Mitos da Cultura Ocidental, Hércules um Herói muito Humano

 
A referência a Hércules, coberto com uma pele de Leão  conservando a cabeça do animal agarrada, é um dos mitos mais conhecidos  e populares da cultura ocidental e também um dos que mais mudanças de interpretação  sofreram ao longo do tempo.
A história de Hércules
Hércules  corresponde ao símbolo por excelência do herói. Filho de Zeus e de uma mortal, Alcmena , foi fruto de uma das muitas  aventuras  amorosas de  Zeus, que assumiu a forma do marido de Alcmena, Anfitrião, para conseguir, desse modo, partilhar a sua alcova. É claro que Hera, a esposa de Zeus, ficou  furiosa por mais uma indiscrição do marido. Mas Zeus era o «pai dos deuses» pelo que ela, na impossibilidade de se vingar diretamente,   desviou contra o jovem Hércules a sua fúria vingativa : quando este era  bebé enviou duas serpentes para o matar mas a criança foi encontrada a tagarelar, encantada, com uma serpente morta em cada mão e a brincar com elas, após tê-las estrangulado. Durante anos, Hércules foi alvo do ódio de Hera, que lhe dificultou a vida sempre que pôde.
 
Hércules, apesar da mãe humana, era extraordinariamente forte, mais forte do que muitos deuses e era dotado de  grande coragem. Infelizmente, também era totalmente descontrolado no plano emocional, explodindo facilmente e reagindo com excesso de força em muitas situações, o que originou muitos dos trabalhos e dificuldades pelas quais passou. Quando ainda era jovem, num ataque  de fúria, matou o professor de música, Linus, pelo que, como castigo, teve  que pastar gado numa montanha. Segundo Pródico, Hércules foi nesta altura visitado pelas ninfas Prazer e  Virtude, que lhe  propuseram  optar por duas alternativas de vida: a ninfa  Prazer propôs-lhe uma vida confortável  e fácil; a ninfa  Virtude propôs-lhe uma vida de glória mas brutal. Hércules optou pela vida de glória. Mas Hera estava apostada em fazer-lhe a vida negra.
 
Assim,  o episódio mais infeliz da sua  vida foi causado por Hera, que , na sua sanha de vingança, lhe provocou  um ataque de loucura  que o levou a matar os filhos que teve com a primeira mulher, Mégara. Segundo algumas fontes, Mégara conseguiu escapar a este frenesim de loucura e fugiu.
 
Após este acontecimento terrível, Hércules quis purificar-se do crime, tendo interrogado o oráculo de Delfos sobre o que deveria fazer. Hera, sempre atenta para infernizar a sua vida, levou o oráculo a responder que Hércules deveria ir servir o rei Euristheus – rei de Micenas – durante 12 anos. Hércules, querendo  redimir-se, pacientemente, aceitou, tendo cada um desses anos correspondido a um dos seus 12 trabalhos (sobre os quais falaremos noutra altura). Durante estes anos, Hércules enfrentou perigos que mais ninguém conseguiu vencer e adquiriu fama, eternizando-se como herói, vencendo, deste modo, Hera e as suas más intenções contra ele.
 
Mas, filho de mulher mortal,  Hércules também enfrentou a morte,  ocorrida  através da  vingança de um centauro. O herói, sem suspeitar das más intenções do centauro, permitiu que ele levasse a sua mulher Deianara, na travessia de um rio mas, quando chegou à outra margem, o centauro atacou-a, o que levou Hércules a  matá-lo com uma seta (contendo veneno da Hidra  que ele matou num dos seus trabalhos). Antes de morrer, o centauro, astutamente, disse a Deianara que guardasse um pouco do seu sangue para fazer uma poção de amor. Desejosa de garantir a fidelidade do marido, Deianara colocou um pouco desse sangue na pele que Hércules usava sempre, sem saber que este estava envenenado e o herói , contraindo-se, morreu em agonia. Após a sua morte, foi resgatado como deus por Zeus.

Pistas Para a Interpretação do Mito de Hércules

Primeiramente considerado um bruto, uma poderosa máquina de  músculos sem controlo sobre  as suas  emoções  e com uma força indisciplinada, Hércules começou por ser a antítese do herói.
 
Ao longo do tempo, porém, e sobretudo através da admiração dos romanos, Hércules passou a ser motivo de admiração pela coragem, determinação e capacidade para aprender através dos próprios erros. Os romanos viram nele o ser humano que aceitou redimir-se das suas más ações , pagando pelos erros cometidos e desenvolvendo uma vida gloriosa de aventuras pelas quais venceu múltiplos perigos e se imortalizou.
 
 
 
Semi-divino por parte do pai e mortal por parte da mãe, Hércules simboliza o indivíduo que nasceu dotado de um conjunto de características- força extraordinária, coragem, perseverança, etc-  mas que, enquanto  não aprendeu a controlar  essas potencialidades, cometeu erros graves que incluíram crimes de sangue. Essencialmente, foi uma «vítima do destino»: filho bastardo, perseguido por essa razão (por Hera) não era  um homem como os outros mas também não era um deus. Era, no entanto, alguém que podia, por isso mesmo, escolher o seu destino – elevar-se à condição de um deus e ter uma vida gloriosa mas brutal, ou, pelo contrário, escolher o caminho fácil e acomodar-se a uma vida de conforto mas sem deixar memória. Este é o significado da proposta que lhe foi feita pelas ninfas, Prazer e Virtude. E, de acordo com a sua escolha, foi glorioso na luta mas morreu por causa das suas fraquezas : a mulher que, por ciúmes e, para evitar que ele a traísse, acabou por matá-lo sem querer.
 
Quando a ninfa determinou que o caminho de glória seria «brutal», exprimiu que o «caminho do herói» não é um caminho de facilidades nem de condescendências –  o herói paga um preço pelos traços que deixa ficar na memória coletiva. A admiração de que Hércules foi alvo mostra, desta forma, o ideal de vida masculina, associado às virtudes guerreiras, à prova da coragem e da valentia. O herói não se deixa vencer pelas vicissitudes, apesar das desgraças que o acometem , continua a perseverar no caminho traçado, que é o caminho do guerreiro. A valentia, a coragem e a força são aqui mais importantes do que a lealdade, o respeito pelos laços familiares, etc. Desde os ciúmes e a atitude vingativa de Hera à  loucura que acometeu Hércules, levando-o a matar os filhos, tudo isso é, ao fim e ao cabo, desculpável, nesta visão do mito, em nome do ideal do guerreiro imbatível  cuja força é superior à de qualquer outro homem e mesmo à de alguns deuses.
 
Este é um mito para alimentar guerreiros, é um mito dos tempos de guerra, não da vida citadina que criou a democracia e desenvolveu o discurso como arma fundamental de esgrima dos direitos e deveres dos cidadãos.
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Mitos da Cultura Ocidental, A Guerra de Tróia

 

A guerra de Tróia é um dos episódios mais conhecidos da mitologia antiga grega e aparece celebrizada nos poemas homéricos, Ilíada e Odisseia: na Ilíada  testemunhamos a parte final do cerco de 10 anos que os Aqueus (gregos) fizeram à cidade e, na Odisseia, somos informados das peripécias que o herói grego Ulisses viveu até regressar ao lar donde partira 10 anos antes.
 
Mas não pensemos que esta guerra foi puramente mítica. No século dezanove, um homem que cresceu  lendo os poemas homéricos, sonhou  que um dia haveria de encontrar a cidade soterrada de Tróia. Chamava-se Heinrich Schliemann e, seguindo as indicações encontradas nos textos homéricos, encontrou  no local indicado, correspondente a Hissarlik, hoje território turco, os restos de uma cidade que foi várias vezes incendiada e reduzida a cinzas. A época? Século 11 ou 12 a.c., tal como os poemas homéricos indicavam.
 
Agora, onde é que o mito se cruza com a realidade? Isso cabe à sua imaginação decidir, Caro/a Leitor/a. O certo é que, durante séculos, os poemas homéricos foram a base essencial do ensino histórico de muitas gerações de gregos que não tinham dúvidas de que eles «contavam como tudo se passou» no tempo dos heróis.

O Mito da Guerra de Tróia

Esta guerra teve origem na contenda entre deusas frívolas que não tinham muito com que se ocupar: Eris, a deusa da Discórdia, resolveu enviar uma «maçã dourada» com a mensagem «para a mais bela», a três das Deusas do Olimpo- Afrodite, Hera e Atena. É claro que cada uma delas achou estar na posse das qualidades que lhe permitiriam receber a «maçã dourada para a mais bela» e, como elas eram três e só havia uma maçã, o resultado foi uma briga pouco digna do estatuto que elas ocupavam no Olimpo. Para acabar com a contenda, Zeus interveio e resolver enviar a maçã e as deusas para se submeterem ao juízo de Páris, um jovem e belo príncipe de Tróia.
 
Páris não hesitou na escolha: ofereceu a maçã a Afrodite que ficou naturalmente radiante com a escolha do jovem e, sendo a deusa do Amor,  resolveu recompensar o «bom gosto» do príncipe com o amor da mais bela mulher que vivia na Terra, Helena. Esta , sob a  influência da deusa, apaixonou-se pelo jovem Páris e não  ofereceu qualquer resistência quando este a levou com ele para Tróia. Porém, havia um «pequeno problema» com este arranjo: Helena era casada com o rei Menelau de Esparta e, quando viu a esposa desaparecer na companhia de um estranho sentiu-se profundamente humilhado e insultado. E o mesmo  pensou o irmão dele, Agaménon, rei de Micenas,  que conduziu uma expedição militar a Tróia e pôs  um cerco à cidade que durou 10 anos.
 
Estes são os «factos» humanos mas, na verdade, segundo os poemas homéricos, os homens nada decidiram e pouco podiam nesta guerra pois as deusas – Afrodite que ganhou a frívola contenda e as outras que a perderam – imediatamente se puseram a conspirar chamando aliados e batalhando por detrás das ações dos homens e dos heróis, razão pela qual a guerra durou tanto tempo. Afrodite, é claro, protegia as forças de Tróia, associadas ao jovem Páris e à amada Helena; Hera e Atena, por seu lado, protegiam os Aqueus (gregos) com todos os recursos sobrenaturais de que dispunham. No final, antes dos homens que perderam, perdeu Afrodite, pois os Aqueus, como é sabido, venceram esta guerra. Nela pereceram grandes heróis, de um lado e do outro: Heitor e Páris entre os troianos; Aquiles e Ajax entre os gregos.
A guerra foi vencida pelo recurso a uma artimanha por parte dos gregos: construíram um belo cavalo de madeira, cujo tamanho era suficiente para albergar um número considerável de homens armados escondidos. O cavalo foi apresentado como uma oferenda e os Troianos, ingenuamente, acreditaram que esta era uma real oferta de paz e levaram o cavalo para dentro da cidade. Uma vez lá dentro, os soldados irromperam e abriram as portas da cidade. Os seus habitantes, estupefactos, nada puderam fazer ,tendo morrido às mãos dos invasores (os que não morreram foram feitos escravos).
 
Ganha a guerra e «limpa a honra» do marido espoliado de esposa, os gregos fizeram-se ao mar, após terem reduzido a cidade a cinzas.

Pistas para a Interpretação do Mito da Guerra de Tróia

Quase admitimos, um pouco em jeito de brincadeira, que sai caro desafiar a vaidade das mulheres. Esta guerra começou por motivos fortuitos e frívolos, só porque três mulheres – divinas ainda por cima –  se puseram a discutir qual delas era mais merecedora de ser considerada  «a mais bela». Tão simples e tão estúpido como isto, como estúpidas são todas as guerras. Por isso, se há lição a tirar desta guerra é, antes de mais, que a humanidade muito facilmente envereda pelo caminho da violência que ceifa muitas vidas inocentes só para satisfazer a «vaidade» , o  «sentido da honra» ou outras razões semelhantes. Esta guerra durou 10 intermináveis anos, durante os quais a vida de todos os habitantes foi dramaticamente alterada. E tudo isto para vingar a humilhação de um marido e duas deusas despeitadas?!
 
Pois, Caro/a Leitor/a. Tenho para mim que a lição mais preciosa deste mito nada tem a ver com a «astúcia»  do cavalo que permitiu enganar os Troianos e vencer a guerra: tem a ver com a exemplificação de como as contendas  humanas não deveriam ser resolvidas: a guerra é sempre uma má solução; não há glória em morrer, por mais valente que se seja, se os motivos que conduzem a essa morte são puramente fúteis, o que torna todas as mortes que daí decorrem desnecessárias e injustificadas. Esta foi uma guerra que ficou para a história como a lição que devemos aprender com todas as guerras: são quase  sempre injustas e evitáveis.

 

Quanto  à ligação entre  este mito e os factos reais que ocorreram na história destas duas cidades, que de facto estiveram em conflito na época referida, elas existem certamente e terão sido a única justificação plausível que os normais cidadãos gregos encontraram para explicar uma tão longa guerra  para a qual não encontravam  fortes motivos humanos: a culpa foi das deusas.

Mitos da Cultura Ocidental- O Minotauro, Monstro e Símbolo Celeste

O Mito do Minotauro

Este é um mito com muitas nuances políticas e religiosas e até astronómicas, revelando mudanças no domínio político, com Creta a perder gradualmente esse  domínio, à medida que novas potências, como Atenas, iam adquirindo cada vez mais protagonismo, com consequentes alterações também no plano das crenças religiosas.
 
O rei Minos, de Creta, tinha ascendido ao poder mas estava preocupado com a competição dos irmãos e, no esforço para manter o poder, pediu a Poseidon, deus dos oceanos, que lhe enviasse um boi branco em sinal de apoio. Poseidon ouviu a prece de Minos e enviou-lhe o boi. Porém, extasiado com a beleza do animal, Minos não o sacrificou, como seria de esperar, em honra de Poseidon: guardou-o para si e sacrificou ao deus um outro boi que lhe pertencia. Porém, Poseidon  não gostou de ser desrespeitado e Afrodite , deusa do amor, fez com que a mulher de Minos, Pasiphae, se apaixonasse perdidamente pelo boi branco. Tendo acasalado com este, dessa união nasceu uma criatura que tinha corpo de homem e cabeça e cauda de boi. Durante a infância, Pasiphae cuidou dela mas, à medida que foi crescendo,  este ser tornou-se um problema pela sua ferocidade  e  pela particularidade de gostar de se alimentar com carne humana.
 
Para se livrar deste problema, Minos consultou o oráculo de Delfos, que lhe sugeriu como solução que encerrasse o Minotauro num labirinto. Assim, Minos ordenou a  Dédalo, um artesão, que construísse   um labirinto gigantesco perto do palácio real ,em Knossos . Este labirinto tinha tantos caminhos intrincados que era muito difícil, depois de alguém entrar, conseguir encontrar a saída;  o Minotauro foi aí colocado.
 
Durante algum tempo Minos enviou para o labirinto os seus inimigos para estes servirem de alimento ao Minotauro. Porém, numa ocasião em que o seu filho Androgeu foi a Atenas  para participar nos jogos Panatenaicos, foi morto quando corria a maratona, pelo boi branco que tinha engravidado a sua mãe Pasiphae. Furioso com o que considerou ser um ultraje, Minos, que mantinha Atenas sob vassalagem, passou a exigir que a morte do filho, que entretanto tinha dado origem a uma peste que se fazia sentir no reino, fosse punida com o tributo de sete jovens rapazes e sete raparigas virgens, para serem sacrificados ao Minotauro. A periodicidade deste tributo variava, segundo as fontes: umas dizem que ele era anual; outras dizem que era de sete em sete ou de nove em nove anos. O que se sabe é que, no 3º ano, o filho do rei de Atenas, Teseu, quis fazer parte do grupo de jovens que iam ser sacrificados ao Minotauro ,embora não estivesse nas suas intenções  deixar -se matar pela criatura. Minos temeu pela vida do filho pois sabia que, mesmo que ele conseguisse matar o Minotauro, provavelmente não conseguiria sair do labirinto com vida.
 
Num certo ponto após sua chegada, o jovem Teseu encontrou-se com Ariadne, a princesa filha do rei Minos e esta apaixonou-se perdidamente por ele, tendo resolvido ajudá-lo, de modo a que ele conseguisse, após a vitória sobre o Minotauro, sair do labirinto vivo: deu-lhe um novelo de fio e disse-lhe para o ir desenrolando à medida que penetrava no labirinto. Teseu assim fez e conseguiu, graças  ao fio que ia deixando atrás de si, encontrar o caminho de volta  após ter vencido e morto o Minotauro. O que se passou depois mostrou que Ariadne foi um meio de que Teseu se serviu pois, tendo-a levado de Creta, parou em  Naxos e deixou-a ficar por lá: umas versões dizem que ela adormeceu na praia e, como estavam todos bem bebidos depois da celebração da vitória, não se aperceberam  de que ela não estava no navio; outras versões dizem que Ariadne foi deliberadamente deixada ficar para trás por um «herói» que já não precisava dela. Mas Teseu também não teve muita felicidade a seguir: tendo prometido ao pai que mudaria as velas negras do navio se vencesse o Minotauro e faria içar velas brancas que mostrariam a sua vitória quando o navio se aproximasse de terra, parece que Teseu se distraiu e se esqueceu  de substituir as velas negras por velas brancas e o pai, Egeu, quando esperava  em terra a chegada do navio, tendo visto as velas negras deduziu que o filho estava morto e atirou-se às águas, suicidando-se, razão pela qual aquele mar se passou a chamar Egeu.
 

Pistas para a Interpretação do Mito do Minotauro

Uma primeira evidência curiosa é o papel das mulheres neste mito: duas mulheres apaixonaram-se  perdidamente e, por causa disso, mudaram o curso dos acontecimentos: Pasiphae, mulher de Minos, apaixonou-se pelo «boi branco», que é uma personificação do deus solar. O Minotauro era muitas vezes designado também por Asterion , que significa «estrela».  A «paixão» de Pasiphae pelo boi, ele próprio um dos símbolos do «céu» e  uma força poderosa, masculina, mostra uma ideia mística de «união entre o ser terreno e o ser celeste» numa alusão a elementos que são religiosos e astronómicos.
 
Acredita-se que houve, em Creta, um culto religioso que tinha por alvo o boi enquanto personificação do deus solar e que, no âmbito desse culto, eram feitas oferendas de sacrifícios humanos, nos quais corria sangue, pois as vítimas eram amarradas a um boi vermelho e torturadas.
 
A vinda do herói Teseu para lutar com o Minotauro representa a queda do domínio político e religioso de Creta  e a substituição das crenças e das práticas usadas em Creta pelas práticas e crenças de Atenas, então em ascensão: a paixão de Ariadne pelo herói ateniense mostra como as antigas crenças de Creta foram ultrapassadas pela visão do mundo do povo ateniense, que não aceitava, a partir de certa altura, os sacrifícios humanos (embora eles também tivessem sido praticados na Grécia). Teseu enfrenta o Minotauro porque Atenas está farta de mostrar subserviência em relação ao reino de Creta e porque quer impedir que mais jovens rapazes e raparigas atenienses sejam objeto de oferenda sacrificial a um deus que não veneram.  Por outro lado, o «desprezo» que Teseu mostra em relação a Ariadne, que se limita a usar como parte da sua estratégia para «vencer o Minotauro» revela a separação entre as crenças praticadas pelos dois povos, e que eram vistas como  inconciliáveis.  Mitos como este ajudaram a cimentar as crenças religiosas dos atenienses, separando-as das de outros povos e marcando assim a identidade grega.

Mitos da Cultura Ocidental, Prometeu, o Génio Humano e a Cultura

A história de Prometeu

O Mito de Prometeu é um dos mais conhecidos da cultura ocidental; é apresentado muitas vezes como ícone das capacidades humanas para criar a ciência, a cultura e a civilização.
Prometeu era filho de um titã e de uma ninfa, pertencendo à categoria dos «heróis». Incumbido de criar o homem, moldou- a partir do barro e a deusa Athena  insuflou-lhe a vida através da respiração.
 
Prometeu e o irmão Epimeteu estavam encarregados de criar os seres terrestres. Prometeu encarregou-se do homem, dando instruções a Epimeteu para distribuir pelos  seres  da Terra uma série de qualidades: inteligência, rapidez, asas, força, pelo, etc. Epimeteu aplicou-se nessa tarefa, começando pelos animais não humanos e, quando chegou ao homem, já não tinha mais nenhuma qualidade para dar ao homem e, por isso, Prometeu resolveu dar-lhe a posição bípede, semelhante à dos deuses, e o fogo.
 
Prometeu revelava grande carinho pela sua criação, gostando mais do homem do que dos  deuses do Olimpo.  Por isso, lutou pelo homem e enganou Zeus de várias maneiras: por exe., quando foi preciso estabelecer quais as oferendas sacrificiais que os homens deveriam dar aos deuses, Prometeu fez dois modelos de  oferendas: uma feita de carne suculenta escondida num «embrulho» pouco apetecível, num estômago de boi; e outra composta por ossos embrulhados em gordura brilhante, com excelente aspeto. Colocou as oferendas perante Zeus e pediu-lhe que escolhesse qual delas deveria servir como modelo futuro dos sacrifícios que o homem devia aos deuses. E Zeus escolheu a oferenda que parecia melhor à primeira vista mas que, no interior, tinha apenas ossos. É claro que, quando se apercebeu disso, ficou furioso mas teve que manter a sua palavra e , deste modo, os homens puderam guardar a melhor parte da carne para si próprios e dar os ossos em oferenda.
 
Como retaliação, Zeus resolveu retirar o fogo que Prometeu tinha dado aos homens. Prometeu, inconformado e desafiando a  autoridade de Zeus, agarrou numa tocha e foi acendê-la no Sol, trazendo o fogo de volta para os homens.
 
Foi a última gota: Zeus enviou de imediato os seus servos Força e Violência e mandou-os agarrar Prometeu e acorrentá-lo no Monte Cáucaso com o castigo de uma Águia (emblema de Zeus) lhe devorar o fígado a cada dia: após ser devorado este voltava a crescer para ser comido no dia seguinte. Para escapar a este castigo, Prometeu teria que contar a Zeus quem era a mãe do filho que o destronaria um dia- coisa que Prometeu recusou; ou então um imortal teria que se voluntariar a morrer por ele ao mesmo tempo que um mortal deveria lutar com a águia e vencê-la, matando-a.
 
Ao que parece, Quíron, o centauro, aceitou morrer por Prometeu e Hércules, num dos seus célebres trabalhos, venceu a águia e libertou Prometeu.
Algumas Pistas de Interpretação do Mito
Este é um mito bastante complexo  que se situa no contexto do confronto entre o plano humano secular  e o da religião. É um mito  que representa a tomada de consciência  do homem em relação aos seus próprios méritos e capacidades, que levou ao questionamento do lugar dos deuses na vida e nas decisões dos homens.
 
Houve um tempo em que os homens se viam como não tendo qualquer palavra a dizer em relação ao seu destino, que consideravam estar totalmente dependente da vontade divina; um tempo em que os deuses eram considerados omnipotentes e omniscientes e em que o homem se via como servo impotente dos seus caprichos e poder. Os poemas homéricos- a Ilíada  e a Odisseia- são um exemplo claro de como os homens se viam como meros joguetes dos caprichos e da vontade divina.
 
Mas o surgimento das cidades gregas, das atividades económicas e das ciências como a Matemática, a Astronomia, etc que permitiram o florescimento e a riqueza com base no comércio e já não na posse de terras, colocou o homem no centro de todas as decisões. E esse homem, tendo descoberto o diálogo racional como a forma fundamental de descoberta do mundo, começou a sentir que era preciso colocar os deuses no seu lugar próprio e dar ao homem a oportunidade para brilhar em primeiro plano, como autor de um novo mundo totalmente construído por si: o espaço das cidades e a sua organização política e económica eram obra humana e não dos deuses.
 
É este homem revolucionário, virado para o futuro e orgulhoso das suas próprias capacidades e inteligência, que Prometeu simboliza: o fogo, símbolo da tecnologia que, desde os antigos  gregos, permitiu ao homem moldar o mundo ao seu jeito, «foi roubado aos deuses» e tornou-se pertença do homem; as oferendas sacrificiais aos deuses passaram a ser feitas mantendo «o melhor pedaço» para o homem e dando o «menos bom» aos deuses, num significado claro da sua passagem para «segundo plano».
 
 
Ao longo da História este mito foi usado para mostrar as contradições do homem que «quis  ser igual aos deuses»: a ciência, a cultura e a civilização não são  apenas conquistas maravilhosas do engenho humano;  elas também transportam tragédias e consequências nefastas e destrutivas do próprio mundo que o homem quis que fosse  «melhor», alertando para a necessidade de  fazer um uso consciente dos conhecimentos e das  tecnologias que o homem desenvolveu.
 
A parte final deste mito, das condições impostas por Zeus para libertar Prometeu, também é  uma referência clara à inversão da ordem tradicional que punha os deuses em primeiro lugar  e passou a  coloca-los  em «segundo»: a alusão ao sacrifício de um imortal para que  Prometeu pudesse viver-  a disponibilização de Quíron, o Centauro, para morrer por Prometeu- mostra a elevação do estatuto do ser humano que, através da cultura e do refinamento que ela permite, se separou da animalidade e ascendeu à categoria de um  ser espiritual; a salvação de Prometeu por Hércules, um herói nitidamente relacionado com os signos do Zodíaco e a simbolização do «homem universal», mostra que o homem, através das suas experiências na Terra e do conhecimento que vai adquirindo, se vai transformando num ser  verdadeiramente divino.
 
De modo que a «inversão» de valores que se efetuou da divindade para o homem consistiu verdadeiramente na substituição de uma ordem pela outra e esta inversão explica   a complexidade dos valores humanos e as muitas contradições  que são visíveis no mundo humano atual.

Mitos da Cultura Ocidental, o Suplício de Tântalo

 

A história de Tântalo

Tântalo foi um rei mítico da Frígia ou da Lídia, filho de Zeus e da ninfa Plouto. Por ser filho de Zeus, foi recebido no Olimpo à mesa dos deuses.  Um dia, para testar a omnisciência deles,Tântalo fez-lhes uma oferenda  macabra: matou e desmembrou  o seu filho, ainda criança, Pélope, e serviu a sua carne num banquete destinado aos deuses. Deméter, que se encontrava desgostosa e com a mente ausente por causa da perda da filha, Perséfone, que se tornara companheira de Hades no submundo, comeu um pedaço do ombro do rapaz, antes  de se aperceber da natureza da carne mas os restantes deuses, apercebendo-se do que estava a acontecer, não lhe tocaram.
 
Zeus deu ordem a Cloto, uma das 3 encarnações do destino (Moiras), para que trouxesse de novo o rapaz à vida, o que aconteceu. O jovem cresceu , após este incidente, belo e forte, tendo sido levado por Poseidon para o Monte Olimpo para aprender a conduzir as carruagens  dos deuses até ser expulso por Zeus devido à raiva que o rapaz sentia em relação ao pai que o assassinara.
 
Uma outra versão desta história refere que Tântalo despertou a ira dos deuses por ter roubado o néctar divino, ou Ambrósia para partilhar quando  regressou ao mundo terrestre e, por causa disso, foi castigado.
 
Seja por uma razão seja por outra, Tântalo recebeu o castigo  que se conhece: foi metido numa poça de água no Tártaro, a parte do submundo mais escura onde os criminosos expiam o castigo pelos seus crimes. Estava rodeado de água cristalina e pura e tinha uma árvore com belos frutos a pender de ramos baixos junto às suas mãos- mas, sempre que  aproximava a boca para beber, a água recuava; sempre que estendia a mão para a árvore onde pendiam os frutos os ramos  moviam-se para longe, retirando-os  do alcance de Tântalo. Deste modo a  água e os frutos pareciam totalmente ao alcance da sua mão mas, simultaneamente, é como se estivessem infinitamente longe.  E, para todo o sempre, ele tinha sede mas não podia beber; tinha fome mas não podia comer.
 
Mas este não foi o único castigo que ele recebeu: também havia uma pesada pedra pendente sobre a sua cabeça  ameaçando continuamente cair-lhe em cima. Este castigo, segundo consta, deveu-se ao facto de Tântalo ter  participado no roubo de um cão de ouro  que foi moldado por Hefesto a pedido de Reia, para vigiar Zeus quando este era criança. Segundo a história, um amigo de Tântalo, Pandareu,  roubou o cão e depois pediu a Tântalo para o guardar em lugar seguro até as coisas acalmarem. Porém, quando Pandareu pediu a Tântalo que lhe devolvesse o cão de ouro, este terá respondido que nunca viu nem ouviu falar de um cão de ouro na sua vida e assim, Tântalo guardou o cão para si. Para o castigar por esta má ação, os deuses condenaram-no a sentir-se ameaçado para todo o sempre, receando continuamente  ver cair-lhe em cima aquela pesada pedra.
 
 

Algumas Pistas para a Interpretação do Suplício de Tântalo

A história de Tântalo marca um ponto importante na consciência da humanidade em relação ao modo de encarar a dignidade e os direitos dos seres humanos: no mundo antigo, durante muito tempo, vários povos praticaram sacrifícios humanos, sendo que as crianças, pela sua pureza e inocência, eram muitas vezes alvo privilegiado  desta prática. O canibalismo, em tempos recuados era também comum e é outro aspeto presente neste mito.
 
Do mesmo modo, os pais tiveram, durante muito tempo, a prerrogativa  de decidir a vida  e a morte dos recém-nascidos na família,  como um direito que a tradição lhes concedeu, embora na Grécia antiga a forma mais praticada fosse a «exposição» da criança, isto é,  se o chefe de família decidisse que a criança não devia viver, ela era colocada num pote de barro e colocada no caminho para morrer por «causas naturais»: fome, sede, frio ou calor, ataque de animais…  dessa forma os pais pensavam  que não cometiam pecado nenhum pois os deuses ou alguém que passava podia salvar a criança e impedir a sua morte.
 
Os sacrifícios humanos e de crianças eram feitos em tempos mais recuados e eram uma prática comum por exemplo na antiga Cartago. A razão pela qual se matavam as crianças podia variar: por ser do sexo feminino ou doente, deformada, por ser um fardo demasiado pesado para a família suportar, para agradar aos deuses  como uma «oferenda» especial e, desse modo propiciar  benesses  e ajuda divina que se pretendia alcançar.
 
Deste modo, esta história de Tântalo, que foi punido pelos deuses por ter assassinado o próprio filho para o dar como oferenda aos deuses  – e  recusada por estes-  mostra uma viragem na mentalidade e nas crenças religiosas e, de facto, a partir de certa altura o infanticídio e os sacrifícios humanos passaram a ser condenados como práticas dos «bárbaros» ou pessoas incivilizadas e foram proibidos pelas leis e pelas regras morais como inaceitáveis, embora a prática da «exposição» tenha continuado por bastante tempo.
 
A  história de Tântalo  exemplifica a nova visão da sociedade em relação às práticas de canibalismo e assassínio de outros seres humanos, seja qual for a razão, incluindo a religiosa, ensinado que elas não são aceites nem permitidas e merecem  o castigo equivalente de ser privado de comer e de  beber, levando os indivíduos  a respeitar a dignidade  de outros seres humanos, principalmente quando estes não são capazes de se defender a si mesmos, como é o caso das crianças.
 
Quanto ao castigo por roubar o «cão de ouro» de Zeus –criança, sofrendo o medo de ser esmagado a qualquer momento por uma pesada pedra, este elemento reforça a ideia de que a proteção das crianças é algo que deve ser praticado pela sociedade, cujo dever é dar  a estes seres indefesos a vigilância adequada para apoiar as suas necessidades de segurança. O mito corresponde deste modo ao assumir, pela sociedade, da responsabilidade pelo bem estar e proteção das crianças, penalizando simultaneamente de forma pesada  aqueles que falham esse dever de proteção.

Os Mitos da Cultura Ocidental, a «Caixa» de Pandora

A história de Pandora

Zeus, o pai dos deuses, estava furioso com o titã Prometeu  que   tinha cometido  uma traição aos deuses: encarregado por estes de criar o homem, mas desgostoso por  ver o destino que os deuses lhe reservavam- uma espécie de sombra criada para lhes prestar serviço e adoração –  transgrediu as normas,  roubando o fogo aos deuses para o dar aos homens (exploraremos o significado deste mito em breve); o castigo que Zeus deu a Prometeu não parece ter sido suficiente pois o pai dos deuses, preocupado com o rumo que a humanidade podia levar a partir da posse do fogo,(e querendo impedir que o homem se tornasse semelhante aos deuses) resolveu enviar-lhe um «presente envenenado»: Pandora, a «primeira mulher humana».

Zeus ordenou então a Hefesto, o deus da forja e das «artes» (do artesão) que moldasse uma mulher, com água e terra (para  a sua condição ser a de uma  mortal) e fez com que os outros deuses lhe dessem dons especiais (Pandora significa a que «tem todos os dons» ou também «a que tudo dá»): Afrodite deu-lhe a beleza e as artes da sedução e do amor; Hermes deu-lhe a arte da persuasão e a curiosidade; Hera as artes femininas, Apolo os dons musicais, etc.

Quando esta primeira mulher ficou pronta, Zeus mandou enviá-la  como presente ao irmão de Prometeu, Epimeteu. Este não era capaz de compreender as consequências futuras das ações pois precisava de as viver primeiro e só depois, pela reflexão, compreendia os seus efeitos; ao contrário de Prometeu, que via claramente o futuro, de modo antecipado. Por essa  razão  Prometeu aconselhou o irmão a nunca aceitar presentes de Zeus.  Mas ,quando Epimeteu viu a belíssima noiva que Zeus lhe enviara de presente, sentiu-se o homem mais feliz da terra e acolheu Pandora com entusiasmo. Porém, antes de desejar felicidade ao primeiro casal, Zeus deu-lhes um pote ( e não uma caixa como a tradição reconta) como os que vulgarmente se usavam na Grécia para armazenamento; o pote estava  fechado, e  Zeus advertiu Epimeteu de que nunca em circunstância alguma deveria destapá-lo. (é claro que ele contava com o contrário).

Algum tempo após o casamento, Pandora começou a lembrar-se do pote dado por Zeus e a curiosidade começou a roê-la: que conteria aquele pote? O que estaria lá dentro? Epimeteu  cumpria sem dificuldade nenhuma a ordem de Zeus: não lhe interessava mesmo nada saber o que o pote continha. Mas Pandora tinha que saber. Num momento em que o marido não estava a vigiar o pote, Pandora foi junto dele e ergueu a tampa mas recuou quase de imediato, horrorizada: formas fantasmagóricas  e maléficas saíram do pote rapidamente e espalharam-se pelo mundo. Todos os males que assolam este mundo saíram de dentro daquele pote: pragas e doenças, desespero e maldade, ganância, etc. Pandora ainda tentou fechar a tampa mas o processo foi irreversível: o mal estava espalhado pelo mundo sem possibilidade de recuo. Amedrontada, Pandora espreitou para dentro do pote e foi então que viu que nem tudo tinha saído: dentro do pote  tinha  ficado uma coisa: a esperança. E então, a humanidade, apesar de ter tido que se esforçar desde então a trabalhar para ganhar  o seu sustento, de ter que ultrapassar todo o tipo de obstáculos , de males e de doenças, ficou com alguma coisa que lhe permitiria continuar a lutar.

 

Algumas Pistas de interpretação do Mito de Pandora

Os mitos têm várias «camadas» de significados e este mito, bastante complexo, não é exceção. Note-se que se trata de um mito semelhante , em muitos aspetos, ao mito de Adão e Eva no Génesis.
Em ambos, o surgimento da primeira mulher  foi também a origem do mal, das doenças, da condição mortal do ser humano e do trabalho ou esforço para garantir o sustento.
Encontramos um significado mais esotérico deste mito  que remete  para a dualidade de «naturezas» na dimensão humana: yin e yang, masculino e feminino, mortal e imortal. Em dois seres diferentes mas também em cada ser humano

Epimeteu, o que «não é capaz de antever o futuro» representa o princípio inerte da natureza positiva que só por si é estático, eterno e incapaz de «ir além do que já é»; Pandora «a que tem todos os dons» e, muito particularmente a «curiosidade», ou seja, o dinamismo interno que faz mover para o mundo e interagir com ele, é o princípio recetivo mas também o que permite a transformação  e o desenvolvimento da essência positiva.

Epimeteu representa  a centelha divina, imóvel, estática em cada ser humano; ela já é  perfeita, imortal, é «tudo o que pode ser» é a presença do espírito no corpo mortal.
Pandora representa a natureza material e mortal  que se associa à centelha divina para permitir novas experiências e aprendizagens que conduzem à evolução , em termos de consciência de si própria, da centelha divina ou alma imortal.

Mas, para além deste significado , há outros bem interessantes que podemos mencionar: um deles, que já referimos quando analisámos o mito do Génesis, é o da associação entre a iniciativa ou escolha humana e o «mal». Na verdade só os seres que podem escolher podem «fazer mal»- porque podem escolher outra coisa.  Esta associação entre a liberdade e o «mal» corresponde a uma das maiores «tormentas» dos pensadores ocidentais: a liberdade é um bem e um «mal» em simultâneo, pois faz-nos assumir a responsabilidade pelas nossas ações e ela é muitas vezes um fardo pesado;

Outro significado digno de menção é o papel da «curiosidade» no desenvolvimento humano: é a curiosidade que nos faz ansiar por realidades e situações diferentes, que nos faz lutar para realizar o que queremos viver, em vez de  vivermos uma vida em que somos peões de um jogo que não jogamos.



mito de Pandora mostra que o destino humano é, justamente «transgredir», ir além, em busca de uma natureza ou essência de ser que é autoconstruída. A este propósito é interessante verificar que o mesmo pote que continha todos os males, continha também a esperança: esta não é algo que existe em separado ou em total oposição a esses males mas, justamente, existe a esperança porque nos confrontamos com o mal e desejamos vencê-lo. Confrontamo-nos com o mal e somos capazes de o vencer;
O mito de Pandora aponta para o caráter específico das experiências da humanidade que, em face da adversidade, dos obstáculos e da doença, crescem mais e tornam-se  seres humanos melhores, mais completos, do que aqueles que, como Epimeteu, passam pela vida inconscientes de quem são ou de quem poderiam ser: se tivessem a curiosidade de olhar para o mundo à sua volta e de projetar as suas possibilidades de ser numa ideia de futuro.

Mitos da Cultura Ocidental- Édipo, o Destino contra a Liberdade

 
Os mitos encerram importantes significados sobre o funcionamento da mente humana e das lições que esta vai tirando na sua relação com o mundo. Vários especialistas do estudo da mente mostraram isso com muita clareza, sendo que os mais notáveis me parecem ser Freud e Jung. Eles mostraram a relação  profunda destes mitos com os comportamentos, os valores e os  padrões da cultura em que surgiram.  Mostraram também que compreender os significados  de cada um destes  mitos é lançar luz e visibilidade sobre a nossa identidade como seres humanos.
 
Hoje analisamos o mito de Édipo, largamente conhecido e explorado, por ex., por Freud,  na Psicanálise ; mas também na Literatura, Arte,etc.
A História de Édipo
Laio e Jocasta reinavam sobre Tebas. A rainha estava grávida e um terrível oráculo profetizou que a criança que iria nascer haveria um dia de matar o pai e de casar com a mãe. Quando a criança nasceu, Laio de imediato furou-lhe os pés, prendeu-os com uma «fíbula» metálica e entregou-o a um pastor com a ordem de abandonar a criança nos declives do Monte Citérion para, desse modo, evitar a terrível profecia. O rei não a matou diretamente para evitar  ser culpado de impiedade. Uma das versões do mito diz que o pastor, com pena da criança, entregou-a aos reis de Corinto, que não tinham filhos e o criaram  como se fosse seu. Numa alusão aos pés furados da criança, esta recebeu o nome de Édipo, que significa «pés inchados».
 
Quando Édipo cresceu, ouviu uma indiscrição numa conversa, sobre o facto de o seu destino ter sido profetizado e, para se certificar, foi consultar o oráculo de Delfos. Ouviu então, do oráculo, a terrível profecia: ele estava destinado a matar o pai e a casar com a mãe. Horrorizado, Édipo  decidiu abandonar a cidade de Corinto e nunca mais voltar para, desse modo, impedir que tão terrível destino se pudesse concretizar. Mas ignorava que Políbio e Mérope não eram os seus verdadeiros pais.
 
Na viagem que então iniciou, para se afastar o mais possível daquele destino profetizado, Édipo chegou perto de Tebas que, sem ele saber, era a sua terra natal. Numa encruzilhada estreita, em que só podia passar um cavaleiro de cada vez,  foi interpelado rudemente, por um homem, do outro lado, com a ordem de «deixar passar!» Édipo hesitou um momento, desagradado pelo tom de voz que tinha ouvido e, antes de poder reagir, o outro matou um dos seus cavalos. Furioso, Édipo investiu contra o cavaleiro e outro homem que estava na carruagem e matou-os. O homem na carruagem era Laio, o seu pai verdadeiro , mas Édipo não sabia disso.
 
Édipo demorou-se por Tebas. E deparou-se então com um ser monstruoso, a Esfinge- esta ser tinha corpo de leão, asas e uma cabeça de mulher- que aterrorizava a cidade pois  apresentava enigmas aos que chegavam à cidade e, quando estes não acertavam, (o que acontecia sempre) ela matava-os. A Esfinge colocou então a Édipo as questões: «qual é o ser vivo que, com  uma só voz tem 4 patas, 2 patas e 3 patas?» Édipo, imperturbável, respondeu: «é o homem pois na infância caminha a 4, na idade adulta a 2 e na velhice apoia-se num bastão»; furiosa, a Esfinge apresentou outra adivinha: «são duas irmãs, uma engendra a outra e esta por sua vez é engendrada pela primeira». Mais uma vez, Édipo respondeu:« a noite e o dia». A Esfinge não aguentou a humilhação de alguém conseguir adivinhar as respostas e despenhou-se, atirando-se no abismo. Ao vencer a Esfinge, Édipo foi aclamado como o salvador da cidade e, como prémio, casou com Jocasta, a esposa do rei falecido e que, sem ele saber, era a sua verdadeira mãe. A profecia concretizou-se deste modo, apesar da total ignorância de Édipo.
 
 
Mais tarde, quando tinha já filhos com Jocasta, Tebas foi invadida por uma terrível praga  que causava doença e fome e foi vaticinado que a razão era o facto de o culpado pela morte de Laio, o rei anterior, não ter sido encontrado. Édipo iniciou uma ação enérgica para encontrar esse culpado e, desse modo, livrar a cidade daquela praga. Até que, ao falar com o adivinho cego Tirésias, este lhe disse que o culpado era ele, que tinha cumprido o seu destino ao matar o pai e casar com a mãe. Devastado com esta tragédia, sem suportar encarar a realidade terrível da sua vida, Édipo cegou-se a si a mesmo pois a visão não o tinha impedido de anular o seu terrível destino e um cego tinha visto mais do que ele quando tinha olhos.

Algumas Pistas sobre os significados do Mito de Édipo

Esta história, como todos os mitos, tem muitas «camadas» de significados. Mas um dos mais evidentes – e interessantes- é  a metáfora da relação entre o destino e a liberdade humana. Os gregos   tinham uma noção pesada de destino, que viam como uma fatalidade perante a qual é inútil todo o esforço ou vontade humana de lhe escapar.  A história de Édipo é a história de um homem que quer escapar ao seu destino porque escolheu opor-se-lhe. Mas observamos que, quanto mais ele se esforçava para lhe escapar, mais na verdade se aproximava de o cumprir. A conclusão do mito, de acordo com a visão grega original é esta: não se pode escapar ao  destino, a vontade humana nada pode contra a «necessidade»  que nos restringe.
 
É claro que a cultura ocidental desenvolveu, depois dos gregos, a ideia de liberdade, que nos permite  pensar que somos autores do nosso destino, que podemos mudar, até certo ponto. Mas este mito «fala fundo» em cada um de nós porque,  nos cantos escondidos da nossa psique, continuamos a ser gregos em muitos aspetos.
 
Outro fator muito relevante deste mito tem a ver com a «cegueira» da inteligência perante as forças do destino que se joga contra nós.
 
Veja-se a capacidade de Édipo para desafiar a Esfinge, que venceu quando a inteligência racional estava em jogo: ele compreendeu   e respondeu sem hesitar aos enigmas da Esfinge, mostrando-se nisso superior a todos os outros que tinham enfrentado este ser até então e que pagaram com a vida a sua ignorância ou fragilidade  intelectual. Mas, com toda a sua inteligência, Édipo mostrou uma «cegueira total» em relação às forças que controlavam a sua vida e que ele não foi capaz de antever nem de evitar: por isso se cegou, simbolicamente, no final, porque a inteligência humana nada pode contra as forças maiores do destino. A inteligência dá-nos vaidade e capacidade de brilhar perante uma audiência, mas falha na compreensão  da realidade que comanda a nossa vida.
 
 
Sófocles, que dramatizou esta história na forma de uma tragédia, tentou, como homem religioso que era, chamar a atenção para a necessidade de sermos humildes em relação àquelas coisas que não conhecemos nem podemos controlar. Pretendia mostrar a necessidade de admitirmos que nem tudo pode ser «explicado» à luz da razão e que esta é motivo, muitas vezes, de uma vaidade que acaba por nos prender a um conjunto de ilusões: ilusões de poder, de domínio, que são cancelados quando nos confrontamos com situações decisivas da nossa vida que não escolhemos mas que nos acontecem e que não conseguimos evitar.
 
O homem moderno não tem o mesmo fatalismo que era visível na cultura grega antiga. Porque aprendeu a confiar em si próprio e sabe que nem tudo escapa ao poder humano de decisão. Mas talvez precise de reaprender os limites da sua liberdade pessoal porque, tenha ou não consciência deles, a verdade é que uma parte significativa da nossa vida não é escolhida: acontece-nos e temos que a aceitar. Sem fatalismo, e este é outro aspeto que é importante na história de Édipo: a revolta, a capacidade para «querer ser livre» pois a liberdade não aparece de mão beijada, é preciso conquistá-la. Édipo falhou no desejo de ser livre  e por isso o seu destino foi trágico. Mas hoje, a tragédia é esquecer que também temos uma palavra a dizer, naquilo que queremos que nos aconteça.