Mitos da Cultura Ocidental, O Toque de Midas


 
Existem  várias referências acerca de Midas, acreditando-se que houve vários reis com este nome. Porém, aquele de que falamos hoje terá vivido no segundo milénio antes de Cristo, anteriormente à guerra de Tróia e terá sido rei da Frígia, tendo-se tornada famoso devido ao seu dom conhecido como  «toque de Midas», ou o poder de transformar tudo o que tocasse em ouro. 
Esta capacidade pode parecer, à primeira vista, a receita para uma felicidade perfeita na abundância de riqueza mas, como acontece sempre nas histórias míticas, esta também tem uma lição para contar:
O Mito do Toque do Rei Midas

A Frígia  era um país hoje pertencente à Turquia. Ovídio, na obra  Metamorfoses conta que um dia, Dionysus, deus do panteão grego, deu por falta do seu velho mestre e pai adotivo, o sátiro Silenus que aparentemente tinha desaparecido. 

O velho sátiro tinha estado a beber vinho e, encontrando-se muito bêbedo, deixou-se cair, após vaguear durante algum tempo, numas vinhas que pertenciam ao rei Midas. Alguns camponeses do rei,  ao passar, viram o sátiro a dormir a agarraram-no. Amarraram-no para ele não escapar e levaram-no à presença do rei. Midas reconheceu imediatamente o braço direito de Dionysus , uma criatura metade homem e metade cabra e ordenou a sua libertação imediata.
Durante 10 dias, Midas recebeu o sátiro de forma hospitaleira e este  o deliciou-o  a si e à corte contando belas histórias e cantando canções. 
No 11º dia, Midas levou Silenus para junto do deus Dionysus, na Lýdia. O deus, sensibilizado pelo tratamento cortês ao velho sátiro, ofereceu a Midas o que este desejasse, como recompensa pela sua hospitalidade. Midas não pensou muito: pediu que lhe fosse dado o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse: desse modo o tesouro real nunca mais teria dificuldades para se recuperar. Dionysus  concedeu a Midas o seu desejo e este, feliz como nunca, tratou de começar a testar o novo poder: tocou num ramo de árvore e este transformou-se em ouro; logo a seguir tocou numa pedra e maravilhou-se ao vê- la brilhar como ouro puro. Correu então para casa e ordenou aos criados que pusessem uma mesa farta para ele se banquetear. Ao mesmo tempo chamou a filha para lhe  mostrar aquilo que agora era  capaz de fazer mas, ao agarrá-la pela mão, ela transformou-se em ouro. Horrorizado, Midas sentiu também que os alimentos e os líquidos que ingeria, ao tocarem a sua garganta ficavam duros e eram impossíveis de engolir: também eles se transformavam em ouro, perdendo todo o valor nutricional embora tivessem um valor de riqueza. 
Foi então que Midas compreendeu que o seu desejo era, afinal, uma maldição que matava tudo o que ele tocava incluindo ele próprio pois, sem comer, morreria inevitavelmente à fome.
Desesperado, Midas enviou uma prece a Dionysus pedindo-lhe que lhe retirasse o dom e lhe devolvesse  tudo o que ele tinha tocado ao estado anterior ao do seu toque. 
Dionysus ouviu a prece de Midas e disse-lhe que se deslocasse  ao rio Pactolus e se lavasse na água do rio, que esta levaria o seu dom ; disse-lhe que fizesse o mesmo com as coisas e seres que se tinham transformado em ouro pelo seu toque. Midas assim fez e o seu dom fluiu pelas águas tendo-se depositado nas areias do rio que se transformaram em ouro, razão pela qual este rio se mostra tão rico em depósitos de ouro.
Quanto a  Midas, aprendeu a sua lição e afastou-se de toda a riqueza; foi viver para o campo  uma vida simples e  passou  a adorar o deus Pan, um sátiro famoso pela sua maravilhosa música ( a flauta de Pan). 
Algumas Pistas de Interpretação  do Mito do «Toque de Midas»
O mito do «toque de Midas» representa  o deslumbramento pela «riqueza fácil» , assocado à ideia de que todo aquele que tiver os «bolsos cheios de ouro» e, portanto, tiver uma riqueza muito para além da do homem comum, terá encontrado o segredo da felicidade perfeita. Muitos são dominados pela ilusão de que  uma grande quantidade de riqueza material é sinónimo de grande felicidade na vida pois, acreditam, o dinheiro «tudo lhes pode dar».
Mas, o que este mito nos ensina, é que a obsessão pela riqueza faz-nos perder outros aspetos importantes da vida e, consequentemente, da felicidade. Midas conseguiu ter a maior quantidade de ouro jamais vista na posse de um ser humano mas isso teve por consequência que ele deixasse de ter acesso às coisas mais simples como comer, tocar aqueles que amava e, em última análise, toda aquela riqueza, se não pudesse ser revertida, conduziria inexoravelmente à sua morte pois ele não se poderia alimentar.
Este mito , com a sua referência a Dionysus e ao sátiro, ambos relacionados com os poderes da Natureza e com  o viver a vida buscando os prazeres que ela nos pode dar- mesmo a embriaguez do vinho-  também nos diz que muitos desses prazeres não necessitam de ouro (dinheiro) para serem usufruídos: o prazer de ouvir uma boa história ou uma boa canção ou de maravilhar a alma com uma bela melodia é um prazer simples, como o é um passeio no campo  de mão dada com alguém que nos é querido. E todos eles acabam por se perder quando a ganância se agarra à alma do homem e este passa a viver em função do dinheiro ou do ouro que é capaz de acumular. Tal ganância fá-lo perder a sua humanidade e a sua proximidade com a vida.
Foi esta a lição que Midas aprendeu, quando percebeu a contradição entre o desejo desenfreado de riqueza e a sua capacidade para gozar os prazeres que a vida  lhe podia dar.