Reflexão de Fim de Semana Animais como Nós: o Corvo, um Sofisticado Fabricante e Utilizador de Ferramentas


O Corvo está associado ao folclore popular , a má sorte, a morte, etc., em muitos locais do mundo. Isto acontece não apenas devido às penas negras que o cobrem mas, também, segundo muitas pessoas, ao facto de o animal parecer ter uma sensibilidade especial que lhe permite detectar a morte de alguém malvado, várias pessoas  afirmam tê-los visto aglomerarem-se em redor de um local às centenas, quando acontece a morte de alguém com tais características.
Mito urbano ou realidade, a verdade é que o corvo, do mesmo  modo que outras espécies da família dos corvídeos, estão entre os animais mais espantosos em termos de capacidades cognitivas.
Os cientistas que se dedicam ao estudo da psicologia do comportamento animal afirmam que as espécies sociais são mais inteligentes do que as espécies solitárias, do mesmo modo que os animais com alimentação omnívora são mais inteligentes do que aqueles que têm uma alimentação especializada. Isto sucede porque a vida em sociedade exige muitas competências de compreensão e interpretação em relação aos sinais e comportamentos dos vários membros do grupo, bem como da posição de cada um nesse grupo e, por outro lado, os animais que são omnívoros são mais adaptáveis,  o seu programa genético depende mais da aprendizagem do que do instinto.
O corvo é um animal social e o seu cérebro é bastante grande comparativamente com o seu tamanho, comparando com o do chimpanzé. Aliás, estas duas espécies , de acordo com  os investigadores Nathan Emery e Nicola Clayton da universidade de Cambridge, têm uma inteligência semelhante.
Os corvos e os chimpanzés têm um pensamento complexo em relação ao seu ambiente físico e social. E, no que toca a fabricar e usar ferramentas, ocupam o segundo lugar, logo a seguir ao ser humano no mundo animal. 
Estudos do corvo da Nova Caledónia mostraram que esta ave usa dois tipos de ferramentas diferentes para procurar comida: usa  ganchos feitos com  galhos ramificados, que ajeita no tamanho e na largura conforme a necessidade  para retirar larvas de dentro de buracos nos troncos de árvores;  e usa folhas rígidas de árvores que  esculpe com o bico para fabricar instrumentos afiados , apropriados para procurar detritos de insectos e outros invertebrados.
Em cativeiro, o corvo da Nova Caledónia aprendeu a usar um arame direito, tendo feito um gancho para procurar comida. Estas capacidades, segundo os investigadores Emery e Clayton, são comparáveis às pequenas inovações tecnológicas humanas. Estas ferramentas são feitas com variações entre as populações de corvos, o que leva os investigadores a considerar que são uma forma de cultura que os pais transmitem aos filhos. Estas formas de cultura são constatadas e  aceites pelos investigadores que estudam os chimpanzés.
Quando necessitam de uma ferramenta para conseguir comida, os corvos examinam várias opções, antes de se decidirem sobre qual a mais apropriada para usarem numa dada situação após o que adaptam a ferramenta às necessidades específicas dessa situação.
Os corvos usam a memória de experiências passadas para planear acções futuras. Os que vivem nas cercanias das cidades memorizam as rotas da passagem dos carros do  lixo e o dia em que o deitam nos aterros.
Existem evidências de que sabem contar, havendo relatos de corvos que, perante grupos de caçadores, se escondem,  tendo consciência do número de homens envolvidos pois só saem do esconderijo quando todos eles tiverem abandonado o lugar e não o fazendo de, por exemplo um, permanece lá quando todos os outros foram embora. 
São conhecidas as  numerosas situações em que os corvos utilizam os sistemas de semáforos nas estradas das cidades como ferramenta adicional para partir nozes e crustáceos: colocam as nozes ou crustáceos na estrada e, quando o semáforo fica vermelho  para os automóveis , vão buscar a comida, agora acessível com as cascas partidas.
Num estudo publicado na revista Science em 2004, Clayton e Emery  afirmam que os corvos usam uma combinação de procedimentos mentais semelhantes aos usados pelos chimpanzés e gorilas e que inclui a imaginação e a capacidade de antecipar futuros eventos possíveis para resolver problemas semelhantes.
Os corvos são animais muito adaptáveis sendo capazes de se estabelecer com sucesso tanto nos meios rurais e quintas ou florestas como na cercania das cidades, sobretudo junto a cursos de água em zonas  não muito elevadas.
São omnívoros, comendo praticamente tudo o que encontram, desde insectos e pequenos animais (incluindo pequenos pássaros e as suas crias) a frutos e vegetais. Também comem carne de cadáveres e lixo. Os que vivem junto da costa também apanham crustáceos cuja casca partem recorrendo a estratégias como a referida acima. 
Estes animais têm comportamentos diferenciados conforme a altura do ano: na estação de reprodução, formam pequenos grupos familiares. Nidificam em árvores altas e macho e fêmea constroem o ninho em cerca de 8 a 14 dias. A fêmea incuba entre 4 e 5 ovos durante 18 dias. Ao fim de um mês os juvenis estão prontos a sair do ninho embora continuem a ser alimentados durante mais um mês. Uma coisa curiosa é que um ou mais dos juvenis que nasceram na estação anterior continuam no ninho e ajudam a alimentar a fêmea quando está a incubar os ovos e os juvenis após o nascimento destes desenvolvendo deste modo um comportamento de cooperação familiar. Os corvos acasalam para a vida.
No final do Verão , Outono e inverno os grupos familiares que têm normalmente entre 2 a 8/12 indivíduos percorrem vários quilómetros para se juntarem a outros grupos formando grandes comunidades que permanecem juntas à noite. Usam sentinelas para os avisarem do perigo quando se alimentam e cada ave empoleira-se para dormir habitualmente no mesmo ramo todas as noites. 
O homem, os mochos e os falcões são os principais predadores desta ave. Cerca de 50% dos juvenis morrem no primeiro ano de vida, muitas vezes devido a falta de alimento ou condições climatéricas adversas.  Os adultos vivem entre 6 e 10 anos. Apesar da sua curta vida, estas aves altamente inteligentes estão continuamente a observar e a aprender. Isto faz deles animais altamente bem sucedidos .
Neste planeta que homens e corvos habitam, o convívio nem sempre é fácil, mas  existe   lugar para ambas as espécies , respeitando la diversidade da vida e não obstante todos os mitos e superstições que rodeiam esta extraordinária espécie.

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