Reflexão de Fim de Semana Animais como Nós: o Corvo, um Sofisticado Fabricante e Utilizador de Ferramentas


O Corvo está associado ao folclore popular , a má sorte, a morte, etc., em muitos locais do mundo. Isto acontece não apenas devido às penas negras que o cobrem mas, também, segundo muitas pessoas, ao facto de o animal parecer ter uma sensibilidade especial que lhe permite detectar a morte de alguém malvado, várias pessoas  afirmam tê-los visto aglomerarem-se em redor de um local às centenas, quando acontece a morte de alguém com tais características.
Mito urbano ou realidade, a verdade é que o corvo, do mesmo  modo que outras espécies da família dos corvídeos, estão entre os animais mais espantosos em termos de capacidades cognitivas.
Os cientistas que se dedicam ao estudo da psicologia do comportamento animal afirmam que as espécies sociais são mais inteligentes do que as espécies solitárias, do mesmo modo que os animais com alimentação omnívora são mais inteligentes do que aqueles que têm uma alimentação especializada. Isto sucede porque a vida em sociedade exige muitas competências de compreensão e interpretação em relação aos sinais e comportamentos dos vários membros do grupo, bem como da posição de cada um nesse grupo e, por outro lado, os animais que são omnívoros são mais adaptáveis,  o seu programa genético depende mais da aprendizagem do que do instinto.
O corvo é um animal social e o seu cérebro é bastante grande comparativamente com o seu tamanho, comparando com o do chimpanzé. Aliás, estas duas espécies , de acordo com  os investigadores Nathan Emery e Nicola Clayton da universidade de Cambridge, têm uma inteligência semelhante.
Os corvos e os chimpanzés têm um pensamento complexo em relação ao seu ambiente físico e social. E, no que toca a fabricar e usar ferramentas, ocupam o segundo lugar, logo a seguir ao ser humano no mundo animal. 
Estudos do corvo da Nova Caledónia mostraram que esta ave usa dois tipos de ferramentas diferentes para procurar comida: usa  ganchos feitos com  galhos ramificados, que ajeita no tamanho e na largura conforme a necessidade  para retirar larvas de dentro de buracos nos troncos de árvores;  e usa folhas rígidas de árvores que  esculpe com o bico para fabricar instrumentos afiados , apropriados para procurar detritos de insectos e outros invertebrados.
Em cativeiro, o corvo da Nova Caledónia aprendeu a usar um arame direito, tendo feito um gancho para procurar comida. Estas capacidades, segundo os investigadores Emery e Clayton, são comparáveis às pequenas inovações tecnológicas humanas. Estas ferramentas são feitas com variações entre as populações de corvos, o que leva os investigadores a considerar que são uma forma de cultura que os pais transmitem aos filhos. Estas formas de cultura são constatadas e  aceites pelos investigadores que estudam os chimpanzés.
Quando necessitam de uma ferramenta para conseguir comida, os corvos examinam várias opções, antes de se decidirem sobre qual a mais apropriada para usarem numa dada situação após o que adaptam a ferramenta às necessidades específicas dessa situação.
Os corvos usam a memória de experiências passadas para planear acções futuras. Os que vivem nas cercanias das cidades memorizam as rotas da passagem dos carros do  lixo e o dia em que o deitam nos aterros.
Existem evidências de que sabem contar, havendo relatos de corvos que, perante grupos de caçadores, se escondem,  tendo consciência do número de homens envolvidos pois só saem do esconderijo quando todos eles tiverem abandonado o lugar e não o fazendo de, por exemplo um, permanece lá quando todos os outros foram embora. 
São conhecidas as  numerosas situações em que os corvos utilizam os sistemas de semáforos nas estradas das cidades como ferramenta adicional para partir nozes e crustáceos: colocam as nozes ou crustáceos na estrada e, quando o semáforo fica vermelho  para os automóveis , vão buscar a comida, agora acessível com as cascas partidas.
Num estudo publicado na revista Science em 2004, Clayton e Emery  afirmam que os corvos usam uma combinação de procedimentos mentais semelhantes aos usados pelos chimpanzés e gorilas e que inclui a imaginação e a capacidade de antecipar futuros eventos possíveis para resolver problemas semelhantes.
Os corvos são animais muito adaptáveis sendo capazes de se estabelecer com sucesso tanto nos meios rurais e quintas ou florestas como na cercania das cidades, sobretudo junto a cursos de água em zonas  não muito elevadas.
São omnívoros, comendo praticamente tudo o que encontram, desde insectos e pequenos animais (incluindo pequenos pássaros e as suas crias) a frutos e vegetais. Também comem carne de cadáveres e lixo. Os que vivem junto da costa também apanham crustáceos cuja casca partem recorrendo a estratégias como a referida acima. 
Estes animais têm comportamentos diferenciados conforme a altura do ano: na estação de reprodução, formam pequenos grupos familiares. Nidificam em árvores altas e macho e fêmea constroem o ninho em cerca de 8 a 14 dias. A fêmea incuba entre 4 e 5 ovos durante 18 dias. Ao fim de um mês os juvenis estão prontos a sair do ninho embora continuem a ser alimentados durante mais um mês. Uma coisa curiosa é que um ou mais dos juvenis que nasceram na estação anterior continuam no ninho e ajudam a alimentar a fêmea quando está a incubar os ovos e os juvenis após o nascimento destes desenvolvendo deste modo um comportamento de cooperação familiar. Os corvos acasalam para a vida.
No final do Verão , Outono e inverno os grupos familiares que têm normalmente entre 2 a 8/12 indivíduos percorrem vários quilómetros para se juntarem a outros grupos formando grandes comunidades que permanecem juntas à noite. Usam sentinelas para os avisarem do perigo quando se alimentam e cada ave empoleira-se para dormir habitualmente no mesmo ramo todas as noites. 
O homem, os mochos e os falcões são os principais predadores desta ave. Cerca de 50% dos juvenis morrem no primeiro ano de vida, muitas vezes devido a falta de alimento ou condições climatéricas adversas.  Os adultos vivem entre 6 e 10 anos. Apesar da sua curta vida, estas aves altamente inteligentes estão continuamente a observar e a aprender. Isto faz deles animais altamente bem sucedidos .
Neste planeta que homens e corvos habitam, o convívio nem sempre é fácil, mas  existe   lugar para ambas as espécies , respeitando la diversidade da vida e não obstante todos os mitos e superstições que rodeiam esta extraordinária espécie.

Animais como Nós- o Gato, Misterioso e Independente


Ao longo de milhares de anos- os gatos  (felix silvestres) foram domesticados por volta de 3700 a. c. – os seres humanos têm tido este animal como companheiro. O gato tem características diferentes dos cães. Estes são animais sociais por natureza, dependentes do contacto com os outros; os gatos, por sua vez, embora apreciem o contacto social, são animais muito  independentes e solitários por natureza, precisam de algum tempo  sozinhos.
No longo período em que a espécie humana tem convivido com os gatos, a espécie sofreu algumas mudanças, o que também se reflecte na inteligência do animal : o maior número de estímulos, a exploração dos espaços urbanos provavelmente aumentou a plasticidade cerebral destes animais e a capacidade para se adaptarem à mudança. Assim, observamos que o comportamento dos gatos é muito variável de acordo com o tipo de sociedade/cultura em que vivem, na interacção com os seres humanos.
Quanto ao comportamento, o gato é um animal que se exprime essencialmente através da linguagem corporal e das vocalizações. As suas vocalizações exprimem  significados diferentes :Contentamento, um pedido de ajuda, de comida ou de companhia, zanga, etc. Quando um gato está zangado, assustado ou agressivo, emite um «hiss» como aviso claro de que o que quer que seja que está a ameaça-lo, não deve aproximar-se mais. Um gato muito zangado ou muito assustado também pode gritar. 
Existem três tipos de sons exclusivos dos gatos: um que é uma espécie de gargalhada que soa como um riso  simultaneamente  alto e abafado, e que exprime uma saudação feliz; um outro que é uma espécie de vibração chilreante que o gato faz quando observa algum pássaro de fora da janela; e há o ronronar. Um gato feliz  e um gato extremamente nervoso ou stressado, ronronam alto, o  que leva os investigadores a pensar que esta expressão é uma espécie de reafirmação individual. 
Um outro elemento essencial na linguagem corporal do gato é a cauda: os movimentos da cauda contam o que o animal está a sentir – a cauda erecta indica uma saudação amiga ou um «segue-me», observada por exe., na mãe que segue à frente das crias; uma cauda que se movimenta como um chicote exprime agitação: ou zanga, ou excitação ou um comportamento de antecipação de alguma brincadeira ou caça; a cauda com o pelo levantado exprime medo; a cauda que se move em movimentos gentis exprime contentamento.
As orelhas do gato também são um bom indicador do que ele está a sentir: um gato na ofensiva ou curioso ou amigável tem as orelhas erectas e viradas para a frente; um gato na defensiva, ou submisso tem as orelhas viradas para trás.
Os olhos do gato também nos ajudam a compreender o seu estado mental: um gato feliz  tem os olhos bem abertos mas o mesmo acontece se estiver aterrorizado. Se o animal está relaxado e os olhos estão bem abertos o estado mental é neutro; se está relaxado e os olhos estão semi- cerrados, isso indica contentamento ou submissão.
As pupilas dos olhos também indicam o sentir do animal: pupilas dilatadas podem indicar medo enquanto  pupilas reduzidas  indicam sentimentos agressivos. Se o gato olha de modo directo e fixo isso indica habitualmente um enérgico «Sai da frente! Para trás!»
Para além destes sinais da linguagem corporal importante para os que interagem com o animal o poderem entender melhor, há outros aspectos do comportamento do gato em geral – cada raça tem algumas particularidades específicas- que também interessa compreender: 
Os gatos têm um comportamento que pode ser complicado para quem os tem em casa: a necessidade de fazerem movimentos «de amassar» com as patas dianteiras em que soltam as garras e as «afiam» em alguma superfície macia, alternando entre uma pata e outra. Acredita-se que se trata de um comportamento com origem no instinto de massajar as glândulas mamárias da mãe para aumentar a produção de leite . Mais tarde, mesmo quando já não estão nessa fase, mantêm o instinto. Um cobertor velho, ou qualquer coisa menos prejudicial do que um sofá ou o tapete da sala, talvez possa ser oferecido ao felino  para esse efeito com menos prejuízo material.
Os gatos têm um medo natural dos humanos por isso, devem ser socializados o mais cedo possível para evitar comportamentos agressivos e se habituarem a conviver com vários seres humanos. As primeiras 16 semanas de vida são cruciais para esta socialização.  Quando um gato é excessivamente tímido ou agressivo perante humanos que não conhece isso indica uma socialização deficiente do animal. 
Os gatos têm um instinto para «escapar» muito forte. Assim, nunca se deve cercar o animal, capturá-lo ou misturá-lo com outros animais desconhecidos pois isso gera nele um medo poderoso que o leva a procurar escapar. Gatos e cães ou vários gatos podem dar-se bem mas a socialização deve acontecer em simultâneo. Observam-se dificuldades quando os animais são introduzidos na família em momentos diferentes.
Quando numa casa existem dois gatos, por vezes um torna-se dominante, sobretudo se são fêmeas e pode ser difícil fazê-los conviver pacificamente. A existência de vários gatos na família gera uma dinâmica de hierarquização de posições sociais entre os animais que, se estes não conviverem juntos desde o início, pode causar algumas dificuldades adicionais.
Os gatos aprendem de modo diferente dos cães. Quando adquirem conhecimento, os gatos mantêm-no geralmente pela vida toda. Os gatos possuem excelente memória, guardando tanto informações positivas relacionadas com  comida ou brincadeira como com alguma coisa que consideraram ameaçadora. 
Na interacção com os humanos, osgatos aprendem a reconhecer os estímulos que significam coisas importantes para si próprios como o barulho de uma lata a  abrir-se (comida), a hora a que devem comer a sua refeição, etc. 

As experiências realizadas com gatos para testar as suas capacidades cognitivas indicam que este animal tem uma inteligência sensório- motora comparável à de uma criança de dois anos; possui uma grande capacidade de aprendizagem, através dos mecanismos de condicionamento operante explicados por Skinner, aprendendo por tentativa e erro. São capazes de se adaptar ao seu ambiente e de resolver problemas simples embora tenham dificuldade em reconhecer a relação de causa e efeito.

 Numa experiência de 2009, Edward Thorndike  colocou gatos numa situação em que estes tinham que puxar uma corda para obter uma guloseima. Quando havia apenas uma corda para puxar, os gatos não revelaram dificuldade em resolver o problema mas quando foram colocadas várias cordas e  apenas uma delas dava acesso à  recompensa os gatos ficaram confusos e não conseguiram perceber a relação causal entre uma coisa e a outra.

A memória de trabalho dos gatos é, no entanto surpreendentemente forte: conseguem lembrar-se de alguma tarefa para realizarem durante cerca de 16 horas. Quando adquirem algum conhecimento este mantém-se também, tendo sido observado quem 10 anos depois, o animal ainda consegue lembrar-se.
Os gatos podem ser treinados mas, ao contrário dos cães, não o fazem para agradar aos donos. Só é possível treiná-los se eles retirarem daí uma clara vantagem na aprendizagem.  Também se aborrecem com os treinos e ficam impacientes, sendo essa a razão pela qual é mais difícil treiná – los do que aos cães.
Quanto à alimentação, os gatos são carnívoros, podendo sobreviver sem vegetais;mas o inverso não é  verdadeiro:  eles não sobrevivem comendo só vegetais.
Os gatos são independentes e solitários por natureza. Mas adoram brincar. Por isso, se  você tem um deste animais em casa, dê-lhe brinquedos para ele se entreter quando está sozinho. Mas não se esqueça de que o gato, apesar da sua independência, também precisa de brincar consigo: brincar é uma actividade social e, para o animal, olhar para si como o  «companheiro de brincadeiras» é a melhor forma de socialização que lhe pode dar; isso fortalece os laços entre ambos e ajuda-o  aceitar outros seres humanos como «amigos» em vez de os ver como «predadores», facilitando as relações sociais e familiares.
O instinto de predação do gato é também bastante forte por isso é importante também que não deixe ao alcance do seu adorável gato nenhum pobre pássaro. Acredite, um gato pode ser amigo de um cão mas  querer a amizade entre um gato e um pássaro é como esperar que a água e o azeite um dia se misturem: nunca vai acontecer!

Animais como Nós, O Pombo, Humildemente Inteligente


 
 
Habituámo-nos a viver rodeados de pombos nas cidades e, de tanto os contemplarmos, acabamos por ignorar as extraordinárias capacidades desta ave que convive connosco desde que os Sumérios, na Mesopotâmia, domesticaram o pombo selvagem, há cerca de 3000 anos.
A extraordinária multiplicação dos pombos nas nossas cidades é a maior evidência da capacidade de prosperar tirando partido do meio construído pelo homem; são muitas vezes vistos como uma praga, mas isso mostra a sua inteligência para aproveitar as vantagens que colocamos ao seu dispor. 
Mas nós, seres humanos, também utilizamos muitas vezes estes animais e as suas capacidades para nosso benefício. Deste modo, ajudamo-nos mutuamente  e beneficiamos  de uma vida em conjunto. Na 1ª e 2ª guerras mundiais, os pombos salvaram muitas vidas,transportando mensagens; mas em tempos de paz também continuam a salvar vidas. A marinha utiliza as suas excelentes capacidades de aprendizagem e de visão para procurar pessoas com casacos reflectores vermelhos e amarelos a flutuar nas águas. Os pombos distinguem as cores como os humanos e têm a vantagem de ver ultravioletas e, para além disso, são mais  rápidos e cometem menos erros que os seres humanos quando fazem essa tarefa.
Pelas suas capacidades e empenho houve pombos condecorados em tempo de guerra.
Mas, para além disto, os pombos estão entre os animais mais inteligentes que se conhecem. As suas capacidades cognitivas têm sido objecto de vários estudos, sendo por isso bastante conhecidas.
Os pombos conseguem distinguir todas as letras do alfabeto e têm capacidade de conceptualização. A sua inteligência é comparável à de uma criança de 3 anos, superando em alguns aspectos a capacidade média de uma criança dessa idade.
O professor Srigeru Watanaba da universidade de Tóquio   fez uma experiência  que mostrou que os pombos conseguem distinguir uma imagem de si próprios gravada com um atraso de alguns segundo e a sua imagem actual. Isto prova que reconhecem a sua imagem ao espelho. Os pombos estão assim entre os poucos animais que passam no teste do espelho revelando que têm consciência de si próprios. Uma criança de três anos tem dificuldade em distinguir cognitivamente a diferença entre a sua imagem actual e a sua  imagem gravada com um atraso de 5 a 7 segundos.
Mas as suas capacidades vão mais além: se lhes derem comida por isso, conseguem distinguir duas pessoas diferentes em fotografias, possuem uma memória extraordinária, sendo capazes de recordar centenas de imagens individuais durante vários anos
Os investigadores  Watanaba , Sakamoto e Wakita da universidade de Tóquio conduziram uma experiência que ficou famosa em 1995, em que ficou claro que os pombos são capazes de distinguir entre uma pintura de Picasso e uma de Monet, entre um  quadro de Van Gogh e um  de Chagall.
As aves foram treinadas com um conjunto limitado de obras dos dois  pintores. Quando estavam perante um quadro de Picasso podiam obter comida através de bicadas repetidas. Mas quando se tratava de um quadro de Monet, as bicadas não produziam qualquer efeito. Após algum tempo, os pombos apenas bicavam quando tinham os quadros de Picasso à frente. Conseguiram generalizar  e discriminar os estilos  e características das obras dos dois pintores e, quando lhes colocavam quadros de cada um deles que eles nunca tinham visto antes, identificavam-nos correctamente.Outra coisa curiosa, se lhe mostrassem os quadros de Monet de cabeça para baixo eles deixavam de conseguir reconhecê-los mas o mesmo não acontecia com os de Picasso.
Num artigo que Watanaba escreveu posteriormente a estas  e outras experiências, defendeu que, se os pombos e os seres humanos receberem o mesmo treino o seu desempenho é comparável , por exemplo, na distinção entre um quadro de Van Gogh e de Chagall. Os pombos mostraram também distinguir entre pinturas impressionistas(de que Monet é um representante) e cubistas (De que Picasso é um representante). 
Os pombos possuem, além disto, a capacidade única de serem capazes de regressar a casa, não importa quão longe estejam, possuindo um sistema extraordinário de navegação.
No estado selvagem os pombos acasalam para a vida e têm geralmente cerca de 8 criações por ano, nascendo duas crias de cada vez que são alimentadas por ambos os progenitores durante os primeiros dois meses de vida. 
Heróis, animais de estimação, mensageiros, coabitantes connosco  nos espaços urbanos que colonizam com grande sucesso (com os problemas daí decorrentes) os pombos são uma presença que a maioria de nós acolhe com simpatia , embora nem sempre tenhamos consciência das suas extraordinárias capacidades. Este é sem dúvida um animal a redescobrir e a valorizar.

Animais como Nós – o Porco um Animal Extraordinário


Os porcos têm feito parte da alimentação humana desde há pelo menos 8000 anos desde que o porco do mato asiático foi domesticado.
Mas, apesar da  imagem não muito positiva que o folclore popular  tem deste animal, o porco é, na verdade, um dos animais  mais extraordinários e que , tanto em termos fisiológicos como comportamentais, é  muito semelhante  aos humanos. 
O genoma do porco mostra muitas características favoravelmente  comparáveis com as humanas; o coração do porco é semelhante ao nosso; o porco metaboliza as drogas de forma semelhante; e, tal como os humanos, os porcos, quando vivem em estado selvagem, são animais sociais, brincalhões, criam laços duradouros uns com os outros, gostam de se estender ao sol, sonham, exprimem diferenças de personalidade ;
Os porcos comunicam uns com os outros, conhecendo-se pelo menos 20 sons diferentes utilizados em relação com situações diferentes, desde cortejar um companheiro, exprimir fome, etc. Os bebés aprendem a correr para a mãe ao som da voz desta, as mães cantam para as crias quando cuidam delas. 
Os porcos não transpiram por isso gostam de se banhar na lama para manterem a temperatura mais baixa quando faz calor e, se viverem num palheiro com aquecimento, aprendem  por tentativa e erro a ligar o calor quando está frio e são capazes de o desligar quando está demasiado quente. 
Os porcos têm excelente memória,  e são capazes de se lembrar onde se encontra comida armazenada, sabendo reconhecer também quando um outro membro da espécie tem esse conhecimento: um porco segue o outro; e aquele que é seguido, por sua vez, aprende a enganar o que o segue, despistando-o , de modo a poder regalar-se com a comida sem ter que a repartir. 
Numa experiência para testar a relação entre a aprendizagem e a memória nos porcos, o Dr Stanley Curtis, da Penn University State  pôs uma bola, um disco de jogar e um haltere em frente de vários porcos e ensinou-os a saltar por cima, a sentar-se junto de cada um deles e a ir buscar cada um.  Três anos depois os animais ainda conseguiam identificar correctamente cada um dos objectos. 
A bióloga Tina Widowski  estuda a inteligência dos porcos e afirma que, muitas vezes, quando trabalhou com macacos, olhou para estes e dizia, perante os seus resultados: «se fosses um porco já tinhas percebido isto».
Quando estão presentes nas reservas de vida animal selvagem, os porcos  revelam-se muito parecidos com os humanos: gostam de ouvir música, de brincar com bolas de futebol, de massagens… são até capazes de jogar videojogos usando um joystick!
 
Os porcos estão entre os animais que mais rapidamente são capazes de aprender novas rotinas, o que os torna perfeitos para exibirem «truques» em espectáculos, onde aprendem a fazer coisas incríveis por uma boa guloseima. São capazes de aprender todas as «habilidades» que os cães aprendem , parecendo divertir-se bastante com isso, desde que o resultado seja, claro, comida!
Segundo Richard Byrne, o porco evoluiu em termos de inteligência  por razões muito semelhantes às dos primatas: comida e vida social. Os porcos em estado selvagem têm uma complexa vida social estabelecendo relações de longa duração, têm conhecimento uns dos outros como indivíduos, para se protegerem dos predadores. O nariz é extremamente eficaz na procura da comida, sendo comparável, em termos de funções , ao uso da «mão» nos primatas.
 
Recentemente, descobriu-se que os porcos, tal como os macacos e algumas aves, são capazes de usar espelhos para localizar comida. Numa experiência levada a cabo por Donald  M. Broom da Universidade de Cambridge, vários porcos de 4 a 8 semanas de idade foram colocados  durante 5 horas num local onde havia um espelho. O seu comportamento foi filmado: os porcos ficaram fascinados, apontando o nariz para o espelho, explorando, vocalizando, colocando-se junto do espelho, olhando para a imagem de diferentes ângulos, esfregando o nariz na sua superfície, olhando por detrás do espelho.
Um dia depois, quando esses animais estavam no  palheiro junto com outros porcos  que não tiveram essa experiência, foi colocado um espelho nas instalações. Os porcos que tinham  anteriormente estado  com o espelho exultaram,mostrando a sua excitação. Os investigadores  também  colocaram uma tigela com comida, não visível, mas  de modo que a sua imagem  era reflectida no espelho.
Os porcos que já tinham tido a experiência com o espelho levaram 23 segundos a adivinhar onde a tigela se encontrava. Os outros animais confundiram a imagem no espelho com a comida e ficaram muito frustrados quando se debateram com a superfície do espelho. Estes últimos precisaram de tempo para perceber a diferença entre a realidade e a sua imagem.
Apesar desta evidência, não é conclusivo se o porco tem consciência de si próprio da mesma maneira que os outros animais em relação aos quais se determina claramente que têm consciência de si próprios quando submetidos ao teste do espelho.  A pesquisa a este respeito continua.
Os porcos são também animais com sentido ético extraordinário: conhecem-se vários casos de porcos que salvaram os seus amigos ou donos humanos  de uma morte certa. Tais casos estão documentados nos media.
As características extraordinárias deste animal estão a levar cada vez mais pessoas a adoptá-los como animais de estimação, leais , divertidos e muito inteligentes!
Pode ser que, no futuro , sejamos capazes de os ver mais como os animais sensíveis e leais que eles são e menos como comida , permitindo-lhes ter um destino melhor a que têm direito.

A Pega de Cauda Comprida, uma Ave com Sentido de Humor


Várias  aves estão entre os animais mais  inteligentes  e espantosos pelas suas capacidades. Muitas usam ferramentas e mostram capacidade para resolver problemas de forma que durante muito tempo se considerou ser exclusiva dos mamíferos.
Os corvídeos estão entre as aves mais inteligentes que  conhecemos. E, dentro desta família, destaca-se  a Pega de Cauda Comprida, uma ave que se encontra espalhada desde a Europa Ocidental  ( mas não na península ibérica),  até ao Japão  e ao Norte de  África. Esta ave não só é uma das aves mais inteligentes como, comparada com todas as outras espécies animais, é uma das  mais inteligentes
A Pega de cauda comprida (magpie) é uma ave que tem entre 46 e 50 cm de comprimento, com penas pretas  brilhantes, com alguns tons de azul e peito branco. Possui uma longa cauda que duplica o tamanho do corpo. Fêmeas e machos têm plumagem semelhante, embora os machos sejam maiores do que as fêmeas.
Habitam nas zonas suburbanas, em quintas, matas abertas ou ligeiramente arborizadas, nos prados  e encostas  das montanhas. Nas cidades podem encontrar-se nos parques e jardins. Não temem o homem, havendo muitos relatos de aproximação de grupos humanos, como em piqueniques, etc, para procurarem obter comida. São muitas vezes conhecidas como «ladrões de acampamentos» porque não se acanham em roubar toda a comida que puderem, e que estiver  ao seu alcance
Também podem ser vistas nas costas do gado onde se empoleiram para apanhar insectos. Procuram insectos também no chão, onde se movimentam de forma algo desengonçada, com as suas pernas altas, por vezes saltitando de forma lateral quando se excitam com alguma coisa.  O seu voo não é muito firme devido à longa cauda.
A sua alimentação é variada, a espécie é omnívora: para além dos insectos que são a base da sua alimentação,quando encontram alguma carcaça de animal em decomposição também a aproveitam, ou pequenos roedores;  também comem sementes de coníferas, bagas e nozes, no Inverno. 
No Inverno formam grupos barulhentos  e caçam nos ramos, roubando ovos e juvenis de outros ninhos, ao mesmo tempo que lançam os seus gritos de «mag mag mag» ou «yak yak yak». Por vezes  encontram-se grupos de  duas ou mais  aves mostrando comportamentos de gozo, em relação a outros animais, como gatos
Estas aves são gregárias, sendo raros os casos de aves  que se deslocam dos locais habituais. O acasalamento faz-se na Primavera, após as aves sem companheiro se reunirem em grandes grupos para formarem pares. Têm comportamento  monógamo, desenvolvendo laços de longa duração, apenas rompidos pela morte do companheiro. 
Cada casal habitualmente nidifica solitariamente. Ambos fazem o ninho, cuja construção dura entre 5 e 6 semanas ,  na bifurcação forte de ramos elevados de árvores  e que é cimentado com barro, paus, etc, numa  construção sólida com duas entradas. 
A fêmea põe entre 4 a 9 ovos, que são encubados por ela em cerca de 16 a 21 dias. O macho alimenta a fêmea durante este período. Quando os ovos eclodem, as crias são alimentadas por ambos. Os juvenis ficam com os pais até ao Outono. 
Esta espécie é extraordinariamente inteligente. Foram observados rituais sociais elaborados  que envolvem a expressão de luto. Estas aves também têm memória episódica ou autobiográfica, relacionada com a sua história pessoal e  a capacidade para terem consciência de si próprias, tal como demonstrado pelo teste do espelho: os investigadores pintaram disfarçadamente  uma marca na ave na zona abaixo do bico com uma cor diferente da sua plumagem, após o que, a ave  observando a sua imagem ao espelho, reconheceu de imediato a mudança, tentando e conseguindo,  em cada experiência,remover a marca da plumagem com o bico ou com as garras. 
A pega de cauda comprida também mostrou ser capaz de utilizar a informação recolhida pela sua própria experiência para avaliar e prever o comportamento de outros membros da sua espécie.   Ao alimentar as crias, parte o alimento em porções apropriadas ao tamanho destas. Em cativeiro, foram observadas a cantar para conseguir comida , a imitar vozes humanas e a utilizar ferramentas para limpar as suas gaiolas.
Esta espécie  não possui  neocortex, área cerebral que se considerava indispensável para um animal poder ter consciência de si próprio. Mas o seu nidopallium tem um tamanho proporcional semelhante ao da zona cerebral dos grandes macacos , cetáceos e seres humanos . 
A Pega de cauda comprida também armazena comida, por alguns dias ou entre estações. Por ex., quando armazena comida  para dois ou três dias, abre um buraco no chão com o bico, regurgita para lá a comida e tapa o buraco, cuidadosamente, arranjando assim uma  forma de conservação do alimento. 
Estas aves têm uma fraqueza muito grande por objectos brilhantes, que adoram coleccionar . Existem muitas superstições associadas a este animal, que o folclore popular por vezes associa com maus presságios, talvez devido a este hábito de roubar objectos brilhantes ou de se mostrarem agressivos quando vêem um outro pássaro cantar. Uma coisa é certa, os agricultores consideram-na uma praga, devido à insistência  que esta ave revela na tentativa de obter «comida fácil». 
Mas isso é  mais um aspecto da sua incrível inteligência em acção: obter o que pretendem com o menor esforço possível. São assim, as fascinantes pegas de cauda comprida: divertidas e irritantes, como só um animal muito especial é capaz de ser.

Reflexão de Fim de Semana Animais como Nós – O Leão Marinho

 

Todos nós já os observámos, directa ou indiretamente,  em algum espetáculo; desde o circo ao Zoo ou  ao oceanário: os leões marinhos , pela sua grande capacidade de aprendizagem, receptividade ao treino e pelo temperamento brincalhão estão presentes frequentemente nesse tipo de entretenimento, com exasperação de muitos que consideram  que isso é uma  infracção ao seu direito de ter uma vida mais natural no seu habitat, sem interferência dos humanos e  para alegria de muitos outros que gostam de os ver e de interagir com eles.

Os Leões Marinhos são uma espécie que habita nas zonas costeirarochosas , podendo ser encontrados tanto no hemisfério Norte como no hemisfério Sul, à excepção do oceano Atlântico. Existem sete espécies diferentes de leões marinhos.
Vivem junto à costa onde se instalam, desde que haja comida em quantidade. Alimentam-se de polvos ,lulas e peixe. Precisam de uma quantidade considerável de alimento por dia, cerca de 14% do seu peso.  As  fortes barbatanas permitem-lhes mover-se rapidamente tanto na água como em terra e dormem indiferentemente na água ou nas rochas (muitas vezes amontoam-se  uns sobre os outros).
Sobretudo quando são jovens são muito brincalhões, passando horas a brincar, atirando  pedaços de rocha ou pedras uns aos outros, vocalizando, etc. São muito sociáveis e é muito raro vê-los atacar o homem, pensando-se que nos poucos casos em que isso aconteceu se tratou de um macho a tentar estabelecer o seu domínio territorial. 
Na época de acasalamento aglomeram-se junto às rochas vivendo em colónias  que podem ter milhares de indivíduos  em praias isoladas onde são activos tanto de noite como de dia. As mães alimentam as crias durante  6 meses. A época de reprodução dura de Maio a Agosto. A sua esperança média de vida é de 25-30 anos.
Logo após o nascimento das crias os machos dominantes lutam pelo território. Cada macho tem um harém de fêmeas que são acompanhadas pelas crias. Durante o acasalamento o macho não tem tempo para se alimentar  vivendo das suas reservas de gordura.
Os leões marinhos apesar do seu corpo pesado são muito rápidos, podendo nadar a uma velocidade de 25 milhas por hora. Têm também uma excelente visão debaixo de água,  que utilizam para caçar. Estas características fazem com que sejam objecto de um programa da marinha dos USA que os utiliza para diversos fins militares:  encontrar minas e descobrir mergulhadores inimigos
Oficiais da Marinha  contam que, no caso de um mergulhador inimigo se aproximar de um navio americano (no Golfo Pérsico) os leões marinhos podem nadar atrás dele e, em segundos, antes do mergulhador perceber o que se está a passar, o leão marinho prende-lhe um grampo  com uma corda à perna. A marinha dos Estados Unidos tem um programa para mamíferos marinhos  com treino destes animais para os fins referidos pois são fáceis de treinar e aprendem com facilidade. 
O biólogo marinho Ronald Schusterman  e colaboradores têm estudado as capacidades cognitivas  dos leões marinhos e descobriram que estes animais  são capazes de reconhecer relações entre estímulos baseados em funções ou conexões, demonstram capacidade para entender sintaxe simples quando lhes é ensinada  uma linguagem de sinais embora não usem os símbolos como referência  semântica que remete para objectos ou realidades externas a essa linguagem compreendendo no entanto  as relações lógicas estabelecidas no contexto dessa linguagem.  São também capazes de reter informação na memória mesmo quando não utilizam essa informação durante vários meses.
Como caso único  até agora encontrado no mundo animal, descobriu-se que o leão marinho compreende a operação lógica da transitividade ( se A=B; se B= C; então A= C) que as crianças humanas só começam a perceber completamente  entre os 6 e 11 anos de idade.  
Rio,  uma famosa  extraordinariamente inteligente fêmea de Leão marinho com 7 anos de idademostrou a este respeito um nível de inteligência comparável ou superior ao de muitos seres humanos. Os investigadores mostraram-lhe séries de imagens  formando  pares. Por ex., um elefante  formava um par com uma formiga.  Depois de lhe terem ensinados vários destes pares,  ensinaram-lhe  que a imagem de uma formiga também formava um par  com Saturno. Na sua primeira tentativa para formar um novo par, ela mostrou a sua inteligência relacionando de imediato Saturno  com um elefante mostrando deste modo compreender a operação lógica da transitividade. Em 12 testes diferentes só falhou um!
A inteligência de Rio  e do leão marinho em geral põe em questão o famoso «Teste do Espelho»  como única forma válida para  revelar quando um animal tem consciência de si próprio.  Até agora os leões marinhos submetidos ao teste do espelho têm falhado  a perceção de que a imagem projetada é «sua». 
No entanto, a espantosa capacidade para aprender e  para interagir que este  animal   revela deixa em aberto  muitos aspetos por descobrir acerca das suas reais capacidades , tal como sucede em relação a muitas outras espécies do reino animal.

Reflexão de Fim de Semana: Animais como Nós – o Papagaio Kea


O papagaio Kea é um  animal extraordinário no que se refere às capacidades de aprendizagem e de resolução de problemas.  Um estudo recente levado a cabo por investigadores das Universidades de Viena e de Oxford  mostrou a sua espantosa capacidade para aprender e se adaptar tendo surpreendido  os próprios ornitólogos que já conheciam as suas características. 
Neste estudo os investigadores testaram a aprendizagem de tarefas novas e a capacidade para extrair conclusões desse novo conhecimento e de abandonar conhecimentos anteriores que já não são úteis.  E os resultados foram surpreendentes. A experiência consistiu em mostrar às aves uma caixa que continha comida mas que não estava acessível de imediato. Para acederem à comida havia 4 soluções possíveis: 1. Empurrar um interruptor; 2. Usar uma alavanca com um gancho na ponta que abria uma janela de acesso; 3. Atirar bolas num caminho para atingir a comida e deixá-la ao alcance; 4. Usar um pau para atingir a comida fazendo-a rolar para o alcance da ave.
Sempre que uma ave descobria como usar uma das soluções, esta era bloqueada pelos investigadores, de modo que já não funcionaria  se fosse novamente utilizada pelo animal, obrigando-o a descobrir outra das soluções. As aves aprenderam a usar mais do que uma das soluções disponíveis e uma delas aprendeu as 4 sem dificuldade nenhuma, abandonando as técnicas inúteis de imediato logo  que as mesmas deixaram de funcionar, revelando assim uma espantosa capacidade de adaptação ( e inteligência!) 
Os resultados  deste estudo são mais surpreendentes ainda devido ao facto de , em estado selvagem, os Kea não utilizarem ferramentas.  E também porque os seus longos e curvos bicos não facilitam a utilização de paus, que se torna bastante problemática. No entanto, estes admiráveis animais conseguiram adaptar-se ao uso de um pau  combinando o uso do bico e do pé para o colocar no sítio pretendido!
Os investigadores  concluíram sem qualquer dúvida que os Kea não se limitam a descobrir as soluções dos problemas por acaso, por mera tentativa  e erro mas analisam a situação  e descobrem qual  a melhor solução para um problema utilizando a inteligência criativa para escolher a melhor solução
Os Kea  são papagaios de montanha que habitam exclusivamente na Nova Zelândia, seu habitat natural.  Vivem em altitudes que vão dos 300 aos 2000 m embora haja alguns que vivem fora da linha de neve nas zonas alpinas. Eles são uma das principais atracções turísticas pois as suas características  atraem as pessoas que vão especificamente a esta região para os verem: são brincalhões, gostam de se rebolar na neve,  fazem acrobacias aéreas quando voam,  etc. 
Os Kea adultos medem cerca de 48 cm e têm plumagem verde oliva com o pescoço e a parte superior da cabeça em tons de amarelo esverdeado; o peito e o abdómen são verdes com tons acastanhados ; uma parte  das asas é cor de laranja avermelhado e também têm penas em tons de azul e amarelo. Os bicos dos machos são muito grandes e curvos habitualmente é fácil distingui-los das fêmeas pois estas têm bicos mais pequenos e menos curvos. 
Habitam nas zonas das montanhas embora no Inverno tendam a ficar nas zonas mais baixas onde é mais fácil encontrar comida  mas na Primavera e no Outono sobem para as zonas de pasto para se alimentarem de bagas e frutos da estação.  Preferem passar a maior parte do tempo no chão onde entretêm os humanos com as suas brincadeiras. 
A sua alimentação é variada e inclui rebentos vegetais, raízes, bagas, frutos, néctar de flores, sementes, cadáveres  em decomposição e insectos.  Usam os bicos como ferramentas para procurar comida nos locais menos acessíveis como fendas nas rochas. 
Têm uma curiosidade imensa e tendem a entrar nos edifícios pelas chaminés, mastigando tudo o que encontram (principalmente  objectos de borracha). Com os bicos abrem as tampas dos caixotes do lixo e outras e podem fazer bastantes estragos, sendo  considerados como  uma praga inteligente para muitos habitantes locais. 
Quando não estão a entreter os humanos com as suas brincadeiras, rebolando na neve, banhando-se nos charcos gelados a derreter ou a saltitar à procura de alguma coisa para mastigar, encontram-se nas montanhas, em grupos de cerca de 10 indivíduos. 
Na altura do acasalamento, os juvenis formam grupos de cerca de 100 indivíduos. Têm hábitos semi- nocturnos  podendo ser muito activos à noite, especialmente nos meses de Verão.  As fêmeas atingem a maturidade cerca dos 3 anos e os machos por volta dos 3 ou 4 anos. Os machos acasalam com várias fêmeas (3 ou 4). As fêmeas põem 3 ou 4 ovos entre Julho e Janeiro, em ninhos construídos no chão entre pedras ou raízes das árvores.  
Quando os juvenis atingem um mês o macho ajuda a alimentá-los. Os juvenis permanecem no ninho durante 10 a 12 semanas.
Os  papagaios Kea têm consciência de si próprios,  passando com distinção no teste do espelho utilizado pelos cientistas para averiguarem quais os animais que têm consciência de si próprios. Estes animais fazem pois parte do grupo daqueles que têm uma noção de «eu» que é capaz de pensar  as sua  experiências como sendo «suas», individualizadas.
 Estes papagaios são alvo da ira dos donos de quintas  que os acusam de matar as ovelhas ao fazerem buracos na pele das suas costas para extraírem a gordura. Existe alguma polémica sobre isto, com alguns a recusarem a responsabilidade dos Kea na morte das ovelhas.
Entre a polémica e a ira dos locais e o  fascínio dos  turistas que os visitam, estes papagaios são sem dúvida uma maravilhosa demonstração de superiores capacidades de adaptação e inteligência , destacando-se no mundo animal.

Reflexão de fim de Semana- Animais como Nós- O Elefante


O elefante é o  maior mamífero terrestre da atualidade. É um animal gregário, com uma complexa estrutura social: os grupos permanentes são constituídos  por fêmeas lideradas pela mais velha  (matriarca), pelas filhas  desta  e as suas crias.  Existem duas espécies, a africana, maior , e a asiática. Distinguem-se  ainda pelo diferente formato e tamanho das orelhas e  pela diferente configuração da ponta da tromba,  que no elefante africano tem uma espécie de «dois dedos» e no asiático tem apenas um. 
Estes animais necessitam de grandes quantidades de comida-  erva e outra vegetação- e de água,  diariamente. O tamanho dos grupos depende em grande parte da quantidade  disponível destes recursos. Apenas digerem 40% do que comem. Passam cerca de 16 horas a comer, a  banhar-se na água, na lama ou a deitar pó sobre as costas para depois se esfregarem contra uma superfície dura para extrair os parasitas; dormem 3 a 4 h por dia
A tromba é um órgão extraordinário: serve de nariz, de mão, de extensão do «pé», de sinalizador, ferramenta para arranjar comida, sifão de água, etc. com a tromba o elefante pode fazer coisas tão delicadas como acariciar os companheiros ou apanhar pequenas bagas ou extrair uma árvore de grande porte pela raiz , lutar, etc.
As orelhas desempenham uma importante função, para além das óbvias, que é a de servir de «abanador» quando faz muito calor, permitindo arrefecer a temperatura do corpo. 
Os machos adultos são solitários, visitando temporariamente vários grupos de fêmeas à procura de fêmeas receptivas para acasalar. As fêmeas amadurecem por volta dos 11 anos , os machos ficam adultos entre os 12 e os 15 anos mas normalmente só acasalam em meados ou final dos 20 anos de idade, após terem subido na hierarquia social.  Vivem entre 60 e 70 anos de idade. 
Os elefantes possuem um cérebro complexo,  grande e com muitas circunvoluções no córtex, tal como o humano, dos grandes símios e dos golfinhos.  O córtex é ainda  densamente povoado por redes neuronais, indicando uma actividade complexa do cérebro. 
Tal como acontece com o ser humano,  o seu programa genético é bastante aberto  e o elefante não nasce  provido com um conjunto de instintos que lhe permitam a sobrevivência: precisa de aprender, durante a infância e a adolescência, a alimentar-se, a usar ferramentas, a aprender o seu lugar na estrutura social do grupo. 
Os  elefantes são seres muito sociais, tocando-se e acariciando-se mutuamente com as trombas quando estão juntos. Os elefantes mostram preocupação pelos membros da família e cuidam dos fracos e feridos. 
Exprimem um grande número de emoções, como alegria, desgosto, são capazes de compaixão, possuem um forte sentido do «jogo», manifestam sentido de humor, fazem brincadeiras. Foram observados a fazer jogos como atirar com um pau para um determinado objecto, atirarem um objecto de modo a ser apanhado por outro que por sua vez o atira para outro, etc. ; também já foram vistos a brincar nas  fontes de água, atirando jorros de água com as trombas. 
Os elefantes têm uma memória extraordinária, são capazes de se adaptar e alterar o comportamento de acordo com as circunstâncias em que se encontram, aprendem com a experiência, usam ferramentas para ajudar a implementar alguma tarefa que  não seria possível sem esse uso. Foram observados a escavar buracos para poderem beber água  e depois arrancam cascas de árvore que moldam numa forma de bola, colocam as cascas em cima do buraco aberto e depois cobrem as cascas com areia para a água não evaporar. Também usam paus para coçar as costas nos locais onde a tromba não chega. E também foram vistos a atirar com pedras para vedações electrificadas para as danificar!
No teste do espelho, feito para averiguar se os animais têm consciência de si mesmos (e também aplicado às crianças humanas) o elefante mostra ter consciência de si ao reconhecer-se na imagem do espelho.
Os elefantes também são capazes de se auto- medicar, mostrando conhecimento do uso terapêutico de certas plantas. Por  exemplo, as fêmeas, quando estão próximo de dar à luz, comem as folhas de uma árvore da família das Boraginaceae para induzir o trabalho de parto. 
Os elefantes mostram desgosto perante a morte de um membro do grupo: quando algum deles morre, os restantes reúnem-se em volta do morto, fazendo  ruídos ribombantes e acariciando o morto com a tromba. Os que já morreram há algum tempo, continuam a receber  gestos de afecto por parte dos que passam pelos ossos: estes  param junto das ossadas e acariciam os ossos antes de continuar caminho
Embora seja um animal extremamente adaptável, podendo viver em qualquer habitat que tenha quantidades grandes  de erva  e de água, o elefante está quase extinto, devido à caça desenfreada (pela procura do marfim ou simplesmente pelo desejo de predação do homem) e devido à desertificação que tem diminuído drasticamente o seu território.  A sobrevivência dos elefantes hoje é praticamente impossível fora das áreas protegidas. 
 Há ainda muito por descobrir acerca das reais capacidades dos elefantes. Esperemos que a humanidade  aprenda a partilhar com estes animais os recursos do planeta,  e abandone a caça, para que eles não se extingam, empobrecendo a biodiversidade da vida na Terra.
                                                                                                                  

Animais Como Nós: o Chimpanzé


Os paleontólogos e biólogos evolucionistas descobriram que os chimpanzés foram os últimos macacos modernos a divergir do ramo que conduziu ao Homo Sapiens, há cerca de 4 ou 6 milhões de anos. 
De todos os grandes primatas, o chimpanzé é o mais parecido com o homem e a diferença do seu genoma em relação ao nosso é de apenas 1.23%.  Tal como o ser humano, o chimpanzé tem uma face expressiva, polegares oponentes e desenvolve e usa ferramentas que são específicas de cada grande grupo ou comunidade
Os chimpanzés são animais sociais  e existem grandes diferenças de comportamento entre os indivíduos de comunidades diferentes. Isto leva os cientistas a afirmar  que estes animais têm cultura. A primeira pessoa a afirmá-lo foi a célebre investigadora Jane Goodal que, há 50 anos, começou a estudar com seriedade as comunidades destes animais. Quando ela reportou ao mundo que os chimpanzés são animais culturais e  são  utilizadores de ferramentas atraiu o descrédito sobre si própria mas, após décadas de investigação, outros primatologistas que estudaram diversas comunidades destes animais confirmam  as conclusões de Goodal. 
Estes estudos mostram inequivocamente que os chimpanzés fazem e usam ferramentas simples, desenvolvem actividades de cooperação em grupo como patrulhar o território  e caçar pequenos mamíferos que  depois partilham reciprocamente, envolvem-se muitas vezes em actos de agressão por disputa territorial, de comida, etc. São capazes de empatia, altruísmo, aprendem pela experiência e pelo exemplo.
Os chimpanzés têm sido estudados no habitat natural e também em experiências laboratoriais criadas para determinar as suas capacidades  cognitivas. Em Kyoto, no Japão, o primatologista Tetsuro Malsuzawa descreveu uma experiência em que um jovem chimpanzé demonstrou ter uma memória imediata extraordinária, bastante superior à dos humanos: com um computador com écran «touch screen»  o investigador fez aparecer vários quadrados brancos onde, durante  um segundo apareciam, em ordem aleatória, números de um a 9. Depois, ficavam apenas os quadrados brancos vazios. O chimpanzé ,de imediato e sem se enganar, pressionou no écran os quadrados tendo colocado os números pela ordem em que estes tinham aparecido. A experiência foi repetida várias vezes, alterando-se a ordem de aparição dos números. O chimpanzé acertou sempre. A mesma experiência, feita com humanos, mostrou que estes não são capazes de reter todos os números com uma exposição tão curta de tempo.  Assim, a «memória imediata» dos chimpanzés é superior à dos seres humanos.
Um outro investigador do comportamento destes animais, Frans de Waal corroborou que os chimpanzés são animais sociais e adaptam, tal como os seres humanos, o seu comportamento às situações e obedecem às  restrições  impostas pela  pressão do grupo.
No teste do espelho os chimpanzés passam com distinção, tendo claramente consciência de si próprios
No habitat natural  os chimpanzés vivem  em grandes comunidades constituídas por indivíduos que se relacionam regularmente uns com os outros. Estas comunidades subdividem-se em  pequenos grupos temporários  de 5 a 8 membros e cuja constituição é fluída, podendo sofrer mudanças. Estes grupos podem ser maiores quando existe maior disponibilidade de comida.
Os machos atingem a adolescência entre os 9 e os 15 anos e estão aptos a procriar a partir dos 16. As fêmeas têm o primeiro parto entre os 13 e os 14 anos e o intervalo  entre partos é de cerca de 3 a 5 anos. 
O acasalamento faz-se ao longo do ano, sem época específica e as fêmeas quando estão sexualmente receptivas são bastante promíscuas acasalando com múltiplos machos (muitas vezes sub- repticiamente, para não atrair a ira do macho dominante). Os cuidados parentais são dados pela mãe. Nos dois primeiros meses de vida os bebés dependem inteiramente da mãe, não conseguindo suportar sozinhos o peso do corpo. No primeiro ano mantêm um contacto contínuo com a mãe. Aos 2 anos começam a viajar e a sentar-se autonomamente da mãe  mas num espaço de proximidade dela que não ultrapassa os 5 metros. Só a partir dos 3 anos se aventuram a ir mais além embora continuem sob vigilância materna. 
Aos 4 ou 6 anos termina o período da infância  e entre os 6 e os 9 anos as fêmeas ficam perto da mãe mas brincam independentemente  e são apoiadas pela mãe quando há algum perigo. Os machos adolescentes ficam perto dos machos adultos  e participam em actividades com eles como patrulhas e caça.
Os primatologistas defendem que as diferenças encontradas nas várias comunidades de chimpanzés são de carácter cultural, não dependendo nem da genética nem de factores do meio. Estes comportamentos são aprendidos por observação social e imitação, levando a que toda a comunidade tenha um comportamento semelhante. Incluem-se nestes comportamentos diferentes usos de ferramentas, comportamentos de cortesia, cuidados do pelo, etc.
Os cientistas têm usado o conhecimento acerca dos chimpanzés para especular  acerca  do  possível comportamento do ancestral do homo sapiens, Australopitecus Afarensis, de que  «Lucy» é o mais famoso exemplo e que viveu há cerca de 3 milhões de anos e que se estima que seja semelhante.
As florestas de África  Central, habitat natural dos chimpanzés, estão a desaparecer, por causa do corte de  madeira e da destruição da floresta para cultivo .  Quando, há 50 anos, Jane Goodal chegou a África para estudar estes animais, encontrou pelo menos um milhão de chimpanzés. Hoje, são cerca de 150 000 e correm sério risco de extinção.

Reflexão de Fim de Semana- Inteligência Animal: o Cão, esse Magnífico Amigo

De todos os animais domésticos, o cão é aquele que desenvolveu mais características a partir da relação que estabeleceu connosco  ao longo dos milhares de anos em que nos acompanha.  Relativamente à espécie da qual evoluiu, o lobo,  desenvolveu características que  aquele não possui  e que fazem dele uma espécie única, capaz de se adaptar e de mudar de acordo com os desejos e caprichos humanos.
O cão, tal como os  grandes primatas e os papagaios, entende a linguagem humana e, mais do que isso, é capaz de ler o nosso rosto, (algo que é característico da  a espécie humana e dos grandes primatas); lê a expressão do nosso olhar, as nossas emoções, para daí retirar ilações acerca do que lhe é permitido ou não fazer quando interage connosco. Desenvolveu uma simbiose perfeita com o ser humano e  aprendeu a tirar partido dessa interacção para resolver problemas práticos que  surgem no dia a dia. 
O homem, por sua vez, aprendeu a confiar nesta espécie, a admirar e  a cultivar a sua lealdade. Mas até que ponto está consciente das verdadeiras capacidades desse que é  o seu «mais fiel amigo» ?
Serão os  cães realmente inteligentes ou agem puramente por instinto? Ao longo de milénios, o homem fez a selecção das raças caninas, moldou os seus genes,de modo a obter animais especificamente associados a capacidades que considerava importantes. De tal modo que consideramos que determinada raça  é excelente como animal de trabalho, outra é excelente  como animal de companhia, etc. 
 Isto inevitavelmente faz com que, por  factores biológicos, uma raça tenha muita facilidade em seguir rastos mas não em obedecer a ordens,  uma outra seja muito adequada  para trabalhar mas não vigiar, e por aí fora. Quererá isto dizer que só existe uma inteligência instintiva, programada biologicamente, nestes nossos amigos caninos?
Em 1976  K. Coon desenvolveu o primeiro teste de inteligência para cães que determinava a memória de curto prazo  do animal,  a sua  capacidade de adaptação, de resolução de problemas, etc. Nas últimas décadas, outros investigadores têm estudado a inteligência do cão. Um dos mais conhecidos é Stanley Coren que publicou um livro com os resultados do seu trabalho  A Inteligência dos Cães.(1994)  Este investigador é um neuropsicólogo e professor em Vancouver, na Universidade  de  Brithish Columbia.
Coren considerou  três tipos de inteligência dos cães  na sua investigação: a inteligência instintiva (dependente dos factores genéticos e associada à raça do animal. Este tipo de inteligência permite que uma raça caçadora desempenhe as características da raça como esperado) ; a inteligência adaptativa (a capacidade de o cão resolver problemas por si próprio); a inteligência de trabalho e de obediência ( a capacidade de o cão aprender com os humanos, aprender regras e comportamentos específicos, como os cães guia, etc.)
A primeira forma de inteligência (instintiva) é programada biologicamente e depende dos genes que permitem o apuramento da raça. Assim,  fica de fora, os estudos concentram-se nas duas formas de inteligência relacionadas com a aprendizagem
Com base nestas investigações , têm sido constituídos rankings de raças de acordo com os dois tipos de inteligência. Mas, e apesar de ser inegável que umas raças têm mais capacidade para um ou outro tipo de inteligência, penso que devemos focar- nos naqueles  aspectos que são comuns ao cão médio , seja qual for a sua raça. 
E sobre a inteligência  do cão em geral  investigadores como  Richard Gray concluem que os cães têm a inteligência média de uma criança de dois anos, são capazes de compreender entre 165 e 250 palavras, gestos e sinais, podem contar até 5 e  são capazes de fazer  cálculos matemáticos simples. 
Para demonstrar isto, os investigadores têm utilizado  os mesmos testes  usados para mostrar o  desenvolvimento da linguagem , pré-linguagem e aritmética básica  nas crianças  humanas. Os cães mais inteligentes têm capacidades mentais comparáveis a uma criança de dois anos e meio , três anos. 
Isto mostra que, apesar de não ser possível manter uma conversa com um cão, ele compreende muito bem palavras e gestos. Observou-se que , numa frase como « vai buscar o boneco» o cão apreende  o sentido de cada palavra em separado e, desse modo, entende a frase e é capaz de executar o que se lhe pede. A este respeito, a raça dos Border Collie  ocupa o pódio da inteligência, aprendendo rapidamente várias centenas de  nomes e sendo capaz de os associar correctamente com os objectos. Consegue também  lembrar-se das palavras e  do seu significado quatro semanas após tê-las apreendido pela primeira vez.
Os cães têm também a capacidade, desenvolvida pelo contacto com os seres humanos, para entender o significado dos gestos. E aqui a diferença  entre o cão e o lobo é notória: se um lobo vir um ser humano a apontar foca a atenção no dedo; o cão foca o olhar no objecto para o qual o ser humano  está  a apontar
Esta diferença mostra também que, quando o cão tem um  problema para resolver, como sair de um labirinto ou obter um pedaço de comida que é difícil de alcançar, busca naturalmente a cooperação do ser humano para o resolver. O lobo , por ex., numa situação semelhante, age por tentativa e erro até eventualmente encontrar a solução, o que diminui a sua possibilidade de sucesso. 
Nos testes realizados para observar a capacidade de entender os gestos, o cão reage de forma semelhante à criança humana: o investigador  tem uma guloseima na mão  que o cão segue com o olhar  e,  à vista do animal, baixa a mão até que esta e a guloseima ficam escondidas por detrás de uma tela;  depois repete  o mesmo gesto com uma  segunda tela e o animal, tal como a criança,  espera encontrar 2  guloseimas quando a tela é levantada; 
Mas, se a guloseima é  removida secretamente ou se  outra é adicionada sem que o cão a tenha  visto, o cão fica a olhar para a(s) guloseima(s)  com espanto quando a tela é removida,    durante muito tempo, porque o que aparece não é o  que  ele esperava ver:  o animal sabe que 1+1 é igual a  2 e não a 3 e por isso o seu espanto. 
Os investigadores também  descobriram que o cão é capaz de comportamentos deliberados  de batota  , se isso lhes trouxer alguma vantagem. Os donos de cães já se aperceberam disto muitas vezes: uma pessoa  conta que certa vez, o seu cão ficou impossibilitado de comer a maçã habitual porque o animal estava com alergias e, até se determinar qual  era a razão , o veterinário prescreveu  ração anti-alérgica  como alimento  exclusivo.
 
Numa tarde  de férias e após o almoço (hora a que o animal costumava comer a maçã) a dona , a ler na sala, surpreendeu-se com o animal a passar no corredor  e a olhar furtivamente para o local onde ela se encontrava. Com surpresa mas também com incredulidade, esta pessoa pensou que estava a imaginar o comportamento do animal e não deu importância; 
No dia seguinte, encontrando-se na sala à mesma hora, o cão repetiu o comportamento e passou silenciosamente pela porta, espreitou para ver o que a dona estava a fazer e seguiu. Desta vez a dona foi atrás dele sem ruído e, com espanto, viu-o  dirigir-se à fruteira, na cozinha, e tirar uma maçã para comer. 
O contacto connosco deu-lhes também esta esperteza! 
Apesar das muitas raças, todos os cães têm a capacidade básica para aprender e compreender a linguagem humana. É claro que, neste aspecto, tal como acontece com os seres humanos, quanto maior e mais cedo se der a exposição do animal à linguagem humana, maior é  a possibilidade de ele entender  e, desse modo, comunicar,  com os seres humanos. 
Muitas pessoas  que convivem com cães sabem que estes, apesar de não serem Border Collies, conhecem os seus bonecos preferidos pelo nome, identificam muitos objectos e alimentos pela palavra que os designa,  compreendem  em geral muitas das conversas que ouvem, etc. 
Talvez essa capacidade para  estabelecer laços tão estreitos com os seres humanos  seja a razão pela qual muitos de nós estão perfeitamente convictos de que o cão é, sem dúvida, o nosso melhor amigo. E, neste ponto, ele não só rivaliza com os grandes primatas e com os papagaios, como os supera ,pois nenhum outro se torna nosso indefectível companheiro como o cão. 
As  qualidades extraordinárias desta espécie animal  são por isso motivo de respeito e devem orientar os nossos esforços para aumentar o bem estar de todos os cães: nós também beneficiamos muito com  o seu trabalho, a sua inteligência e a sua companhia.