Reflexão de Fim de Semana- Inteligência Animal: o Cão, esse Magnífico Amigo

De todos os animais domésticos, o cão é aquele que desenvolveu mais características a partir da relação que estabeleceu connosco  ao longo dos milhares de anos em que nos acompanha.  Relativamente à espécie da qual evoluiu, o lobo,  desenvolveu características que  aquele não possui  e que fazem dele uma espécie única, capaz de se adaptar e de mudar de acordo com os desejos e caprichos humanos.
O cão, tal como os  grandes primatas e os papagaios, entende a linguagem humana e, mais do que isso, é capaz de ler o nosso rosto, (algo que é característico da  a espécie humana e dos grandes primatas); lê a expressão do nosso olhar, as nossas emoções, para daí retirar ilações acerca do que lhe é permitido ou não fazer quando interage connosco. Desenvolveu uma simbiose perfeita com o ser humano e  aprendeu a tirar partido dessa interacção para resolver problemas práticos que  surgem no dia a dia. 
O homem, por sua vez, aprendeu a confiar nesta espécie, a admirar e  a cultivar a sua lealdade. Mas até que ponto está consciente das verdadeiras capacidades desse que é  o seu «mais fiel amigo» ?
Serão os  cães realmente inteligentes ou agem puramente por instinto? Ao longo de milénios, o homem fez a selecção das raças caninas, moldou os seus genes,de modo a obter animais especificamente associados a capacidades que considerava importantes. De tal modo que consideramos que determinada raça  é excelente como animal de trabalho, outra é excelente  como animal de companhia, etc. 
 Isto inevitavelmente faz com que, por  factores biológicos, uma raça tenha muita facilidade em seguir rastos mas não em obedecer a ordens,  uma outra seja muito adequada  para trabalhar mas não vigiar, e por aí fora. Quererá isto dizer que só existe uma inteligência instintiva, programada biologicamente, nestes nossos amigos caninos?
Em 1976  K. Coon desenvolveu o primeiro teste de inteligência para cães que determinava a memória de curto prazo  do animal,  a sua  capacidade de adaptação, de resolução de problemas, etc. Nas últimas décadas, outros investigadores têm estudado a inteligência do cão. Um dos mais conhecidos é Stanley Coren que publicou um livro com os resultados do seu trabalho  A Inteligência dos Cães.(1994)  Este investigador é um neuropsicólogo e professor em Vancouver, na Universidade  de  Brithish Columbia.
Coren considerou  três tipos de inteligência dos cães  na sua investigação: a inteligência instintiva (dependente dos factores genéticos e associada à raça do animal. Este tipo de inteligência permite que uma raça caçadora desempenhe as características da raça como esperado) ; a inteligência adaptativa (a capacidade de o cão resolver problemas por si próprio); a inteligência de trabalho e de obediência ( a capacidade de o cão aprender com os humanos, aprender regras e comportamentos específicos, como os cães guia, etc.)
A primeira forma de inteligência (instintiva) é programada biologicamente e depende dos genes que permitem o apuramento da raça. Assim,  fica de fora, os estudos concentram-se nas duas formas de inteligência relacionadas com a aprendizagem. 
Com base nestas investigações , têm sido constituídos rankings de raças de acordo com os dois tipos de inteligência. Mas, e apesar de ser inegável que umas raças têm mais capacidade para um ou outro tipo de inteligência, penso que devemos focar- nos naqueles  aspectos que são comuns ao cão médio , seja qual for a sua raça. 
E sobre a inteligência  do cão em geral  investigadores como  Richard Gray concluem que os cães têm a inteligência média de uma criança de dois anos, são capazes de compreender entre 165 e 250 palavras, gestos e sinais, podem contar até 5 e  são capazes de fazer  cálculos matemáticos simples. 
Para demonstrar isto, os investigadores têm utilizado  os mesmos testes  usados para mostrar o  desenvolvimento da linguagem , pré-linguagem e aritmética básica  nas crianças  humanas. Os cães mais inteligentes têm capacidades mentais comparáveis a uma criança de dois anos e meio , três anos. 
Isto mostra que, apesar de não ser possível manter uma conversa com um cão, ele compreende muito bem palavras e gestos. Observou-se que , numa frase como « vai buscar o boneco» o cão apreende  o sentido de cada palavra em separado e, desse modo, entende a frase e é capaz de executar o que se lhe pede. A este respeito, a raça dos Border Collie  ocupa o pódio da inteligência, aprendendo rapidamente várias centenas de  nomes e sendo capaz de os associar correctamente com os objectos. Consegue também  lembrar-se das palavras e  do seu significado quatro semanas após tê-las apreendido pela primeira vez.
Os cães têm também a capacidade, desenvolvida pelo contacto com os seres humanos, para entender o significado dos gestos. E aqui a diferença  entre o cão e o lobo é notória: se um lobo vir um ser humano a apontar foca a atenção no dedo; o cão foca o olhar no objecto para o qual o ser humano  está  a apontar; 
Esta diferença mostra também que, quando o cão tem um  problema para resolver, como sair de um labirinto ou obter um pedaço de comida que é difícil de alcançar, busca naturalmente a cooperação do ser humano para o resolver. O lobo , por ex., numa situação semelhante, age por tentativa e erro até eventualmente encontrar a solução, o que diminui a sua possibilidade de sucesso. 
Nos testes realizados para observar a capacidade de entender os gestos, o cão reage de forma semelhante à criança humana: o investigador  tem uma guloseima na mão  que o cão segue com o olhar  e,  à vista do animal, baixa a mão até que esta e a guloseima ficam escondidas por detrás de uma tela;  depois repete  o mesmo gesto com uma  segunda tela e o animal, tal como a criança,  espera encontrar 2  guloseimas quando a tela é levantada; 
Mas, se a guloseima é  removida secretamente ou se  outra é adicionada sem que o cão a tenha  visto, o cão fica a olhar para a(s) guloseima(s)  com espanto quando a tela é removida,    durante muito tempo, porque o que aparece não é o  que  ele esperava ver:  o animal sabe que 1+1 é igual a  2 e não a 3 e por isso o seu espanto. 
Os investigadores também  descobriram que o cão é capaz de comportamentos deliberados  de batota  , se isso lhes trouxer alguma vantagem. Os donos de cães já se aperceberam disto muitas vezes: uma pessoa  conta que certa vez, o seu cão ficou impossibilitado de comer a maçã habitual porque o animal estava com alergias e, até se determinar qual  era a razão , o veterinário prescreveu  ração anti-alérgica  como alimento  exclusivo.
 
Numa tarde  de férias e após o almoço (hora a que o animal costumava comer a maçã) a dona , a ler na sala, surpreendeu-se com o animal a passar no corredor  e a olhar furtivamente para o local onde ela se encontrava. Com surpresa mas também com incredulidade, esta pessoa pensou que estava a imaginar o comportamento do animal e não deu importância; 
No dia seguinte, encontrando-se na sala à mesma hora, o cão repetiu o comportamento e passou silenciosamente pela porta, espreitou para ver o que a dona estava a fazer e seguiu. Desta vez a dona foi atrás dele sem ruído e, com espanto, viu-o  dirigir-se à fruteira, na cozinha, e tirar uma maçã para comer. 
O contacto connosco deu-lhes também esta esperteza! 
Apesar das muitas raças, todos os cães têm a capacidade básica para aprender e compreender a linguagem humana. É claro que, neste aspecto, tal como acontece com os seres humanos, quanto maior e mais cedo se der a exposição do animal à linguagem humana, maior éa possibilidade de ele entender e, desse modo, comunicar,com os seres humanos. 
Muitas pessoas  que convivem com cães sabem que estes, apesar de não serem Border Collies, conhecem os seus bonecos preferidos pelo nome, identificam muitos objectos e alimentos pela palavra que os designa,  compreendem  em geral muitas das conversas que ouvem, etc. 
Talvez essa capacidade para  estabelecer laços tão estreitos com os seres humanos  seja a razão pela qual muitos de nós estão perfeitamente convictos de que o cão é, sem dúvida, o nosso melhor amigo. E, neste ponto, ele não só rivaliza com os grandes primatas e com os papagaios, como os supera ,pois nenhum outro se torna nosso indefectível companheiro como o cão. 
As  qualidades extraordinárias desta espécie animal  são por isso motivo de respeito e devem orientar os nossos esforços para aumentar o bem estar de todos os cães: nós também beneficiamos muito com  o seu trabalho, a sua inteligência e a sua companhia.

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