Reflexão de Fim de Semana- Mitos da cultura Ocidental, o melhor de 2013

Segundo alguns investigadores, o estudo dos mitos revela aspetos importantes da realidade e do desenvolvimento humano. Partilhamos esta opinião e, por isso, ao longo do ano de 2013 evocámos e lançámos algumas pistas de interpretação para alguns dos mitos mais conhecidos e populares da nossa cultura. Neste início do ano lembramos três mitos que têm particular importância, a nosso ver, para a compreensão da aventura do desenvolvimento humano e dos traços que caracterizam as experiências e descobertas fundamentais da jornada  da Humanidade.
#1. O Mito de Prometeu. Escolhemos este mito por simbolizar algumas das conquistas , ao nível do desenvolvimento tecnológico e científico da nossa cultura mas também no que se refere  à mentalidade e à consciência pessoal, pela descoberta de que o homem é capaz de explicar o mundo e de o dominar eficazmente usando a razão e a sua própria experiência . As conquistas humanas permitem-nos uma vida mais confortável, mais saúde e longevidade. Mas, simultaneamente, anotamos a ideia , expressa pelo mito, do «preço» que a ciência pode ter, pois o uso indiscriminado dos seus resultados pode ser um veículo de destruição do próprio modo de vida humano que a ciência ajudou a criar.
#2.O Mito de Narciso. A cultura ocidental baseia-se na descoberta  da dimensão individual  e no respeito e consagração dos direitos inalienáveis da pessoa. Estes assentam, no entanto, na compreensão, por cada indivíduo, da sua dimensão única, criadora e livre para tomar decisões e criar um destino pessoal com significado para o desenvolvimento de um propósito de vida. No entanto, este mito também nos ajuda a compreender que a realidade individual só tem sentido como relação, o indivíduo isolado não existe, ele é sempre um dos lado de uma relação com outrem. E, em vez de isso ser limitativo da sua liberdade pessoal, é a própria condição de possibilidade de esta existir numa vida preenchida com verdadeiro significado e felicidade. Porque, como os poetas e os  escritores há muito determinaram, «não se pode viver sem amor.»
#3. O Mito de Édipo. Desde os antigos gregos que existe a constatação de que as escolhas humanas embatem, muitas vezes , contra «o destino», as imposições e os obstáculos do mundo externo. Mas, na nossa cultura, existe uma tradição de que o indivíduo não abdica da sua liberdade, mesmo que esta acabe por se mostrar «inútil» ao nível dos resultados. Habituámo-nos a considerar que o ser humano só o é se também for livre e esta ideia alimenta-nos e conforta-nos, mesmo quando o mundo externo teima em querer desmentir-nos. Querer ser livre é tão importante como respirar para sermos humanos.

Mitos da Cultura Ocidental, as Raízes Pagãs do Natal, Saturnalia


Todos nós conhecemos as origens pagãs de muitas das tradições de Natal mas você sabia que durante muitos séculos  a quadra Natalícia esteve associada a um festival pagão em que «tudo era permitido», a ordem legal era suspensa e todo o tipo de desordens, licenciosidades e excessos, perturbações e até mesmo crimes ficavam impunes? Esses eram os tempos da «Confusão do Natal» originados nas festas  romanas dedicadas a Saturno – As Saturnalia-  e que culminavam , no dia 25 de Dezembro,  com a  celebração do nascimento do deus Sol, Mitra.

As Raízes Pagãs do Natal-  Saturnalia
Nos tempos mais antigos, o homem pré – histórico dependia das forças naturais para a sua sobrevivência e o Inverno, com os seus dias mais curtos, as longas noites geladas e o frio que matava a vegetação e impedia o crescimento da maioria das colheitas, era encarado como uma batalha em que o deus Sol combatia ciclicamente todos os anos com o deus dos Mortos e perdia a sua força, sendo necessário propiciar o seu ressurgimento, caso contrário  os homens pereceriam sem o calor que permitia o florescimento da vida.  Por isso, muitos povos, desde a mais remota antiguidade, desenvolveram cerimónias relacionadas com a superação da «morte do sol» e a tentativa de ver bem sucedido o seu ressurgimento, no solstício de Dezembro, no qual o Sol voltava a renascer para mais um ano. Esse momento do solstício era por isso celebrado com alegria muitas vezes desenfreada na qual os ritos de propiciação da fertilidade da Terra se associavam com orgias sexuais, excessos na bebida, danças, etc.

 

Porém, nos dias que antecediam o dia 25 de Dezembro, vários povos, entre os quais os  povos nórdicos, em países como a Escandinávia, tinham os seguintes costumes:  reservavam 12 dias em Dezembro, antes do solstício, em que escolhiam um grande tronco que acendiam e que ficava aceso sem nunca se apagar durante esses dias  e, diariamente, eram oferecidos sacrifícios, humanos e animais; as pessoas bebiam vinho até entrarem numa espécie de êxtase e dançavam freneticamente para contactarem os espíritos e, desse modo, com estas oferendas, conseguirem que os seus deuses fortalecessem novamente o poder do Sol.

Mais tarde, em Roma, celebrava-se na mesma altura  a chegada do solstício, considerado o dia de nascimento de Mitra, o deus Sol, deus da Luz que permitia a fertilidade e a abundância da vida. Saturno era considerado o deus da agricultura e da fertilidade e precisava de trabalhar em conjunto com o Sol, dependendo deste e, por isso, antes do solstício, a partir do século terceiro, foram instituídos os dias de 17 a 25 de Dezembro para a realização de festas – o festival Saturnalia– durante os quais a ordem romana era suspensa, os tribunais eram fechados e ninguém podia ser punido por desacatos nem ser acusado de desrespeito pela lei. Ofereciam-se sacrifícios humanos incluindo crianças e bebés na tentativa de aliciar os deuses para que fortalecessem o Sol, permitindo renovar a sua força para se  conseguirem boas  condições para semear e colher os cereais  indispensáveis à sobrevivência das populações. As pessoas estavam convencidas de que a oferenda diária durante estes dias, de sacrifícios humanos, era indispensável para o «renascimento» anual do Sol.  Finamente, no dia 25 de Dezembro, era celebrado o nascimento de Mitra e as pessoas ofereciam presentes Este era um tempo de selvajaria permitida, em que danos em propriedades, ferimentos em pessoas e animais eram permitidos e em que cada comunidade romana escolhia uma pessoa – vítima- que era obrigada a cometer todos os excessos: sexo,comida, etc,  e depois, no final da celebração, era brutalmente assassinada, pois ela simbolizava as «forças da escuridão» que era preciso «matar».

 

No século V, a igreja católica romana, na tentativa de atrair os pagãos para a religião cristã, sobrepôs à data do nascimento de Mitra, 25 de Dezembro,  a data do nascimento de Cristo e, no século sétimo, as festas pagãs da Saturnalia foram incorporadas nas tradições cristãs, e foi permitido que continuassem a celebrar-se vários ritos antigos como o excesso de bebida e de comida, o dançar nu na rua, os desacatos, a licenciosidade sexual, etc. Claro que os sacrifícios humanos não eram permitidos mas  a tortura e mesmo o assassínio eram tolerados nestes dias que foram celebrados durante séculos nos países cristãos  e que, na Inglaterra (país cujas tradições estavam muito ligadas aos cultos celtas do solstício e ao festival da Saturnalia que os soldados romanos levaram quando invadiram a Bretanha) nos séculos 17 e 18 eram conhecidos como «O Amontoado do Natal» (Christmas Mass).

 

Os imigrantes ingleses que partiram para a América – os puritanos- tinham horror a estas práticas que as populações resistiam a abandonar e ,no novo território , estas festas chegaram a ser consideradas ilegais embora continuassem a ser celebradas. Mas, em 1828, os desacatos produzidos foram de tal ordem que grandes cidades como Nova Iorque instituíram forças policiais profissionais para combater a selvajaria que se desenvolvia nestes dias antes do Natal. Várias instituições ligadas à religião começaram a tentar mudar os costumes selvagens associados à quadra natalícia  e instituíram o costume de as crianças irem pedir doces porta a porta,  costume que, posteriormente, acabou por ser aglutinado com as festas do Halloween.
Acredita-se que um poema, publicado anonimamente na altura do Natal e o conto de Charles Dickens, «Conto de Natal» contribuíram decisivamente para transformar a «confusão» e a «selvajaria» dos dias anteriores ao 25 de Dezembro numa quadra em que o «espírito natalício» de solidariedade e partilha fraterna se tornaram dominantes. Mas esta é uma tradição muito recente, para a qual a aglutinação entre o «Pai Natal» e o bispo S. Nicolau do século quarto, com a sua bondade e generosidade, muito contribuíram, fazendo do Natal um tempo de Paz e de Harmonia universal.

Reflexão de Fim de Semana- Mitos e Tradições de Natal


É oficial: o Natal está aí e, com ele, as tradições que seguimos com gosto, muitas vezes sem saber qual a sua origem: simplesmente sentimo-nos mais completos repetindo os rituais habituais todos os anos pela mesma altura.

Celebramos o Natal em 25  de Dezembro e esta data é um misto de tradição cristã, crenças pagãs, estratégia da Igreja contra os pagãos e muito marketing comercial. A verdade é que é pouco provável que Jesus tenha nascido em Dezembro. Segundo relatos da Bíblia, os pastores estavam nos campos com os animais, quando se deu o nascimento. Mas, em pleno coração do Inverno, o frio e a escassez de pastos para os animais tornavam muito pouco credível que andassem no campo. Depois, a Bíblia também refere que Jesus e Maria estavam a caminho para se recensearem mas o costume era que o recenseamento fosse feito logo após as colheitas e antes que o Inverno chegasse pois este tornava muito difíceis as viagens. Assim, provavelmente, segundo alguns, Jesus terá nascido em finais de Setembro. Outros relatos apontam para o mês de Fevereiro. O improvável  é que tenha sido em Dezembro. Mas, então, perguntamos: porque é que é celebrado neste mês?!

Bem, por um lado, parece que os contemporâneos de Jesus nunca deram grande importância ao dia do seu nascimento. Davam, isso sim, importância à Páscoa, pois o seu significado simbólico estava associado à ressurreição de Jesus e à promessa da vida eterna. Mas os povos pagãos desde tempos imemoriais que celebravam os solstícios, incluindo o de Dezembro. E estes rituais pagãos estavam de tal modo arraigados nos costumes que a igreja resolveu dar-lhes a volta, sobrepondo um acontecimento cristão importante à festa tradicional do solstício.  E, deste modo, a partir do sec. IV, o dia 25 de Dezembro foi instaurado como o dia oficial do nascimento de Jesus, tendo-se tornado um dia importante nas celebrações cristãs como forma de combater os rituais pagãos.


O início de Dezembro encontra-nos envolvidos na tarefa de decorar a árvore de Natal.  Mas, apesar de esta ser hoje uma tradição , não há nada de cristão na  «árvore de Natal» nem relacionado diretamente com os acontecimentos do nascimento de Jesus. Ela é fruto da aculturação, da mistura de histórias e de crenças e da partilha de tradições entre pessoas de diferentes origens: segundo parece, o costume de decorar uma árvore por esta altura é bastante recente, datando do sec. XVIII, quando imigrantes alemães trouxeram este costume para os Estados Unidos. A árvore é um importante símbolo religioso na tradição nórdica. Pelas raízes liga-se à Terra mas pela copa aproxima-se do céu ; é uma metáfora da  promessa de vida eterna , de união entre o mortal e o divino ,de abundância e de felicidade. No sec. XIX há relatos de alguns, incluindo o presidente T. Roosevelt, insurgindo-se contra este costume que se começou a implantar desde finais do sec. XIX .

Não há quem não goste de decorar uma árvore nesta altura, nos dia de hoje, embora a maioria , devido à consciência ambiental, se contente com decorar uma artificial. Os enfeites e as luzes iluminam-nos e é no conforto da árvore que os presentes tendem a acumular-se  até à véspera de Natal.

E, por falar em presentes, outra grande tradição de Natal  – o Pai Natal– é também fruto da aglutinação de várias figuras e tradições:

Comecemos com o bispo turco do sec. IV, S. Nicolau, que era uma alma caridosa: conta-se que ele gostava de dar dinheiro aos pobres. Mas fazia-o de uma forma especial- pela calada da noite, secretamente, deixava dinheiro nas meias e nos sapatos das pessoas. Este bispo morreu no dia 6 de Dezembro. Após a sua morte foi canonizado e  os pais davam instruções às crianças, na véspera do dia da morte do santo, para deixarem as meias e os sapatos para que S. Nicolau deixasse lá presentes- como fruta, nozes, doces, etc.( o marketing comercial ainda não tinha sido inventado).  Esta foi uma tradição seguida em vários países.

Mas, nos sécs XV e XVI,  começou a haver uma alteração da figura mítica de S. Nicolau: este começou a ser designado por «Pai Natal». Este era uma figura alegre, que não poupava nos festejos nem na bebida. Quando os holandeses imigraram ,levaram para os US as histórias e relatos sobre o seu S.  Nicolau , a quem chamavam Sinterklaas. A pouco e pouco es
te nome foi  americanizado para «Santa Claus» e, no sec XX, fez-se uma síntese de todas  estas figuras – a «Coca cola» deu uma ajuda com a sua campanha de marketing-  e o Pai Natal e S. Nicolausintetizaram-se na figura redonda, de alegre barba branca e olhar bondoso que traz prendas na véspera de Natal.  Apesar de em vários países esta síntese ter sido adotada, mantém-se, em alguns outros, a celebração de S. Nicolau no dia 6 de Dezembro.
Mas a figura que conhecemos do Pai Natal nem sempre foi como é hoje, foi sendo construída ao longo do sec. XIX. Por ex., em 1821 surgiu a imagem de Pai Natal a conduzir o seu trenó com renas. Em 1837 veio a ideia de que ele entra nas casas através da chaminé. A figura arredondada  e avantajada,  com ar feliz e sorridente , vestida de vermelho e reluzente na sua farta barba branca ,é de 1863.

Outra tradição de Natal- enviar um Postal de Boas Festas– data de meados do sec. XIX.  Hoje em dia, com as novas tecnologias da informação, reinventámos esta tradição mas o costume de desejar boas festas – e, logo a seguir , um Bom Ano- mantém-se forte embora muitos troquem o habitual postal por uma mensagem nas redes  sociais ou no telemóvel.

O comércio soube aproveitar como sempre, as tradições de  Natal, transformando os presentes simbólicos em grandes proveitos de vendas de todo o tipo de produtos. Mas, para os que se movem no sonho do que o Natal representa , esse é um preço menor que todos estamos dispostos a pagar.

Mitos da Cultura Ocidental, O Toque de Midas


 
Existem  várias referências acerca de Midas, acreditando-se que houve vários reis com este nome. Porém, aquele de que falamos hoje terá vivido no segundo milénio antes de Cristo, anteriormente à guerra de Tróia e terá sido rei da Frígia, tendo-se tornada famoso devido ao seu dom conhecido como  «toque de Midas», ou o poder de transformar tudo o que tocasse em ouro. 
Esta capacidade pode parecer, à primeira vista, a receita para uma felicidade perfeita na abundância de riqueza mas, como acontece sempre nas histórias míticas, esta também tem uma lição para contar:
O Mito do Toque do Rei Midas

A Frígia  era um país hoje pertencente à Turquia. Ovídio, na obra  Metamorfoses conta que um dia, Dionysus, deus do panteão grego, deu por falta do seu velho mestre e pai adotivo, o sátiro Silenus que aparentemente tinha desaparecido. 

O velho sátiro tinha estado a beber vinho e, encontrando-se muito bêbedo, deixou-se cair, após vaguear durante algum tempo, numas vinhas que pertenciam ao rei Midas. Alguns camponeses do rei,  ao passar, viram o sátiro a dormir a agarraram-no. Amarraram-no para ele não escapar e levaram-no à presença do rei. Midas reconheceu imediatamente o braço direito de Dionysus , uma criatura metade homem e metade cabra e ordenou a sua libertação imediata.
Durante 10 dias, Midas recebeu o sátiro de forma hospitaleira e este  o deliciou-o  a si e à corte contando belas histórias e cantando canções. 
No 11º dia, Midas levou Silenus para junto do deus Dionysus, na Lýdia. O deus, sensibilizado pelo tratamento cortês ao velho sátiro, ofereceu a Midas o que este desejasse, como recompensa pela sua hospitalidade. Midas não pensou muito: pediu que lhe fosse dado o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse: desse modo o tesouro real nunca mais teria dificuldades para se recuperar. Dionysus  concedeu a Midas o seu desejo e este, feliz como nunca, tratou de começar a testar o novo poder: tocou num ramo de árvore e este transformou-se em ouro; logo a seguir tocou numa pedra e maravilhou-se ao vê- la brilhar como ouro puro. Correu então para casa e ordenou aos criados que pusessem uma mesa farta para ele se banquetear. Ao mesmo tempo chamou a filha para lhe  mostrar aquilo que agora era  capaz de fazer mas, ao agarrá-la pela mão, ela transformou-se em ouro. Horrorizado, Midas sentiu também que os alimentos e os líquidos que ingeria, ao tocarem a sua garganta ficavam duros e eram impossíveis de engolir: também eles se transformavam em ouro, perdendo todo o valor nutricional embora tivessem um valor de riqueza. 
Foi então que Midas compreendeu que o seu desejo era, afinal, uma maldição que matava tudo o que ele tocava incluindo ele próprio pois, sem comer, morreria inevitavelmente à fome.
Desesperado, Midas enviou uma prece a Dionysus pedindo-lhe que lhe retirasse o dom e lhe devolvesse  tudo o que ele tinha tocado ao estado anterior ao do seu toque. 
Dionysus ouviu a prece de Midas e disse-lhe que se deslocasse  ao rio Pactolus e se lavasse na água do rio, que esta levaria o seu dom ; disse-lhe que fizesse o mesmo com as coisas e seres que se tinham transformado em ouro pelo seu toque. Midas assim fez e o seu dom fluiu pelas águas tendo-se depositado nas areias do rio que se transformaram em ouro, razão pela qual este rio se mostra tão rico em depósitos de ouro.
Quanto a  Midas, aprendeu a sua lição e afastou-se de toda a riqueza; foi viver para o campo  uma vida simples e  passou  a adorar o deus Pan, um sátiro famoso pela sua maravilhosa música ( a flauta de Pan). 
Algumas Pistas de Interpretação  do Mito do «Toque de Midas»
O mito do «toque de Midas» representa  o deslumbramento pela «riqueza fácil» , assocado à ideia de que todo aquele que tiver os «bolsos cheios de ouro» e, portanto, tiver uma riqueza muito para além da do homem comum, terá encontrado o segredo da felicidade perfeita. Muitos são dominados pela ilusão de que  uma grande quantidade de riqueza material é sinónimo de grande felicidade na vida pois, acreditam, o dinheiro «tudo lhes pode dar».
Mas, o que este mito nos ensina, é que a obsessão pela riqueza faz-nos perder outros aspetos importantes da vida e, consequentemente, da felicidade. Midas conseguiu ter a maior quantidade de ouro jamais vista na posse de um ser humano mas isso teve por consequência que ele deixasse de ter acesso às coisas mais simples como comer, tocar aqueles que amava e, em última análise, toda aquela riqueza, se não pudesse ser revertida, conduziria inexoravelmente à sua morte pois ele não se poderia alimentar.
Este mito , com a sua referência a Dionysus e ao sátiro, ambos relacionados com os poderes da Natureza e com  o viver a vida buscando os prazeres que ela nos pode dar- mesmo a embriaguez do vinho-  também nos diz que muitos desses prazeres não necessitam de ouro (dinheiro) para serem usufruídos: o prazer de ouvir uma boa história ou uma boa canção ou de maravilhar a alma com uma bela melodia é um prazer simples, como o é um passeio no campo  de mão dada com alguém que nos é querido. E todos eles acabam por se perder quando a ganância se agarra à alma do homem e este passa a viver em função do dinheiro ou do ouro que é capaz de acumular. Tal ganância fá-lo perder a sua humanidade e a sua proximidade com a vida.
Foi esta a lição que Midas aprendeu, quando percebeu a contradição entre o desejo desenfreado de riqueza e a sua capacidade para gozar os prazeres que a vida  lhe podia dar.

Mitos da Cultura Ocidental, as Harpias, as Bruxas Gregas

 
Na mitologia grega existem algumas criaturas temíveis, que estiveram na origem das figuras das «bruxas»: eram as Harpias, também designadas por «os cães de caça de Zeus» e eram vistas como instrumentos de punição ou  de castigo.

O Mito  Grego das Harpias

Phineus era  rei da Trácia e tinha o dom da profecia. Mas era de tal modo bom no que fazia que Zeus ficou zangado com ele porque achou que ele revelava demasiado conhecimento para um mortal ;  via demasiado e usurpava assim um conhecimento que era dos deuses. Por isso, Zeus decidiu colocá-lo no seu lugar enviando as Harpias para o atormentar.  Cegou Phineus e colocou-o numa ilha e, sempre que lhe era servida comida, mal este lhe  pegava com as mãos, as Harpias arremetiam para baixo e roubavam-lhe a comida,  estragando todos os restos, de tal modo que ele ficava sempre com fome. Isto continuou até à chegada de Jasão e dos Argonautas, filhos do Vento Norte (Bóreas) e que também podiam voar. 
 
Os Argonautas perseguiram as Harpias mas não conseguiram matar nenhuma delas pois Iris, a deusa do Arco-Íris e mensageira/criada pessoal de Hera, parou-os e ordenou-lhes que deixassem as Harpias em paz.  Em troca prometeu que estas não voltariam a  atormentar  Phineus. Este, agradecido por se livrar daquele tormento, ajudou os Argonautas a  atravessar a passagem do Bósforo sem serem esmagados pelos rochedos basculantes que chocavam um com o outro, esmagando desse modo todos os que tentavam atravessar. Quanto às Harpias, regressaram à sua caverna, em Creta.
 
As Harpias eram inicialmente 2 e eram descritas como mulheres belas com asas, observando-se esta descrição em Hesíodo. Mais tarde passaram a ser vistas como tendo faces horrendas ( o modelo para todas as bruxas futuras!), e como tendo a parte inferior do corpo semelhante à de uma ave. Ésquilo, nas Euménidas, dá-nos uma imagem horrífica destas criatura, a quem chama «cadelas». Os romanos, posteriormente, e a Idade Média, conservaram esta imagem.
 
As Harpias eram espíritos do vento e este, pelos males que era capaz de fazer, quando irrompia súbito e violento, era visto como um instrumento da ira divina.  Os nomes das Harpias – Aello (Tempestade Súbita); Celaeno (Escuridão); Ocypete (Asa Veloz) revelam  esta ligação com as rajadas súbitas de vento forte que podem ser tão destrutivas.  Assim, estas criaturas eram consideradas instrumentos de castigo que raptavam e torturavam pessoas levando-as para o Tártaro após a morte para continuarem a ser castigadas  pelos pecados cometidos contra os deuses. Em si mesmas, as Harpias eram vistas como más, violentas, cruéis. Quando alguém desaparecia misteriosa e repentinamente, isso era atribuído às Harpias.. A relação destas com o castigo e com  a destruição ajudou a vê-las também como criaturas do «submundo», utilizadas para os castigos infernais após a morte.
 
 
Pistas para a  Interpretação do mito das Harpias
 
Como personificação das forças do vento e das suas características de violência e destruição, as Harpias são uma  tentativa  humana para compreender as forças da natureza, numa época em que   a visão religiosa e mítica do mundo fornecia a explicação mais plausível para todos os fenómenos e em que a «Natureza» era vista como um instrumento  divino que podia  beneficiar ou prejudicar a vida humana de forma imprevisível.
 
Como se explicava que, num evento repentino, uma tempestade ou um fenómeno associado ao vento destruísse  culturas, habitações e todo um modo de vida para o qual os seres humanos tinham trabalhado durante meses ou anos? A resposta , para quem  se habituou a pensar que «há uma razão para tudo acontecer como acontece», só podia ser, naquele contexto, a ira divina por algum «mau comportamento do homem perante os deuses». Antes da ciência, o mito tentou explicar, tentou dar a cada homem a  perceção  de que a sua vida não era fruto do acaso e que ele não estava sozinho no esquema universal; se certas coisas aconteciam – boas ou más-  era porque ele tinha agradado  ou desagradado aos deuses. E as forças da Natureza, como a força do vento, eram certamente das mais devastadoras para a vida humana.
 
Constatamos deste modo que os mitos surgiram como consequência da necessidade de o homem sentir que não estava só no mundo, da sua necessidade de pensar que, se agisse de acordo com certas regras, seria protegido , viveria na abundância e a sua vida na Terra seria facilitada; se, pelo contrário, transgredisse, o resultado seria o castigo, nesta vida e para além dela.
 
Deste modo, vemos que tanto o «Inferno» como as «Harpias»  e outros seres descrito de forma terrível para suscitar o medo que obriga a refrear os  comportamentos de transgressão, desempenham um papel importante na manutenção da ordem do mundo e asseguram a  necessidade humana de proteção e segurança.
 
Por esta razão também, os seres humanos , para evitar os males que os que já  partiram desta Terra possam  fazer aos vivos, reservam-lhes um dia para que possam voltar a habitar este mundo, atribuem-lhes  honras,  oferendas e lembram-nos  na esperança de que continuem em paz  e não atormentem os que  ainda vivem uma vida na Terra.

Mitos da Cultura Ocidental, Narciso e as Armadilhas da Identidade

 
O Mito de Narciso é um dos mais conhecidos da cultura ocidental e também um dos mais relevantes para esta cultura, que tem, ao longo do tempo, considerado que o «indivíduo» e as suas qualidades  são um dos valores fundamentais. Porém, este mito adverte para os efeitos nefastos de um foco excessivo no eu e nas suas qualidades.

A História de Narciso

Existem muitas versões deste mito. Referiremos a que aparece na obra de Ovídeo, Metamorfoses :
 
Narciso era um jovem caçador da Beócia que tinha a particularidade de ser muito belo e, por essa razão, era amado por um grande número de ninfas. Mas ele encontrava-se demasiado concentrado nas suas qualidades pessoais para dar atenção a qualquer delas e desdenhava do seu interesse.
 
Echo era uma ninfa dos bosques que, por ter desagradado a uma deusa, foi privada por esta daquilo que ela  mais gostava de fazer: falar, exprimir os seus pensamentos através da voz;  os únicos sons que conseguia emitir eram a repetição das palavras que os outros acabavam de dizer.
 
Um dia Echo viu Narciso nos bosques e apaixonou-se por ele. Começou  a esperar por ele no bosque para o ver e seguia-o, na esperança de que ele reparasse nela. Um dia, ao sentir que era seguido, Narciso perguntou: «Quem está aí?» Echo repetiu a pergunta «Quem está aí?».
 
Curioso e algo irritado por ver as suas palavras repetidas, Narciso disse: «mostra-te». A ninfa, incapaz de falar, lançou-se nos seus braços para lhe mostrar o seu amor mas Narciso repeliu-a de imediato: «Tira as mãos de mim, afasta-te, nunca me terás;  deixa-me sozinho.»
Com o coração despedaçado, Echo retirou-se para as montanhas onde definhou com o desgosto, até que o seu corpo se tornou uno com a montanha e só ficou o som que replicava a voz dos outros quando estes falavam.
 
Nemesis deusa da vingança, teve conhecimento   do que tinha acontecido à ninfa Echo e, porque Narciso continuamente tratava com desprezo todas as ninfas que se apaixonavam por ele, resolveu castigá-lo, obrigando-o a apaixonar-se por algo que não era real e que nunca poderia retribuir o seu amor.
 
Atraiu-o para um lago de água onde Narciso, ao olhar para a superfície, viu a imagem do seu próprio rosto refletido  e pensou que  aquela era a imagem do espírito da Água. Reparando na sua imensa beleza, apaixonou-se perdidamente por ela. Inclinou-se para atrair  si o que pensou  ser alguém real e  pareceu-lhe que ela fazia o mesmo em relação a si; sorriu-lhe e a imagem devolveu-lhe o sorriso. Porém, ao colocar as mãos na água para abraçar o espírito, este desvaneceu-se subitamente. Perplexo e angustiado, Narciso recuou e, momentos depois, quando a água voltou a ficar quieta, o rosto pelo qual se tinha apaixonado voltou a aparecer. Narciso não foi capaz de se afastar daquela imagem . Mas, ao compreender que o seu amor nunca seria retribuído nem poderia obter o objeto do seu desejo, teve o mesmo destino de Echo: definhou  com o desgosto e morreu . No local onde tinha estado o seu corpo, imóvel perante a imagem que o seduzira, nasceu uma flor.
 

Pistas para a Interpretação do Mito de Narciso

O mito de Narciso está relacionado com a simbólica do signo de Leão: a descoberta da individualidade permite o surgimento da consciência do próprio valor, permite a expressão de uma criatividade e de uma vontade pessoal que faz as suas próprias regras e não tem que receber imposições nem regras de mais ninguém;  permite o pensamento inteligente e  personalizado de alguém que é autónomo e auto suficiente , pura liberdade de ser e de agir.
Mas esta liberdade encerra, na verdade, muitas armadilhas porque o «eu» precisa de continuar as suas experiências, depois de descobrir as suas potencialidades  e valor próprio; precisa de  descobrir os «outros», pois um eu fechado sobre si próprio e recusando abrir-se aos outros acaba por se tornar estéril.
 
O eu completa-se nos outros e com os outros e, sem eles, é apenas um fragmento parado num mundo de ilusão; o eu não é capaz de ser criativo nem verdadeiramente produtivo se ignorar uma das experiências mais importantes do ser humano: o amor que o leva a tecer laços afetivos com outrem. É o outro que espelha o que somos, que nos devolve uma imagem com a qual nos identificamos e podemos crescer.
 
No mito, Narciso recusou o amor de todos os seres que o amavam por não os achar dignos dele. O orgulho nas suas qualidades era tão elevado que ele pensou que não precisava de mais ninguém: a satisfação consigo próprio bastava-lhe. Mas essa recusa em dar-se e abrir-se aos outros condenou-o a não se conhecer a si próprio: viu a sua imagem refletida nas águas do lago mas não se reconheceu nela e por isso permaneceu obcecado pela sua ilusão definhando e acabando por morrer.
 
A lição de Narciso, tal como a do signo de Leão , é que a expressão e desenvolvimento das qualidades individuais são um momento fundamental no desenvolvimento humano, sem elas não pode haver consciência pessoal nem verdadeira aprendizagem; não pode haver vontade , inteligência  ou criatividade nem verdadeira autonomia e iniciativa que nos distinguem dos outros; porém, a individualidade não é um fim em si mesma, não é a «última etapa do desenvolvimento humano»- precisamos de permitir que essa individualidade se fortaleça e complete no encontro com o outro. O ser humano não é, por definição, um ser isolado, ele nasceu para ser «um ser com», completando o seu destino através da experiência do afeto como a única experiência que é capaz de nos ensinar a desenvolver uma consciência autêntica de quem somos. Sem essa experiência, somos seres estéreis perdidos nas teias das nossas ilusões que nunca serão reais.

Mitos da Cultura Ocidental, Os doze Trabalhos de Hércules e a Astrologia

 
Os doze trabalhos de Hércules foram  interpretados, ao longo do tempo, como a jornada humana de desenvolvimento espiritual. E, atendendo ao número simbólico, 12, e à referência explícita de constelações do Zodíaco, relacionadas com alguns destes trabalhos, tornou-se comum analisar cada um deles como referindo um tipo de aprendizagem explicitamente ligado a um signo do Zodíaco.
Os doze signos do Zodíaco referem-se, como já tivemos ocasião de escrever, à simbólica do «homem cósmico», representando, por isso, um conjunto de características e qualidades da expressão humana. Hércules, o herói cujo ponto de partida foi indisciplinado e mergulhado no erro, é o exemplo eficaz de alguém que, pelo seu próprio esforço pessoal, vai desenvolvendo a conquista de uma dimensão que foi primeiro indisciplinada , impulsiva e violenta mas  se torna progressivamente mais contida, dominada e espiritual. Apresentamos a sugestão  de uma interpretação dos «trabalhos»  realizados por Hércules e do seu significado em termos de desenvolvimento humano e da sua ligação com o «Homem Cósmico» estudado pela Astrologia.
Os Doze Trabalhos de Hércules e o seu Significado Astrológico
A fim de  acompanharmos a sucessão normal dos signos do zodíaco, seguiremos a ordem dos trabalhos que reflete esses signos e não aquela que é a mais comum  e que foi apresentada por Pseudo Apolodoro:
 
1.    Signo Carneiro (Aries).  O trabalho de Hércules correspondente a este signo é aquele que se refere ao castigo do rei da Trácia, Diomedes,  filho do deus Ares (Marte). Ele tinha umas éguas que vomitavam fumo e fogo e que ele alimentava dando-lhes a comer os estrangeiros que as tempestades traziam para a sua costa.  Para castigo, Hércules  submeteu o rei à voracidade dos seus próprios animais.  Interpretação: Carneiro simboliza o fogo inicial da vida, indisciplinado e  orientado por um desejo que nos pode consumir quando não é devidamente disciplinado. A razão é  necessária para  disciplinar o desejo desenfreado e sem objetivo ,a força da mente inteligente,  transformada em poder da vontade orientada e que é um desafio a vencer pelo signo de Carneiro.
 
2.    Signo Touro. O trabalho de Hércules relacionado com este signo foi o que o levou a enfrentar o Minotauro, em Creta. A tarefa consistia em levar o touro, vivo, até Euristeu que, por sua vez ,o daria à deusa Hera. Hércules dominou-o e montou-o , levando-o a Euristeu. Interpretação:  em sentido mais esotérico, o signo de Touro tem forte ligação com as forças da vida e da morte- ele representa a força do impulso sexual que conduz à procura do prazer mas que é também fonte de toda a capacidade criativa. A atração sexual  e o desejo de segurança estão na origem da vida e do desejo de todas as posses neste mundo terreno, mantendo a sua grande ilusão mas esta atração é também a porta de entrada  para a procura da vida espiritual. Para isso, no entanto, é preciso aprender a reorientar as energias que nos impulsionam a viver no mundo terreno. A luta e o domínio do Touro mostra essa vitória.
 
3.    Signo Gémeos. O trabalho de Hércules relacionado com este signo é o que se refere à colheita dos pomos de ouro no jardim das Hespérides, tarefa na qual o herói recebeu a ajuda de Atlas, o gigante que segura o mundo nos ombros, para matar o dragão de 100 cabeças que os guardava. E enquanto Atlas fazia isso, Hércules  segurou  ele próprio o mundo nos ombros. Interpretação: O signo Gémeos simboliza o conhecimento; os pomos ou maçãs  são frutos associados ao conhecimento, simbolizam o desenvolvimento humano nas suas 3 vertentes relacionadas com o corpo físico. A colheita dos frutos significa o  domínio sobre o corpo físico e  sobre o desejo através da razão.
 
4.    Signo Caranguejo. O trabalho de Hércules relacionado com este signo é o da corça fugitiva de Cerineia, um animal com chifres de ouro e pés de bronze, que era na verdade a ninfa Taijete,  que Artemis transformou num animal para escapar à perseguição de Zeus;  esta corça era incansável, corria velozmente, sendo considerava  impossível de agarrar. Hércules perseguiu-a durante um ano até que ela, exausta, se deixou agarrar,  levemente ferida pelo herói. Artemis ficou muito zangada pela captura e obrigou Hércules a prometer que ela seria solta de imediato logo que  Euristeu a tivesse visto. Interpretação: O signo Caranguejo é um signo introspetivo, de descoberta das capacidades interiores da mente e, por isso, está ligado à intuição. A intuição é algo que não pode agarrar-se como uma faculdade contínua, aparecendo e desaparecendo subitamente  mas contribuindo decisivamente para uma compreensão mais profunda da realidade. A intuição é aquilo que transforma o intelecto em mais do que uma mera apreensão lógica acerca do mundo.
 
5.    Signo Leão.  A luta com o Leão de Nemeia é o trabalho de Hércules associado ao signo. Este simboliza o desenvolvimento da personalidade individual mas esta , a limite, pode isolar o indivíduo no amor de si mesmo, impedindo a descoberta de uma realidade mais abrangente. A individualidade com o seu poder criativo e vontade pessoal é uma bênção mas contém uma armadilha fatal que é a vaidade e o excesso de orgulho nas suas próprias capacidades. Por isso, é preciso estar pronto para «matar» a personalidade, de modo a permitir  a continuação do seu desenvolvimento: Hércules matou o leão e tirou-lhe a pele, que passou a usar como veste permanente. Interpretação: as forças do ego  que isolam o indivíduo na natureza limitada do desejo e da vontade pessoal devem ceder lugar a uma relação  mais abrangente  da própria criatividade, tendo por objetivo não apenas a satisfação dos desejos pessoais mas também a generosidade de partilhar os seus dons com os outros de maneira a que eles não se tornem estéreis.
      Signo Virgem. Hércules venceu as amazonas, povo de mulheres guerreiras e a sua rainha, Hipólita, tirando-lhe o seu cinturão mágico  feito de ouro para entregar à filha de Euristeu que o ambicionava possuir. Interpretação: O signo de Virgem está associado à luta entre os interesses pessoais e os interesses dos outros; simboliza a divisão «eu/outros» e o conflito que leva cada indivíduo, isolado dos outros, a procurar o seu lugar no mundo. Ao vencer as amazonas e ao apoderar-se do objeto que as simboliza, Hércules  revela a superação da oposição que, internamente, nos separa dos outros e o surgimento da capacidade de servir, de ser útil não apenas a si  mas também aos outros, que passam a ser vistos como membros do mesmo mundo partilhado  e não como seres excluídos dele.
 
7.    Signo Balança (Libra). O trabalho associado a este signo é a captura do javali de Erimanto que devastava os arredores. Hércules capturou-o  vivo e levou-o a Euristeu que, apavorado com o feroz animal, se escondeu dentro de um caldeirão de bronze. As presas do animal foram mostradas no templo de Apolo. Interpretação:O javali é um símbolo das emoções descontroladas que podem ser devastadoras na vida humana.  O uso da vontade para disciplinar as emoções é tradicionalmente considerado essencial para equilibrar os dois lados da natureza humana: animal/emocional e racional/espiritual. Este desejo de equilíbrio é simbolizado pelo signo de Balança e é necessário para podermos partilhar verdadeiramente  o mundo social com os outros de forma justa, bem como para estabelecer relações de parceria equilibradas.
 
8.    Signo Escorpião.O trabalho  de Hércules associado com este signo é o que o levou  a lutar  com e a matar a Hidra de Lerna. Esta era um réptil com corpo de dragão e 9 cabeças (das quais uma era imortal e parcialmente de ouro) e que, logo que  eram cortadas, voltavam a regenerar-se, exalando um vapor mortal que matava todos os que se aproximavam delas. Para matar a Hidra o herói recorreu à ajuda do sobrinho Lolau que,  logo que Hércules cortava as cabeças da Hidra,  queimava com tições em brasa  as feridas, impedindo desse modo que as cabeças voltassem a crescer. Interpretação: Esta foi uma tarefa difícil, como são aquelas que caracterizam o signo de Escorpião- a luta constante pelo controlo de si próprio, pela superação de todas as ilusões que impedem o ego de avançar  e de se transformar, atingindo um novo patamar de expressão são simbolizadas pelas cabeças da hidra que, logo que cortadas, voltam a nascer. Os seres humanos são presas contínuas das próprias ilusões e desejos e precisam de «morrer» e renascer muitas vezes antes de conseguirem transmutar a sua natureza e, desse modo, evoluir verdadeiramente.
 
9.    Signo de Sagitário. A tarefa associada ao signo é a luta contra  pássaros que tinham bicos, cabeças e asas de ferro e  um tamanho gigantesco, que tapavam os raios do sol. Hércules matou alguns com o seu arco e afastou outros para outras regiões. Interpretação: O signo de Sagitário está associado ao pensamento abstrato, às crenças, filosóficas e religiosas e à abertura dos nossos horizontes mentais. Mas, por vezes, as crenças tornam-se rígidas e dogmáticas e, aquilo que devia libertar-nos para a luz, cega-nos com preconceitos e com um falso saber. Este trabalho de Hércules mostra pois a necessidade de  manter o espírito aberto e não parar de procurar a sabedoria, que nunca possuímos por completo, deixando espaço para a luz dessa sabedoria poder entrar.
 
1.  Signo de Capricórnio. O trabalho de Hércules associado é a descida ao Inferno, para levar o cão Cérbero , guardião das portas do Inferno,  perante Euristeu. Hades permitiu que Hércules levasse o cão para a superfície desde que lutasse com ele sem usar armas. Hércules assim fez e quase sufocou este cão terrível de três cabeças. Quando chegou perante Euristeu com o cão, este ficou tão apavorado que disse a Hércules para o devolver  a Hades. Interpretação: o signo Capricórnio não está relacionado apenas com a ambição material de subir ao topo social, também simboliza o esgotar do desejo de riqueza e de posse neste mundo, orientando a sua busca de realização para o plano espiritual. Ora, a descoberta da nossa mortalidade é o primeiro passo para nos desligarmos  do desejo de possuir mais e mais riqueza. O enfrentar da condição mortal leva  ao surgimento de uma humildade espiritual que permite o desenvolvimento da sociedade como uma realidade mais justa e solidária.
 
1.  Signo de Aquário. O trabalho de Hércules associado ao signo é a limpeza dos estábulos do rei Augias, que tinham 3000 cavalos e não eram limpos há 30 anos. A sujidade acumulada   produzia gases mortais. Para realizar esta tarefa  gigantesca, Hércules desviou o curso de 2 rios. Interpretação: Aquário é o signo daquele que distribui as águas da vida, isto é, que pelo serviço altruísta que é capaz de fazer pelos outros em larga escala, influencia positivamente a salvação da humanidade.  Este estádio simboliza a capacidade de transcender os  interesses pessoais e trabalhar em prol do bem comum seguindo o grande plano universal da vida.
 
1  Signo de Peixes. O trabalho associado foi a morte do gigante Gerião que tinha 3 corpos,  6 braços e 6 asas e a captura dos bois guardados por um cão de 2 cabeças e por um dragão de 7 cabeças.  Os bois foram objeto de oferenda sacrificial no templo, tendo-lhes sido  retirada a pele. Interpretação: neste trabalho, a materialidade humana é transcendida (representada pela pele que foi tirada aos bois)   e  o homem une a sua consciência com a consciência universal divina, tendo superado todo  o desejo (simbolizado pelos bois) que o prendia à vida terrena. O gigante que tinha os bois guardados representa o imenso poder do desejo material para manter todas as posses e «conquistas» do mundo. Ao morrer, liberta o princípio espiritual que, desse modo, aspira à salvação.

Mitos da Cultura Ocidental, Hércules um Herói muito Humano

 
A referência a Hércules, coberto com uma pele de Leão  conservando a cabeça do animal agarrada, é um dos mitos mais conhecidos  e populares da cultura ocidental e também um dos que mais mudanças de interpretação  sofreram ao longo do tempo.
A história de Hércules
Hércules  corresponde ao símbolo por excelência do herói. Filho de Zeus e de uma mortal, Alcmena , foi fruto de uma das muitas  aventuras  amorosas de  Zeus, que assumiu a forma do marido de Alcmena, Anfitrião, para conseguir, desse modo, partilhar a sua alcova. É claro que Hera, a esposa de Zeus, ficou  furiosa por mais uma indiscrição do marido. Mas Zeus era o «pai dos deuses» pelo que ela, na impossibilidade de se vingar diretamente,   desviou contra o jovem Hércules a sua fúria vingativa : quando este era  bebé enviou duas serpentes para o matar mas a criança foi encontrada a tagarelar, encantada, com uma serpente morta em cada mão e a brincar com elas, após tê-las estrangulado. Durante anos, Hércules foi alvo do ódio de Hera, que lhe dificultou a vida sempre que pôde.
 
Hércules, apesar da mãe humana, era extraordinariamente forte, mais forte do que muitos deuses e era dotado de  grande coragem. Infelizmente, também era totalmente descontrolado no plano emocional, explodindo facilmente e reagindo com excesso de força em muitas situações, o que originou muitos dos trabalhos e dificuldades pelas quais passou. Quando ainda era jovem, num ataque  de fúria, matou o professor de música, Linus, pelo que, como castigo, teve  que pastar gado numa montanha. Segundo Pródico, Hércules foi nesta altura visitado pelas ninfas Prazer e  Virtude, que lhe  propuseram  optar por duas alternativas de vida: a ninfa  Prazer propôs-lhe uma vida confortável  e fácil; a ninfa  Virtude propôs-lhe uma vida de glória mas brutal. Hércules optou pela vida de glória. Mas Hera estava apostada em fazer-lhe a vida negra.
 
Assim,  o episódio mais infeliz da sua  vida foi causado por Hera, que , na sua sanha de vingança, lhe provocou  um ataque de loucura  que o levou a matar os filhos que teve com a primeira mulher, Mégara. Segundo algumas fontes, Mégara conseguiu escapar a este frenesim de loucura e fugiu.
 
Após este acontecimento terrível, Hércules quis purificar-se do crime, tendo interrogado o oráculo de Delfos sobre o que deveria fazer. Hera, sempre atenta para infernizar a sua vida, levou o oráculo a responder que Hércules deveria ir servir o rei Euristheus – rei de Micenas – durante 12 anos. Hércules, querendo  redimir-se, pacientemente, aceitou, tendo cada um desses anos correspondido a um dos seus 12 trabalhos (sobre os quais falaremos noutra altura). Durante estes anos, Hércules enfrentou perigos que mais ninguém conseguiu vencer e adquiriu fama, eternizando-se como herói, vencendo, deste modo, Hera e as suas más intenções contra ele.
 
Mas, filho de mulher mortal,  Hércules também enfrentou a morte,  ocorrida  através da  vingança de um centauro. O herói, sem suspeitar das más intenções do centauro, permitiu que ele levasse a sua mulher Deianara, na travessia de um rio mas, quando chegou à outra margem, o centauro atacou-a, o que levou Hércules a  matá-lo com uma seta (contendo veneno da Hidra  que ele matou num dos seus trabalhos). Antes de morrer, o centauro, astutamente, disse a Deianara que guardasse um pouco do seu sangue para fazer uma poção de amor. Desejosa de garantir a fidelidade do marido, Deianara colocou um pouco desse sangue na pele que Hércules usava sempre, sem saber que este estava envenenado e o herói , contraindo-se, morreu em agonia. Após a sua morte, foi resgatado como deus por Zeus.

Pistas Para a Interpretação do Mito de Hércules

Primeiramente considerado um bruto, uma poderosa máquina de  músculos sem controlo sobre  as suas  emoções  e com uma força indisciplinada, Hércules começou por ser a antítese do herói.
 
Ao longo do tempo, porém, e sobretudo através da admiração dos romanos, Hércules passou a ser motivo de admiração pela coragem, determinação e capacidade para aprender através dos próprios erros. Os romanos viram nele o ser humano que aceitou redimir-se das suas más ações , pagando pelos erros cometidos e desenvolvendo uma vida gloriosa de aventuras pelas quais venceu múltiplos perigos e se imortalizou.
 
 
 
Semi-divino por parte do pai e mortal por parte da mãe, Hércules simboliza o indivíduo que nasceu dotado de um conjunto de características- força extraordinária, coragem, perseverança, etc-  mas que, enquanto  não aprendeu a controlar  essas potencialidades, cometeu erros graves que incluíram crimes de sangue. Essencialmente, foi uma «vítima do destino»: filho bastardo, perseguido por essa razão (por Hera) não era  um homem como os outros mas também não era um deus. Era, no entanto, alguém que podia, por isso mesmo, escolher o seu destino – elevar-se à condição de um deus e ter uma vida gloriosa mas brutal, ou, pelo contrário, escolher o caminho fácil e acomodar-se a uma vida de conforto mas sem deixar memória. Este é o significado da proposta que lhe foi feita pelas ninfas, Prazer e Virtude. E, de acordo com a sua escolha, foi glorioso na luta mas morreu por causa das suas fraquezas : a mulher que, por ciúmes e, para evitar que ele a traísse, acabou por matá-lo sem querer.
 
Quando a ninfa determinou que o caminho de glória seria «brutal», exprimiu que o «caminho do herói» não é um caminho de facilidades nem de condescendências –  o herói paga um preço pelos traços que deixa ficar na memória coletiva. A admiração de que Hércules foi alvo mostra, desta forma, o ideal de vida masculina, associado às virtudes guerreiras, à prova da coragem e da valentia. O herói não se deixa vencer pelas vicissitudes, apesar das desgraças que o acometem , continua a perseverar no caminho traçado, que é o caminho do guerreiro. A valentia, a coragem e a força são aqui mais importantes do que a lealdade, o respeito pelos laços familiares, etc. Desde os ciúmes e a atitude vingativa de Hera à  loucura que acometeu Hércules, levando-o a matar os filhos, tudo isso é, ao fim e ao cabo, desculpável, nesta visão do mito, em nome do ideal do guerreiro imbatível  cuja força é superior à de qualquer outro homem e mesmo à de alguns deuses.
 
Este é um mito para alimentar guerreiros, é um mito dos tempos de guerra, não da vida citadina que criou a democracia e desenvolveu o discurso como arma fundamental de esgrima dos direitos e deveres dos cidadãos.
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Mitos da Cultura Ocidental, A Guerra de Tróia

 

A guerra de Tróia é um dos episódios mais conhecidos da mitologia antiga grega e aparece celebrizada nos poemas homéricos, Ilíada e Odisseia: na Ilíada  testemunhamos a parte final do cerco de 10 anos que os Aqueus (gregos) fizeram à cidade e, na Odisseia, somos informados das peripécias que o herói grego Ulisses viveu até regressar ao lar donde partira 10 anos antes.
 
Mas não pensemos que esta guerra foi puramente mítica. No século dezanove, um homem que cresceu  lendo os poemas homéricos, sonhou  que um dia haveria de encontrar a cidade soterrada de Tróia. Chamava-se Heinrich Schliemann e, seguindo as indicações encontradas nos textos homéricos, encontrou  no local indicado, correspondente a Hissarlik, hoje território turco, os restos de uma cidade que foi várias vezes incendiada e reduzida a cinzas. A época? Século 11 ou 12 a.c., tal como os poemas homéricos indicavam.
 
Agora, onde é que o mito se cruza com a realidade? Isso cabe à sua imaginação decidir, Caro/a Leitor/a. O certo é que, durante séculos, os poemas homéricos foram a base essencial do ensino histórico de muitas gerações de gregos que não tinham dúvidas de que eles «contavam como tudo se passou» no tempo dos heróis.

O Mito da Guerra de Tróia

Esta guerra teve origem na contenda entre deusas frívolas que não tinham muito com que se ocupar: Eris, a deusa da Discórdia, resolveu enviar uma «maçã dourada» com a mensagem «para a mais bela», a três das Deusas do Olimpo- Afrodite, Hera e Atena. É claro que cada uma delas achou estar na posse das qualidades que lhe permitiriam receber a «maçã dourada para a mais bela» e, como elas eram três e só havia uma maçã, o resultado foi uma briga pouco digna do estatuto que elas ocupavam no Olimpo. Para acabar com a contenda, Zeus interveio e resolver enviar a maçã e as deusas para se submeterem ao juízo de Páris, um jovem e belo príncipe de Tróia.
 
Páris não hesitou na escolha: ofereceu a maçã a Afrodite que ficou naturalmente radiante com a escolha do jovem e, sendo a deusa do Amor,  resolveu recompensar o «bom gosto» do príncipe com o amor da mais bela mulher que vivia na Terra, Helena. Esta , sob a  influência da deusa, apaixonou-se pelo jovem Páris e não  ofereceu qualquer resistência quando este a levou com ele para Tróia. Porém, havia um «pequeno problema» com este arranjo: Helena era casada com o rei Menelau de Esparta e, quando viu a esposa desaparecer na companhia de um estranho sentiu-se profundamente humilhado e insultado. E o mesmo  pensou o irmão dele, Agaménon, rei de Micenas,  que conduziu uma expedição militar a Tróia e pôs  um cerco à cidade que durou 10 anos.
 
Estes são os «factos» humanos mas, na verdade, segundo os poemas homéricos, os homens nada decidiram e pouco podiam nesta guerra pois as deusas – Afrodite que ganhou a frívola contenda e as outras que a perderam – imediatamente se puseram a conspirar chamando aliados e batalhando por detrás das ações dos homens e dos heróis, razão pela qual a guerra durou tanto tempo. Afrodite, é claro, protegia as forças de Tróia, associadas ao jovem Páris e à amada Helena; Hera e Atena, por seu lado, protegiam os Aqueus (gregos) com todos os recursos sobrenaturais de que dispunham. No final, antes dos homens que perderam, perdeu Afrodite, pois os Aqueus, como é sabido, venceram esta guerra. Nela pereceram grandes heróis, de um lado e do outro: Heitor e Páris entre os troianos; Aquiles e Ajax entre os gregos.
A guerra foi vencida pelo recurso a uma artimanha por parte dos gregos: construíram um belo cavalo de madeira, cujo tamanho era suficiente para albergar um número considerável de homens armados escondidos. O cavalo foi apresentado como uma oferenda e os Troianos, ingenuamente, acreditaram que esta era uma real oferta de paz e levaram o cavalo para dentro da cidade. Uma vez lá dentro, os soldados irromperam e abriram as portas da cidade. Os seus habitantes, estupefactos, nada puderam fazer ,tendo morrido às mãos dos invasores (os que não morreram foram feitos escravos).
 
Ganha a guerra e «limpa a honra» do marido espoliado de esposa, os gregos fizeram-se ao mar, após terem reduzido a cidade a cinzas.

Pistas para a Interpretação do Mito da Guerra de Tróia

Quase admitimos, um pouco em jeito de brincadeira, que sai caro desafiar a vaidade das mulheres. Esta guerra começou por motivos fortuitos e frívolos, só porque três mulheres – divinas ainda por cima –  se puseram a discutir qual delas era mais merecedora de ser considerada  «a mais bela». Tão simples e tão estúpido como isto, como estúpidas são todas as guerras. Por isso, se há lição a tirar desta guerra é, antes de mais, que a humanidade muito facilmente envereda pelo caminho da violência que ceifa muitas vidas inocentes só para satisfazer a «vaidade» , o  «sentido da honra» ou outras razões semelhantes. Esta guerra durou 10 intermináveis anos, durante os quais a vida de todos os habitantes foi dramaticamente alterada. E tudo isto para vingar a humilhação de um marido e duas deusas despeitadas?!
 
Pois, Caro/a Leitor/a. Tenho para mim que a lição mais preciosa deste mito nada tem a ver com a «astúcia»  do cavalo que permitiu enganar os Troianos e vencer a guerra: tem a ver com a exemplificação de como as contendas  humanas não deveriam ser resolvidas: a guerra é sempre uma má solução; não há glória em morrer, por mais valente que se seja, se os motivos que conduzem a essa morte são puramente fúteis, o que torna todas as mortes que daí decorrem desnecessárias e injustificadas. Esta foi uma guerra que ficou para a história como a lição que devemos aprender com todas as guerras: são quase  sempre injustas e evitáveis.

 

Quanto  à ligação entre  este mito e os factos reais que ocorreram na história destas duas cidades, que de facto estiveram em conflito na época referida, elas existem certamente e terão sido a única justificação plausível que os normais cidadãos gregos encontraram para explicar uma tão longa guerra  para a qual não encontravam  fortes motivos humanos: a culpa foi das deusas.

Mitos da Cultura Ocidental- O Minotauro, Monstro e Símbolo Celeste

O Mito do Minotauro

Este é um mito com muitas nuances políticas e religiosas e até astronómicas, revelando mudanças no domínio político, com Creta a perder gradualmente esse  domínio, à medida que novas potências, como Atenas, iam adquirindo cada vez mais protagonismo, com consequentes alterações também no plano das crenças religiosas.
 
O rei Minos, de Creta, tinha ascendido ao poder mas estava preocupado com a competição dos irmãos e, no esforço para manter o poder, pediu a Poseidon, deus dos oceanos, que lhe enviasse um boi branco em sinal de apoio. Poseidon ouviu a prece de Minos e enviou-lhe o boi. Porém, extasiado com a beleza do animal, Minos não o sacrificou, como seria de esperar, em honra de Poseidon: guardou-o para si e sacrificou ao deus um outro boi que lhe pertencia. Porém, Poseidon  não gostou de ser desrespeitado e Afrodite , deusa do amor, fez com que a mulher de Minos, Pasiphae, se apaixonasse perdidamente pelo boi branco. Tendo acasalado com este, dessa união nasceu uma criatura que tinha corpo de homem e cabeça e cauda de boi. Durante a infância, Pasiphae cuidou dela mas, à medida que foi crescendo,  este ser tornou-se um problema pela sua ferocidade  e  pela particularidade de gostar de se alimentar com carne humana.
 
Para se livrar deste problema, Minos consultou o oráculo de Delfos, que lhe sugeriu como solução que encerrasse o Minotauro num labirinto. Assim, Minos ordenou a  Dédalo, um artesão, que construísse   um labirinto gigantesco perto do palácio real ,em Knossos . Este labirinto tinha tantos caminhos intrincados que era muito difícil, depois de alguém entrar, conseguir encontrar a saída;  o Minotauro foi aí colocado.
 
Durante algum tempo Minos enviou para o labirinto os seus inimigos para estes servirem de alimento ao Minotauro. Porém, numa ocasião em que o seu filho Androgeu foi a Atenas  para participar nos jogos Panatenaicos, foi morto quando corria a maratona, pelo boi branco que tinha engravidado a sua mãe Pasiphae. Furioso com o que considerou ser um ultraje, Minos, que mantinha Atenas sob vassalagem, passou a exigir que a morte do filho, que entretanto tinha dado origem a uma peste que se fazia sentir no reino, fosse punida com o tributo de sete jovens rapazes e sete raparigas virgens, para serem sacrificados ao Minotauro. A periodicidade deste tributo variava, segundo as fontes: umas dizem que ele era anual; outras dizem que era de sete em sete ou de nove em nove anos. O que se sabe é que, no 3º ano, o filho do rei de Atenas, Teseu, quis fazer parte do grupo de jovens que iam ser sacrificados ao Minotauro ,embora não estivesse nas suas intenções  deixar -se matar pela criatura. Minos temeu pela vida do filho pois sabia que, mesmo que ele conseguisse matar o Minotauro, provavelmente não conseguiria sair do labirinto com vida.
 
Num certo ponto após sua chegada, o jovem Teseu encontrou-se com Ariadne, a princesa filha do rei Minos e esta apaixonou-se perdidamente por ele, tendo resolvido ajudá-lo, de modo a que ele conseguisse, após a vitória sobre o Minotauro, sair do labirinto vivo: deu-lhe um novelo de fio e disse-lhe para o ir desenrolando à medida que penetrava no labirinto. Teseu assim fez e conseguiu, graças  ao fio que ia deixando atrás de si, encontrar o caminho de volta  após ter vencido e morto o Minotauro. O que se passou depois mostrou que Ariadne foi um meio de que Teseu se serviu pois, tendo-a levado de Creta, parou em  Naxos e deixou-a ficar por lá: umas versões dizem que ela adormeceu na praia e, como estavam todos bem bebidos depois da celebração da vitória, não se aperceberam  de que ela não estava no navio; outras versões dizem que Ariadne foi deliberadamente deixada ficar para trás por um «herói» que já não precisava dela. Mas Teseu também não teve muita felicidade a seguir: tendo prometido ao pai que mudaria as velas negras do navio se vencesse o Minotauro e faria içar velas brancas que mostrariam a sua vitória quando o navio se aproximasse de terra, parece que Teseu se distraiu e se esqueceu  de substituir as velas negras por velas brancas e o pai, Egeu, quando esperava  em terra a chegada do navio, tendo visto as velas negras deduziu que o filho estava morto e atirou-se às águas, suicidando-se, razão pela qual aquele mar se passou a chamar Egeu.
 

Pistas para a Interpretação do Mito do Minotauro

Uma primeira evidência curiosa é o papel das mulheres neste mito: duas mulheres apaixonaram-se  perdidamente e, por causa disso, mudaram o curso dos acontecimentos: Pasiphae, mulher de Minos, apaixonou-se pelo «boi branco», que é uma personificação do deus solar. O Minotauro era muitas vezes designado também por Asterion , que significa «estrela».  A «paixão» de Pasiphae pelo boi, ele próprio um dos símbolos do «céu» e  uma força poderosa, masculina, mostra uma ideia mística de «união entre o ser terreno e o ser celeste» numa alusão a elementos que são religiosos e astronómicos.
 
Acredita-se que houve, em Creta, um culto religioso que tinha por alvo o boi enquanto personificação do deus solar e que, no âmbito desse culto, eram feitas oferendas de sacrifícios humanos, nos quais corria sangue, pois as vítimas eram amarradas a um boi vermelho e torturadas.
 
A vinda do herói Teseu para lutar com o Minotauro representa a queda do domínio político e religioso de Creta  e a substituição das crenças e das práticas usadas em Creta pelas práticas e crenças de Atenas, então em ascensão: a paixão de Ariadne pelo herói ateniense mostra como as antigas crenças de Creta foram ultrapassadas pela visão do mundo do povo ateniense, que não aceitava, a partir de certa altura, os sacrifícios humanos (embora eles também tivessem sido praticados na Grécia). Teseu enfrenta o Minotauro porque Atenas está farta de mostrar subserviência em relação ao reino de Creta e porque quer impedir que mais jovens rapazes e raparigas atenienses sejam objeto de oferenda sacrificial a um deus que não veneram.  Por outro lado, o «desprezo» que Teseu mostra em relação a Ariadne, que se limita a usar como parte da sua estratégia para «vencer o Minotauro» revela a separação entre as crenças praticadas pelos dois povos, e que eram vistas como  inconciliáveis.  Mitos como este ajudaram a cimentar as crenças religiosas dos atenienses, separando-as das de outros povos e marcando assim a identidade grega.