Os Animais e a Cultura- A Serpente do Eden, Tentação pela Liberdade


A serpente, cobra ou «dragão» são animais que têm sido alvo, ao longo da história da humanidade, alvo de sentimentos ambivalentes: alguns  sentem-se atraídos e fascinados por eles; outros recuam com  aversão e repugnância pelos significados que eles evocam.  Mas, para além do animal físico que desperta estas emoções, há um vastíssimo mundo simbólico que inclui a serpente, a cobra ou o dragão, e lhes atribui significados extremamente ricos , embora por vezes contraditórios, sobre os mistérios da vida e da morte, do bem e do mal,  da ignorância e  do conhecimento, etc.
E, como em geral sucede com a generalidade das experiências humanas, nunca há só um lado da «história». E, porque este tema simbólico é tão recorrente na nossa e em muitas outras culturas, vamos demorar-nos um pouco a analisar alguns dos mitos que envolvem este animal e a sua simbologia. E começamos pela história bíblica da «tentação da serpente».
A história bíblica é bem conhecida: Satã, assumindo a forma de uma serpente , aproximou-se sub-repticiamente de Eva, no jardim do Eden, e sussurrou-lhe que,  se ela comesse o fruto de uma certa árvore, obteria o conhecimento que lhe permitiria distinguir o bem do mal» e se «tornaria, em via disso, semelhante a Deus pois saberia tanto como Deus.» O «convite» da serpente é uma tentação e é considerado maléfico porque, justamente, Deus havia proibido o casal de provar aquele  fruto. De acordo com a narrativa bíblica, Eva não resistiu à tentação e não só comeu o fruto como o  deu a comer ao seu companheiro Adão.  A narrativa continua informando que, após a transgressão,  ambos perderem a inocência e repararam que «estavam nus, etc». O resultado não se fez esperar: ambos foram expulsos do Eden para sempre como punição pelo seu pecado . 
Como todas as narrativas simbólicas, esta também tem várias leituras. A menos interessante é sem dúvida aquela que lembra que a serpente está associada ao órgão sexual masculino e que vê a Eva original  como a mulher que, originalmente,  tenta o homem para o pecado «do sexo» e  que vê a perda da inocência deste primeiro casal como a descoberta da sexualidade que lhes terá feito perder a dimensão casta original.
A nosso ver, existe uma outra leitura bem mais interessante deste mito. Centremo-nos na tentação da serpente: o que esta disse a Eva foi que, ao comer do fruto, adquiriria o poder de distinguir o bem do mal. Ora, tal poder apenas se pode desenvolver quando o indivíduo tem consciência de que «pode escolher». Como bem mostrou o filósofo kierkegaard, «Deus proibiu o homem de comer o fruto («deste fruto não comerás» ) mas proibiu-o precisamente  porque o homem podia desobedecer-lhe. A tentação da serpente no Eden corresponde deste modo ao momento em que o ser humano descobre que «tem» que obedecer (porque recebeu a ordem divina) mas «pode» desobedecer porque é livre de escolher.
E a consciência  de que podemos fazer escolhas é aquela que nos mostra que há mais do que  um caminho único e inexorável à nossa frente; a consciência de que alguém, um ser divino ou humano pode indicar-nos um caminho, pode até dizer-nos que aquele é o único caminho que podemos seguir mas, em última análise, quem decide se obedece ou se  escolhe um caminho diferente somos  sempre nós,  porque, dentro de todos os limites que cercam a nossa existência, nós podemos fazer escolhas e  esta consciência é simultaneamente fonte de angústia e de exaltação porque é a consciência da nossa liberdade individual. 
Tal consciência é a origem do conhecimento do «bem e do mal» porque, quando temos consciência da nossa capacidade para escolher, tornamo-nos responsáveis pelo caminho que escolhemos e pelos frutos que alcançamos no final desse caminho. Perdemos a inocência porque não podemos culpar o  «destino» ou as circunstâncias ou Deus, ou mil e uma outras razões pelas consequências das nossas decisões e das nossas ações.
Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, onde viviam inocentes porque não tinham consciência da sua liberdade e da sua capacidade de decisão individual. A sua «inocência» era a  ignorância de quem vivia a vida sem se aperceber verdadeiramente das suas possibilidades. Ficaram «nus» porque tiveram que tomar consciência de que mais nada nem ninguém, a não ser eles próprios, podia fundamentar as suas ações. Esta «queda» do Paraíso consiste na escolha de o homem viver a sua vida encontrando por si mesmo a «razão de ser» do próprio destino, em vez de ir buscá-la às crenças ou à religião. É um caminho solitário, muitas vezes mergulhado na escuridão e no sofrimento de quem  perdeu todas as crenças e tem que recomeçar o sentido da vida a partir do zero, no confronto  entre a consciência e a própria vida. E é um «pecado» ou um  «mal» porque o homem transgride desse modo as regras vigentes, atrevendo-se a querer um caminho que é o seu.
A «serpente» do Eden, é a curiosidade, o desejo racional de explicar e compreender por si o  que a vida e o mundo nos podem oferecer. Saliente-se que também no mito grego de Pandora, é  a figura feminina quem, movida pela curiosidade e pelo desejo de conhecer, acaba por roubar a chave da «misteriosa caixa» ao marido, Epimeteu, quando este , significativamente, estava a dormir.  E, tal como a caixa de Pandora liberta todo o tipo de males sobre a Terra mas deixa, no final, a Esperança para mover a  humanidade na sua luta, também a serpente do Eden significa o desejo de conhecer e compreender  o mundo, que é inerente a cada ser humano, dando-lhe assim um motivo- pode não ser o único nem o melhor ou o mais fácil, mas seguramente é um motivo importante- para ele viver: a liberdade de poder ser quem ele decidir ser, de ser o autor das suas vitórias e dos seus fracassos e de crescer com eles e através deles, rejeitando ser alguém totalmente definido à partida como se fosse uma figura inerte no jogo de Deus. Esta opção pela liberdade é também a origem do «mal» no mundo porque o conhecimento, como temos visto ao longo da história dos dois últimos milénios, pode ser usado para o bem mas também pode causar o mal. Temos um bom exemplo na história da ciência e da tecnologia que nos melhoraram as condições de vida mas também têm contribuído para a deterioração da vida na terra; a ciência salva vidas mas também pode destruí-las quando se aplica em armas de destruição maciça. Mas, em última análise, o conhecimento é neutro, são as decisões e as ações que o tornam «bom»  ou «mau».

os Animais e a Cultura- Os Gatos, Magia e Mistério

 
Os gatos têm apaixonado os seres humanos desde a Antiguidade : quando foram decifrados  os caracteres das tabuinhas de argila que revelavam aspetos da antiga civilização Suméria, a mais antiga a surgir no chamado «crescente fértil»,  encontraram-se frases como «cruzar-se com um gato preto dá azar» mostrando que muitas das ideias que fazem parte do folclore atual são muito antigas e que o interesse pelos gatos vem de há muito tempo.
A cultura que mais importância concedeu aos gatos, na Antiguidade parece ser, no entanto, a egípcia: o gato era considerado uma encarnação do deus Sol Ra, chamado Mau. No Egipto os gatos eram domesticados e eram membros importantes da família e muitos eram mumificados quando morriam. Quando algum gato morria  toda a família rapava as sobrancelhas em sinal de luto;  se algum ser humano matasse um gato a pena  que sofria  era a morte.
Os gatos eram muito valorizados no Egipto, não apenas por estarem associados aos deuses – o gato doméstico era considerado uma manifestação da deusa Bast, deusa protetora associada à Lua e à fertilidade e considerada protetora dos gatos e daqueles que cuidam destes animais- mas também porque desempenhavam tarefas muito importantes na sociedade : eram usados para caçar aves e peixe e para destruir os ratos que pululavam pelos depósitos de grão ao longo do rio Nilo. Este animal era também considerado um ícone de beleza para os egípcios.
Os gatos eram  adorados e reverenciados no Egipto e a sua exportação era proibida mas, furtivamente, fenícios e depois os romanos roubavam-nos e vendiam-nos para outros países do mediterrâneo. Nos séculos os gatos domésticos proliferavam por toda a Europa encontrando-se também na Índia, China, Japão e Médio oriente. Entre os séculos 9 e 11 era possível encontrá- los  como animais de estimação mas eram usados  principalmente na  função de caçadores de ratos: as cidades estavam infestadas com estes roedores, pelo que os gatos eram considerados preciosos, havendo multas pesadas  para quem os matasse: no século 9, por ex., quem matasse um gato teria que pagar 60 medidas de milho de multa. No século 11, devido à  infestação das cidades por  ratos,  a população felina aumentou consideravelmente.
Na Europa, no entanto, a história deste animal sofreu várias reviravoltas: a cristianização trouxe também a luta da Igreja para acabar com o «paganismo» e os gatos foram associados à crença  de que estes eram familiares das bruxas, ou mesmo encarnações das bruxas e isso fez com que tivesse havido uma perseguição sem quartel a estes animais, com muitas mortes que reduziram muito  a população. Com o número de gatos reduzido, doenças como a peste começaram a levar a melhor pois os ratos transportavam a doença. Os gatos foram usados instrumentalmente para combater os ratos mas, quando o número de roedores era  reduzido voltavam a ser caçados devido aos preconceitos e à associação entre os gatos, a bruxaria e a magia negra.
 
Mas nem todos os povos atribuíam características maléficas a estes animais na Europa: para os celtas, por ex.,, os gatos, domésticos e selvagens, eram vistos como os guardiões de um dos portões do «outro mundo» servindo de ligação espiritual entre o mundo dos humanos e o mundo espiritual.  Mas também entre os celtas os gatos pretos eram alvo de discriminação e eram sacrificados por serem vistos como maléficos.
 Nos países nórdicos os gatos estão associados à fertilidade e à beleza, de modo semelhante ao que acontecia no antigo Egipto: os gatos eram sagrados para a deusa Freya, deusa do amor, da fertilidade e da beleza. Esta deusa protegia os fracos e era uma curadora. Era  também vista como a fonte do amor e da paz . A sua carruagem era dirigida por dois grandes gatos de pelo comprido. Estes gatos simbolizavam a Terra Mãe, a fertilidade e a criatividade. Assim, nestes países, os agricultores  davam leite aos gatos para assegurar os favores da deusa na proteção das colheitas.
 
Outra crença da Idade Média refere que as mulheres dos pescadores conservavam um gato preto em casa porque isso assegurava que os maridos regressariam do mar. O gato era visto como tendo poderes mágicos. No território que é hoje a Checoslováquia, o gato tradicionalmente era associado à fertilidade.
No Japão o gato está associado à boa sorte: o uso de um ídolo de gato, o «gato feliz» que se popularizou no século 19 e 20  é considerado como trazendo boa sorte e prosperidade, espantando os maus espíritos. Marinheiros também colocavam, tradicionalmente, efígies de gato nos navios para lhes proporcionar sorte.
Na China, uma antiga lenda contava que o gato surgiu de uma relação entre uma leoa e um macaco, cada um tendo dado aos filhotes características específicas: a leoa deu-lhe dignidade; o macaco deu-lhe o espírito curioso e o gosto de brincar.
 
Uma antiga lenda polaca conta que uma mãe gata estava a chorar ao lado de um rio, impotente ao ver os seus gatinhos prestes a afogarem-se. Os salgueiros que estavam junto ao rio apiedaram-se  do sofrimento da mãe gata e estenderam os seus longos ramos até estes  entrarem na água  para salvar os gatinhos que tinham caído quando perseguiam borboletas. Os gatinhos agarraram-se aos ramos e foram trazidos a salvo para terra. Desde então, conta a lenda, na Primavera os salgueiros cobrem-se de botões que rebentam na zona usada pelos gatinhos para trepar.
O olhar misterioso dos gatos, a luz que refletem à noite no olhar, as características sensuais e felinas fizeram deste animal, ao longo do tempo, um ser admirado e adorado como um deus ou, pelo contrário, uma criatura  considerada maléfica, associada a rituais de feitiçaria combatidos pela igreja durante séculos. Porém, as suas capacidades de caçador largamente compensaram desde sempre os significados negativos atribuídos, pois este animal foi um elemento muito valioso na salvaguarda da vida humana ao manter as cidades livres dos roedores que transportavam doenças terríveis como a peste, para além de ter sido desde sempre apreciado como animal doméstico e membro das famílias. Símbolo de beleza, de  fertilidade e  de proteção, o gato mantém uma aura de mistério no imaginário coletivo, fruto do cruzamento de tantas crenças durante milénios.
Para saber mais sobre as características do comportamento deste animal, clique aqui.

os Animais e a Cultura- O Mocho, Sabedoria e Augúrios


O mocho  é um animal largamente incluído nos mitos e no folclore  de muitos  povos. Para isso contribuem algumas características da sua morfologia e comportamento, como os olhos grandes e vivos numa cabeça redonda que se  move curiosamente para um e para outro lado, hábitos noturnos , um piar que ecoa na noite de forma fantasmagórica, e o facto  de estar espalhado  geograficamente  por todo o mundo, sendo por isso um animal bastante familiar.
Nas muitas culturas que têm referência aos mochos, há dois aspetos que são recorrentes: a relação entre este animal e a sabedoria –  para a qual a aguçada consciência sensorial  em relação ao  ambiente, certamente contribuiu –  e a relação com os prenúncios de eventos nefastos ou relacionados com a morte.  Para alguns povos, o mocho é  um ser que protege dos males e da doença; para outros é o seu anunciador.  Em muitos povos veneram-se determinadas espécies de mochos como benéficas enquanto outras são encaradas como demoníacas ou maléficas.
Na civilização Suméria o mocho  está representado em tabuinhas de argila datadas de há cerca de 5000 anos: a deusa da morte, Lilith, aparece representada com características físicas do animal e também rodeada de mochos.
Entre os gregos antigos Atena , deusa da guerra e da sabedoria, era representada como tendo um mocho como companheiro e por vezes aparecia aos humanos sob a forma deste animal.  Os romanos também associavam o mocho com a deusa Minerva da sabedoria e atribuíam qualidades proféticas a este animal.  Alguns grandes autores clássicos como Virgílio, Homero, Plínio ou Horácio referem vários eventos em que mochos previram a morte de imperadores, incluindo Júlio César.
Vários povos consideravam que ter uma efígie de mocho pendurada na entrada de casa protegia de vários males: os romanos faziam-no para combater o «mau olhado», o povo Ainu do norte do Japão fazia-o para afastar a fome e a pestilência, os chineses faziam-no para proteger contra o  fogo em caso de queda de raio nas trovoadas, associando este animal à energia positiva ou yang.
Em muitos países africanos o mocho é associado a feitiçaria e bruxaria, considerando que, se um mocho grande voa em redor de uma casa isso é indicação de que ali vive um grande xamã . O mocho é, nestas culturas, um intermediário entre o xamã e o  «espírito do mundo».
No Médio Oriente o mocho é associado à ruína, destruição e morte: acreditava-se que estes animais representavam as almas daqueles que morreram injustiçados.
 Alguns povos asiáticos acreditavam que o mocho levava a alma do falecido. Esta é uma crença  comum  aos povos nativos da América do norte, onde se pensava que o mocho era o veículo pelo qual a alma de um falecido atinge a vida no além. Entre os Ojibwa a «ponte» pela qual passa o espírito de um falecido chama-se «ponte do mocho».  
Existe assim uma ambiguidade nas associações que se fazem ao mocho: na Europa acreditou-se que os mochos eram familiares das bruxas e são um prenúncio de morte;  mas na Babilónia antiga, por ex., acreditava-se que amuletos de  mocho protegiam as mulheres durante o parto; entre os índios Pawnee eram usadas penas de mocho para proteger as crianças  de todos os males. Na Índia, a «coruja das torres» é o veículo da deusa  Lakshmi, associada à abundância, sabedoria e aprendizagem.
Os mochos foram também sempre associados às mulheres: em Bornéu acreditava-se que o ser supremo transformou a mulher num mocho depois desta ter revelado segredos aos seres mortais. Em França existe uma crença no folclore segundo a qual , se uma mulher grávida  ouvir um mocho isso é indicação de que o bebé será uma rapariga.  Também no folclore polaco existe referência a este aspeto, embora com algumas nuances: acredita-se que uma rapariga que morra sem ter casado se transforma numa pomba enquanto uma rapariga casada que morre se transforma numa coruja
E há muitas outras referências a este animal nas lendas e mitos das várias culturas, expressão do fascínio e do interesse que o homem sempre sentiu por esta ave. Vamos seguidamente falar um pouco sobre o seu comportamento .
Características e Comportamento do Mocho
Existem mais de 140 espécies de mochos vivendo em todo o mundo à exceção da Antártica. Tanto podem viver em terras cobertas de vegetação verde como em zonas desérticas com pouca chuva. Há mesmo um mocho, o mocho da neve, que vive na tundra gelada do Árctico onde não existem árvores.  Gostam de nidificar em edifícios abandonados.
A maioria das espécies de mochos é ativa ao amanhecer e anoitecer. O dia é passado num poleiro,  sozinhos ou aos pares, mais ou menos imobilizados. Fora da estação de reprodução podem encontrar-se em bando. Muitas espécies têm dois tufos de penas no alto da cabeça, chamados «tufos de ouvidos» mas não estão associados aos ouvidos e não se sabe para que servem.  As penas em frente dos olhos funcionam como antenas,  refletem o som para a abertura do ouvido.
Os mochos possuem um corpo adaptado para a caça, com pernas e pés fortes e garras afiadas, apropriadas para despedaçar e cortar. As penas são macias e delineadas por filamentos semelhantes a cabelos que amortecem o som do voo, permitindo-lhes ter um voo silencioso e, desse modo, surpreender as presas.  Possuem um sentido aguçado de visão e audição e conseguem caçar no escuro ou com luz difusa. Mas também veem bem durante o dia. O seu sentido de audição é tão aperfeiçoado que eles conseguem ouvir a «altura» do som, percebendo exatamente onde este se origina. Isto permite-lhes ouvir  e localizar os sons das presas pequenas que se movem pela erva no chão, mesmo quando estão debaixo da neve.  Muitas espécies têm penas nas pernas e nos pés, o que lhes oferece proteção  extra. O bico é curvo e as suas partes, superior e inferir, funcionam como uma tesoura, poderosa para cortar e despedaçar.  O mocho alimenta-se de pequenos roedores embora, quando há escassez da sua fonte de alimento  ele ronde os quintais, não hesitando em caçar as aves domésticas .
O dia do mocho começa pela «higiene e grooming», cuidando das penas, limpando os pés e as garras. Após este cuidado, o mocho levanta finalmente voo, por vezes lançando um chamamento, especialmente se está na estação de reprodução.

A linguagem corporal do mocho é muito expressiva porque ele precisa de mover a cabeça – coisa que faz com grande facilidade, podendo mesmo virá-la completamente para trás –  para ajustar  a visão tridimensional e  compreender  melhor o que observam. Movem também o corpo para baixo e para cima se estão em estado de alerta  as penas retraem-se e  ficam agarradas ao corpo , que «cresce» para cima para adotar uma postura ameaçadora. Se estão relaxados, «engordam» com a plumagem fofa e solta. Se precisam de se defender a si próprios  ou as crias, podem ser muito agressivos, podendo mesmo atacar o ser humano. Adotam neste caso uma postura característica, com a cabeça baixa e as asas abertas a apontar para o chão.
O mocho possui um grande número de vocalizações , incluindo o célebre grito e piar mas nem todas as espécies emitem  o grito característico.  As vocalizações servem para marcar território  e também são incluídas nos rituais de acasalamento. Também emitem uma espécie de estalidos com a língua, como parte da expressão de ameaça.
Talvez por ser um predador, por vezes o mocho é alvo de ataque concertado por bandos de  pequenas aves, que o perseguem na  tentativa de o expulsar para outra área. Muitas vezes juntam-se outras aves a este bando de perseguidores que só em grupo se atrevem a afrontar o animal. Este raramente responde com agressividade a estes ataques, optando por ir embora.
Os mochos não são aves migratórias embora os que vivem nas zonas  do norte possam deslocar-se para sul para fugir aos rigores do inverno.
Proteção e sabedoria, má sorte e prenúncio de morte, feitiçaria ou mediação entre este mundo e o mundo dos mortos», o mocho continua a florescer no folclore e no imaginário coletivo pelo mundo fora. Abundante em outros tempos, o mocho  tem tido a sua população reduzida devido à destruição dos seus habitats.

Os Animais e a Cultura: a Águia, Hábil Construtora

A águia é um animal reverenciado por muitas culturas desde a antiguidade: entre os gregos, por ex., a águia Harpia atormentava a família dos que não prestavam as honras devidas aos mortos, sendo considerada uma entidade vingadora da honra familiar.
Mitos do médio oriente falam de uma relação estreita entre a águia e o Sol, frequentemente representado com asas de águia. Os antigos consideravam que a águia é a única que pode olhar diretamente para o Sol. Ela era considerada como um símbolo de coragem, de força, de poder e de liberdade. Os romanos também partilhavam esta simbologia.
Na América do Norte, a águia de cabeça branca (bald eagle) é o animal nacional dos US e um símbolo da liberdade; é reverenciada por todos os povos nativos, que a consideram uma mensageira do criador.
Para os Navajo, a águia surgiu quando um guerreiro, chamado Nayenezgani prendeu um monstro em Wings Rock e, depois, dirigindo-se para o ninho deste onde se encontravam dois filhotes, impediu que estes se tornassem maus quando crescessem, transformando o mais novo num mocho e o mais velho numa águia. Com as penas de ambos fizeram-se ritos especiais daí para a frente, e com os seus ossos, fizeram-se assobios.
Os índios Comanche contam que a águia apareceu quando o jovem filho de um chefe morreu. Inconformado com a sua perda, o chefe dirigiu preces aos deuses pedindo que  lhe trouxessem o filho de volta e o jovem foi transformado numa águia em resposta às preces do pai. A dança Comanche da águia celebra este acontecimento mítico.
Os índios Pawnee consideravam a águia um símbolo de fertilidade porque estes animais constroem ninhos muito grandes e protegem valentemente os seus filhos. Assim, faziam canções e honravam a águia com cantos e danças.
De modo geral, os índios norte-americanos consideravam que o relâmpago e o trovão eram causados por uma grande águia mítica quando esta batia as asas.
Em outros povos, como os Aztecas, estabelecidos no vale do México, a águia era reverenciada como um símbolo da força e as suas penas eram usadas apenas pelas elites sociais.
Entre o povo Kwakiutl há uma lenda que diz que houve um tempo em que a águia tinha uma visão fraca. Mas, como era capaz de voar a grande altura, e acima das copas das árvores mais altas, um chefe pediu a uma águia que vigiasse a possível chegada de canoas inimigas. Cheia de vontade de ajudar mas com medo de fracassar devido à falta de visão, a águia foi ter com a lesma que, naquela altura, tinha uma visão excelente e convenceu-a a trocarem de olhos temporariamente para poder desempenhar com sucesso a sua missão. A lesma aceitou mas,quando os deveres de sentinela da águia terminaram, feliz com a sua nova capacidade de visão, a águia recusou trocar de olhos outra vez. E, assim, a águia obteve a sua fantástica visão e a lesma, sem os os seus olhos , tornou-se muito lenta.
E poderíamos recordar muitas outras lendas sobre esta majestosa ave, pois ela encontra-se em todo o mundo (à excepção da Antártica) e tem fascinado os povos ao longo de tempo.
Mas, quais as características do seu comportamento? Vamos apresentar de seguida alguns elementos para conhecermos melhor este animal de respeito.
A Águia de Cabeça Branca , uma Construtora de Ninhos Gigantes
Conhecem-se várias espéceis de águias , com diferentes tamanhos, formas e plumagens, divididas por 4 classes: as do mar e que se alimentam de peixe; as que se alimentam de répteis; as Harpias; as águias calçadas. Encontram-se na Rússia, Europa e Ásia, mas, uma delas, a de cabeça branca, habita especificamente nos US. Esta águia foi uma espécie ameaçada até 1999. Vive na maior parte do território dos Estados Unidos e também na maior parte do Canadá e no norte do México. Encontra-se em habitats diferentes, incluindo as zonas desérticas de Sonorah e as florestas caducas do Quebec. Esta águia vive em qualquer zona húmida como grandes lagos, costas marítimas, rios, etc, onde pode encontrar água e peixe em abundância. Também precisam de árvores de grande porte , geralmente coníferas com madeira dura para nidificar ou se empoleirar, e com mais de 20 m de altura. Constrói o maior ninho de aves em toda a América do Norte e o maior de todo o reino animal construído em árvore: tem mais de 4 metros de profundidade com 2,5 metros de largo.
O macho e fêmea têm plumagem semelhante mas, ao contrário do que habitualmente sucede no reino animal, a fêmea é maior em tamanho do que o macho. Esta ave é uma voadora poderosa: atinge velocidades entre 56 e 70 km por hora e 48 quando carrega peixe.
É uma ave parcialmente migratória: se as fontes de água de que necessita para se alimentar congelam no inverno, migra para o Sul da costa. É um animal «oportunista«, isto é, aprendeu a usar em seu proveito as correntes de ar ascendente para impulsionar o voo.
Apesar de apreciar especialmente o peixe, tem capacidade predatória para um grande número de espécies: num estudo, verificou-se que cerca de 56 % da sua alimentação era composta por peixe, 28% por aves, 14 % por mamíferos e 2% por outros. Quando precisa de competir pela comida, pode roubar comida aos coiotes, raposas e corvídeos. Esta águia não tem predadores no estado adulto mas, ocasionalmente, os coiotes também podem roubar comida das águias se a ocasião se proporcionar.
Quando atingem entre 4 e 5 anos de idade estão prontas para acasalar e para se reproduzirem. Quando isso sucede regressam muitas vezes ao local onde nasceram. Pensa-se que estas aves acasalam para a vida. Porém, se um dos companheiros morre ou desaparece, encontram um novo companheiro. Os rituais de corte incluem chamamentos espetaculares e exibições de voo. Cada casal dispõe de cerca de 1 a 2 km de território junto a uma fonte de água. 
A época de reprodução estende-se de Fevereiro a Maio. Nos ninhos enormes que constroem são colocados entre 1 e 3 ovos, habitualmente 2, incubados por ambos os progenitores mas principalmente pela fêmea. Pelo menos um dos progenitores está permanentemente no ninho.
As crias, ao nascer, recebem um «imprint» , aspeto estudado por Karl Lorenz, e segundo o qual se constata que os animais seguem o primeiro ser  que veem ao nascer e que lhes dá comida ou assistência. Esta estratégia instintiva do imprint dura desde os 9 dias de idade até cerca das 6 primeiras semanas: durante este período o filhote aprende a distinguir a mãe e a sua espécie e adquire comportamentos específicos que lhe permitem sobreviver. Se, em vez da mãe, a jovem ave vir um ser humano, imprimirá de forma permanente esta espécie como se fosse sua e procurará os humanos para lhe darem de comer. É por isso que, nestas fase, não deve haver qualquer contacto entre os seres humanos e as crias. Um filhote que tenha feito o imprint de um ser humano recusar-se-á a acasalar com a sua espécie quando for adulto.
Por vezes, quando há uma diferença de tamanho entre as crias nascidas, o mais velho ataca e mata o mais novo. Quando têm 8 semanas de vida, as crias voam pela primeira vez mas permanecem perto do ninho e dos pais. Cerca de 8 semanas após o primeiro voo começam a dispersar . Nos 4 anos seguintes vagueiam até terem a plumagem adulta e poderem acasalar e reproduzir-se.
No estado selvagem, a águia vive em média 20 anos. O animal mais velho encontrado tinha 28 anos. Em cativeiro já se observou um que atingiu os 50 anos. Mas, nos US não é permitido capturar esta ave e só instituições públicas com fins educativos podem ter a ave cativa. Uma excepção são os animais feridos que, por causa disso, já não podem sobreviver sozinhos no estado selvagem.