bicos cónicos fortes para abrir as cabeças das flores para retirar sementes ,  abrindo as bagas, etc. São muito agressivos para com outras aves que se alimentem perto e o seu comportamento pode muitas vezes ameaçar as aves nativas.

 Como não fogem ao contacto com os seres humanos, os pardais aprenderam a encontrar fontes  praticamente inesgotáveis de alimento: procuram comida nas quintas  e nas  hortas e até já foram vistos a bicar as  grelhas dos automóveis para extraírem os  insetos, não sendo raro encontrá-los junto a varandas e janelas, paragens de transportes (sempre à espera de um pedacinho de pão ou de bolo); e se você é daqueles que colocam comida para os pássaros no seu quintal, fique sabendo que os pardais fielmente regressam diariamente à procura da sua  refeição grátis. (Mas, se também tem um gato em casa, vigie-o quando as aves se alimentam, pois tentará caçá-las).

 Os pardais são monógamos e constroem os ninhos em diversos locais – fendas ou reentrâncias nos telhados, cavidades naturais das árvores, ninhos do ano anterior deixados pelas aves que entretanto migraram: como os pardais  não migram, começam a estação reprodutiva mais cedo do que as outras aves e apropriam-se dos melhores locais de nidificação, o que em parte explica o seu enorme sucesso como espécie . Por vezes expulsam outras aves dos ninhos para se apropriarem deles.  Se houver falta de comida no seu habitat, no entanto, podem tornar-se nómadas à procura de comida.

 O Pardal  faz 2 a 3, por vezes 4 criações por ano, bastante mais do que a média de outras aves.  A fêmea põe de 4 a 6 ovos que são incubados por 14 a 18 dias e depois ambos os progenitores alimentam as crias por mais duas semanas ou um pouco mais até estas deixarem o ninho. Dada a grande fertilidade desta ave e a sua grande capacidade de adaptação, a população destas aves cresce bastante.av2

 Os pardais têm poucos predadores se bem que, atualmente , os gatos domésticos sejam um predador de respeito para todos os que visitam os quintais e as varandas das habitações. Os pesticidas usados na agricultura também são  uma ameaça pois matam os insetos de que a ave necessita na época reprodutiva.

 Apesar disto, existem centenas de milhões desta ave no mundo, partilhando os espaços urbanos  onde permanecem como a ave mais familiar que se cruza connosco todos os dias: apesar do «temperamento»  agressivo para com as outras aves, o pardal  interesseiramente «domesticou» o ser humano, que não resiste a dar-lhe umas migalhas do que quer  que seja que esteja a comer. Afinal crescemos a ver estas aves junto de nós, quotidianamente,  e gostamos da sua falta de timidez em procurar-nos. Esta é mais uma espécie, como o gato ou o cão, que cresceu connosco evolutivamente, por isso custa-nos imaginar um mundo sem pardais. E, pelo volume da sua população, eles hão-de resistir enquanto houver humanos pois acompanham o nosso destino e aproveitam-se dos nossos hábitos alimentares e de cultivo.

Reflexão de Fim de Semana- Comportamento Animal, o Melhor de 2013

Porque nem só de Astrologia vivem os homens e as mulheres, ao fim de semana permitimo -nos a abertura para outros temas do nosso e, esperamos, do vosso interesse e um desses interesses maiores refere-se aos outros animais , os não humanos, que consideramos importante conhecer para respeitar e para convivermos melhor com eles. Todos evoluímos no mesmo planeta mas, ao longo do tempo, por uns motivos ou por outros, o homem teve dificuldade em reconhecer os direitos e as necessidades dos outros animais. Dar a conhecer as suas características e comportamento tem, por isso, o objetivo de melhorar a nossa consciência em relação aos outros seres que acompanham a nossa jornada nesta vida na Terra. Hoje selecionamos alguns dos artigos  sobre este tema e que selecionamos como  os «melhores de 2013»:
  • Alex, o Papagaio cinzento este papagaio tornou-se uma estrela, pois foi o ponto de partida para a investigação científica da inteligência dos papagaios cinzentos e ajudou a revelar ao mundo capacidades de reflexão  que ninguém sonhava que fossem possíveis num animal não humano.
  • Comportamento Heróico nos AnimaisO debate em torno da  existência de natureza ética nos animais tem sido objeto de investigação científica e hoje é um dado adquirido que a dimensão ética e moral não é exclusiva dos seres humanos: muitos animais ajudam os outros sem  o objetivo de alcançar  vantagens pessoais e muitas vezes com o sacrifício das suas próprias necessidades ou colocando em risco a própria vida. Muitos deles dão verdadeiras lições de moral, com o seu exemplo, aos seres humanos.
  • Animais que Troçam de Outros AnimaisCertos animais usam a inteligência para enfrentar outros animais que são seus predadores e para «troçarem » deles. É o caso de uma ave- Magpie-  que faz parte da família das pegas de cauda comprida. A sua inteligência é extraordinária, tal como o seu sentido de humor.
  • Animais Artistas Muitos animais têm denotado comportamentos estéticos- o chimpanzé, por ex., pinta com um inegável sentido artístico mas ninguém estranha muito uma vez que está tão perto de nós na escala evolutiva. Mas existe uma pequena ave, o «pássaro jardineiro» que é um inegável  e surpreendente artista : cada ave procede de forma diferente nas suas construções estéticas que têm por  objetivo essencial  conquistar as fêmeas
  • Animais que Resolvem Problemas e Usam Ferramentas- O uso de  ferramentas e a capacidade para resolver problemas são dois requisitos essenciais que comprovam a inteligência superior. Durante muito tempo pensou-se que eram exclusivos dos seres humanos mas hoje sabemos que muitos animais também cumprem estes requisitos. Escolhemos uma ave, símbolo da cidade de Lisboa, o Corvo, para exemplificar.
E pronto, ficamos por aqui, na evocação do comportamento animal. Poderá encontrar, no arquivo do blog, muitos outros artigos sobre comportamento animal, na rubrica «reflexão de fim de semana». 

Os Animais e a Cultura- o Leão, Coragem e Realeza

 

O Leão na Simbologia e na Cultura

O Leão é um animal presente na Mitologia e na cultura de muitos países. A sua aparência imponente  e ar «nobre» associaram-no desde a remota Antiguidade com a realeza e com todas as características associadas: coragem e bravura, caráter, expressão da divindade, etc. que levaram a considerá-lo como o «rei da selva».
Vamos referir de seguida algumas dessas referências culturais e depois apresentar algumas características do comportamento deste animal, outrora espalhado por grande parte do mundo e hoje circunscrito a uma parte da África e da Ásia.
 
O Leão é um ícone simbólico presente na representação de bandeiras, brasões de armas,  na arte e  religião em muitos países. Nas grutas do paleolítico, como em Lascaux, existem representações deste animal. No Egipto, Sekhmet, a terrível deusa guerreira, era representada  como tendo cabeça de Leoa e, por vezes, assumia  inteiramente a forma de uma Leoa.  A célebre Esfinge tinha  cabeça e ombros humanos e um corpo de leoa.
Na antiga Mesopotâmia os leões eram um símbolo da realeza. Na Pérsia podiam ver-se efígies de leões a decorar as portas. Neste país e noutros do Médio Oriente o leão é um símbolo de coragem, bravura, realeza e ideais da cavalaria.
 
Na Mitologia Grega Hércules lutou contra o terrível leão de Nemeia que era invulnerável aos ataques por armas devido ao  seu pelo dourado que repelia todas as armas que o atacavam. Este leão mítico corresponde à constelação e signo zodiacal do mesmo nome.
Nas lendas do Rei Artur existe uma história que conta como um herói de cavalaria salvou um leão de uma serpente. O animal ficou tão agradecido ao cavaleiro que se tornou no amigo fiel deste, participando com ele nas batalhas pelos valores elevados e altruístas que este cavaleiro travou.
 
Na China também existe uma representação majestosa do leão, que é considerado  um protetor dos maus espíritos. No ano novo é executada uma dança ritual , a dança de ano novo do Leão pela qual se «assustam» os        demónios e os fantasmas. Por esta razão o leão é representado em esculturas que são colocadas como guardiões nas entradas de muitos edifícios como se pode ver na cidade proibida de Beijin. Também no Tibete os leões estão representados na bandeira  e  os «leões da neve» são símbolos de ausência de medo, alegria incondicional, o elemento Terra e a direção Este.
 
A ilha de Singapura também deriva o seu nome da palavra «Singh» que quer dizer «leão» («pura» significa «cidade»). Na Índia os leões também são considerados sagrados e os leões asiáticos fazem parte do emblema do país. Tradicionalmente considera-se que o leão é uma encarnação de Vishnu.
 
No Egipto, o mito de Sekhmet conta que Ra criou a Terra e os homens e governou a humanidade por um período de mil anos. Quando este prazo estava perto do fim os homens começaram a achar que Ra estava velho e frágil  e conspiraram contra ele. Esta conspiração chegou aos ouvidos de Ra que reuniu o conselho dos deuses para decidir o  que fazer. E ficou decidido que Ra enviasse o seu olho à Terra,    sob a forma da deusa leoa Sekhmet para que esta destruísse os conspiradores contra Ra. Mas, após algum tempo em que     a humanidade sofreu a morte causada pela leoa, Ra ordenou-lhe que regressasse e parasse a matança da humanidade mas esta recusou, pelo que Ra teve que recorrer a um subterfúgio para que a humanidade fosse poupada.
 
Características Comportamentais do Leão
 
Em África os leões habitam a savana salpicada de acácias que lhes dão sombra protetora. Na Índia encontram-se nas savanas secas e nas florestas de arbustos caducos. Em tempos era possível encontrá-los num vasto território desde o sul da Eurásia, passando pela Grécia, até à Índia. No Cáucaso sobreviveu uma população de leões até ao sec. 10. Na Palestina os leões desapareceram na Idade Média e, a partir do sec. 18, com o surgimento das armas de fogo, foi desaparecendo da Ásia. Entre o sec. 19 e o início do sec. 20 desapareceu do Norte de África e do Norte da Índia.
Os leões passam boa parte do dia a descansar, passando cerca de 20 horas inativos. Habitualmente ficam ativos após o anoitecer, altura em que socializam, se dedicam aos cuidados do corpo e, até amanhecer, se dedicam a caçar. Gastam cerca de 2h por dia a andar  e 50 minutos a comer.
 
A caça é feita pelas leoas que cooperam em grupos organizados. Comparativamente com outros predadores, os leões têm um coração muito pequeno que representa apenas 0.57% do seu peso, quando em outros animais representa 10% por isso, embora possam atingir uma velocidade de 59 km /h só podem fazê-lo por curtos períodos de tempo razão pela qual precisam de estar perto das presas quando atacam (cerca de 30 metros ou menos).
A alimentação segue uma estrita hierarquia, com as crias desmamadas a comer em último lugar, razão pela qual, quando há escassez de recursos, muitas morrem de fome. Frequentemente os machos permitem que as crias se alimentem da sua porção, mas tem sido observado que as fêmeas, geralmente, fazem-nas esperar pela sua vez.
 
 
Os leões não têm uma época específica para a reprodução, as fêmeas estão receptivas várias vezes ao ano. Atingem a maturidade sexual por volta dos 4 anos de idade e reproduzem-se bem em cativeiro. A gestação leva 110 dias e  cada fêmea tem entre 2 a 4 crias de cada vez. Observa-se com frequência que as fêmeas do grupo sincronizam as gravidezes e cooperam depois na criação dos filhotes. Nas primeiras 6 a 8 semanas a fêmea fica isolada com as crias, caçando sozinha e amamentando-as. Mas depois disso as crias são introduzidas no grupo e  alimentam-se em qualquer fêmea que esteja lactante. Este comportamento facilita os laços no grupo e permitem condições idênticas de crescimento  e de sobrevivência a todos os filhotes. Quando acontece haver crias de diferentes idades as crias mais velhas comem todo o alimento disponível  e os mais novos morrem à fome. As crias nascem cegas. Abrem os olhos com 2 ou 3 semanas. Mamam até aos 2 ou 3 meses. As possibilidades de sobrevivência são poucas: 1 em cada 8 crias morre antes de chegar à vida adulta.
 
Quando um macho desafia o líder e toma o seu lugar mata-o e , se houver crias jovens mata-as também para forçar a fêmea a estar receptiva mais depressa para que novas crias, com os seus genes, possam nascer.  As fêmeas normalmente ficam junto do grupo mas os machos são afastados quando atingem 3 anos de idade e vagueiam até formar o seu próprio grupo de fêmeas. A liderança dos machos pode ser posta em causa por outro macho a qualquer momento.
 
Os leões são animais poderosos: o macho pode pesar cerca de 240 kg e a fêmea pode ultrapassar os 180 kg. No habitat selvagem, os leões vivem entre 10 a 16 anos. Em cativeiro podem viver entre 20 e 25 anos.

os Animais e a Cultura- O Mocho, Sabedoria e Augúrios


O mocho  é um animal largamente incluído nos mitos e no folclore  de muitos  povos. Para isso contribuem algumas características da sua morfologia e comportamento, como os olhos grandes e vivos numa cabeça redonda que se  move curiosamente para um e para outro lado, hábitos noturnos , um piar que ecoa na noite de forma fantasmagórica, e o facto  de estar espalhado  geograficamente  por todo o mundo, sendo por isso um animal bastante familiar.
Nas muitas culturas que têm referência aos mochos, há dois aspetos que são recorrentes: a relação entre este animal e a sabedoria –  para a qual a aguçada consciência sensorial  em relação ao  ambiente, certamente contribuiu –  e a relação com os prenúncios de eventos nefastos ou relacionados com a morte.  Para alguns povos, o mocho é  um ser que protege dos males e da doença; para outros é o seu anunciador.  Em muitos povos veneram-se determinadas espécies de mochos como benéficas enquanto outras são encaradas como demoníacas ou maléficas.
Na civilização Suméria o mocho  está representado em tabuinhas de argila datadas de há cerca de 5000 anos: a deusa da morte, Lilith, aparece representada com características físicas do animal e também rodeada de mochos.
Entre os gregos antigos Atena , deusa da guerra e da sabedoria, era representada como tendo um mocho como companheiro e por vezes aparecia aos humanos sob a forma deste animal.  Os romanos também associavam o mocho com a deusa Minerva da sabedoria e atribuíam qualidades proféticas a este animal.  Alguns grandes autores clássicos como Virgílio, Homero, Plínio ou Horácio referem vários eventos em que mochos previram a morte de imperadores, incluindo Júlio César.
Vários povos consideravam que ter uma efígie de mocho pendurada na entrada de casa protegia de vários males: os romanos faziam-no para combater o «mau olhado», o povo Ainu do norte do Japão fazia-o para afastar a fome e a pestilência, os chineses faziam-no para proteger contra o  fogo em caso de queda de raio nas trovoadas, associando este animal à energia positiva ou yang.
Em muitos países africanos o mocho é associado a feitiçaria e bruxaria, considerando que, se um mocho grande voa em redor de uma casa isso é indicação de que ali vive um grande xamã . O mocho é, nestas culturas, um intermediário entre o xamã e o  «espírito do mundo».
No Médio Oriente o mocho é associado à ruína, destruição e morte: acreditava-se que estes animais representavam as almas daqueles que morreram injustiçados.
 Alguns povos asiáticos acreditavam que o mocho levava a alma do falecido. Esta é uma crença  comum  aos povos nativos da América do norte, onde se pensava que o mocho era o veículo pelo qual a alma de um falecido atinge a vida no além. Entre os Ojibwa a «ponte» pela qual passa o espírito de um falecido chama-se «ponte do mocho».  
Existe assim uma ambiguidade nas associações que se fazem ao mocho: na Europa acreditou-se que os mochos eram familiares das bruxas e são um prenúncio de morte;  mas na Babilónia antiga, por ex., acreditava-se que amuletos de  mocho protegiam as mulheres durante o parto; entre os índios Pawnee eram usadas penas de mocho para proteger as crianças  de todos os males. Na Índia, a «coruja das torres» é o veículo da deusa  Lakshmi, associada à abundância, sabedoria e aprendizagem.
Os mochos foram também sempre associados às mulheres: em Bornéu acreditava-se que o ser supremo transformou a mulher num mocho depois desta ter revelado segredos aos seres mortais. Em França existe uma crença no folclore segundo a qual , se uma mulher grávida  ouvir um mocho isso é indicação de que o bebé será uma rapariga.  Também no folclore polaco existe referência a este aspeto, embora com algumas nuances: acredita-se que uma rapariga que morra sem ter casado se transforma numa pomba enquanto uma rapariga casada que morre se transforma numa coruja
E há muitas outras referências a este animal nas lendas e mitos das várias culturas, expressão do fascínio e do interesse que o homem sempre sentiu por esta ave. Vamos seguidamente falar um pouco sobre o seu comportamento .
Características e Comportamento do Mocho
Existem mais de 140 espécies de mochos vivendo em todo o mundo à exceção da Antártica. Tanto podem viver em terras cobertas de vegetação verde como em zonas desérticas com pouca chuva. Há mesmo um mocho, o mocho da neve, que vive na tundra gelada do Árctico onde não existem árvores.  Gostam de nidificar em edifícios abandonados.
A maioria das espécies de mochos é ativa ao amanhecer e anoitecer. O dia é passado num poleiro,  sozinhos ou aos pares, mais ou menos imobilizados. Fora da estação de reprodução podem encontrar-se em bando. Muitas espécies têm dois tufos de penas no alto da cabeça, chamados «tufos de ouvidos» mas não estão associados aos ouvidos e não se sabe para que servem.  As penas em frente dos olhos funcionam como antenas,  refletem o som para a abertura do ouvido.
Os mochos possuem um corpo adaptado para a caça, com pernas e pés fortes e garras afiadas, apropriadas para despedaçar e cortar. As penas são macias e delineadas por filamentos semelhantes a cabelos que amortecem o som do voo, permitindo-lhes ter um voo silencioso e, desse modo, surpreender as presas.  Possuem um sentido aguçado de visão e audição e conseguem caçar no escuro ou com luz difusa. Mas também veem bem durante o dia. O seu sentido de audição é tão aperfeiçoado que eles conseguem ouvir a «altura» do som, percebendo exatamente onde este se origina. Isto permite-lhes ouvir  e localizar os sons das presas pequenas que se movem pela erva no chão, mesmo quando estão debaixo da neve.  Muitas espécies têm penas nas pernas e nos pés, o que lhes oferece proteção  extra. O bico é curvo e as suas partes, superior e inferir, funcionam como uma tesoura, poderosa para cortar e despedaçar.  O mocho alimenta-se de pequenos roedores embora, quando há escassez da sua fonte de alimento  ele ronde os quintais, não hesitando em caçar as aves domésticas .
O dia do mocho começa pela «higiene e grooming», cuidando das penas, limpando os pés e as garras. Após este cuidado, o mocho levanta finalmente voo, por vezes lançando um chamamento, especialmente se está na estação de reprodução.

A linguagem corporal do mocho é muito expressiva porque ele precisa de mover a cabeça – coisa que faz com grande facilidade, podendo mesmo virá-la completamente para trás –  para ajustar  a visão tridimensional e  compreender  melhor o que observam. Movem também o corpo para baixo e para cima se estão em estado de alerta  as penas retraem-se e  ficam agarradas ao corpo , que «cresce» para cima para adotar uma postura ameaçadora. Se estão relaxados, «engordam» com a plumagem fofa e solta. Se precisam de se defender a si próprios  ou as crias, podem ser muito agressivos, podendo mesmo atacar o ser humano. Adotam neste caso uma postura característica, com a cabeça baixa e as asas abertas a apontar para o chão.
O mocho possui um grande número de vocalizações , incluindo o célebre grito e piar mas nem todas as espécies emitem  o grito característico.  As vocalizações servem para marcar território  e também são incluídas nos rituais de acasalamento. Também emitem uma espécie de estalidos com a língua, como parte da expressão de ameaça.
Talvez por ser um predador, por vezes o mocho é alvo de ataque concertado por bandos de  pequenas aves, que o perseguem na  tentativa de o expulsar para outra área. Muitas vezes juntam-se outras aves a este bando de perseguidores que só em grupo se atrevem a afrontar o animal. Este raramente responde com agressividade a estes ataques, optando por ir embora.
Os mochos não são aves migratórias embora os que vivem nas zonas  do norte possam deslocar-se para sul para fugir aos rigores do inverno.
Proteção e sabedoria, má sorte e prenúncio de morte, feitiçaria ou mediação entre este mundo e o mundo dos mortos», o mocho continua a florescer no folclore e no imaginário coletivo pelo mundo fora. Abundante em outros tempos, o mocho  tem tido a sua população reduzida devido à destruição dos seus habitats.

Os Animais e a Cultura: a Águia, Hábil Construtora

A águia é um animal reverenciado por muitas culturas desde a antiguidade: entre os gregos, por ex., a águia Harpia atormentava a família dos que não prestavam as honras devidas aos mortos, sendo considerada uma entidade vingadora da honra familiar.
Mitos do médio oriente falam de uma relação estreita entre a águia e o Sol, frequentemente representado com asas de águia. Os antigos consideravam que a águia é a única que pode olhar diretamente para o Sol. Ela era considerada como um símbolo de coragem, de força, de poder e de liberdade. Os romanos também partilhavam esta simbologia.
Na América do Norte, a águia de cabeça branca (bald eagle) é o animal nacional dos US e um símbolo da liberdade; é reverenciada por todos os povos nativos, que a consideram uma mensageira do criador.
Para os Navajo, a águia surgiu quando um guerreiro, chamado Nayenezgani prendeu um monstro em Wings Rock e, depois, dirigindo-se para o ninho deste onde se encontravam dois filhotes, impediu que estes se tornassem maus quando crescessem, transformando o mais novo num mocho e o mais velho numa águia. Com as penas de ambos fizeram-se ritos especiais daí para a frente, e com os seus ossos, fizeram-se assobios.
Os índios Comanche contam que a águia apareceu quando o jovem filho de um chefe morreu. Inconformado com a sua perda, o chefe dirigiu preces aos deuses pedindo que  lhe trouxessem o filho de volta e o jovem foi transformado numa águia em resposta às preces do pai. A dança Comanche da águia celebra este acontecimento mítico.
Os índios Pawnee consideravam a águia um símbolo de fertilidade porque estes animais constroem ninhos muito grandes e protegem valentemente os seus filhos. Assim, faziam canções e honravam a águia com cantos e danças.
De modo geral, os índios norte-americanos consideravam que o relâmpago e o trovão eram causados por uma grande águia mítica quando esta batia as asas.
Em outros povos, como os Aztecas, estabelecidos no vale do México, a águia era reverenciada como um símbolo da força e as suas penas eram usadas apenas pelas elites sociais.
Entre o povo Kwakiutl há uma lenda que diz que houve um tempo em que a águia tinha uma visão fraca. Mas, como era capaz de voar a grande altura, e acima das copas das árvores mais altas, um chefe pediu a uma águia que vigiasse a possível chegada de canoas inimigas. Cheia de vontade de ajudar mas com medo de fracassar devido à falta de visão, a águia foi ter com a lesma que, naquela altura, tinha uma visão excelente e convenceu-a a trocarem de olhos temporariamente para poder desempenhar com sucesso a sua missão. A lesma aceitou mas,quando os deveres de sentinela da águia terminaram, feliz com a sua nova capacidade de visão, a águia recusou trocar de olhos outra vez. E, assim, a águia obteve a sua fantástica visão e a lesma, sem os os seus olhos , tornou-se muito lenta.
E poderíamos recordar muitas outras lendas sobre esta majestosa ave, pois ela encontra-se em todo o mundo (à excepção da Antártica) e tem fascinado os povos ao longo de tempo.
Mas, quais as características do seu comportamento? Vamos apresentar de seguida alguns elementos para conhecermos melhor este animal de respeito.
A Águia de Cabeça Branca , uma Construtora de Ninhos Gigantes
Conhecem-se várias espéceis de águias , com diferentes tamanhos, formas e plumagens, divididas por 4 classes: as do mar e que se alimentam de peixe; as que se alimentam de répteis; as Harpias; as águias calçadas. Encontram-se na Rússia, Europa e Ásia, mas, uma delas, a de cabeça branca, habita especificamente nos US. Esta águia foi uma espécie ameaçada até 1999. Vive na maior parte do território dos Estados Unidos e também na maior parte do Canadá e no norte do México. Encontra-se em habitats diferentes, incluindo as zonas desérticas de Sonorah e as florestas caducas do Quebec. Esta águia vive em qualquer zona húmida como grandes lagos, costas marítimas, rios, etc, onde pode encontrar água e peixe em abundância. Também precisam de árvores de grande porte , geralmente coníferas com madeira dura para nidificar ou se empoleirar, e com mais de 20 m de altura. Constrói o maior ninho de aves em toda a América do Norte e o maior de todo o reino animal construído em árvore: tem mais de 4 metros de profundidade com 2,5 metros de largo.
O macho e fêmea têm plumagem semelhante mas, ao contrário do que habitualmente sucede no reino animal, a fêmea é maior em tamanho do que o macho. Esta ave é uma voadora poderosa: atinge velocidades entre 56 e 70 km por hora e 48 quando carrega peixe.
É uma ave parcialmente migratória: se as fontes de água de que necessita para se alimentar congelam no inverno, migra para o Sul da costa. É um animal «oportunista«, isto é, aprendeu a usar em seu proveito as correntes de ar ascendente para impulsionar o voo.
Apesar de apreciar especialmente o peixe, tem capacidade predatória para um grande número de espécies: num estudo, verificou-se que cerca de 56 % da sua alimentação era composta por peixe, 28% por aves, 14 % por mamíferos e 2% por outros. Quando precisa de competir pela comida, pode roubar comida aos coiotes, raposas e corvídeos. Esta águia não tem predadores no estado adulto mas, ocasionalmente, os coiotes também podem roubar comida das águias se a ocasião se proporcionar.
Quando atingem entre 4 e 5 anos de idade estão prontas para acasalar e para se reproduzirem. Quando isso sucede regressam muitas vezes ao local onde nasceram. Pensa-se que estas aves acasalam para a vida. Porém, se um dos companheiros morre ou desaparece, encontram um novo companheiro. Os rituais de corte incluem chamamentos espetaculares e exibições de voo. Cada casal dispõe de cerca de 1 a 2 km de território junto a uma fonte de água. 
A época de reprodução estende-se de Fevereiro a Maio. Nos ninhos enormes que constroem são colocados entre 1 e 3 ovos, habitualmente 2, incubados por ambos os progenitores mas principalmente pela fêmea. Pelo menos um dos progenitores está permanentemente no ninho.
As crias, ao nascer, recebem um «imprint» , aspeto estudado por Karl Lorenz, e segundo o qual se constata que os animais seguem o primeiro ser  que veem ao nascer e que lhes dá comida ou assistência. Esta estratégia instintiva do imprint dura desde os 9 dias de idade até cerca das 6 primeiras semanas: durante este período o filhote aprende a distinguir a mãe e a sua espécie e adquire comportamentos específicos que lhe permitem sobreviver. Se, em vez da mãe, a jovem ave vir um ser humano, imprimirá de forma permanente esta espécie como se fosse sua e procurará os humanos para lhe darem de comer. É por isso que, nestas fase, não deve haver qualquer contacto entre os seres humanos e as crias. Um filhote que tenha feito o imprint de um ser humano recusar-se-á a acasalar com a sua espécie quando for adulto.
Por vezes, quando há uma diferença de tamanho entre as crias nascidas, o mais velho ataca e mata o mais novo. Quando têm 8 semanas de vida, as crias voam pela primeira vez mas permanecem perto do ninho e dos pais. Cerca de 8 semanas após o primeiro voo começam a dispersar . Nos 4 anos seguintes vagueiam até terem a plumagem adulta e poderem acasalar e reproduzir-se.
No estado selvagem, a águia vive em média 20 anos. O animal mais velho encontrado tinha 28 anos. Em cativeiro já se observou um que atingiu os 50 anos. Mas, nos US não é permitido capturar esta ave e só instituições públicas com fins educativos podem ter a ave cativa. Uma excepção são os animais feridos que, por causa disso, já não podem sobreviver sozinhos no estado selvagem.

Os Animais na Cultura- O Lobo e os seus Mitos

O Lobo é um animal muito presente no imaginário popular , na mitologia e nas crenças coletivas desde a mais remota antiguidade e em muitas culturas. É por vezes o «lobo mau» da história tradicional , mas também o animal associado a atos de generosidade para com os humanos.
Lenda Cherokee sobre o Lobo
Esta é uma história inspiradora e tradicional: um dia à noite, enquanto o fogo crepitava e aquecia a família, um velho Cherokee falou ao neto de uma batalha que tem lugar no íntimo de cada um de nós: «a batalha- disse ele- é entre dois lobos que existem dentro de cada ser humano: um é mau, cheio de raiva e inveja, ciúme, zanga, ganância, arrogância, falso orgulho, sentimento de superioridade, tristeza, arrependimento, inferioridade, mentira, culpa e ressentimento.»
O outro é bom, cheio de alegria, paz, amor , esperança, serenidade, bondade, humildade, empatia, verdade, compaixão e fé. »
A criança pensou um pouco durante um momento e em seguida enfaticamente: «e qual  é  o lobo que vence?»
E o velho Cherokee respondeu:« Aquele que tu alimentares».
Entre os índios norte americanos existem muitas histórias acerca do lobo. Uma lenda Lakota fala de uma mulher que se feriu quando viajava, tendo caído sem forças. Foi encontrada por uma matilha de lobos que a levaram e cuidaram dela. No tempo que permaneceu com os lobos, a mulher aprendeu os seus costumes e, quando voltou para a tribo, usou o seu novo conhecimento para ajudar as pessoas. Ela aprendeu a distinguir com toda a clareza quando algum predador ou inimigo se aproximava. Esta lenda enraíza-se na realidade conhecida pois há vários casos registados que mostram lobos ajudar e cuidar dos humanos , sobretudo crianças, como se fossem membros da matilha. Nos anos 20 do sec. XX, os casos de duas meninas, Amala e Kamala, encontradas em Midnapore, Índia, é um desses exemplos. As crianças viviam com a matilha de lobos que cuidava delas, alimentando-as e defendendo-as dos perigos. O comportamento das meninas era idêntico ao dos restantes filhotes e, quando foram descobertas, a matilha defendeu todas as crias contra os humanos e foi preciso matar os lobos adultos para recuperarem as crianças (caso relatado em As Crianças Selvagens, de Lucien Malson).
Uma outra lenda Cherokee conta como, no início, o cão vivia nas montanhas e o lobo vivia junto do fogo. Mas o cão teve frio e veio para junto do fogo , tendo expulsado o lobo, que foi para as montanhas. Mas, quando chegou às montanhas, o lobo descobriu que gostava de aí viver e ficou por lá, tendo formado um clã próprio enquanto o cão permaneceu junto do fogo e na companhia dos homens. Desde então o cão tornou-se o companheiro fiel do homem. Esta lenda explica simbolicamente a relação entre o lobo e o cão , uma vez que, como sabemos, o cão tem no lobo o seu ancestral.
Entre nós, o lobo Ibérico tem sido alvo de atenção e cuidados que tentam preservar a espécie, mal vista pelas populações locais devido ao ataque aos animais domésticos como galinhas e ovelhas.
O fascínio pelo lobo é bem visível em várias culturas onde os deuses são associados ao animal. Em Roma e na Turquia, é a própria fundação da nação que está associada a uma mãe loba.
Apresentamos seguidamente alguns aspetos sobre o comportamento do Lobo
 
O Lobo, entre o Alfa e o Ómega na Estrutura Social
Os lobos vivem em grupos familiares compostos por cerca de 8 a 15 elementos e são animais sociais, vivendo em matilha, caçando em grupo, etc., o que lhes dá vantagem quando têm que enfrentar predadores de respeito, como um urso, por ex.
A matilha está organizada de acordo com um ranking em que há um casal «alfa» que ocupa o topo; nos grupos muito grandes pode haver um ou mais animais «beta» que são os segundos na hierarquia . Mas não existe uma liderança imposta pelo  lobo alfa. Este e a companheira simplesmente têm  prioridade para escolher o que fazer , onde e como, sendo seguidos pelos restantes. O lobo que ocupa o lugar mais baixo na comunidade é o «ómega» e este é o que tem menos privilégios entre todos os outros, e também o que é tratado com mais agressividade pelos outros. O lobo ómega é conhecido como «lobo solitário», expressão vulgarizada na linguagem corrente. Este por vezes é afastado da comunidade pelos outros lobos e, se tiver sorte e encontrar uma companheira, poderá escapar ao destino de ser um pária rejeitado , podendo então formar a sua própria matilha.
A maior parte dos casais alfa são monógamos mas, se a fêmea alfa for muito próxima em termos biológicos- irmã, por ex.,- do macho alfa, este poderá escolher uma fêmea de ranking mais baixo para acasalar. Quando um dos lobos alfa morre isso não afeta o estatuto do que fica, que arranja rapidamente um outro companheiro- «rei morto, rei posto».
A maior importância do casal alfa está no facto de que estes são os primeiros a ter possibilidades de criar os seus filhotes. Os outros casais não estão impedidos de ter filhos mas raramente conseguem criá-los até à maturidade: toda a matilha está envolvida no cuidado e alimentação das crias do casal alfa. Muitas fêmeas adultas podem escolher ficar com o grupo de origem e, nesse caso, ajudam a criar os filhotes do casal alfa.
Na maior parte dos casos os lobos não escolhem o lobo alfa baseados na luta aberta ou na força ou no tamanho: usam formas rituais de luta que só raramente se torna luta aberta e o vencedor é-o mais pelas características da personalidade e da atitude do que pelos atributos físicos. Talvez este comportamento seja um dos motivos que nos levam a sentir fascínio pelos lobos.
Nas matilhas grandes a hierarquia pode mudar continuamente. Nas matilhas de lobos jovens a hieraquia pode ser circular: um animal controla um outro que por sua vez controla outro e este por sua vez controla o primeiro.
Se um lobo alfa é desafiado na sua posição , e se for velho, pode simplesmente desistir e ceder o lugar a outro sem violência. Quando o lobo alfa responde pela luta, só raramente existe derramamento de sangue. O que perde é afastado da comunidade. Por vezes outros lobos podem reagir em conjunto e matá-lo mas é um comportamento raro embora possa acontecer na época de acasalamento (Inverno).
Os lobos são animais bastante territoriais e, em conjunto, podem defender o território contra animais como ursos, coiotes, raposas, etc.. Os encontros entre lobos e cães são normalmente muito agressivos e, se um cão atravessa o território de um lobo, é certo que será atacado.
Os corvos seguem muitas vezes a matilha de lobos, na esperança de receberem restos de comida. Por sua vez, os lobos prestam atenção ao voo dos corvos, pois aprenderam que, quando estes voam em círculo, existe «comida » por baixo.
Os lobos inspiram temor e admiração, na realidade e nos mitos, são uma presença muito viva embora na Natureza o seu destino seja preocupante e seja, em muitos locais, uma espécie em perigo.

Animais como Nós, o Canguru

Os cangurus são animais pertencentes à família dos marsupiais, uma das mais antigas em termos evolucionários e caracterizada pela existência de uma bolsa abdominal nas fêmeas, na qual as crias, que nascem muito prematuras, terminam o seu desenvolvimento até estarem aptas para a vida autónoma.
Em 2004 a Austrália e os USA estabeleceram o projecto conjunto de descodificação do genoma do canguru pois, para além do interesse específico na espécie, existe também o interesse comparativo com a espécie humana, uma vez que os marsupiais constituem um grau evolucionário de divergência em relação à nossa espécie, podendo a comparação ajudar a compreender melhor ambas as espécies e o modo como evoluíram.
Na Austrália o canguru está fortemente enraizado na cultura , no imaginário e na simbologia popular, aparecendo em muitos símbolos e imagens do país. Os primeiros europeus, quando viram o canguru pela primeira vez (um oficial do capitão Cook levou um espécime morto para Inglaterra no século XVIII, tendo sido embalsamado), descreveram-no como um animal com cabeça de veado que se põe em pé como os homens e salta como as rãs.
Quanto ao comportamento e ao modo de ser deste simpático e tímido animal, trata-se de uma espécie social que vive em unidades de cerca de 8 a 10 indivíduos; estas unidades sociais juntam-se a outras formando um bando com centenas de animais que é designado por «mob». Os cangurus são, deste modo,  animais sociais e a sua  existência numa estrutura organizada permite-lhes  defenderem-se  melhor dos predadores, entre os quais estão os dingos, as águias e os seres humanos, que tradicionalmente os caçam por causa da carne e da pele.
São herbívoros , ainda que a preferência por certos tipos de vegetação varie de uma espécie para outra: os  cangurus cinzentos, maiores em tamanho, preferem comer erva de vários tipos  enquanto que os cangurus da espécie vermelha preferem vários tipos de arbustos. O canguru tem um estômago com várias câmaras, como outros herbívoros, e começa por engolir a comida sem a mastigar, regurgitando-a mais tarde numa espécie de bolo que mastiga e volta a engolir para terminar a sua digestão.
Têm hábitos noturnos, o que não é de estranhar devido às particularidades do clima, seco e quente, pelo que passam o dia deitados à sombra saindo ao crepúsculo e de manhã cedo para procurar comida e água. Podem percorrer distâncias consideráveis nessa procura, pelo que a sua área territorial costuma ser grande.
Os cangurus deslocam-se aos saltos, são  os animais  com maior  tamanho que usam este tipo de locomoção. Possuem tendões grandes e elásticos nas patas traseiras e armazenam energia de esforço nos tendões, usando essa energia de cada vez que saltam, em vez de fazer esforço muscular. A sua fisiologia respeita um princípio perfeito de economia de esforço, existindo uma ligação entre a acção de saltar e a respiração: quando os pés deixam o chão o ar é expelido pelos pulmões; quando os pés se lançam para a frente os pulmões voltam a encher-se de ar aumentando-se  a eficácia energética dos movimentos . Isto é muito importante numa espécie que vive num território muitas vezes seco e que obriga a percorrer grandes distâncias para conseguir alimento e água.
Existe uma adaptação também ao clima seco no que respeita à reprodução: as fêmeas estão permanentemente grávidas: cada gestação dura entre 31 e 36 dias e, logo após o recém nascido entrar  na bolsa abdominal,  outro óvulo desce no útero para  ser fertilizado. A cria recém-nascida sobe para  o interior da bolsa onde imediatamente se agarra a uma teta para se alimentar. Permanece dentro aí cerca de 180 a 320 dias até assomar para fora da bolsa por períodos curtos de tempo; é alimentada pela mãe até cerca dos 18 meses. Mas, se o alimento for escasso devido à  falta de chuva e ao tempo demasiado seco, a fêmea pode «congelar» o novo embrião até o novo «joey» (designação que se dá à cria do canguru) estar apto a estar mais crescido ou até haver alimento suficiente cá fora para o alimentar. Do mesmo modo, os machos podem deixar de produzir esperma se não houver suficiente alimento para as novas crias, o que é um magnífico esquema de adaptação da natureza para economizar e diminuir a perda de vidas. A mãe canguru também pode produzir em simultâneo dois tipos de leite, de acordo com as necessidades das crias: um para o recém nascido e outro para o bebé mais velho.
Quanto ao comportamento social, o macho dominante tem todos os direitos de acasalamento em relação às fêmeas. A decisão de quem é o macho dominante tem a ver com o tamanho do animal e a sua força. O macho dominante mantém os seus direitos até à morte ou até ser desafiado por outro  e ser vencido por ele.
As interacções entre os animais podem ser amigáveis ou agressivas. Quando confraternizam, esfregam os narizes, cheiram-se mutuamente e podem também efectuar «grooming» uns aos outros; especialmente a mãe e os filhos reforçam os seus laços dessa forma bem como os jovens adultos. Quando se trata da relação entre machos e fêmeas, os machos esfregam o focinho na bolsa das fêmeas, tocam os lábios uns dos outros, cheiram-nas etc. durante a corte o macho segue a fêmea para todo o lado, cheirando-a para ver se está pronta para acasalar. Pode golpear o seu peito, pescoço ou cauda.
Quando mostram comportamentos agressivos  lutam mas estas lutas não duram habitualmente muito tempo e parecem-se bastante com lutas de boxe: os cangurus apoiam-se nas patas traseiras e na cauda e agarram o outro com os «braços» tentando atirá-lo ao chão. Por vezes a luta não acontece porque um deles simplesmente desiste e vai embora. As lutas pelas fêmeas são em geral breves . Ambos os sexos podem lutar pelos locais para beber devido à sua escassez. Mas as lutas de «boxe» são habitualmente levadas a cabo pelos machos. A luta termina quando um dos animais desiste. O vencedor pode então empurrar o outro para trás ou deitá-lo ao chão. Estas lutas servem para estabelecer as hierarquias dominantes no grupo.
Não se conhecem  muitos casos de  cangurus  que  tenham atacado seres humanos mas ,quando provocados , os cangurus  podem responder. Se estiverem perto da água, como são bons nadadores,  fogem para a água e se o perseguidor for atrás deles, agarram-no com os «braços» e mantêm-no debaixo de água para o afogarem.
Existem casos de cangurus que salvaram vidas humanas. Um desses casos refere-se a uma fêmea, Lulu que, quando um homem ficou ferido pela queda de um ramo de árvore, ela foi alertar a família para esta ir salvá-lo. Isto sucedeu em 2003 e o animal recebeu o prémio, concedido na Austrália, «National Animal Valour Award» de 2004.
Devido aos hábitos noturnos da espécie, um dos maiores perigos para a vida destes animais – que, no habitat selvagem vivem cerca de 6 anos, contra o 20 que vivem se estiverem em cativeiro-  é o tráfego automóvel: os animais ficam encadeados pelas luzes dos automóveis e ficam feridos , causando vários acidentes que também ferem humanos. Existem grupos que atendem a estas situações na tentativa de conciliar a coexistência do modo de vida humano e animal.

Reflexão de Fim de Semana- Animais como Nós, a Baleia Corcunda

As baleias pertencem à família dos cetáceos , uma das famílias de animais mais inteligentes. As baleias têm sido estudadas mas permanecem, sobre muitos aspectos, misteriosas, desconhecendo-se o real significado de muitos dos seus comportamentos.
Embora pareça estranho, o hipopótamo é o parente vivo mais próximo da baleia. Mas o hipopótamo não é um ancestral da baleia. O que sucede é que ambos tiveram um ancestral comum, que tinha hábitos terrestres. As primeiras baleias- Pakicetus- eram terrestres e carnívoras. Há cerca de 40 milhões de anos, as baleias entraram na água e o seu corpo foi sofrendo modificações para se adaptar ao habitat marinho. Deste modo, e admitindo que o primeiro ancestral comum à baleia e ao hipopótamo terá ele próprio evoluído a partir do mar, a baleia é uma espécie que saiu do mar para o meio terrestre e deste novamente para o meio marinho.
Quando observamos as baleias no seu habitat natural, há vários comportamentos que podemos observar, embora não haja certezas na interpretação de nenhum deles:
  • Nos locais de reprodução, os machos envolvem-se em comportamentos de escolta, vigilância e defesa das fêmeas- tendo por alvo os «grupos activos de superfície», isto é , os grupos de machos que andam à procura de fêmeas para acasalar – e nesta interacção pode haver confronto, que pode ir de interacções breves com os oponentes a não terem contacto físico até ao choque em que há feridas sangrentas nas barbatanas, cauda e cabeça; os machos nesta zona também soltam o seu célebre canto e associam-se com outros machos de forma amigável ou pelo menos não conflituosa. Quanto às fêmeas, conhece-se menos o seu comportamento mas calcula-se que se dediquem ao cuidado e protecção das crias recém nascidas e aos rituais de corte e de acasalamento.
  • Outros comportamentos que podem ser observados nas baleias envolvem a vinda à superfície de várias partes do corpo: a baleia levanta a cabeça verticalmente , ficando estacionária com as barbatanas esticadas sob a superfície da água. De vez em quando varre a água à sua volta com as barbatanas e com a cauda abrindo uma janela na superfície por onde pode olhar de forma nítida através da superfície.;
  • Outro comportamento muito observado é o levantamento da cauda no ar por vezes a altura elevada, expondo a zona genital. Já se observaram baleias nesta posição por um período de 4h, interrompido apenas para respirar. Este comportamento é comum nas zonaas de reprodução, o que leva alguns a pensar que se pode tratar de uma estratégia das fêmeas para afastar  machos indesejáveis, entre outras hipóteses como a de manter regulada a temperatura do corpo;
  • Outro comportamento observado é levantar uma ou as duas barbatanas no ar batendo com elas na superfície da água, uma ou várias vezes (mais de 35). Tem-se especulado que este comportamento pode ser uma forma de chamar a atenção de outras baleias para se juntarem ao grupo ou será um modo de chamar a atenção dos machos:
  • Também se observa, muitas vezes, a cauda da baleia levantada no ar : a baleia levanta a cauda e bate com ela energicamente uma ou muitas vezes; noutras ocasiões, atira a parte de trás do corpo para fora e bate energicamente na água, num comportamento que é considerado o comportamento mais agressivo da baleia corcunda.
  • Outro comportamento muito comum é o de «abrir brechas» na água: o animal salta para fora girando o corpo e voltando a entrar na água repetindo uma ou mais vezes (mais de 35). Têm sido observadas 2 ou mais baleias a fazer isto em simultâneo. Embora não se saiba o significado exacto deste comportamento, calcula-se que ele possa variar em contextos diferentes, podendo indicar mudança de direcção em viagem e este comportamento ser uma forma de comunicar isso.
  • Outro comportamento muito observado é o de uma baleia submersa libertar um rasto de bolhas controlado pelos orifícios de respiração. Tal comportamento tem sido observado nas zonas de reprodução, acreditando-se que seja um comportamento de despiste dos machos que procuram as fêmas, lançado pelos machos rivais pois o rasto de bolhas forma uma cortina visual, impedindo a visão debaixo de água.
  • Outro comportamento bastante observado (e ruidoso) é o da baleia que ergue a cabeça da água e abre as mandíbulas, batendo uma na outra. Este comportamento é usual nas zonas em que os machos lutam por uma fêmea.
Quanto às capacidades cognitivas e mentais das baleias, várias experiências têm mostrado a sua evidência. Por ex., a Drª Naomi Rose referiu, em 1990, num relatório sobre o comportamento das orcas ,aquilo que ela interpretou como desgosto: duas jovens crias, após a morte da mãe, visitaram repetidamente durante vários dias, todos os locais onde a mãe tinha andado nos últimos dias antes de morrer.
Conhece-se também a capacidade de manipulação do seu ambiente, feita pela baleia corcunda: em 2004 um estudo referiu que estes animais fazem um «ninho de bolhas» como armadilha para capturar grande quantidade de peixe para se alimentarem: mergulham fundo e a seguir libertam bolhas que formam as paredes de um cilindro no interior do qual não há bolhas. A seguir, as baleias emitem chamamentos muito altos. O investigador Leighton mostrou que isto faz com que as paredes do cilindro actuem como uma onda -guia criando uma parede de som onde aprisionam o peixe que se refugia no interior do cilindro para estar a salvo do som estridente. Se tentar sair, o ruído insuportável que se faz sentir no exterior impede-o de avançar.
Também se sabe que as baleias corcundas possuem transmissão cultural: a canção entoada pelos machos é transmitida não só entre os grupos de machos de uma determinada população local de baleias como de uma geração para outra. A canção das baleias é uma das formas de comunicação não humana mais complexas que  já foram  estudadas. Acredita-se que esta forma de comunicação está de algum modo relacionado com o acasalamento/ reprodução ou com a competição dos machos entre si. A evidência do seu carácter cultural relaciona-se com o facto de essa canção ser diferente em populações diferentes de baleias. Refere-se ainda uma caso muito curioso de uma mudança radical de canção entre as baleias da costa este da Austrália, no oceano Pacífico . A canção destas baleias foi rapidamente substituida pela canção das baleias da costa oeste da Austrália, do oceano Indico, aparentemente devido à introdução de apenas um pequeno número de «cantores» estrangeiros. Os cientistas concluiram que as baleias corcunda são estimuladas pela novidade, que as leva a mudar.
Biologicamente, existe também evidência das capacidades cognitivas superiores das baleias: nos seus cérebros existe um tipo de neurónios que só se encontram em algumas espécies mais inteligentes, como os grandes macacos, os elefantes ou o homem: são as células «fuso» ou spindercells, cuja terminação é um axónio ou dendrite longos apontando numa direcção específica ao invés de terem muitas ramificações dispersas. Este tipo de células permite a transmissão mais rápida de informação e tem sido referida a sua importância nas capacidades cognitivas como a percepção consciente; estima-se que elas são essenciais na expressão de emoções complexas e na empatia que é fundamental nas espécies com competências sociais.
Entre as baleias existe organização e aprendizagem social , capacidade de cooperação e de actuação em grupo. Muito se desconhece ainda, no entanto acerca do comportamento deste extraordinário animal que, em tantas zonas do Mundo, está ameaçado pelo predador mais perigoso – o homem, sendo urgente uma mudança das mentalidades e um maior respeito por esta espécie que é um exemplo extraordinário da biodiversidade e das opções evolutivas da vida.

Animais como Nós, O Picapau de Gila

As aves são, apesar do seu pouco tamanho, animais com  cérebros grandes comparativamente ao tamanho do corpo, pelo que há muitas espécies que estão entre os animais mais inteligentes.

O investigador de inteligência evolutiva e comportamento animal , Louis Lefebvre, da Universidade de Mc Gill, em Montreal, estabeleceu um interessante ranking que mede a inteligência de várias espécies, considerando que a inteligência se mede, em todas as espécies , pela capacidade de inovar perante desafios que o meio coloca: ser capaz de encontrar soluções novas a partir dos recursos disponíveis é uma importante prova de adaptação.
Um dos animais que ficam mais bem posicionados neste ranking é o Picapau Gila ou de bico de marfim que vive no sul e oeste do Arizona, no deserto de Sonorah no extremo sudeste dos US e no norte do México.
Este picapau é um animal que se faz sentir e ouvir: é bastante barulhento, abrindo caminho para os cactos gigantes – Saguaro e Cereus giganteus- com gritos estridentes e batidas com o bico para reclamar a sua posse do território.
Este animal tem uma língua que é uma verdadeira ferramenta para apanhar insectos: com filamentos e curvada, enrola-se, podendo ser esticada de modo a alcançar os insectos moles que se encontram nos   túneis  no interior dos troncos das árvores. O Picapau deteta esses túneis batendo no tronco com o bico e distinguindo o som oco quando há um túnel por dentro. Depois, é só aplicar o bico para abrir um pequeno buraco e alimentar-se dos incautos insectos que estão dentro do tronco.
O bico dos Picapaus é uma ferramenta poderosa: ele é usado também para abrir buracos nas árvores ou nos cactos gigantes, para fazer os ninhos. Estes ninhos podem ser utilizados mais do que uma vez, se não tiverem sido entretanto ocupados por outras aves, como o estorninho europeu – com quem o Picapau tem que competir pelo território de nidificação- e com as cobras ou esquilos que não deixam escapar a oportunidade de obter uma casa nova sem qualquer esforço próprio.
Os Picapaus de Gila adaptam-se muito bem aos ambientes povoados pelos humanos, que rapidamente aprendem a explorar: tornam-se ladrões expeditos, entrando nas casas por uma porta ou janela abertas, curiosos , em busca de alimento ou, quem sabe também, de um pouco de aventura!
Visitam com frequência o quintal das casas, à procura dos alimentadores dos pássaros que os moradores colocam pendurados; roubam a comida do cão e são especialmente gulosos por água açucarada, gordura (sebo), nozes, sementes de girassol, etc. Adoram bater com o bico em superfícies de metal, aproveitando as chaminés metálicas para, ruidosamente, declararem a posse do seu território e atrair as fêmeas.
No ambiente selvagem, este Picapau prefere os terrenos com vegetação baixa dos desertos com catos Saguaro ou Carnegiea Gigantea ou árvores onde possam nidificar. Também apreciam as florestas sub-tropicais e os bosques perto dos cursos de água.
Os insetos que se encontram no interior dos troncos das árvores são o seu alimento preferido mas também gostam dos frutos dos cactos, de bagas, ovos de outros pássaros ou, ocasionalmente, pequenos lagartos. Já foram observados a armazenar bolotas dos carvalhos, apanhando-as e levando-as, a voar, para palmeiras onde armazenam as bolotas, aproveitando as fibras da base da árvore.
Nidificam em cavidades, que escavam com o bico, ou nos catos gigantes ou nas árvores, onde colocam entre 3 a 5 ovos brancos que são chocados por ambos os progenitores durante 12 ou 14 dias. As crias são alimentadas por ambos e durante bastante tempo após já saberem voar. Se houver bastante comida, podem fazer duas ou três posturas por estação.
Lefebvre verificou que os Picapaus têm um elevado nível de inteligência e usam ferramentas. Na altura da criação dos filhotes, este Picapau utiliza pedaços de casca de árvore como «colher» para apanhar e levar mel para os filhotes no ninho. E o seu à vontade quando explora o ambiente humano, bem como a sua curiosidade ao explorá-lo mostra bem a sua capacidade para avançar por novo território em busca de novidades e de alguma solução vantajosa que lhe  facilite a vida no dia a dia.
Em cativeiro, o Picapau de Gila vive cerca de 10 anos. Vive menos no ambiente selvagem.
Apesar de sofrer a pressão humana que entra cada vez mais no seu território, este animal não enfrenta muitas ameaças para além dos naturais predadores, como os falcões, raposas, cobras, etc.

 

Reflexão de Fim de Semana- Animais como Nós. As Abelhas, Comunicação em Acção

As abelhas do mel são insectos cuja acção de polinização é absolutamente essencial para garantir boas colheitas em todo o mundo. Mas têm uma «vida secreta» e aptidões extraordinárias, incluindo uma linguagem complexa cujos mecanismos têm sido estudados mas em relação aos quais ainda há muito por saber.
Você sabia que as abelhas melíferas ,apesar de serem insectos, estão incluídas no grupo dos animais com um comportamento mais complexo? Elas utlizam, na verdade, comportamentos sofisticados para aprender a localizar as preciosas flores para colheita do pólen e têm uma linguagem cuja complexidade faz delas animais extraordinários. Isoladamente, as abelhas não têm nada de especial; mas, funcionando na organização do enxame, estão colocadas no ranking dos animais mais inteligentes, sendo capazes de contar até 4, entre outras capacidades cognitivas realmente surpreendentes.
O investigador Von Frisch , em 1974, descreveu pela primeira vez a «dança das abelhas» que é um mecanismo extraordinariamente preciso para passar informação às companheiras, constituindo um código complexo de comunicação que indica não só a direcção onde se encontram as flores, mas também a sua distância, cheiro e sabor!
Quando uma abelha encontra uma nova fonte de alimento e regressa à colmeia, na escuridão do favo, inicia a sua coreografia dançante: a abelha começa por fazer uma curta corrida a direito, sacudindo-se de um lado para o outro e fazendo o característico ruído de «bzzzz» ao mesmo tempo; depois vira-se para a esquerda ou para a direita, conforme a direcção que pretende indicar, e caminha em semi-círculo, até ao ponto de partida. Depois repete a corrida até ao meio, faz um semi-círculo até ao lado oposto e regressa outra vez ao ponto de partida. Se desenharmos uma linha unindo o favo e a fonte de comida e outra linha conectando o favo e o ponto do horizonte apontando para o Sol, o ângulo formado pelas duas linha é o mesmo que o ângulo da corrida da abelha até à linha vertical imaginária onde a abelha iniciou a sua dança. Incrivelmente, as abelhaas são capazes de fazer triangulação, tão bem como um engenheiro civil!
Von Frisch constatou que a abelha que acabou de descobrir alimento, ao chegar à colmeia, sacode o abdómen de forma distintiva e dança adoptando um ângulo vertical que indica o ângulo do favo em relação ao Sol. Um ângulo de 100º , para a esquerda , por ex., indica que as flores podem ser encontradas a 100º para a esquerda do Sol, tal como este é visto a partir do favo. Se a comida se encontrar na direcção oposta à do Sol, a abelha dançará para baixo em vez de no sentido vertical em relação ao favo. A duração da dança também informa as outras abelhas da distância da fonte do pólen – quanto mais longa a dança, maior essa distância. E, para informar sobre o cheiro e o sabor da comida, a abelha roça o tórax contra o favo , regurgitando fragmentos do pólen ingerido e soltando, deste modo, o odor que informará as outras abelhas de modo completo sobre essa fonte de comida.
Estas investigações valeram a Von Frisch o prémio Nobel. Depois do seu trabalho, outros investigadores, como Wolfgang Kirchner da Universidade de Wurzburg e William F. Towne confirmaram os resultados obtidos por Von Frisch e determinaram, adicionalmente, que as abelhas, ao contrário do que alguns outros investigadores afirmaram, não são surdas e não só ouvem os sons produzidos nas «danças sacudidas» como este é um elemento necessário para ajudar a localizar a fonte de comida quando uma abelha efectua a sua «dança», tal como o odor libertado durante a mesma.
Uma experiência realizada em 1986 por Gould confimou também outras importantes capacidades cognitivas das abelhas: elas formam mapas cognitivos detalhados pelos quais optimizam as rotas de localização das flores, tomando o caminho mais curto quando visitam diversos locais à procura de pólen. Experiências realizadas provam que as abelhas se recusarão a responder a uma dança que aponte para uma localização falsa, como o meio de um lago; mas respondem se a dança apontar para terra no lado oposto desse lago. Apesar de ser muito pequeno, o cérebro da abelha, comparativamene com o tamanho total do seu corpo, é bastante complexo, possuindo mais de 200 000 células nervosas.
Entre as aptidões cognitivas destes pequenos animais descobriu-se que as abelhas sabem contar (até 4) e são capazes de se lembrar dos rostos humanos, o que as coloca no ranking dos animais mais inteligentes. A sua coreografia da dança é um processamento biológico muito complexo de informação em que as alterações do campo magnético da Terra alteram os ângulos produzidos durante as danças. Porém, embora biologicamente determinado, este processo inclui, como fica claro pelo estudo das danças das abelhas e da sua linguagem, importantes factores de aprendizagem, não se trata de um instinto cego. As abelhas são realmente e por mérito próprio, animais muito inteligentes!
Embora ainda não se conheça exactamente como é que estes animais procedem na codificação da informação complexa que comunicam, ou até talvez mesmo por isso, as abelhas continuam a fascinar aqueles que observam directamente o seu comportamento. E, caro leitor, se por acaso possui uma ou mais colmeias, fique consciente de que as suas abelhas o conhecem e, provavelmente, apreciam os seus cuidados.