Planetas de Controlo Kármico

karm

Hoje falamos de um tema que atravessa a Astrologia Jyotish, embora nem sempre se fale dele de forma direta: a relação que alguns planetas têm com o «karma». Esta palavra significa «ação» mas, no contexto da Filosofia Védica na qual a Astrologia Jyotish surgiu, ela tem relação com o passado das ações humanas que se revela ativo na existência presente. Ou seja, a Astrologia Jyotish baseia-se na tese da reencarnação, segundo a qual a alma reencarna sucessivamente e enfrenta um contexto de existência que é  determinado pelo seu «karma».  Na investigação desta área da Astrologia, dois autores muito conhecidos nos meios metafísicos- Krishnamurti  e M. C. Jain- desempenharam um papel fundamental, sendo os fundadores de uma corrente da Astrologia Jyotish que é considerada como um sistema próprio nesta ampla e complexa área do saber.

Os aspetos que vamos referir em seguida são baseados no livro do autor R. S. Chillar, Horoscope Construction and Organisation, para cuja leitura remetemos o leitor mais curioso  e interessado por estes temas.  A partir do trabalho dos autores referidos no parágrafo anterior, Chillar revela que existem alguns graus dos signos e planetas  que desempenham um papel essencial na determinação dos eventos da nossa vida. Para os que trabalham com a Astrologia Horária- Prasna, estas referências são particularmente importantes pois o trânsito destes planetas ajuda a definir o momento da ocorrência de determinados eventos, com grande rigor. Tais planetas são considerados «planetas chave» do horóscopo, tendo o papel de efetuar um controlo kármico dos eventos, para o bem e para o mal, de acordo com a sua natureza e as configurações em que estão colocados no horóscopo. Krishnamurti chamava-lhes mesmo planetas regentes.

Estes planetas de controlo kármico são:

  • O regente do dia da semana (do dia de nascimento ou da semana referente a uma dada questão que é feita na Astrologia Horária).
  • O regente do signo onde está colocada a Lua.
  • O regente do signo Ascendente no nascimento.
  • O regente do Nakshatra que corresponde ao grau onde está colocado o Ascendente.
  • O regente do Nakshatra que corresponde ao grau onde está colocada a Lua.

Depois, alguns planetas podem também ser considerados «planetas de controlo kármico» : quando os nodos, Rahu e Ketu estão colocados no signo de um planeta de controlo kármico que está também colocado nesse signo em conjunção com eles, estes tornam-se também planetas de controlo kármico; os planetas colocados no Ascendente são todos considerados planetas kármicos; os planetas colocados em conjunção com a Lua são também considerados kármicos.

Há, no entanto, situações em que um planeta kármico não produz  resultados. Assim, na abordagem astrológica deste sistema, a primeira tarefa do astrólogo é encontrar e listar os planetas de controlo kármico no horóscopo. Depois, é avaliar a sua capacidade para produzir resultados, bons ou maus.

Capacidade dos Planetas de Controlo Kármico  para Produzir Resultados

Esterilidade dos planetas de controlo Kármico a colocação de um planeta kármico no antara* de um planeta que está retrógrado no nascimento ; a  colocação do planeta kármico no antara  de um planeta no  qual este  está debilitado- nestes casos o planeta kármico não «frutifica».

Considerações AdicionaisQuando Rahu e Ketu estão em conjunção com os planetas de controlo Kármico ou quando estão colocados nos signos dos planetas Kármicos, têm precedência em relação a estes e atuam como seus agentes; quando um planeta de controlo kármico está retrógrado mas está colocado no antara de um planeta de movimento direto, é capaz de produzir frutos (válido em primeiro lugar  para a Astrologia Horária) e tais frutos serão produzidos quando o planeta estiver em movimento direto; os planetas que estão colocados no Nakshtra que tem a regência de um planeta de controlo kármico dão os  resultados desse planeta mas não atuam como planetas de controlo Kármico.

Basicamente, podemos considerar que este sistema usa os períodos vimsottari dasha e as suas subdivisões e os trânsitos dos planetas de controlo kármico para prever eventos na vida das pessoas. Os graus dos signos onde estão colocados os planetas de controlo kármico são pontos sensíveis do horóscopo, que marcam o tempo dos eventos kármicos (positivos e negativos) da nossa vida: sempre que o Ascendente, o Sol, a Lua e Júpiter transitam por esses pontos, despoletam eventos significativos que podem assim ser previstos com rigor, o que se torna fundamental para a Astrologia Horária. O trânsito do Ascendente é essencial para indicar um evento num curto espaço de tempo; para um evento que ocorre no espaço de uns dias, usa-se o trânsito da Lua para indicar o dia em que acontecerá; para um evento que ocorre em alguns meses, é usado o trânsito do Sol e, para eventos que ocorrerão no espaço de um ano, usa-se o trânsito de Júpiter.

Este sistema, como referimos, combina as informações dadas pelo período dasha com os trânsitos dos planetas de controlo Kármico, para prever o tempo dos eventos significativos da vida da pessoa. Esta é, sem dúvida, uma abordagem a explorar e conhecer melhor, sobretudo quando desejamos compreender melhor a «fortuna» que nos cabe nesta vida e a «sorte» ou falta dela na nossa vida.

 Notas

*Um Antara é uma  divisão de um signo no contexto de um dasha: cada período dasha com regência de um planeta é por sua vez dividido num subperíodo (designado por bukti ou antara), cada um com 9 subciclos. Cada subciclo tem a regência de um planeta.

O leitor poderá encontrar facilmente os regentes do Nakshatra de todos os planetas e do Ascendente em qualquer software especializado em Astrologia Jyotish, nomeadamente no programa gratuito Jaganatha Hora.

Efeitos de Saturno na Carta Natal #2

 
Efeitos  de Saturno na Carta natal
O nome Shani com que a Astrologia Jyotish designa Saturno significa «aquele que se move lentamente». Saturno é o significador do tempo e o estruturador das formas no equilíbrio material.
O símbolo de saturno, uma cruz e um semicírculo, mostra a relação entre a matéria e o espírito representada por este planeta: a cruz mortal da matéria que sofre e aprende pelas experiências de limitação no mundo físico a discernir  a luz que dela se liberta  e se expande. Saturno representa a transformação alquímica da matéria negra mortal na luz brilhante da pedra filosofal.
 
Astronomicamente Saturno é um gigante cujo diâmetro é cerca de 9 vezes maior do que o da Terra.  Tem apenas cerca de 1/8 da densidade terrestre. Devido  ao seu tamanho, porém, a sua massa é cerca de 95 vezes a massa da terra.
Crê-se que o seu núcleo é composto por uma camada  profunda de hidrogénio metálico, uma camada intermédia de hidrogénio e hélio líquidos e uma camada exterior gasosa.  Possui 9 anéis,  formados por gelo e partículas de rocha e uma das suas luas, Titã, é um pouco maior do que Mercúrio.
Saturno leva apenas onze horas para dar uma volta completa em torno do seu eixo. Mas demora 29 anos, 167 dias e 5 horas a dar a volta ao Zodíaco. Permanece cerca de 2 anos e meio em cada signo, o que torna os seus trânsitos muito importantes pois fazem-se sentir durante muito tempo.
O nativo de Saturno é um «self made  man». A energia saturnina fá-lo enfrentar muitos obstáculos na vida, atrasos e frustrações.  A energia de Saturno obriga a pessoa a  trabalhar duro na vida. Normalmente, o sucesso aparece após os 30 anos, a maturidade do planeta  dá-se entre os 36 e os 39 anos, com o pico aos 36 anos.
Saturno governa os atrasos e a morte de todas as coisas na vida. Ele é o indicador  de coisas que, parecendo distintas, se relacionam com a sua simbologia: a longevidade, a miséria, a tristeza, a velhice, a morte, a disciplina, a restrição, a responsabilidade, os atrasos, a ambição, a liderança e a autoridade, a humildade, a integridade, a sabedoria nascida da experiência, o ascetismo, a negação, o despojamento, a espiritualidade, o trabalho árduo,  a organização, o tempo. Também representa a Terra e todos os objectos debaixo da Terra, como o carvão, os minérios, os tesouros escondidos, etc.
Saturno é um «professor» e, em parceria com Vénus, é o senhor da justiça. Mais especificamente, Saturno representa a justiça kármica ou Lei da Retribuição comportando-se como o juiz imparcial que recompensa ou castiga em resultado das acções humanas cujos efeitos são guardados na memória que Saturno torna  presente.
Quando está bem colocado na carta natal dá aos nativos integridade, sabedoria e espiritualidade, fama, paciência e perseverança, capacidade de liderança e de organização, autoridade reconhecida, vida longa, sinceridade e honestidade, amor pela justiça e sentido ético.
 
Quando está mal colocado traz miséria e tristeza, atrasos e obstruções, desapontamentos e dificuldades, disputas, falta de força ou vigor físico.
 
Saturno rege dois signos na  Astrologia Jyotish: Capricórnio e Aquário. Tem dignidade de exaltação no signo de Balança,  com o pico a 20º do signo, onde tem os seus melhores resultados. Também dá resultados bastante auspiciosos em Aquário, onde tem a dignidade de «mooltrikona» nos primeiros 20º do signo.
 
Fica debilitado no signo de Carneiro onde tem os seus  resultados mais adversos, especialmente a 20 º do signo, o pico da sua debilitação.
Dá  também resultados positivos  para os nativos com Ascendente nos signos de Vénus, Touro e Balança, especialmente neste último.  Apesar de Mercúrio ser uma energia «amiga» de Saturno, ele dá  resultados neutros  para os Ascendentes Gémeos e Virgem.
 
Quanto à sua posição nas casas do horóscopo, Saturno é forte especialmente na 7ª casa onde tem força direccional  e nas casas angulares, especialmente na 10ª mas, a amenos que se encontre nos próprios signos ou no signo de exaltação, nunca dá resultados totalmente benéficos. Em termos materiais  pode favorecer ganhos de riqueza  quando está colocado na 11ª casa, sobretudo se estiver em Balança.
 
Saturno é o significador natural da 6ª casa (doença, obstáculos); da 8ª (morte e longevidade); da 12ª( Perdas).
Existem dois  trânsitos de Saturno com importância muito relevante na vida das pessoas: Sadhe Sati,  um trânsito que dura 7 anos e meio, no qual Saturno transita sucessivamente pela 12ª casa, 1ª casa e 2ª casa a partir da Lua Natal. Este é um trânsito que ocorre de 30 em 30 anos e que geralmente é experienciado duas vezes e, para algumas pessoas, surge três vezes na vida.
Pode ser uma fase difícil da existência mas não é possível generalizar de forma rígida. Algumas pessoas atravessam uma fase de muitos obstáculos, perdas e frustração, mas outras encontram nesta fase oportunidades únicas. Saturno traz à superfície, nesta altura, o Karma da pessoa. Normalmente ocorrem transformações importantes em todas as áreas de vida embora especialmente nas matérias indicadas pela posição  de Saturno na carta natal, nas casas que ele aspeta e, naturalmente  também, de acordo com o período Dasha que estiver a decorrer.
 
Outro trânsito difícil de Saturno acontece quando ele transita pela 4ª casa e  pela 8ª casa  a partir da Lua natal. Neste caso o trânsito dura 2 anos e meio . No trânsito pela casa   a pessoa pode perder riqueza, fazer inimigos e sofrer ataques destes. Pode ainda enfrentar sofrimento e doença; na 4ª casa pode enfrentar  problemas  relacionados com  terras, propriedades, doença física e sentir infelicidade pessoal.
O trânsito de Saturno pelas casa 3, casa 6 e casa 11 a partir  da Lua natal é considerado geralmente mais favorável.
O dia correspondente a Saturno é o  Sábado; a cor é preto /azul; o metal é o chumbo; a pedra é a safira azul; a direcção correspondente é o Oeste; na Numerologia, rege o nº 8.

A Expressão do Karma no Horóscopo- Rahu , Ketu e Outros Planetas

 

A energia de Rahu  funciona no mundo material externo; a energia de Ketu  funciona no mundo psíquico e espiritual interno. 
Rahu  simboliza o percurso futuro da alma e, por isso, o novo karma que desenvolvemos na existência. Os planetas conjuntos com ambos são os meios privilegiados para exprimir essas experiências. Ketu exprime o Karma passado da alma que é posto em acção nesta vida através de Rahu para que este se transforme e permita o desenvolvimento da alma.
Ketu representa os talentos e competências desenvolvidas no passado e lida com essas competências  com o desafio de estabelecer um equilíbrio entre a inércia do já vivido e o dinamismo do que é preciso desenvolver. Por isso Ketu faz surgir a insatisfação perante essas expressões do passado  uma vez que devemos desenvolver as qualidades representadas por Rahu em vez de permitir que o Karma anterior se repita.
 
A Associação com Marte:
 
Conjunção entre Rahu e Marte Marte representa a força da vida no corpo. A sua energia é agressiva  e feroz, é uma energia de luta e combate.  A pessoa que tem esta combinação na sua carta natal experiencia múltiplas situações de stress  relativo ao uso da vontade pessoal e da força pessoal. Sentir-se-á impelida a envolver-se em lutas de poder de todos os tipos: as discussões, uma natureza impulsiva e hostil são prováveis
Esta pessoa através de tais  lutas está a desenvolver a coragem e a disciplina para se focar de modo organizado , aprendendo o controlo da vontade  e uma noção de poder  que não depende do modo como os outros a vêem
Conjunção de Ketu com Marte-Quando Ketu está associado a Marte a raiva e a agressividade deste é canalizada para o interior, transformada em determinação e vontade concentrada, uma vez que Ketu procura as qualidades espirituais da vida. Assim, esta combinação mostra uma pessoa muito competente no uso do seu poder pessoal. É alguém confrontado com a necessidade de reconhecer  todas as lutas externas como futilidades sem sentido.  
Estas pessoas podem explodir de vez em quando em situações de frustração , podendo também perder-se em lutas por causa  de princípios. Mas sempre que se envolvem nelas acabam a questionar-se a si próprias   se fizeram o que é correto. A sua aprendizagem implica aprender a controlar o impulso da agressividade, transformando a tendência para reagir de forma violenta e agressiva ao mundo exterior.
A Associação com Mercúrio:
 
Conjunção entre Rahu e Mercúrio-Esta combinação mostra uma pessoa que está a aprender competências relacionadas com a  informação. Trata-se de uma pessoa que  acredita que, se encontrar factos numerosos e se estudar muito, encontrará a resposta definitiva  para as  suas  dúvidas e questões. É claro que as suas dúvidas  geram incessantemente novas perguntas o que leva a frustração . 
Esta pessoa tem que aprender que, por mais que saibamos acerca do mundo, nunca sabemos tudo e, por isso, a resposta última e definitiva acerca do mundo está fora do nosso alcance. Rahu nesta posição leva a pessoa a explorar todas a suas competências mentais pelo que se considera ser uma assinatura de conhecimento um Jnana yoga (assinatura que permite o alcançar de elevados conhecimentos). É que a pessoa aprende a discernir com clareza cada ligação incorrecta no processo de conhecimento, o que lhe permite distinguir a verdade da ficção.
Conjunção entre Ketu e Mercúrio-  Esta combinação conduz a uma mente céptica  que duvida  dos conceitos adquiridos . Estas pessoas possuem as competências intelectuais altamente desenvolvidas. Simplesmente, ao invés de a pessoa se sentir triunfante com isso é levada, pela influência de Ketu, a notar os elementos  de conhecimento que lhe faltam, em vez dos que já tem. A pessoa procura então novas  formas de aprender que lhe tragam mais segurança do que a mente racional. 
 A experiência destas pessoas é aprender a desenvolver a intuição  para compreender que a mente racional se refugia em muitos conceitos e teorias que são  muitas vezes armadilhas que dão uma falsa ilusão de compreensão e são, por isso, paradigmas falsos da nossa segurança acerca do que acreditamos em relação ao mundo que pensamos conhecer.
A Associação com Júpiter
 
  Júpiter não é um planeta pessoal. Ele significa  sorte e  expansão, a procura dos valores e dos princípios  para a vida. A pessoa que tem esta combinação  exprime os significados de Júpiter de acordo com a posição   no horóscopo da conjunção.
  A conjunção com Rahu pode conduzir a procurar com paixão e idealismo a melhoria das condições  de vida da sociedade, envolver-se em causas humanitárias etc. Esta combinação tanto pode  descrever o  activista político que procura alterar as leis e melhorar as condições de vida da sociedade e que luta pelos direitos humanos, como o fundamentalista que desenvolveu na sua cabeça um ideal acerca da realidade social e deseja impô-lo por acreditar que é o mais verdadeiro. 
Mas a pessoa sente-se imbuída de um sentido de missão que ultrapassa a esfera da sua vida individual. Também pode encontrar-se em indivíduos auto- indulgentes pois o significado de expansão de Júpiter fortalecido por Rahu pode levar a todo o tipo de excessos  que serão mostrados pela natureza da casa do horóscopo onde se encontra . 
Ketu em conjunção com Júpiter pode levar à negação  e crítica dos princípios estabelecidos, dos  rituais religiosos ou outros, levando a pessoa a  considerar que são meras manifestações externas e, por isso, de pouco valor.  A pessoa pode tornar-se descrente em relação à religião ou a outros princípios que se apresentem como «verdadeiros».
 Ketu leva a questionar as nossas crenças, sejam elas de natureza religiosa , filosófica ou outra. A sua função consiste em pôr em causa todos os dogmas que sejam aceites sem crítica, desmontando-os  e mostrando o seu carácter relativo.  Dessa forma liberta a pessoa da rigidez da sua visão do mundo permitindo-lhe compreender que nenhuma verdade absoluta  está presente em  qualquer  forma de pensar ou  de explicar  o mundo.
A associação com Saturno
 
Conjunção entre Saturno e Rahu-  astrologicamente, Saturno e Rahu são considerados idênticos em natureza, são formas de energia semelhantes e actuam de modo semelhante. Deste modo, pode-se compreender que uma «dupla dose» desta energia pode ser bastante complicada de experienciar
Saturno atrasa, reprime, restringe. Leva  ao fracasso e à destruição. É também um disciplinador, um estruturador. Por sua vez, Rahu deseja intensamente tudo o que Saturno, podendo dar, quer destruir: riqueza, poder material. 
Saturno  frustra os desejos intensos e obsessivos de Rahu esfriando o seu entusiasmo e obrigando à  disciplina e à estabilização da energia imatura de Rahu. Saturno  destrói a casa onde se encontra Rahu matando os seus desejos e apressando a sua reconversão na energia representada por Ketu. A pessoa precisa de aprender com esta combinação a disciplinar os seus desejos e obsessões, a superar a  imaturidade e impulsividade com que o  eu se lança no mundo.
Ketu em conjunção com SaturnoTrata-se de uma pessoa que é, em essência, um asceta. Alguém com uma longa prática de controlo emocional  ou habituada a uma vida de rígida disciplina , na qual as regras se tornaram tão dominantes que a pessoa ficou reduzida à expressão da sua exterioridade.
 Esta pessoa precisa de aprender a pôr de lado muitas das estruturas que sempre julgou  serem seguras e indiscutíveis para, dessa forma, reaprender  a viver de modo espontâneo e sem controlo prévio de todos os seus gestos. Saturno nesta combinação sofre a erosão das suas estruturas a partir da actividade crítica  de ketu. E a pessoa consegue recuperar  o seu dinamismo interior que não lhe dá certezas prévias mas permite-lhe saborear a vida outra vez.

O significado da Lua no Horóscopo Natal



A posição da Lua no momento do nascimento determina, na astrologia Jyotish, o nosso «signo de nascimento». Esta designação, que, na Astrologia Ocidental , é atribuída à posição do sol natal, mostra deste modo uma característica  específica da  Jyotish em que o papel de maior relevo astrológico é atribuído à Lua e não ao Sol.
 E a razão desta «preferência» da Lua em vez do Sol  como primeiro factor de importância astrológica é  explicada por causa do impacto da Lua na determinação dos eventos concretos da nossa vida: o impacto do sol e dos outros planetas faz-se sentir  através da  lua no horóscopo. A Lua é a energia mais próxima de nós e a mais directamente influenciadora dos eventos e qualquer trânsito planetário ou assinatura astrológica  só é efectivo se tiver o  apoio da energia lunar para se  poder concretizar na nossa vida.
 Em termos da dinâmica planetária, a Lua forma um par com o Sol: este representa o princípio yang ou polaridade  positiva, a Lua representa o princípio Yin, a  polaridade  negativa.
O sol   representa a fonte da energia de vida do sistema solar;  a Lua representa a recepção dessa  energia, que dirige  para a Terra: ela é por isso a clara expressão da encarnação material da energia do Sol  ou da descida da alma até à matéria.
A Lua é, deste modo, o princípio de materialização das energias cósmicas de vida e, por causa disso, também se associa ao conceito de duração e dos ciclos da vida- toda a vida que se materializa  no tempo está destinada a ser moldada por ciclos que incluem  o nascimento e a morte. 
A Lua é o corpo celeste mais próximo da Terra,  distanciando-se menos  de 500 000 km  da Terra no ponto mais afastado da sua órbita. Desde épocas muito recuadas, as suas diversas fases foram observadas bem como o seu impacto na vida dos seres vivos do nosso planeta. 
Outro  factor observado   pelas mais antigas culturas foi o ciclo lunar de 27.32 dias , análogo  do ciclo mensal feminino, pelo que a Lua desde sempre foi associada à fertilidade e à mãe.
A Lua recebe em si a luz solar e dirige-a especificamente para a Terra. Como não tem luz própria, a sua capacidade para produzir efeitos bons ou maus depende dos planetas com que está associada. 
No sistema astrológico Jyotish , para além dos 12 signos são consideradas 27  subdivisões do Zodíaco, coincidentes com os signos, designadas por Nakshatras ou «Mansões Lunares». A Lua passa cerca de um dia em cada Nakshatra  e este é uma influência importante na caracterização da personalidade e do destino do Nativo.
A  importância atribuída à Lua deve-se,  deste modo, não apenas ao facto da sua proximidade espacial em relação à Terra mas ao reconhecimento da sua influência marcante em todos os aspectos da vida da Terra:
A Lua liga-nos à energia solar cujos raios sustentam, não apenas o nosso planeta mas todo o sistema solar. É também a Lua que filtra a energia dos restantes planetas dirigindo-a para a Terra. Ela é o receptáculo das diversas energias cósmicas trazendo-as para a Terra.
A Lua  tem um laço privilegiado com a Terra, ela mediatiza a energia solar tornando-a  capaz de gerar e nutrir a vida terrestre. Essa é a razão pela qual os trânsitos dos planetas são analisados, na Astrologia Jyotish, a partir da posição da Lua no horóscopo individual.
 
A qualidade de nutridora de vida levou os antigos a considerá-la  «nascida da água» pois  este elemento é a base essencial de todas as formas vivas e a Lua rege este elemento.  Também rege o reino vegetal.  A Lua  é assim a mãe que alimenta e protege. 
Ao mesmo tempo mostra os aspectos em que somos mais frágeis e podemos ser magoados pois ela relaciona-se com a vida encarnada  na Terra  e com o psiquismo que a anima neste mundo físico. É a   Lua que relaciona a matéria do corpo e do mundo físico com as percepções da mente e com as emoções  constituindo um plano  intermédio entre o corpo e o espírito-  a dimensão  da psique  que inclui a consciência perceptiva, a memória, o inconsciente/subconsciente.
Deste modo, a Lua  desempenha um papel fundamental na definição da nossa personalidade e do nosso carácter pois é através das suas percepções e tendências  que criamos uma maneira pessoal de responder aos estímulos do mundo;
O signo da Lua influencia o modo como cada um de nós  vê o mundo. Representa o nosso padrão básico de reacção- o nosso comportamento instintivo. Ela mostra  o modo como   lidamos com as nossas necessidades emocionais.
A Lua representa a mãe, energia sustentadora e preservadora da vida. Representa a paz mental, o conforto, o bem estar geral.  Na vida de cada  pessoa, a energia lunar faz sentir o pico da sua influência entre os 24 e os 25 anos de vida. Dá um sentido de propósito, uma natureza intuitiva e influencia a sorte ou a fortuna do nativo.
A Lua associa-se aos nossos humores, tornando-nos muitas vezes mal humorados, emocionais e sensitivos.  Se uma pessoa  tem a Lua mal colocada ou recebendo aspectos adversos,o sucesso tarda a chegar ou não aparece. E o período da  infância pode ser difícil, com fraqueza  geral e tendência para adoecer.
Na Astrologia Jyotish  é por tudo isto que a Lua tem o papel mais importante: é com base no signo da Lua que se escolhe  o nome de uma criança, tendo em conta o pada do Nakshtra onde a Lua está localizada no momento do nascimento; é com base no signo da Lua que se determina a compatibilidade entre parceiros, tendo em vista o casamento, na tradição Hindu; é com base no signo da Lua que, de acordo com o Nakshatra que esta ocupa no momento do nascimento, se determina a sequência dos períodos planetários (que começam com o regente do Nakshatra lunar) na vida do nativo.
 
A lua em trânsito também é fundamental, a partir da sua posição por signo/casa, para determinar a manifestação dos eventos na nossa vida.  Os trânsitos da Lua também permitem diagnosticar o humor geral da pessoa num certo momento.
A Lua revela a nossa mente, emoções e bem estar geral. Também mostra o crescimento do nativo na primeira infância, relaciona-se com o instinto, a memória, o humor, os desejos, a necessidade de segurança, o ambiente próximo ou doméstico, a dimensão privada e não directamente acessível aos outros. 
A posição da Lua no horóscopo natal indica as tendências e padrões emocionais e mentais. A sua posição por signo indica o carácter, as áreas de interesse que temos na vida as nossas inclinações e paixões. 
As fases da Lua no momento do nascimento também são uma indicação importante de características  psicológicas e de tendências acerca do desenvolvimento da interação da pessoa com o mundo: 
Uma Lua que está a afastar-se do ponto de mínima visibilidade (Lua Nova) para se dirigir para o ponto de máxima visibilidade (Lua cheia)  tem a designação de «Lua Crescente»  e é uma Lua que está cheia da energia Solar para distribuir no mundo. Deste modo, quanto  o nascimento se dá  nesta fase e quanto mais próximo da Lua cheia, maior será a visibilidade da pessoa  no mundo  e mais   será notada pelos outros. Estes nativos são habitualmente extrovertidos e confiantes e  procuram uma posição de destaque na vida social e no mundo exterior em geral.
 
A Lua na fase seguinte de afastamento do ponto de Lua cheia até chegar  ao ponto de  Lua nova, em que a Luz do Sol momentaneamente desaparecerá na escuridão- «Lua Minguante» indica uma introversão e mergulho na subjectividade. Estes nativos são geralmente introvertidos e têm mais dificuldade em fazer-se notar no mundo exterior. Esta posição da Lua no horóscopo indica a necessidade de o nativo se focar  na  interioridade, desenvolvendo o  mundo interior, mais do que se projectar  no mundo exterior. Esta fase da Lua  é considerada «semi-maléfica » por não favorecer o sucesso material no mundo externo.
Na análise dos trânsitos, a   fase  crescente da Lua é considerada necessária para iniciar novos projectos, para actividades que exijam expansão e crescimento no mundo externo; a fase minguante é considerada inauspiciosa para as actividades referidas. Apenas favorece a reflexão e o acabamento de tarefas anteriormente iniciadas. 
O respeito pelos ritmos lunares é levado muito a sério na Astrologia Jyotish que  integra o homem nos ritmos naturais  considerando que  essa harmonização é o ponto de partida  para  maior sucesso e bem estar geral  dos indivíduos.
A pedra associada à Lua é a Pérola. O metal é a prata e o nº é o 2.

Efeitos de Rahu e Ketu no horóscopo #2


No Lal Kitab, método de previsões de origem persa  seguido por muitos astrólogos védicos, estabelece-se uma relação  indissociável  entre os nodos Rahu e Ketu e Saturno, mostrando dessa forma a intrincada relação destes factores astrológicos  com a questão do Karma.
Saturno é aqui descrito com uma serpente cuja cabeça (boca) é Rahu Ketu é a sua cauda. Esta abordagem defende que, quando Ketu  está colocado no horóscopo em posição anterior à de  Saturno, este  comporta-se como grande benéfico para o nativo; mas, se  Saturno está colocado depois de Ketu  comporta-se de forma «venenosa» na sua vida. 
A colocação de Rahu e Ketu na carta natal indica uma polaridade entre duas áreas da vida da pessoa,e uma dualidade entre os tipos de experiência significados por essas casas do horóscopo.
Para compreendermos, no entanto,  o significado de Rahu/Ketu na carta natal precisamos de esclarecer os pressupostos da sua interpretação se. Como referido já por mim em diversas mensagens anteriores  a Astrologia Jyotish enraíza-se na Filosofia Védica e nos seus pressupostos. 
Um desses pressupostos é a tese da reincarnação que considera  cada existência  como  uma jornada nova da alma que se reinicia de acordo com um Karma passado. Como tal, continua um processo anterior de desenvolvimento  (simbolizado por Ketu), e começa um percurso de desenvolvimento de novas experiências e competências (simbolizado por Rahu).
 
Aquilo que Rahu e Ketu  significam na carta natal é, deste modo ,uma dualidade tensional entre o passado de uma entidade e o seu futuro  como um novo  conjunto de possibilidades de ser.
 Esta polaridade indica, não apenas o foco do «destino» na existência, mas também uma tensão entre experiências passadas (Ketu), numa área de vida bem desenvolvida anteriormente e para a qual a pessoa possui competências afinadas; 
E uma outra, (Rahu) na qual a pessoa desenvolve intensos desejos e obsessões relativamente aos assuntos significados pela casa da colocação de Rahu e para a qual  necessita de  desenvolver novas competências.
Onde quer que se encontre na carta natal, Rahu indica o principal foco de vida da pessoa,aquela área onde o indivíduo  se move com intensos  desejos que  dão força às suas ambições. O  desafio nesta existência será o de encontrar um equilíbrio entre as experiências simbolizadas por Rahu e a área de vida oposta  representada por Ketu. 
Enquanto Rahu gera incessantemente desejos em relação a alguma área do mundo material, levando a pessoa a esforçar-se por atingir o objecto do seu desejo, Ketu envolve-se no mundo espiritual   gerando o sentimento de renúncia e insatisfação em relação ao mundo material e, muitas vezes, privando-nos daquilo que Rahu  nos dá.
Rahu e Ketu são ambos necessários no processo de desenvolvimento da alma: Rahu representa o nosso ego encorajando-nos a procurar o sucesso ,a gratificação e o poder numa determinada área da vida. Mobiliza a mente subconsciente e actua no seu âmbito impulsionando – nos, muitas vezes com sentimentos de auto-ilusão, a acreditar que tudo é possível e está ao nosso alcance.
Rahu é o «planeta» do sucesso material e dá riqueza e ganhos materiais numa determinada área quando está forte e bem colocado.
Enquanto Rahu está focado nos assuntos materiais terrestres, Ketu  traz à superfície conhecimentos prévios que são pertinentes para, na vida presente, aprendermos a desligarnos de todos os pontos de estagnação emocional que impedem  a libertação da alma.
  Pela influência  de Ketu somos instados a ir além do   raciocínio intelectual, a  acolher a intuição e a confiar na fé interior que nos permite libertar as energias subconscientes desbloqueando os nós emocionais que nos prendem  em cápsulas  paradas no tempo.
Ketu pode causar bloqueios e sofrimento nas nossas vidas, privando-nos do que mais desejamos para nos obrigar a libertar do mundo material. 
Simbolicamente, Ketu representa a alma que apreende a essência das  coisas  mas permanece em eterna insatisfação  que não pode ser superada  no mundo material.  Seca toda a alegria mundana em tudo o que toca, incluindo os objetos com que Rahu está obcecado,  mostrados pela sua  colocação por casa e por signo.  Ele representa a nossa capacidade de conhecer sem a mente pensante.
A colocação de Rahu  nas casas angulares (1,7, 4,10)  e nas casas 5ª e 9ªbons resultados quanto aos ganhos materiais, quando está forte, trazendo felicidade momentânea, aquisição de riqueza e uma posição poderosa. Mas os seus efeitos nunca são completamente positivos. São acompanhados de ansiedade e de tensão que obrigam a pessoa a virar-se para o significados de Ketu e este, com o seu sentimento se insatisfação,  de falta, acaba por  nos levar a  procurar a verdade que subjaz para lá das ilusões materiais.
Muitos astrólogos consideram que as energias de Rahu e Ketu são as mais fortes da carta natal porque revelam  onde é  que  actuam  as principais forças associadas aos desejos Kármicos  sendo por isso poderosos indicadores do destino pessoal.
A dialética entre o desejo insaciável de Rahu e a dúvida, crítica e insatisfação de Ketu  é a forma pela qual a alma aprende as suas lições nos assuntos simbolizados pela casa e signo em que este está situado. A localização dos nodos e os seus trânsitos  indicam as áreas de maior transformação das nossas vidas.
Rahu simboliza a força do desejo que nos traz para o mundo físico; Ketu  retira-nos dele impulsionando-nos para o mundo espiritual. Deste modo, ambos significam os ciclos de nascimento e morte no mundo físico.
Rahu pode trazer muita riqueza e poder no mundo material mas esta vem sempre com um preço : a satisfação dos nossos desejos com Rahu é sempre acompanhada  de alguma tristeza ou insatisfação, que nos priva de uma alegria duradoura.
Rahu e Ketu magnificam  as energias dos planetas que se associam a eles, e assumem   as suas características.  Os seus efeitos no horóscopo são visíveis nas casas que ocupam; nas casas ocupadas pelos planetas seus dispositores; na natureza dos planetas que estão conjuntos com eles e nas casas do horóscopo que estes regem; nos dispositores do Nakshatra dos nodos. A análise destes factores da carta natal mostra o destino da alma.
(Continua)

Rahu e Ketu – O Eixo do Destino no Horóscopo


Rahu e Ketu –  Os nodos do Destino
A combinação das interacções energéticas dos planetas no momento e no local em que nascemos é a matriz da existência individual nesta Terra. A carta astrológica mostra a nossa personalidade, o tipo de experiências e de relacionamentos  que iremos ter; as linhas gerais da  carreira,  da estrutura familiar, os  aspectos financeiros e o sucesso material,  a saúde. Ela é a expressão do nosso destino potencial.
Essa matriz é determinada por aquilo a que a filosofia Védica chama Karma.  E, para conhecermos os momentos em que os eventos kármicos da nossa vida acontecerão, a Astrologia Védica/Jyotish utiliza uma metodologia específica – os períodos planetários Vimsottari Dasa – e  também  os trânsitos dos planetas.
Na revelação desses períodos, Rahu e Ketu desempenham um papel  fundamental, tanto ao nível dos seus trânsitos como dos seus períodos Dasa.
Rahu e Ketu não são planetas  uma vez que não correspondem a nenhum objecto com massa, são antes áreas de poderosa  energia, correspondente aos pontos de intersecção entre as órbitas da Terra e da Lua. Os dois pontos de intersecção dessas órbitas correspondem a uma perturbação electromagnética  poderosa que tem efeitos marcantes na determinação do «destino». 
A Astrologia chama a esses pontos de intersecção «nodos»: um nodo norte, que recebe o nome de Rahu e um nodo Sul que recebe o nome de Ketu. Eles permanecem sempre em oposição de 180º e, na Astrologia Védica, formam o eixo Kármico dos eventos que serão enfrentados nesta vida. Indicam as áreas da nossa vida que serão o centro ou o foco desses eventos kármicos. Reenviam, deste modo, para o passado que emerge no presente.  Em concordância com isto, Rahu/Ketu têm sempre movimento retrógrado.
Mitologia e Significado Simbólico de Rahu/Ketu
Segundo a Mitologia Hindu  no início dos tempos houve uma batalha terrível entre os deuses e os demónios.  Como a batalha nunca mais se decidia a favor de nenhuma das partes, Vishnu decidiu juntar todos os oponentes. Conjugando esforços, conseguiram extrair o néctar da imortalidade (Amrit) do fundo do mar.

 

Quando  os deuses e os demónios se sentaram, cada grupo em local separado, para receber a sua parte do néctar, Vishnu, mestre do disfarce, disfarçou-se  de uma bela donzela e, sem que os demónios se apercebessem do que sucedia ( por estarem encantados a olhar para ela) deu o néctar  a beber aos deuses.
Rahu, um dos demónios, apercebeu-se do embuste e, disfarçando-se ele próprio de deus, conseguiu beber o néctar da imortalidade. Surya(Sol) e Chandra (Lua) aperceberam-se do logro e denunciaram-no.
De imediato, Vishnu cortou a cabeça de Rahu mas era tarde: este bebera Amrit e tinha-se tornado imortal. A partir de então, Rahu separou-se em duas partes, tendo a sua cabeça mantido o nome de Rahu e a metade inferior recebeu o nome de Ketu. Os dois  estão condenados a permanecer opostos um ao outro para sempre.
A história diz ainda que, desde então, Rahu e ketu são inimigos eternos do Sol e da Lua. Rahu não perde uma ocasião para «devorar» o Sol e a Lua, dando origem aos eclipses solares e lunares.
Esta história  permite-nos entender alguns aspectos interessantes: o primeiro é que, no dualismo  entre o espírito e a matéria, estava pressuposto que estes não estavam destinados a misturar-se nem a ligar-se: os seres espirituais pretendiam reservar a exclusividade da imortalidade para si próprios;
Em segundo lugar, os menos favorecidos, os «não-deuses» em que se incluía Rahu não se conformaram com esta pretensão e lutaram pelo seu direito à imortalidade. Rahu conseguiu aceder-lhe e, segundo o mito, Vishnu acabou por conceder-lhe e a Ketu, a dignidade de deidades planetárias . 
Porém,  ao ficar dividido em duas partes,  Rahu/Ketu ficou condenado para sempre a lutar com a dualidade matéria /espírito no âmago do seu ser: metade do seu ser deseja terrivelmente o mundo material e fica obcecada com ele- Rahu;
A outra  metade permanece eternamente insatisfeita com o mundo material e anseia por libertar-se dele, fazendo com que nenhum objecto, acção ou sentimento relacionado com o mundo material atinja alguma vez a  da concretização verdadeira felicidade e  da auto-realização.
Rahu é uma cabeça sem corpo. Sem corpo físico, fica obcecado com tudo aquilo com que contacta. Essas obsessões atuam ao nível da mente subconsciente. Ele distorce as percepções , vê todas  as coisas através dos intensos desejos . Fixa-se na aparência  material das coisas, não deixando ver a real essência destas. 

 

Rahu representa  os nossos desejos materiais mais profundos e irracionais,  manipulando muitas vezes  o nosso ego com mil ilusões pelas quais mascara a verdadeira natureza  dos desejos.
Num nível mais profundo Rahu impele-nos, por força do nosso Karma, a desejar intensamente tudo o que precisamos de aprender nesta existência.  Como ensina a Filosofia dos Vedas, a encarnação  da alma no mundo físico tem um propósito de aprendizagem e Rahu impele-nos para  o desejo de experienciar o que mais precisamos de aprender.  
experiências que apenas aprendemos no mundo físico e através de um corpo físico.  Os desejos intensos de Rahu mostram a área da nossa vida onde existe um desequilíbrio que é preciso superar. Por isso cria esse estado de  concentração e de desejo nessa área da vida. Mas, se nos libertamos desse desejo através da expressão de Ketu, podemos atingir um estado de iluminação interior e  de evolução espiritual.
Enquanto Rahu deseja expandir-se no mundo material,  Ketu anseia por refugiar-se e retirar-se do mundo material ,sente  uma insatisfação e irrequietude permanente que apenas se dá conta daquilo  que lhe falta, projectando a sua percepção de vazio em todas as realizações mundanas de Rahu de tal modo que todos os sucessos no mundo material acabam por se esgotar numa sensação de vazio e  revelar-se como uma ilusão. Ketu  destrói  o prazer pelas posses materiais, mostrando  o seu carácter ilusório e o vazio em que se transformam.

O eixo das casas em que Rahu e Ketu estão colocados dá-nos pistas importantes  acerca do propósito de vida da pessoa Mas a energia de  Rahu  pode  finalmente abandonar o desejo pelo mundo material. Nesse momento  dá-se a conversão da sua energia e  esta, associada à energia Kundalini , sobe do Chacra da Raiz  para se juntar a Ketu no Chacra da Coroa, num processo de iluminação espiritual.

(Continua)

O Planeta Saturno no Horóscopo #1


Saturno,  grande maléfico ou  libertador?
Saturno é considerado  como o «grande maléfico» na Astrologia. A sua energia  está associada com restrições, dor, sofrimento, limitação, escuridão e morte.
Arquetipicamente, Saturno representa o mundo material na sua forma, estrutura e  duração: ele é o princípio estruturador do mundo finito que começa com a criação do espaço e do tempo e se desenvolve em múltiplas formas que têm uma duração determinada.
Saturno representa  a cristalização da vida nas muitas  formas da matéria, vida finita, destinada a durar um certo tempo e então  perecer.  Por isso a sua conotação mais sombria é a da figura escura da morte que ceifa sempre inexoravelmente  as formas de vida entretanto criadas. 
Os significados de Saturno são muito complexos. Ele representa, por um lado, a  materialização na forma da centelha da vida que, deste modo, fica petrificada numa exangue falta de esperança  qual prisioneiro condenado. Mas  é também, por outro lado,  o símbolo da libertação  desse destino  de cristalização, mostrando que há uma forma de escapar ao mundo sombrio da morte: esse caminho é o do asceta, o daquele que, no âmago mais escuro da sua alma perdida, reencontra finalmente a sua centelha de luz.
A descida da vida ao plano da matéria é uma maldição e um encantamento: a alma escravizada no mundo material e submetida aos infindáveis desejos de sucesso,  fama e  poder neste mundo  esquece-se de si  ao fundir-se com a  sombra das ambições mundanas.
 E esta perdição  que é um auto- encantamento  pela miragem das riquezas do mundo só pode ser superada através do esforço próprio e da disciplina que remove os múltiplos espelhos do mundo para se recuperar na interioridade simples    de um eu que aspira à verdade e à  simplicidade da sua vida essencial
Na reconversão doolhar cada indivíduo vislumbra no seu âmago a centelha de luz que aspira a mais do que os prazeres e o poder deste mundo, aspira a libertar-se  e a ser livre outra vez.
Saturno simboliza, deste modo, a noite alquímica da alma , a «descida aos infernos», a experiência dos limites a que o mundo material pode descer nas suas ambições e desejo de poder para, numa súbita inversão descobrir que a identidade é mais do que o ter e o possuir, é querer ser mais do que isso. 
 Saturno representa  o caminho duro e disciplinado que temos que fazer para nos libertarmos da fascinação do mundo material. O asceta é aquele que compreende a dependência  em relação ao mundo  material e cultiva a disciplina para recuperar uma dimensão mais  verdadeira do seu ser.
E o carvão, o negrume que Saturno simboliza, começa então, lenta e intensamentea transmutar-se pelas experiências dolorosas da vida, na  pureza  simples do diamante. Nesta«obra ao negro», Saturno simboliza o esgotar de todas as emoções e desejos humanos relacionados com o mundo material  e a aprendizagem de como todas elas são vãs sem o desenvolvimento interior que acaba por dissolver as estruturas materiais nas quais apoiávamos a nossa vida.
Referências Mitológicas de Saturno
Existem várias histórias acerca de Saturno. O Linga Purana diz que Saturno é filho da divindade solar  Rudra. O Markandeya Purana conta a história mais divulgada  segundo a qual  Saturno é filho de surya (sol) e da sua esposa Chaya (sombra).  A história conta que, durante o nascimento de Saturno,  Surya passou mal  devido à influência  do aspecto causado por Saturno  e que, desde então, ambos têm relações tensa.(em alusão à oposição de funções da energia e ambos).
No Brahma Purana refere-se  a profunda  devoção de Saturno  por Krishna. O sol, seu pai, vendo essa devoção, resolveu casá-lo com a filha de Chitra, que era extremamente forte e poderosa.  
Num certo momento a esposa de Saturno desejou ter um filho e expressou esse desejo a  seu marido mas este, embevecido com a sua meditação a Krishna, esqueceu-se dela e ignorou o seu pedido. Zangada, ela lançou sobre  o marido, Saturno, a maldição de que, doravante, todos os que olhassem para ele seriam destruídos. O casal acabou por se reconciliar mas a maldição continuou irrevogável, pelo que Saturno passou a  desviar o olhar de todos os que se cruzavam com ele para evitar   a sua destruição. Este simbolismo é bem claro em termos astrológicos pois as casas do horóscopo para as quais Saturno lança o seu aspecto veem destruídos os seus significados (3ª, 7ª e 10ª casas a partir de si próprio). 
Krishna é uma reincarnação de Vishnu  o preservador , representando, na tríade divina (com Brahma- o criador  e Shiva- o destruidor), o papel de manter e preservar. O mito aponta, deste modo , pela associação entre Saturno e Krishna, para a função  saturnina de construir  formas para manter a vida nos seus limites. Na mitologia Hindu a dissolução nunca é um fim em si mesma, Shiva, o Destruidor, dissolve para recriar a espiral infinita da vida.
A função complexa, representada por Saturno, de libertação em relação à matéria, aparece no mito associada a uma «maldição.» Mas Saturno representa  a libertação da cruz da morte material pelo esforço individual, pelo mérito do homem que se quer transcender a si próprio e que, nesse esforço gigantesco, conquista  a aspiração à imortalidade.
Uma  história  muito popular e repetida, fala de um rei poderoso  que, um dia, estando de mau humor, insultou Saturno. Este, que  sobrevoava  o reino, naquele momento, voando no seu abutre, ouviu-o  e,  de imediato, sentenciou o rei a passar por muitos obstáculos e experiências dolorosas, fazendo-o perder todas as suas posses e poder. 
 Após uma série de experiências extremamente  difíceis nas quais o rei  perdeu  tudo aquilo a que estava apegado, Saturno apareceu-lhe e mostrou misericórdia porque o rei tinha mostrado grande resistência  nas dificuldades e não se deixou vencer por elas . 
Para o recompensar, Saturno  perguntou-lhe qual era o seu maior desejo: o rei respondeu que o que ele  desejava era que mais  nenhum  ser humano  tivesse que enfrentar  tantos  obstáculos como aqueles  que ele tinha vivido. Agradado com a resposta do rei, Saturno devolveu-lhe tudo o que ele tinha  perdido  e ainda mais.
Esta história mostra o modo típico de actuação da energia de Saturno na nossa vida.