Mitos da Cultura Ocidental, as Raízes Pagãs do Natal, Saturnalia


Todos nós conhecemos as origens pagãs de muitas das tradições de Natal mas você sabia que durante muitos séculos  a quadra Natalícia esteve associada a um festival pagão em que «tudo era permitido», a ordem legal era suspensa e todo o tipo de desordens, licenciosidades e excessos, perturbações e até mesmo crimes ficavam impunes? Esses eram os tempos da «Confusão do Natal» originados nas festas  romanas dedicadas a Saturno – As Saturnalia-  e que culminavam , no dia 25 de Dezembro,  com a  celebração do nascimento do deus Sol, Mitra.

As Raízes Pagãs do Natal-  Saturnalia
Nos tempos mais antigos, o homem pré – histórico dependia das forças naturais para a sua sobrevivência e o Inverno, com os seus dias mais curtos, as longas noites geladas e o frio que matava a vegetação e impedia o crescimento da maioria das colheitas, era encarado como uma batalha em que o deus Sol combatia ciclicamente todos os anos com o deus dos Mortos e perdia a sua força, sendo necessário propiciar o seu ressurgimento, caso contrário  os homens pereceriam sem o calor que permitia o florescimento da vida.  Por isso, muitos povos, desde a mais remota antiguidade, desenvolveram cerimónias relacionadas com a superação da «morte do sol» e a tentativa de ver bem sucedido o seu ressurgimento, no solstício de Dezembro, no qual o Sol voltava a renascer para mais um ano. Esse momento do solstício era por isso celebrado com alegria muitas vezes desenfreada na qual os ritos de propiciação da fertilidade da Terra se associavam com orgias sexuais, excessos na bebida, danças, etc.

 

Porém, nos dias que antecediam o dia 25 de Dezembro, vários povos, entre os quais os  povos nórdicos, em países como a Escandinávia, tinham os seguintes costumes:  reservavam 12 dias em Dezembro, antes do solstício, em que escolhiam um grande tronco que acendiam e que ficava aceso sem nunca se apagar durante esses dias  e, diariamente, eram oferecidos sacrifícios, humanos e animais; as pessoas bebiam vinho até entrarem numa espécie de êxtase e dançavam freneticamente para contactarem os espíritos e, desse modo, com estas oferendas, conseguirem que os seus deuses fortalecessem novamente o poder do Sol.

Mais tarde, em Roma, celebrava-se na mesma altura  a chegada do solstício, considerado o dia de nascimento de Mitra, o deus Sol, deus da Luz que permitia a fertilidade e a abundância da vida. Saturno era considerado o deus da agricultura e da fertilidade e precisava de trabalhar em conjunto com o Sol, dependendo deste e, por isso, antes do solstício, a partir do século terceiro, foram instituídos os dias de 17 a 25 de Dezembro para a realização de festas – o festival Saturnalia– durante os quais a ordem romana era suspensa, os tribunais eram fechados e ninguém podia ser punido por desacatos nem ser acusado de desrespeito pela lei. Ofereciam-se sacrifícios humanos incluindo crianças e bebés na tentativa de aliciar os deuses para que fortalecessem o Sol, permitindo renovar a sua força para se  conseguirem boas  condições para semear e colher os cereais  indispensáveis à sobrevivência das populações. As pessoas estavam convencidas de que a oferenda diária durante estes dias, de sacrifícios humanos, era indispensável para o «renascimento» anual do Sol.  Finamente, no dia 25 de Dezembro, era celebrado o nascimento de Mitra e as pessoas ofereciam presentes Este era um tempo de selvajaria permitida, em que danos em propriedades, ferimentos em pessoas e animais eram permitidos e em que cada comunidade romana escolhia uma pessoa – vítima- que era obrigada a cometer todos os excessos: sexo,comida, etc,  e depois, no final da celebração, era brutalmente assassinada, pois ela simbolizava as «forças da escuridão» que era preciso «matar».

 

No século V, a igreja católica romana, na tentativa de atrair os pagãos para a religião cristã, sobrepôs à data do nascimento de Mitra, 25 de Dezembro,  a data do nascimento de Cristo e, no século sétimo, as festas pagãs da Saturnalia foram incorporadas nas tradições cristãs, e foi permitido que continuassem a celebrar-se vários ritos antigos como o excesso de bebida e de comida, o dançar nu na rua, os desacatos, a licenciosidade sexual, etc. Claro que os sacrifícios humanos não eram permitidos mas  a tortura e mesmo o assassínio eram tolerados nestes dias que foram celebrados durante séculos nos países cristãos  e que, na Inglaterra (país cujas tradições estavam muito ligadas aos cultos celtas do solstício e ao festival da Saturnalia que os soldados romanos levaram quando invadiram a Bretanha) nos séculos 17 e 18 eram conhecidos como «O Amontoado do Natal» (Christmas Mass).

 

Os imigrantes ingleses que partiram para a América – os puritanos- tinham horror a estas práticas que as populações resistiam a abandonar e ,no novo território , estas festas chegaram a ser consideradas ilegais embora continuassem a ser celebradas. Mas, em 1828, os desacatos produzidos foram de tal ordem que grandes cidades como Nova Iorque instituíram forças policiais profissionais para combater a selvajaria que se desenvolvia nestes dias antes do Natal. Várias instituições ligadas à religião começaram a tentar mudar os costumes selvagens associados à quadra natalícia  e instituíram o costume de as crianças irem pedir doces porta a porta,  costume que, posteriormente, acabou por ser aglutinado com as festas do Halloween.
Acredita-se que um poema, publicado anonimamente na altura do Natal e o conto de Charles Dickens, «Conto de Natal» contribuíram decisivamente para transformar a «confusão» e a «selvajaria» dos dias anteriores ao 25 de Dezembro numa quadra em que o «espírito natalício» de solidariedade e partilha fraterna se tornaram dominantes. Mas esta é uma tradição muito recente, para a qual a aglutinação entre o «Pai Natal» e o bispo S. Nicolau do século quarto, com a sua bondade e generosidade, muito contribuíram, fazendo do Natal um tempo de Paz e de Harmonia universal.