Reflexão de fim de Semana- Será que os Animais têm Sentido Moral?


Até há pouco tempo, não se discutia  a possibilidade de animais não  humanos terem sentido moral. Tal possibilidade afigurava-se como  exclusiva do homem, considerado o único ser com características que permitem uma existência moral.  E isso apesar de, desde há muito tempo, muitos exemplos parecerem apontar para  comportamentos morais noutras espécies.
O  facto de, desde sempre, se ter restringido à  espécie humana um conjunto de características como a racionalidade e a capacidade de distinguir o certo e o errado  levou a que todo o comportamento animal fosse explicado através  do instinto.
A descoberta, pelos cientistas que investigam o comportamento animal, nas últimas décadas, de que muitas das características até aí consideradas exclusivas da espécie humana são, afinal, extensíveis aos animais, tem alterado a percepção que temos acerca de muitas das espécies não humanas, também em relação à possibilidade  de estas terem comportamentos morais.
A Origem  e a Natureza da Moralidade
Só uma espécie capaz de ter consciência de si é capaz de moralidade, costuma-se dizer; Só uma espécie capaz de desenvolver a consciência de «bem» e de «mal»  pode ser uma espécie moral; Só uma espécie capaz de fazer escolhas pode ter dimensão moral;
Só uma espécie dotada da capacidade de entender  e sentir emoções e sentimentos é capaz de moralidade, uma vez que a moralidade se estabelece sempre na relação com os outros- da mesma espécie e de espécie diferente; só uma espécie capaz de entender e respeitar regras pode ter estatuto moral.
Independentemente  da questão da fundamentação da Moral, questão que não colocamos aqui, podemos constatar por inúmeras experiências, que muitos animais-   as espécies sociais- obedecem às condições atrás consideradas.  E muitos estudos recentes apontam nesse sentido.
Alguns Exemplos de Comportamentos Animais que Revelam Sentido  Moral
Numa obra recentemente publicada, Podem Os Animais ser Morais? (Oxford University Press, Outubro 2012),Mark Rowlands considera que os mamíferos sociais como cães, chimpanzés, ratos, etc podem escolher ser bons ou maus.  Na opinião deste autor, a moralidade assenta na capacidade de sentir emoções e empatia pelos outros.
Tem sido largamente comprovado que muitos animais sentem essa empatia e são capazes de exprimir emoções complexas.
Em algumas espécies, isso vem sendo comprovado desde há bastante tempo. Por exemplo, as ratazanas, tão pouco simpáticas devido ao povoamento dos subterrâneos, dos esgotos, etc, são capazes de comportamentos morais para com os membros da sua espécie:  numa experiência de 1958 entretanto muitas vezes repetida nas últimas décadas com outras espécies, foram colocados ratos esfomeados num espaço em que a condição exigida para lhes ser dado alimento era accionar  uma alavanca que, ao mesmo tempo que permitia o acesso à comida, provocava choques eléctricos noutros membros da espécie.
Espantosamente, os animais, após entenderem o funcionamento daquele mecanismo, escolheram passar fome. Os investigadores concluíram que essa escolha  indicava, claramente, uma empatia e compaixão para com o sofrimento dos outros membros da espécie. Também indicava uma escolha clara dos animais: entre alimentar-se naquelas condições ou passar fome  decidiram pela última alternativa. Foi um comportamento moral.
Nesta mesma experiência, outros animais, como o macaco Rhesus fizeram escolha semelhante e preferiram passar fome.  Numa experiência de 2006 com camundongos comuns,  descobriu-se que estes, quando viam um animal da mesma espécie  que conheciam pessoalmente, a sofrer, contorciam a «face» numa careta que indicia empatia  pelo sofrimento dos animais que conhecem.
Os golfinhos, sabe-se há muito, têm comportamentos que indicam grande generosidade e mesmo altruísmo ao serem capazes de actos de generosidade que não lhes trazem qualquer vantagem pessoal em troca: muitos nadadores têm sido salvos de ataques de tubarões. Também se observaram golfinhos a ajudar baleias encalhadas a regressar ao mar a água seguras.
Os cães  são outra espécie que é bem conhecida pela sua capacidade de empatia, não apenas com os humanos, relativamente aos quais existem numerosos exemplos de  salvamentos, como também relativamente à sua espécie. O vídeo seguinte é o registo do comportamento de um cão numa movimentada auto-estrada: o animal enfrenta o risco de ser ele próprio ferido para ir buscar o companheiro que, tendo sido atingido por um carro, jazia inconsciente na estrada.
A espécie selvagem,  o  lobo, também é capaz de revelar generosidade para com membros de outra espécie, como  um entre muitos outros exemplos mostra: em 1920, na Índia, duas meninas, uma de cerca de 2 anos e outra de cerca de 7 anos, foram encontradas a viver com uma  alcateia de lobos. Quando perseguidos, os lobos fizeram entrar os juvenis- lobos e crianças- na toca e fizeram frente aos humanos. Para chegarem às meninas tiveram que os matar pois estas eram vistas pelos animais como se fossem suas: protegiam-nas e alimentavam-nas.
Os animais também revelam sentimentos de culpa. Em experiências realizadas com cães  foi dito aos respectivos donos que os seus animais tinham comido um alimento proibido quando estes saíram da sua vista.  Esta informação foi dada a todos os donos mas,  na verdade, só alguns dos cães comeram o referido alimento.
 Os investigadores pretendiam saber como se comportariam os cães que não tinham comido nada perante a reacção de zanga dos seus donos. Surpreendentemente, todos os cães mostraram um comportamento culpado: o cão lê claramente o rosto do dono e o seu desapontamento fá-lo sentir-se culpado. Alguns donos reportam, no entanto, situações em que o animal se revoltou perante um castigo imerecido: um contou que, quando o cão, na ausência ado dono, tinha comportamentos «errados» como ,por ex. ,despejar o lixo no chão  por estar aborrecido, recebia o castigo do dono mostrando um ar culpado.
Um dia, para testar se ele compreendia o certo e o errado,  o dono  tentou castigá-lo  sem o animal ter tido qualquer comportamento errado, negando-lhe uma guloseima habitual, ao mesmo tempo que lhe ralhava, dizendo que ele  se tinha portado mal e, por essa razão, não recebia a guloseima. O animal  mostrou a sua revolta ladrando-lhe furiosamente.
Também se documentou o sentimento de «ultraje». Num estudo publicado no jornal Science em 1975, referiu-se o comportamento do macho do Azulão, uma ave,  ao descobrir que a fêmea, enquanto ele foi procurar materiais para forrar o ninho, se entreteve com outro macho: mostrou ultraje, batendo-lhe, arrancando-lhe penas e estalando o seu bico.
Alguns investigadores, como Hall Herzog da universidade da Western Caroline, consideram que as emoções animais se enraízam no instinto e que, por causa disso, não indicam verdadeira dimensão moral. A isto podemos contrapor que todas as emoções, incluindo as humanas, se enraízam no instinto (ao contrário dos sentimentos);  e que certos comportamentos animais só são explicáveis se aceitarmos que os animais não só têm um sentido  moral como têm comportamentos morais:
Um gorila fêmea  do Zoo de Illinois mostrou  um verdadeiro comportamento moral quando um menino de 3 anos caiu no espaço dos gorilas e ficou inconsciente. Esta fêmea imediatamente agarrou a criança  e protegeu-a de outros gorilas gritando inclusivamente para obter ajuda humana salvando desse modo a vida do menino.
Como refere Rowlands na obra citada, a constatação de que outros animais  têm sentido moral obriga-nos mais ainda ao respeito que outras espécies animais nos devem merecer, de pleno direito e a par com a espécie humana.

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