As Plantas, o Trevo e a Mandrágora

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As plantas foram, durante muitos séculos, usadas para curar e para matar(pela extração das suas substâncias tóxicas usadas como venenos) por isso não admira que haja muitas superstições relacionadas com as plantas. Os que dominavam os segredos das plantas, os boticários, curandeiros, bruxos ou xamãs,  eram os verdadeiros médicos em tempos passados. Mas, para além disso, as tradições sagradas estão cheias de referências a plantas, como tendo determinados poderes, desde tempos muito antigos. Só para dar um exemplo, lembremos as tabuinhas de argila deixadas pelo povo sumério há cerca de 5 mil anos e a sua  epopeia de Gilgamesh , toda ela circulando à volta da procura de uma determinada planta… as plantas, para além de terem propriedades químicas bem conhecidas desde há muito, têm também valor simbólico e as superstições que se foram criando em volta delas combinam tudo isso, mais a experiência dos povos , os seus usos e costumes.

E, porque tem uma propagação praticamente universal, cruzando diversas culturas, começamos por falar do trevo, do trevo de 4 folhas, claro. Esta erva tem propriedades que melhoram as qualidades do solo, oxigenando-o e isso não deve ser alheio à boa reputação da planta, para além de outras propriedades. A fama de que a planta favorece a  sorte remonta, imagine-se, ao Paraíso do Eden , quando Eva , ao ser expulsa com Adão, pegou num trevo de 4 folhas para se lembrar da boa vida que tivera até então.  O trevo, como bem sabemos, é uma erva muito comum mas, habitualmente, tem 3 folhas. E, como a sorte é algo raro, o trevo da sorte, que se estima aparecer na proporção de 1 por cada 10 000, tinha que ter 4 folhas para se diferenciar. Alguns povos antigos, como os egípcios, ofereciam um trevo de 4 folhas a um casal de recém- casados para lhes desejar um casamento abençoado e simbolizar o amor eterno entre ambos. Cada folha do trevo tem também um significado específico: uma representa a fé, outra a esperança, outra o amor, e outra a sorte. Ao fim e ao cabo, o conjunto dos ingredientes que produzem uma boa vida.

Na tradição irlandesa, afirma-se que os druidas usavam o trevo para curar os doentes e  também em rituais para afastar o mal.

Algumas das crenças associadas ao trevo de 4 folhas dizem que se uma pessoa encontrar um trevo de 4 folhas, nesse mesmo dia também encontra uma pessoa que será o seu amor no futuro. Uma outra diz que se tivermos um trevo de 4 folhas qualquer projeto que levemos a cabo prosperará. Outros ainda afirmam que, quem tiver um destes trevos da sorte, também será capaz de ver as fadas.

Mas também se adverte que o trevo de 4 folhas só dá sorte se for mantido fora dos olhares dos outros e se não for oferecido a ninguém (também encontrámos uma referência que dizia que se oferecermos o nosso trevo  a sorte que temos será duplicada).Quem sabe quem tem razão?

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A mandrágora é uma planta que faz parte do imaginário, tanto popular como mágico. Trata-se de uma herbácea aparentemente insignificante, que produz uns frutos com cheiro fétido mas que tem uma raiz que nos deixa  cheios de espanto porque se assemelha a uma figura humana, ainda que grotesca. Ora, esta planta, muito conhecida entre os que se dedicam a práticas de magia, é considerada muito poderosa, podendo, segundo dizem, cancelar a esterilidade das mulheres inférteis (e outros animais)  e também se pretende que tem propriedades afrodisíacas, gerando um amor compulsivo. Segundo parece, os videntes usam esta planta para «aclarar» as suas visões.

O visco branco é uma planta também fortemente enraizada na tradição, incluindo a do Natal. Segundo a tradição, a planta protege contra o relâmpago e a trovoada. Adicionalmente, cura várias doenças (aspeto comprovado pela ciência moderna, que extrai da planta importantes componentes de medicamentos). A tradição refere ainda que uma rapariga, quando está debaixo do visco branco ,não pode recusar ser beijada seja por quem for, desde que lhe seja pedido. Este costume mantém-se na nossa tradição natalícia  e ,provavelmente, está associado à ideia de que os arbustos perenes representam a fertilidade  da vida logo a seguir ao solstício de dezembro que põe fim aos longos dias de inverno.

Todos nós conhecemos as virtudes do alecrim, até mesmo curativas pois, nos tempos em que o alívio das dores reumáticas era difícil de alcançar, o álcool de alecrim servia para atenuar muitas dores. Mas talvez nem todos saibamos que, segundo a crença, plantar alecrim à frente da casa é uma excelente forma de evitar a bruxaria e todo o mal de entrar em nossa casa.

A cebola é outra planta cheia de virtudes. Mas você sabia que, segundo a tradição, colocar uma cebola partida em duas metades debaixo da cama de um doente afasta a febre e os venenos que possam estar a produzir mal estar na pessoa? Bom, alguns dos princípios ativos da cebola são voláteis, será que estes, ao libertarem-se quando a cebola é cortada, serão capazes de produzir esses efeitos? Não sabemos mas sabemos, por ex., que um chá de cebola, pese o mau paladar, é uma receita eficaz contra as constipações. Talvez isso ajude a debelar a febre…

E as bolotas são afinal mais do que frutos inúteis do carvalho. Segundo a tradição, andar com uma bolota dá sorte e assegura uma vida longa. (pena que não seja suficientemente bonito, o fruto, para usar como pendente) . E colocar uma bolota junto da janela impede o relâmpago de entrar.

A alface, tão comum nas nossas saladas, também tem muitas propriedades escondidas: por ex. você talvez saiba que o chá de alface  é um eficaz preventivo de insónias mas sabia que a alface tem o poder de produzir o amor ou que pode «cortar» os efeitos do vinho? Pois nós também não sabíamos e, francamente, ficamo-nos pelo efeito sedativo da alface. Duvidamos muito que o excesso de bebida possa ser anulado pelo consumo de uma boa salada. Já quanto ao amor…. Não sabemos, quem tiver evidências desse efeito, partilhe connosco.

E, finalmente, o início do Outono, bucólico, assiste ao cair das folhas avermelhadas de cansaço e de abandono. Sabia que, se apanhar uma folha  que esteja a cair no primeiro dia de Outono passará todo o inverno sem ter uma constipação? Esta queremos experimentar. Afinal não tem efeitos secundários…

As Superstições do Teatro

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O teatro é um meio tradicionalmente associado às superstições. É um meio onde abundam as emoções , causadas pela alegria das atenções do público, da consagração do trabalho dos atores que vibram no palco, deixando nele energias que se perpetuam, razão pela qual os teatros, sobretudo quando estiveram ativos durante muitos anos, são dos edifícios mais assombrados pelos que, outrora, nele encontraram a razão de ser das suas vidas, a glória e a fama.  Mas, para além destas energias positivas, nem sempre as coisas correm bem num determinado espetáculo e, quando isso sucede, há sempre uma explicação que se vai buscar à tradição, às memórias do próprio teatro, que é como um ser com vida própria, daí a associação entre o teatro e as superstições.

Tudo parece ter começado no século 6 a. C. com um ator grego chamado Thespis que terá sido o primeiro ator individual a proferir palavras em palco, supostamente no dia 23 de novembro de um determinado ano. Assim, quando algum ator  ainda hoje se engana nas falas, sobretudo quando isso calha no dia 23 de novembro, o evento é associado à ação fantasmagórica de Thespis. (talvez ciumento de não poder ele próprio continuar a proferir as suas falas como ator). Diz-se que muitos atores famosos continuam, após a sua morte, presentes no teatro que viu as suas representações, muitas vezes ao longo de anos e os atores atuais  contam muitas histórias em que essas antigas glórias do teatro se manifestam de alguma forma. Assim, tornou-se tradição reservar um dia por semana sem representações no teatro – normalmente a 2ª feira- para que os fantasmas possam ter o palco para si e reviver a sua antiga glória. Este dia semanal sem espetáculo é respeitado por todo o mundo e, para além do óbvio dia de descanso dos atores e restante pessoal, tem também este significado que é deixar o palco livre para os fantasmas do teatro.

Das várias superstições associadas com o teatro, nenhuma é tão conhecida (nem temida) como aquela que foi associada à peça de Shapkespeare, Macbeth.  Como sabemos , a peça inclui a referência a bruxas e a encantamentos por elas utilizados. Ora, parece que logo na primeira representação da peça, o ator que fazia o papel de Macbeth morreu ou imediatamente antes ou depois da produção da peça (existem várias versões do sucedido). A má sorte associada à peça dever-se-á ao facto de Shakespeare ter retratado bruxas reais e  de estas  supostamente não terem gostado do modo como foram representadas pelo dramaturgo, amaldiçoando a peça. Algumas versões dizem que o diretor da 1ª representação terá roubado um caldeirão às bruxas reais para usar na peça e estas vingaram-se; outra versão diz que a peça revelou segredos das bruxas e que, por essa razão, elas se vingaram; outra versão ainda diz que a produção original usou bruxas reais e bruxaria e que, por isso, a peça está amaldiçoada.  O que é certo é que ninguém  diz o nome da peça no teatro- «Macbeth» – referindo-se-lhe como «a peça escocesa» e, se alguém, por lapso terrível diz o nome fatal, deve sair do teatro, correr 3 vezes à volta do teatro , depois de cuspir   e amaldiçoar, e só  depois pede para o deixarem entrar novamente no teatro. Nenhum ator repete os encantamentos das bruxas antes da representação. Quando esta acaba, porém, e fora do teatro, pode falar-se da peça abertamente.  Quanto à origem destas superstições, talvez o público tenha ficado impressionado com as cenas assustadoras com as bruxas e se tenha convencido de que a peça era mais do que uma simples representação. E talvez isso tenha sido terreno fértil para associar qualquer evento negativo que acontecesse  na proximidade da representação da peça como uma prova de que a peça estava amaldiçoada. O que é um facto é que se trata de uma peça muito popular  que, por causa disso, era por vezes usada pelos diretores de teatros em dificuldades e com dívidas, para tentarem, através de maior número de pessoas que vinham ver a peça, superar as dívidas e as dificuldades. Acontece que muitos não conseguiam superar essas dificuldades e, por isso, pouco tempo depois da produção da peça, entravam em falência, o que terá originado a fama de que a peça produzia má sorte e a falência do teatro. Afinal, a mistura dos encantamentos das bruxas e as maldições casa muito bem com a ideia de  azar e de  má sorte.

Outra superstição muito difundida entre as pessoas do teatro e cuja popularidade acabou por se estender além dele, como manifestação do desejo de «boa sorte» é a expressão «parte uma perna», para desejar sorte aos atores antes de uma representação. É sem dúvida uma expressão algo inesperada como sinónimo de boa sorte mas a sua origem acaba por mostrar uma conexão lógica com esse desejo. Esta expressão parece ter-se originado nos espetáculos de teatro de «Vaudeville», quando os atores só recebiam se a peça tivesse um número razoável de audiência e pudesse ser representada no palco. No teatro, há diversos espaços separados por cortinas, e umas dessas cortinas são conhecidas por «pernas». Se o ator passasse além delas, (sinal de que o público estava a gostar e não o corria com todo o tipo de objetos atirados, frutos, ovos, etc etc que estivesse à mão) teria o seu pagamento garantido. Daí o «parte uma perna» isto é, o  desejo  de que o ator que passe além da cortina «perna». Além disso, nos tempos de Shakespeare, o público, quando estava satisfeito com a representação dos atores, atirava dinheiro para o palco, sendo necessário que os atores curvassem o joelho para o apanharem. Neste sentido, o «parte uma perna »  é sinónimo de «flete a perna» ou seja, equivalente ao desejo  de  que o público goste da representação do ator e lhe atire dinheiro por isso.

Existem ainda outras superstições associadas ao teatro. Uma delas é que não deve usar-se roupa azul no palco a menos que seja usada ao mesmo tempo que alguma coisa em prata. Tal superstição parece ter-se originado nos tempos em que a produção de tintura de tecido para obter roupa azul era difícil de obter e, por isso, as roupas azuis eram muito caras. Ora, parece que alguns diretores de teatro, para tentarem esconder as dificuldades financeiras, por vezes usavam roupas azuis para alardear uma situação de sucesso financeiro inexistente e, logo depois dos espetáculos, muitas vezes as dividas caíam-lhes em cima , produzindo a falência, o que era atribuído ao uso (dispendioso) de roupa azul. Daí a ideia de que esta cor usada em palco dá azar. A menos que, ao mesmo tempo, a pessoa use prata. (pois isso indica que ela tem mesmo dinheiro para se dar ao luxo de as usar).

Outra superstição ligada ao teatro é a de que dá azar usar penas de pavão em palco, tanto nos cenários como na roupa. Existem histórias que contam que, ao usar essas penas, houve cenários que caíram, cortinas que pegaram fogo e outros eventos desastrosos quando se usavam estas penas numa peça. A razão para esta crença parece estar no mito grego que conta como um monstro coberto de olhos foi transferido para a cauda do pavão. Assim, usar penas de pavão no palco é levar «mau olhado» para este e, dessa forma, despoletar má sorte para o espetáculo.

E, por falar em mau olhado, os espelhos estão proibidos de entrar em palco, dando um azar extremo. Esta crença ter-se –á originado na superstição antiga de que o espelho reflete a alma e de que, ao parti-lo inadvertidamente,(situação fácil de acontecer com a movimentação em palco) isso traz 7 anos de azar tanto para a pessoa como para o teatro. Esta superstição parece ter um fundo prático pois o uso de tal objeto pode provocar muitos efeitos indesejáveis como interferir com a iluminação da peça, criar distrações, etc. , não sendo desejável de todo , de modo que os azares podem acontecer de facto quando se usa este objeto em palco.

E finalizamos este artigo de hoje, que articula as superstições e o teatro com o costume de oferecer, depois de finalizado o espetáculo e noite dentro, um ramo de flores roubadas do cemitério, ao diretor e ator /atriz principal da peça. Simboliza-se assim a «morte» do espetáculo e o facto de , agora, este poder descansar até à próxima sessão pois decorreu com sucesso. E nunca se deve oferecer flores antes do espetáculo, acreditando-se que isso traz muita má sorte. (pois recompensa o que ainda não se obteve).

Na próxima semana continuaremos a falar das superstições que se ligam ao viver humano.

Superstições: Espirrar e Bater na Madeira

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Algumas das superstições mais conhecidas e espalhadas pelo mundo refletem gestos simples  e até mesmo respostas orgânicas. É o que acontece com os espirros. Espirrar é uma resposta reflexa do organismo perante algum estímulo irritativo ou alérgico ou é sinal de uma constipação. Porém, há algo de misterioso no gesto súbito que, de repente, nos acomete e surpreende , parecendo arrastar a nossa alma para fora de nós. E é essa a razão pela qual, desde tempos muito antigos, se generalizou uma série de crenças  e  de superstições acerca dos espirros.

Desde épocas muito antigas que se acredita que há uma relação profunda entre a alma e a respiração. E o homem antigo, ao surpreender-se com um espirro, acreditava que, através dele, se  soltava uma parte da sua alma. O espirro causava por isso o receio  de ficar sem alma: e se, ao espirrar, a alma se soltasse toda inteiramente?  Por isso abençoava-se a pessoa  depois de espirrar: «Deus te abençoe» para que a tua alma não te deixe pois isso será a tua morte ou, pior ainda, será deixar-te sem alma. um mero invólucro físico sem substância espiritual .

Este costume de abençoar a pessoa que acabou de espirrar está espalhado por todo o mundo em muitas culturas. Na Europa é conhecido pelo menos desde o final do século 6. E, quando , no século 17, a peste negra dizimou grande parte da população europeia verificou-se que, quando uma pessoa afetada pela doença estava perto do fim, espirrava violentamente. Ora, com tantas mortes era impossível que houvesse um padre perto de cada pessoa nessas condições para a abençoar, razão pela qual o papa decretou que, sempre que alguém espirrasse, devia ser abençoado pois estaria iminente a sua morte (e sem bênção seria difícil ir para o céu).

Para os povos antigos (gregos, romanos, egípcios) o espirro era um instrumento divinatório usado para prever a  boa ou a  má sorte. Avisavam de algum perigo iminente ou previam coisas boas ou más no futuro.  Também era crença comum que ao espirrar, uma pessoa que tivesse maus espíritos agarrados a si libertá-los-ia através do espirro. E, quando alguém, ao conversar, espirrava, isso era sinal de que estava a dizer a verdade.

No século 17 em Inglaterra, quando alguém ao andar na rua, via outra pessoa espirrar tirava o chapéu , cumprimentava e dizia «Deus te abençoe». Já durante o século 19 também em Inglaterra, popularizou-se uma rima sobre o significado de espirrar em diferentes dias da semana. Esta rima recupera a velha ideia dos povos antigos de que os espirros têm o poder de profetizar acontecimentos: espirrar à segunda feira , é prever um perigo; à 3ª feira  é sinal de que vai beijar um estranho; à 4ª feira, prevê a chegada de uma carta; à 5ª feira, prevê algo melhor; à 6ª feira adivinha um pesar; ao Sábado anuncia uma viagem; ao domingo adverte para procurar segurança pois o demónio vai atentar contra a pessoa durante toda a semana.

Outras superstições sobre os espirros afirmam  que espirrar entre o anoitecer e a meia noite é sinal de boa sorte mas, se tivermos o infortúnio de espirrar de manhã quando nos vestimos, teremos má sorte o dia todo. E se temos um gato em casa e ele espirra, isso é sinal de boa sorte para toda a família e o  mesmo acontece quando duas pessoas espirram ao mesmo tempo.

Agora, se ao espirrar viramos a cabeça para a esquerda, isso traz má sorte; o contrário acontece se viramos a cabeça para a direita; se espirramos duas vezes isso é sinal de boa sorte mas, se espirramos uma ou 3 vezes, a má sorte conspira contra nós.

No Japão associa-se o espirro à influência de outra pessoa: se espirramos uma vez, há alguém que está a falar bem de nós; se espirramos duas, alguém fala mal de nós; e, se espirramos  3 vezes, alguém fala com desdém de nós. Mas, se espirramos 4 vezes, a sensatez aconselha a tirar uma conclusão mais prosaica; é sinal de grande e forte constipação!

Outra superstição muito difundida é a de bater na madeira. Bater na madeira é  um gesto muito repetido quando queremos atrair a boa sorte para alguma coisa ou circunstância. A crença associada e muitas vezes esquecida por quem faz este gesto por ele estar culturalmente muito disseminado e desde há muito a sua origem se ter perdido no imaginário coletivo é a de que as árvores são habitadas por espíritos e que bater na madeira é uma forma de «conversar» com alguns deles. Por ex., no folclore irlandês, bate-se na madeira para agradecer aos duendes por alguma bênção ou boa sorte por eles concedida. Bater ou tocar na árvore- por vezes uma árvore específica como um carvalho, por ex.,- chama os deuses para virem dar proteção em relação aos maus espíritos. É o que sucede com o bater 3 vezes na madeira: quando se antevê um momento de boa sorte e para que este não seja destruído pela inveja de algum mau espírito ou pessoa mal intencionada, bate-se na madeira 3 vezes porque esse é o «código» de chamada dos bons espíritos para que venham proteger-nos em relação aos que podem destruir a nossa sorte.

Quando os judeus foram perseguidos no século 15 na Europa pela inquisição, surgiram outras versões da crença. Para fugirem à tortura e à morte pela inquisição, os judeus refugiavam-se em casas de madeira, que surgiram como refúgios para os acolher. Para serem facilmente  reconhecidos, batiam na madeira antes de entrar, como resposta codificada . Muitas pessoas escaparam dessa forma à morte e, mais tarde, o gesto de bater na madeira para ter sorte generalizou-se, tornando-se comum nos séculos 19 e 20.

E assim, repetimos desde então este gesto, como algo que, de tão familiar, se tornou numa forma espontânea de comportamento partilhado por todos.

Voltaremos na próxima semana com mais algumas superstições.

Superstições- Sexta Feira 13

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Continuamos a apresentar mais algumas superstições, muitas delas bem enraizadas na experiência popular, revelando a sabedoria do povo acerca de uma dada realidade ou assentando nas suas crenças, muitas vezes ligadas aos cultos religiosos ou aos mitos tradicionais.

Hoje falamos da conhecida superstição da «Sexta Feira 13». É uma superstição recheada de história e de múltiplas experiências em diferentes épocas e locais. A memória conjunta de todas elas acabou por aglutinar-se num único significado conjunto guardado no imaginário universal.

Por exemplo, o número 13 indica um «excesso», algo que é acrescentado  ao número completo que é o 12: o ano tem doze meses, os deuses do Olimpo eram doze, os apóstolos de Jesus eram doze… por isso, acrescentar um outro número  é perturbar uma ordem perfeita, destruindo-a. Abundam as histórias do 13 relacionado com um 13º  elemento que , não tendo sido convidado, aparece , com a intenção secreta de fazer mal: um mito nórdico conta a história de um jantar em que doze deuses estavam a confraternizar até que apareceu um elemento não convidado, que tinha a intenção de mandar matar um deles, Balder, o deus da alegria. Este foi morto e a terra escureceu, em luto e tristeza; Judas foi o 13º convidado para a última ceia de Cristo e sabemos o resultado: atraiçoou o Cristo, fazendo com que ele fosse preso pelos romanos e martirizado; na Antiguidade, acreditava-se que as bruxas formavam grupos de 12 e que o 13º elemento era o demónio.

Quanto à sexta feira, acredita-se que Eva tentou Adão, no paraíso, numa sexta feira e que algumas das catástrofes mencionadas na Bíblia, como o dilúvio e a morte de Jesus, também ocorreram na 6ª feira, o que tornou este dia  um dia «aziago» na mente popular. Acrescentam-se a isto alguns costumes em países como Inglaterra, que , no passado, escolheram   a sexta feira como o dia em que faziam as execuções públicas por enforcamento. A ideia de que neste dia  tudo pode correr mal vulgarizou-se.

A ligação entre a sexta feira e o número treze fez com que este dia se tornasse, na mente popular, um exemplo máximo da má fortuna. Por exe., quando os condenados caminhavam para a forca onde iriam perder a vida, acreditava-se que eram 13 os passos necessários para lá chegar. E, quando, em 1306, o rei de França prendeu o grão mestre da ordem dos cavaleiros templários (e todos os cavaleiros que apanhou desprevenidos) e os martirizou , para lhes confiscar  os muitos bens e tesouros que a ordem possuía, para encher os depauperados cofres de França, a crença popular, apoiada nesta matança que chocou e atingiu a mente popular de forma muito viva, reforçou-se, transformando cada dia 13 que calha numa sexta feira num dia de muita má sorte.

Esta crença é tão forte no imaginário coletivo que se tornou bem visível  na vida das cidades muitos séculos depois e apesar da mente supostamente científica do homem atual: muitos arranha-céus não têm 13º andar; em Itália, não existe número 13 na loteria e a numeração das habitações nas ruas também omite o 13: passa-se do 12 para o 12 e meio e depois para o 14… nos países e nas cidades que nomeiam as ruas através de números, não existe 13ª rua nem 13ª avenida.  O mesmo acontece com os  aeroportos, em que não existe a 13ª saída, hotéis e hospitais que não têm o quarto nº 13…  Crendices, dirá o leitor mais cético mas a verdade é que, mesmo quem não acredita em superstições, sente um arrepio perante um quarto de hotel que exiba o nº 13. O imaginário é uma poderosa força inconsciente  a influenciar os comportamentos humanos, individuais e coletivos. A compilação de memórias de «má sorte» associada a um dia da semana ou a um número continua viva no inconsciente coletivo.  E os apoiantes da tradição não se cansam de mencionar exemplos entre o dia 13 e a «má sorte»: a missão lunar Apollo 13 e o seu falhanço; o facto de alguns dos assassinos mais famosos e cruéis terem 13 letras no nome: Jack the Ripper; Jeffrey Dahmer; Theodore Bundy, etc. ter 13 letras no nome dá  muito azar, afirma-se.

Devido a esta superstição, há várias coisas que se acredita que dão azar se realizadas numa sexta feira: mudar a cama  de lavado; lançar um navio ao mar pela 1ª vez; iniciar uma viagem; começar a fazer uma peça de roupa (a menos que seja acabada no mesmo dia), etc..

Uma outra superstição curiosa diz que não se devem cortar as unhas à sexta feira (nem ao domingo) e que as unhas cortadas não devem ser deixadas ao «deus dará» mas devem, ou ser guardadas (?!) queimadas ou enterradas.

 Mas nem todas a sextas feiras dão azar, como acontece com a sexta feira santa, devido à crença de que o martírio de Cristo foi um ato de amor pela humanidade e a sua santidade torna-se, por esse facto, protetora. Assim , a crença diz que uma criança nascida na sexta feira santa e batizada no domingo de Páscoa terá o dom da cura (tal como Cristo) e, se for um rapaz, chegará a ministro («se for um rapaz», esta parte da crença tem as marcas do tempo e dos  condicionalismos históricos que reservavam certas carreiras exclusivamente para os homens).

Outras crenças associadas com a sexta feira santa, são que cortar o cabelo na sexta feira santa previne dores de cabeça no ano inteiro; se uma pessoa morre na sexta feira santa vai imediatamente para o céu (os portões estão abertos sem restrições neste dia); e há ainda a afirmação de que não se deve derramar sangue neste dia nem trabalhar em madeira nem pregar pregos, numa alusão ao  sofrimento de Cristo na cruz e aos seus algozes: fazer esses trabalhos seria encarnar  simbolicamente os algozes de Cristo e tornar-se como eles.

 Para a semana continuaremos a apresentar mais algumas superstições e os seus significados.

Superstições – A Chaminé, a Cama e a Vassoura

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Continuamos a apresentar algumas superstições que têm acompanhado  a humanidade desde tempos que se enraizam na memória. Algumas destas superstições perderam algum do seu significado vivo devido à mudança nos hábitos  de vida e à tecnologia que está em uso nos nossos tempos. É o caso das superstições associadas à «chaminé», produto da revolução industrial e que, no século 19, proliferou pelas casas trazendo um novo conceito de conforto e de bem estar  mas também novos mitos e crenças. Não nos admira que assim tenha acontecido: a chaminé estabelece uma ponte entre o mundo humano «térreo» e o céu, pois abre-se para o céu  e para o infinito, como uma ponte que leva até à divindade. Não é por acaso que o «Pai  Natal» desce pela chaminé para entregar os seus presentes no dia de Natal. Ele usa a «ponte» entre a morada divina e a morada terrena dos homens.  E, por isso, as pessoas que habitualmente se dedicam a limpá-las, os «limpa chaminés», ficam tocadas da mesma transcendência. É por isso que a crença dizia que encontrar um «limpa chaminés» por acaso (quem não se lembra do inesquecível e mágico «Mary Poppins»?) isso é um excelente sinal de boa sorte. E, se formularmos um desejo nessa ocasião, é certo que ele se concretizará.

A cama é mais do que uma peça de mobiliário que nos acolhe nas horas de sono. Ela está também associada a mil segredos pois, afinal, quem sabe o que se passa quando estamos a dormir? E os sonhos, ou pesadelos ou simplesmente o despertar misterioso após umas horas de sono em que a consciência nos deixou, tudo isso apela para o desconhecido e, consequentemente, para o surgimento de crenças e superstições. Ao mesmo tempo, vários saberes atentos às energias que nos cercam, ajudam-nos a ter  a percepção de qual o melhor local para colocarmos a nossa cama, peça tão importante onde passamos uma boa parte da nossa vida.  E assim, Caro(a) Leitor (a), fique sabendo que colocar a cama de frente para norte ou para sul traz má sorte; do mesmo modo, devemos levantar-nos da cama pelo mesmo lado em que nos deitámos ou teremos má sorte (é melhor assegurar que a pessoa que se levanta é realmente a mesma que se deitou anteriormente); e, quanto a fazer a cama, se começámos essa tarefa, não devemos interrompê-la ou, nessa noite, teremos um sono intranquilo (talvez porque alguma má influência ocupa o nosso espaço, nesse intervalo?) E se  a leitora for uma pessoa  que decidiu fazer uma colcha para a sua cama, é melhor acabá-la pois, se não o fizer, nunca se casará (esta parece-nos fácil de entender, se nos lembrarmos de que em tempos idos as futuras noivas iam fazendo o seu enxoval  e, se este não estivesse completo, é claro que o casamento não viria, por falta  de preparação).

E se você é um(a) ou jovem à espera de encontrar o seu «príncipe» ou «princesa» encantado (a) mas na verdade quer assegurar todas as possibilidades e tem um caderninho com nomes de possíveis  eleitos  ou eleitas em vista mas gostava de saber se algum deles lhe está destinado, a coisa é simples: pegue numa maçã com o  pedúnculo agarrado e vá torcendo o pedúnculo  com os dedos ao mesmo tempo que vai dizendo os nomes das pessoas que lhe andam no horizonte do pensamento  casamenteiro. A pessoa com quem você  casará será aquela cujo nome  estiver a ser dito  quando o pedúnculo da maçã finalmente ceder e partir… simples, não? (Mas não é para levar muito a sério, dizemos nós) .

Outra crença curiosa e passada de moda agora que temos ecografias que mostram de forma objetiva esta informação, era a usada para  saber qual o sexo de uma criança quando a mãe estava grávida: o princípio usado é o mesmo do pêndulo. Pegando na aliança de casamento, ate-se -lhe uma linha  e, sobre a mão da mulher grávida, suspenda-se este pêndulo improvisado concentrando-se na aliança e deixando que o subconsciente mova o anel, sem que a mão o faça voluntariamente: se a aliança se mover num movimento oval ou circular, a criança será uma menina; se, por outro lado, o movimento for direito ou em linha reta, será um rapaz.  Diga-se o que se disser, este era um métodos bem mais  interessante  do que  olhar para um monitor. Pelo menos mantinha a dúvida até ao fim…

Agora, as campainhas. No artigo da semana passada falámos de uma tradição em que as noivas tocam campainhas no casamento para afastar os maus espíritos. Agora percebemos porquê: estes têm medo de barulhos ruidosos. E porquê? Porque, quando uma campainha toca, um novo anjo acabou de receber as suas asas.

A cor azul está associada ao divino e ao bem, ao amor, à fidelidade… não admira, pois , ao olharmos para o céu , este parece-nos azul.  E, por isso, também não há razão para nos  admiramos de que, se usarmos um colar de contas azuis,  com isso afastamos as «bruxas» e, por falar em bruxas, as vassouras, protagonistas principais do lar no tempo em que não dispúnhamos de outras utilidades menos cansativas, são um dos objetos  do lar mais carregados de superstições. Também não nos espanta: as vassouras servem para remover o lixo, estando por isso em contacto com as impurezas  e , simbolicamente, estas associam-se ao mal. É por isso que a  crença diz que nunca devemos levar a vassoura quando mudamos de casa. Devemos deitá-la fora e comprar  uma nova. Caso contrário, levamos connosco todos os «maus espíritos »  e más influências ligados à vassoura. E, em continuidade, é também compreensível porque é que não devemos encostar a vassoura à cama. Se isso acontece, as más influências agarradas à vassoura lançam um feitiço para a cama. E, se alguém ao varrer  varre por cima dos nossos pés, nunca casaremos ( não sabemos o que acontece se já tivermos «dado o nó»). Para afastar um convidado indesejado que recebemos em casa, devemos varrer imediatamente o compartimento onde a pessoa esteve , mal ela saia. Calculamos que, dessa forma, atiramos fora as  energias que ela deixou na casa e, por isso, não voltará.  Finalmente, não devemos  varrer o lixo para fora de casa depois do anoitecer, a  menos que desejemos receber a visita de um estranho.

E quando seres voadores nos entram pela casa? Segundo a crença, isso  também tem significado pois, na mente do homem tradicional, o acaso não existe e tudo tem uma razão de ser: assim, se nos entra uma abelha em casa, ela anuncia uma visita em breve. Não devemos matá-la pois isso traz má sorte (ou então a visita será desagradável). Se pensarmos que as abelhas são animais de extrema utilidade para os seres humanos e para o bom andamento das colheitas, etc, devido à polinização, torna-se fácil perceber a origem desta superstição; se um melro nos entra em casa pela janela, uma morte ocorrerá em breve (ou não fosse este animal preto);

Finalmente, terminamos por hoje com a referência a outra superstição: quando nos despedimos de um amigo ou ente querido, não devemos fazê-lo numa ponte pois isso indica que jamais nos voltaremos a ver. As pontes ligam locais separados mas  essa ligação pode ser muito frágil, sobretudo nos tempos antigos em que as pontes nem sempre obedeciam a critérios de robustez de engenharia; e, por outro lado, são tradicionalmente locais por onde   a passagem não é grátis e, por vezes, sobretudo no passado, podia  ser objeto de impedimentos vários (defendidos com a espada). Daí o simbolismo da separação difícil de remediar.

Voltaremos na próxima semana com mais algumas superstições.

Superstições sobre o Casamento

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Algumas das tradições e superstições mais conhecidas dizem respeito ao casamento. Isso não admira pois, desde os tempos mais antigos, o casamento é uma instituição fundamental para a sociedade e uma aventura (literalmente, sobretudo nos tempos mais antigos em que o casamento nada tinha a ver com o amor) para o jovem casal que inicia uma vida em conjunto. Como tal, é um evento, mesmo hoje  em dia, que suscita alguma ansiedade pois ninguém consegue prever exatamente como é que ele vai correr. E, se hoje o casamento facilmente  pode terminar com um ato administrativo simples que formaliza o divórcio, durante muito tempo e em muitas culturas ele era visto como um compromisso para a vida e que importava proteger ao máximo das más influências. Daí terem nascido algumas das superstições mais conhecidas sobre o casamento:

Superstições  para afastar a má sorte ou as más influências no Casamento

Uma das tradições mais antigas é o uso do véu pela noiva. Esta tradição ter-se –á iniciado na Antiga Roma e servia para que a noiva passasse «despercebida» ou disfarçada para que maus espíritos invejosos não lhe fizessem mal por  invejarem a sua felicidade;

Outra tradição semelhante é  carregar a noiva ao colo até ao limiar da sua nova casa. Este costume iniciou-se na Europa Medieval  e deveu-se à crença de que a noiva era vulnerável (só ela, pois claro, pois, como mulher, era a «parte fraca») aos maus espíritos, através da sola dos pés por isso o noivo carregava-a para se certificar de que nenhum mau espírito ia para a sua casa através da noiva.

Outra superstição diz respeito a cruzar-se com uma freira ou monge  a caminho do casamento (mais uma vez, diz respeito à noiva. O «mal» que acontecesse no casamento só podia ser levado por ela, a parte mais fraca). Isto significava uma vida futura de pobreza ,de indigência e de esterilidade, devido à associação simbólica entre os monges e as freiras e a  renúncia à riqueza e aos confortos materiais da vida. Cruzar-se com um deles significava «passar» a sua forma de vida para a vida do casal, sendo por isso mau agouro.

No simbolismo das joias dá azar usar pérolas num anel de noivado pois a sua forma semelhante à de uma lágrima dá má sorte, atraindo infelicidade. Pelo contrário, usar uma safira num anel de casamento/ noivado significa felicidade conjugal; usar uma água marinha no anel simboliza a harmonia conjugal  e assegura um casamento longo e feliz.

Segundo a tradição, quando  a irmã mais nova de duas irmãs casa primeiro, a mais velha deverá dançar descalça no casamento, ou não casará. Talvez, conjecturamos nós, porque  o facto de estar descalça simboliza a sua humildade e a aceitação do primeiro que lhe apareça com a intenção de casar pois, sendo mais velha, as «boas oportunidades» já se foram e não pode dar-se ao luxo de ser «esquisita» na escolha.

Durante a época dos Tudor, em Inglaterra, surgiu o costume de atirar com sapatos aos noivos, para assegurar que estes teriam uma vida próspera. Este costume, numa época em que ter um par de sapatos não era para todos, é compreensível embora nos perguntemos como é que reagiriam os noivos ao apanharem com um par de sapatos na cara… nos dias de hoje a tradição foi revista (não admira…): prende-se um par de sapatos na parte traseira do carro. Em outros países, lança-se arroz para cima dos noivos, para desejar abundância e prosperidade (o cereal é um símbolo de prosperidade e, por isso, de vida  confortável assegurada. E também é um símbolo da fertilidade , da Terra e da noiva); na Checoslováquia parece que não gostam de arroz e atiram ervilhas.

Costumes e Superstições do Casamento

Quem não conhece a velha exigência de que a noiva deve levar «uma coisa velha, uma coisa nova, uma coisa emprestada e uma coisa azul»? Pois a razão é muito simples: a coisa velha é o passado da noiva, algo de que ela não se envergonha e por isso simboliza dessa forma; algo novo simboliza a sua vida futura, com o seu marido; algo emprestado: a noiva deve assegurar-se de que pede algo emprestado a um casal feliz para , ao usar algo emprestado dele, «transferir» para o seu próprio casamento  a felicidade do outro casal. E quanto à «coisa azul» simboliza os votos de fidelidade e de amor do casal.

Muitos de nós já ouvimos  dizer que, se o noivo vir a noiva antes do casamento isso dá azar. Sabe o (a) leitor (a) donde vem esta superstição? Bom, vem dos tempos em que o casamento tinha pouco ou nada a ver com o amor  e tinha tudo a ver com um «negócio» de troca. Quando os casamentos eram arranjados os noivos não se conheciam antes de se encontrarem na cerimónia. E, a julgar pela superstição enraizada, o número de noivas pouco atraentes deve ter sido grande. Era melhor o noivo não a ver antes do casamento, não fosse mudar de ideia…

E quanto às prendas? Já se lembrou de oferecer um conjunto de facas como prenda de casamento? Má ideia, as facas são símbolo de corte e, por isso, pensa-se que dão azar se forem recebidas como prenda pois significa que o casamento se desfará. Assim, a única forma de receber facas nesta ocasião (porque afinal fazem jeito na cozinha) é os noivos darem um cêntimo  a quem as ofereceu. Desse modo passam a ser uma compra e já não há azar…

E se você planeou um belo dia de casamento ao ar livre e, nesse dia chove que Deus a dá? Infelicidade? Nada disso, fique sabendo que é um excelente augúrio, simboliza fertilidade e limpeza. A noiva ficará grávida logo a seguir ao casamento e que pode acontecer de melhor do que ter um filho? Quanto à festa, é para isso que se fizeram os espaços cobertos.

Alguns povos têm umas crenças curiosas. Veja os ingleses, por ex, que juram que se a noiva descobre uma aranha no seu vestido de noiva (onde será que ela o comprou ou guardou para isso poder acontecer?) isso é um excelente sinal de boa sorte. Não nos pergunte porquê, estamos até agora sem entender.

Já os irlandeses, acham que o ruído de campainhas atrai a boa sorte pois afasta os maus espíritos (que devem apreciar o silêncio, pensamos nós) e por isso são tocadas campainhas nos casamentos e as noivas chegam a levar algumas campainhas pequeninas no bouquet para se lembrarem dos seus votos de casamento.

E quanto às noivas prendadas, que gostam de bordar, fiquem a saber que devem resistir tenazmente à tentativa de bordar o vosso nome de casadas antes da cerimónia acontecer pois correm um grande risco de que ele não se realize. Temos para nós que esta superstição nasceu da ideia de que é difícil conseguir um casamento e, por isso, o melhor é tratar o assunto com pinças e luvas de veludo. Não vá a má sorte impedir o evento e acabar com a esperança da futura noiva!

Em Itália há um costume engraçado, partir algo de vidro. Os recém casados partem uma jarra de vidro com toda a energia de que são capazes. E depois contam o nº de fragmentos que daí resulta: cada fragmento simboliza um ano de feliz casamento. Não admira que usem toda a energia de que são capazes, é bom fazerem algo para que a felicidade dure!

E se a noiva chora no dia do casamento? É excelente, diz a tradição, pois é bom que ela gaste as lágrimas todas antes de iniciar a sua vida nova. Significa que esta será feliz.

Na Suécia, tradicionalmente, a noiva coloca uma moeda de prata do pai e uma moeda de ouro da mãe em cada sapato para assegurar que o dinheiro não lhe vai faltar na sua nova vida de casada.

Na Holanda  planta-se um pinheiro em frente à casa dos recém casados como símbolo de fertilidade  e de sorte.

Durante muito tempo as noivas usavam um vestido sem características especiais, não havendo a definição de «vestido de noiva». O costume de usar vestido de noiva branco foi iniciado pela rainha Vitória em 1840. Mas isto foi na Europa pois no Japão o uso de vestuário branco para o casamento era muito antigo.

E sabe o (a) leitor (a) porque usamos a expressão «dar o nó» para exprimir que alguém se vai casar? Tem a ver com o costume em muitas culturas diferentes – celta, egípcia, hindu- de atar as mãos dos noivos para simbolizar o compromisso de ambos em relação um ao outro e a sua união como casal.

Quanto às festas de despedida de solteiro (que hoje se fazem tanto pelo lado do noivo como pelo lado da noiva- sinal da democracia de género da atualidade) foram os antigos soldados espartanos que iniciaram o costume, ao fazerem festas  ruidosas para se despedirem da sua condição de solteiros.

E quanto às raparigas solteiras  que assistiam tradicionalmente aos casamentos desejando elas próprias casar? Bem, havia uma forma de saberem se iriam satisfazer ou não esse desejo: bastava levar uma fatia do bolo de casamento para casa e colocá-la debaixo da almofada (devidamente acondicionada em embalagem estanque, esperamos). Durante a noite sonhariam com o futuro marido. Ou não, o que seria uma tragédia, pois ficariam para tias, numa época em que mulheres solteiras eram uma verdadeira tragédia em sociedade, equivalente a ser pária social.

E terminamos esta apresentação de algumas (há muitas mais) das superstições e costumes associados ao casamento: segundo a tradição grega, se a noiva colocar um cubo de açúcar na sua luva, isso fará com que o seu casamento seja doce e feliz. E esta? Afinal é bem simples a receita. Experimente, mal não fará…