Reflexão de fim de Semana- Porquê uma Ética para Além do Homem

 

Porquê  defender uma Ética da Terra? Desde tempos muito remotos que o homem tem sentido a necessidade de reflectir acerca dos aspectos éticos da acção humana. Os filósofos desenvolveram, nos últimos 2 milénios, sistemas de Ética baseados na  análise crítica  dos costumes e dos comportamentos humanos.
 
Mas, durante todo este tempo, tal reflexão baseou-se no pressuposto de que só o homem tem estatuto moral e valor intrínseco. Por isso, a Ética e a Moral  aplicaram-se sempre,durante este tempo, a uma única comunidade: a comunidade humana. 
Hoje, no entanto, começámos a compreender que pertencemos a uma comunidade mais vasta do que a dos homens; começámos a compreender que a comunidade a que pertencemos também inclui os animais, as plantas, as montanhas, a água, os solos, a atmosfera…. Porque a vida é um conjunto interligado; não existem seres isolados neste complexo ecossistema.
Durante séculos, a nossa cultura judaico-cristã levou-nos a estabelecer uma diferença essencial entre o homem e todos os outros animais não humanos: acreditámos que o homem, criado à imagem de Deus, tinha recebido deste o domínio sobre a criação- legitimou-se, assim, a concepção dos animais e dos outros seres vivos do planeta como instrumentos, meios colocados ao dispor do homem para satisfazer as suas necessidades e prazeres. 
Só o homem tinha estatuto moral; só o seu ser tinha valor intrínseco; os outros seres eram equivalentes a coisas, desprovidos de quaisquer direitos e de valor próprio: existiam para o homem, existiam em função do  homem.
Hoje, felizmente, temos uma humanidade capaz de reflectir sobre o lugar que ocupa neste planeta, capaz de se dar conta da crueldade, da arbitrariedade e da insensatez das relações que estabeleceu historicamente com os seres não humanos que com ela coabitam. 
A degradação dos ecossistemas, da atmosfera, dos recursos essenciais à vida, como a água, o desaparecimento vertiginoso de  espécies animais e vegetais, levaram à necessidade de repensar o lugar e a postura do homem na Terra.
Pela primeira vez, começou-se a falar de «direitos da Terra», «direitos dos Animais» e já não apenas de «direitos do Homem». No entanto, há ainda um longo caminho a percorrer. Foram muitos séculos a considerar a exclusiva dignidade moral do Homem. 
Mas começam-se a esgrimir argumentos na tentativa de levar ao reconhecimento de que os  outros seres vivos conscientes também têm dignidade moral, também têm valor intrínseco; as suas vidas e as suas legítimas expectativas – o direito ao bem estar e a uma vida digna- também são um bem em si mesmo.
Na caminhada que conduziu a este reconhecimento lembro a reflexão de um dos pais da Ética da Terra, Leopold, que formulou o mandamento moral segundo o qual «algo é bom quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica» acrescentando que «o bem da comunidade biótica é a medida fundamental do valor moral, do certo e do errado nas nossas acções».
 
Implícita a esta ideia está a consciência de que a comunidade da Terra a que pertencemos forma um todo, um imenso sistema  de interacções em que, se uma das partes for atingida,  as restantes também o serão.
Cabe-nos assim perceber que, ao destruirmos ou prejudicarmos uma parte deste sistema delicado que é o da vida na Terra, também nos destruímos e prejudicamos a nós próprios. 
Muitos dirão, a este respeito, que sem dúvida se sentem constrangidos a desenvolver um respeito maior pelo ambiente. Mas interrogam-se: o que tem isso a ver com os animais?
E acrescentam que a razão que os leva e elevar-se acima dos restantes animais é a sua reconhecida superioridade em inteligência e autoconsciência afirmando que, se os outros animais não possuem essas qualidades,  são necessariamente inferiores e, como tal, não têm valor moral.
Muitos argumentos se têm desenvolvido em torno desta questão (ver por exemplo a obra Ética Prática do filósofo Peter Singer). Mas a ciência , apara além disso, tem comprovado que muitos animais – como alguns cetáceos, primatas, aves- têm um elevado nível de inteligência e possuem consciência de si próprios, o que leva os estudiosos a classifica-los como «racionais»: para além da auto-consciência que afinal não é exclusiva do ser humano, possuem noção do tempo, distinguindo entre o passado e o presente, e têm inclusivamente sentido moral (veja-se por ex., a obra de F. Fukuyama O Nosso Futuro Pós Humano).
Ora, muitos seres humanos- como os bebés  ou os doentes mentais- não possuem nem a inteligência nem a auto-consciência desses animais. 
No entanto muitos seres humanos continuam a matar, muitas vezes apenas por um prazer estúpido, como a caça , a causar-lhes sofrimento e dor em experiências laboratoriais desnecessárias, a instrumentalizá-los, só porque não são humanos(eticamente achamos reprovável fazer isso  a seres humanos doentes mentais, por ex.)
Esta atitude, que se designa por especismo (Segundo o nome atribuído por  Jeremy Bentham) indica assim uma  relação com os animais que é semelhante ao racismo: mostra a preferência  injustificada pela espécie humana; e a desvalorização de  todas as outras espécies- apenas porque  não são humanas.
Num mundo em que os animais também são fonte de alimento não é fácil abordar o tema dos direitos dos animais nem dos critérios que nos permitirão estabelecer esses direitos. Mas , como fez notar J. Bentham, todo o sofrimento ou dor inutilmente causados são maus.
Os animais, como qualquer ser humano, sofrem, aspiram ao bem estar e têm o direito  moral de verem realizadas as suas expectativas. 
Neste sentido, nós, humanos, temos o dever de agir de tal modo que as nossas acções promovam o bem estar de toda a comunidade a que pertencemos, evitando o mal  e a dor que possamos causar; não só aos outros homens como a todos os outros seres; o «bem» a que nos referimos é medido pelo «interesse da comunidade  da vida na Terra» e não pelo interesse exclusivamente humano.

Poderá Gostar de Ler