Reflexão de Fim de Semana- A inteligência dos Animais: Alex, o Papagaio Cinzento


Apesar de a maioria de nós defender que o valor de um ser não se  deve  «medir» pela sua inteligência a verdade é que, durante muitos séculos,  habituámo-nos a pensar que  a espécie humana era superior a todas as outras porque é mais inteligente. 
Habituámo-nos a pensar que só o ser humano é dotado de consciência de si e da sua existência , que só o ser humano é racional e que, portanto, todas as outras espécies se comportam, não por verdadeira inteligência , mas  por instinto. 
A  ciência tem-nos mostrado, nas últimas décadas, que a espécie humana pode ter o pódio no que se refere às capacidades de inteligência mas não tem, seguramente, o seu exclusivo. 
Hoje em dia os cientistas fazem o «teste do espelho» utilizado em Psicologia  nas crianças para  determinar se  estas iniciaram o desenvolvimento da  autoconsciência ou consciência de si, a várias espécies animais, no intuito de perceber se e quais   delas mostram reconhecer-se ao espelho. 
Vários animais como o Chimpanzé, o Orangotango vermelho, o Papagaio neozelandês, etc, mostraram sem qualquer dúvida que têm consciência de si próprios  e, por isso  mesmo, têm noção de si próprios como um «eu»  que se desenvolve no tempo. 
A Psicologia mostra claramente  que existe uma relação profunda entre a capacidade de ter consciência de si próprio e a memória de longo prazo, essencial  para as aprendizagens duradouras. 
Entre os  muitos animais que revelam uma espantosa semelhança de processos mentais com o ser humano, está o papagaio cinzento africano.
 Para exemplificar o comportamento inteligente deste animal falo-vos  do trabalho desenvolvido por uma bióloga, Irene Pepperberg nos últimos 30 anos, com um papagaio que se tornou uma estrela mundialmente conhecida , Alex,  e que, infelizmente, morreu subitamente em 2007 deixando um volumoso e choroso número de fãs.  O trabalho de Pepperberg com Alex está amplamente documentado e pode ser visionado em inúmeros documentos vídeo no Youtube. 
Ao longo destas 3 décadas, Pepperberg estudou a inteligência de Alex  e os seus processos mentais.  Alex era tão espantoso que ele próprio ensinou outros papagaios que entretanto se lhe juntaram neste projecto de  investigação. 
Porque o objectivo deste artigo é falar da inteligência de Alex, não vou insistir muito no facto de Alex ser um caso de flagrante exploração por parte desta investigadora. Não vou insistir muito no facto de considerar ultrajante que uma cientista que constata, após décadas de estudo, que os papagaios, nomeadamente Alex, são criaturas altamente sensíveis e inteligentes ,  tenha continuado, mesmo assim, a submetê-lo a experiências  duras diárias de  «confirmação dos dados » e a considerar que nem Alex nem outros animais têm direitos  semelhantes aos da espécie humana e aos quais se deva atender. 
Nas palavras de Pepperberg «Embora ache uma crueldade adoptar um papagaio cinzento e deixá-lo sozinho o dia todo, isso não significa que os papagaios cinzentos tenham reconhecidos  direitos políticos.» Parece que esta investigadora participou mesmo na criação de um aparelho, destinado aos donos  de papagaios, para fazer com que eles parem quando começam a  gritar. O referido aparelho passa cenas terríficas com predadores logo que o papagaio grita acima de determinada intensidade, para o assustar e, desse modo, conseguir calá-lo.  Este é um bom exemplo de como os meritórios objectivos da ciência podem ser ultrapassados pelos objectivos egoístas do indivíduo que pensa apenas no seu sucesso pessoal e não nos interesses daqueles que são estudados pela  ciência, presumivelmente para melhorar as suas condições de vida.
 
O estudo de Alex e outros papagaios cinzentos mostrou que a convicção dos cientistas de que seria necessário um cérebro grande para poder entender problemas complexos   relacionados com a linguagem não é verdadeira;
Também mostrou que a crença de que os papagaios falam por mera imitação dos sons que ouvem é errada. A inteligência dos papagaios é  equivalente à dos grandes símios, dos mamíferos marinhos , etc. Estes animais usam a linguagem  de forma criativa para formular raciocínios básicos semelhantes aos de uma criança de 5 anos. 
Alex conseguia distinguir objectos por diferenças de tamanho, textura, forma, cor. A investigadora usou o método de fazer perguntas como «qual é a cor? Que forma tem? O que é que é diferente? O que é que é igual? Quantos são? » e Alex respondia a tudo de forma correcta, corrigindo os outros papagaios quando estes se enganavam na resposta. 
Alex tinha também noção da «não existência»: um dia, respondendo a uma pergunta sobre «o que é diferente» ele respondeu :«Nada» Também tinha  a noção do «relativo»: respondendo a uma pergunta sobre o que era diferente em dois objectos ele respondeu: «é maior».
Desde o início do trabalho com Alex que ele se mostrou altamente inteligente, indo para além da média na sua espécie. Após 26 meses de treino (duas vezes por dia) Alex tinha adquirido um extenso vocabulário , usava correctamente conceitos, identificava correctamente 30 objectos para comer ou brincar ,era capaz  raciocinar de forma básica e de identificar objectos, pedir ou recusar.
 
Refiro seguidamente alguns exemplos sugestivos, mencionados na obra  publicada  após a morte de Alex Alex e Eu, da autoria de Pepperberg.
·         Alex  foi um caso de amor pela investigadora Pepperberg. Se ela, quando chegava ao  laboratório, saudava outro papagaio em primeiro lugar, Alex ficava amuado o dia todo  e recusava cooperar, pedia brinquedos, comida, pedia para que o levassem dali para o seu espaço próprio («quero ir-me embora», repetia).
·         Durante uma sessão de trabalho, Alex pediu uma noz. A investigadora, aborrecida e querendo que ele se concentrasse no trabalho, disse-lhe que não. Alex olhou para ela e disse, devagar: «eu… quero …uma noz. Noo…oz!»Pepperberg ficou espantada e maravilhada. Alex separou os fonemas da palavra, intencionalmente,para intensificar o seu pedido e marcar posição, o que revela um salto qualitativo importante em termos cognitivos;
·         Uma assistente conta : Alex estava no poleiro junto dela e perguntava-lhe sem parar  se ela queria uma noz, milho, água etc e ela ia dizendo que não. Alex, frustrado, perguntou-lhe :«bem, o que é que queres?»
·         Houve um momento em que Alex esteve muito doente e quase morreu. Após uma cirurgia, o veterinário pegou-lhe  e embrulhou-o, entregando-o à dona. Alex abriu os olhos e disse com voz trémula: «quero ir embora».
·         Por vezes, quando estava no laboratório, Alex  ficava desatento e enganava-se o que provocava   algumas advertências zangadas por parte da investigadora .Mas ele  muitas vezes respondia -lhe   « tu perú» ou «diz  isso melhor!»
·         Numa das vezes  em que teve que ir ao veterinário e foi colocado numa  gaiola, Alex, com voz pastosa, gritou para  Pepperberg :«Desculpa!»
A inteligência  é a capacidade de adaptação ao meio resolvendo com sucesso os desafios e os problemas que este coloca. Neste sentido, muitas outras aves revelam  grande inteligência: as gralhas e corvos,  os pombos, que com sucesso povoam as cidades e se adaptaram à vizinhança humana, são apenas alguns exemplos. Muitas destas aves fazem e usam ferramentas , resolvem problemas e têm até  indícios de cultura. 
Assim, se a inteligência não deve ser o critério fundamental para o  respeito que outras espécies nos merecem, é, sem dúvida, uma evidência da capacidade  que essas espécies têm  para  desenvolver   a expectativa  do seu próprio  bem estar. E isso  deve merecer todo o nosso respeito e atenção.

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