Animais como Nós, o Polvo, um Invertebrado Inteligente

Durante muito tempo habituámo-nos a pensar que existia uma hierarquia mais ou menos linear entre os «reinos» da natureza. E, nessa hierarquia, os mamíferos eram considerados necessariamente superiores (mais evoluídos, mais inteligentes, etc) do que os animais marinhos, as aves, etc.
Hoje, com as investigações acerca do comportamento animal, muitos destes «dados adquiridos» foram postos em causa. Alguns destes conhecimentos referem-se a um  animal marinho- o polvo- e os estudos recentes têm revelado as suas espantosas capacidades que o  revelam como um dos animais mais inteligentes.
O polvo é um animal invertebrado, membro da família dos cefalópodes. Possui um complexo sistema nervoso, com cerca de 130 milhões de neurónios  e com a particularidade de apenas uma parte deles estar localizada no cérebro: 2/3 dos neurónios encontram-se nos tentáculos, que têm autonomia e comandam uma série de comportamentos reflexos que não dependem do funcionamento do cérebro. As suas capacidades motoras são organizadas de forma autónoma nos vários tentáculos. Possuem o cérebro maior entre os animais invertebrados.
As investigações acerca do polvo têm mostrado que estes animais são surpreendentemente inteligentes e este fato desafia os critérios habituais que explicam o desenvolvimento da inteligência numa espécie: normalmente, são os animais com vida mais longa e que  se desenvolve de forma social que se tornam mais inteligentes mas o polvo não é um animal social- se o colocarem junto com outro num aquário um comerá o outro, e os juvenis não têm um contacto com os pais que lhes permita aprender com eles; e, quanto à longevidade, ela é  bastante curta: o polvo gigante do pacífico, por ex., vive apenas cerca de 3 anos.
Então, o que tornou estes animais tão inteligentes?  De acordo com Mather, que tem estudado estes animais, a perda da concha protectora, no passado, deu-lhes, por um lado, liberdade para se moverem e explorarem o seu ambiente- o polvo escrutina cuidadosamente o ambiente onde se encontra- e, por outro, expôs a sua fragilidade perante os predadores, levando-os a terem que encontrar estratégias para lhes escapar.
Entre essas estratégias está a capacidade se se mimetizarem com o seu ambiente, adoptando formas e cores diferenciadas, o que conseguem fazer devido a terem três camadas com diferentes tipos de células junto da  superfície da pele; esconder-se é a estratégia mais comum: a ausência de esqueleto permite-lhes estreitar o corpo de modo a caber em espaços ínfimos nas rochas, debaixo de conchas e outros objectos. E, finalmente, as estratégias inteligentes que consistem em, por ex., transportar consigo uma grande concha que encontraram no caminho para se  esconderem debaixo dela quando estão em perigo, procurar e transportar rochas para a frente de uma toca ou buraco, de modo a que este fique seguro, etc. 
Mather observou um polvo  a regressar à toca e viu-o limpá-la com os tentáculos; depois, o animal deslocou-se um metro para transportar uma rocha que colocou à frente da toca; voltou a procurar e trouxe outra rocha que  colocou junto da primeira; foi buscar ainda outra e a seguir, dando-se por satisfeito com o resultado, entrou na toca e foi dormir! Este comportamento indicia capacidade de pensamento em relação à sua segurança pessoal e mostra um indício de uso de ferramentas.
Alexa Warburton é uma cientista que estuda o comportamento e a inteligência do polvo. Ela conta que algumas vezes estes animais não gostam dos voluntários que aparecem para participar nas experiências com eles. Certa vez, quando uma mulher apareceu junto do tanque pela primeira vez onde se encontrava um polvo, este de imediato lançou-lhe um jacto de água salgada para cima. Passado algum tempo, quando a mesma pessoa se aproximou do aquário, o polvo voltou a recebê-la com um jacto de água; outras vezes, quando «simpatiza» com os visitantes, aproxima-se e vem para a frente do tanque, emerge alguns tentáculos e toca a pessoa com eles. Os tentáculos são simultaneamente órgãos de tacto e de paladar e os animais ficam a conhecer a pessoa através do uso desses «sensores» muito particulares. Quando gostam da pessoa podem ser muito gentis, olhando-a nos olhos, tocando-a gentilmente com os tentáculos e aproximando-se dela, vindo para a frente do aquário. 
As experiências levadas a cabo em labirintos e as experiências de resolução de problemas evidenciam a inteligência do polvo. Eles também mostram conhecer as pessoas. Numa experiência em que duas pessoas estavam vestidas de igual, uma delas  dava comida aos animais; a outra, usando um pau eriçado, irritava os animais. Passados dias, quando a pessoa que costumava irritá-los se aproximava do aquário, os polvos atiravam–lhe jactos de água mas, quando a que os alimentava se aproximava, eles dirigiam-se para ela gentilmente. 
Os polvos são animais que gostam e precisam de brincar para não se sentirem aborrecidos. No Aquário de New England, um engenheiro concebeu um brinquedo constituído por caixas que se colocam umas dentro das outras. As caixas têm tampas, com fechos difíceis de abrir, mesmo para um adulto humano. Os polvos conseguem abri-las sem dificuldade e voltam a fechá-las muitas vezes. Também é comum colocar comida dentro de bolas de tipo basebol, que se abrem em duas metades, para os entreter. Os animais são capazes de as abrir e também de as fechar de novo, brincando com elas. Outro dos brinquedos preferidos são garrafas de plástico que os polvos se entretêm a atirar para longe, muitas vezes,  usando jactos de água , apanhando-as de seguida e voltando a atirá-las. 
A investigadora Warburton conta que por vezes é difícil estudar estes animais porque eles nem sempre querem cooperar.Muitas  vezes usam a rede com que ela os apanha no Aquário para fazer as  suas experiências, como trampolim, caindo no chão. E depois correm! Os polvos em cativeiro saem dos tanques com muita frequência, podendo ser encontrados nos lugares mais estranhos (para um polvo). Quando não querem participar nas experiências correm para o fundo do tanque, escondem-se na areia ou em algum objecto onde possam enfiar o seu corpo encolhido.
Em laboratório os polvos podem ser treinados para reconhecer formas e  padrões. Aprendem por observação. São muitas vezes oportunistas, podendo escapar-se do seu aquário para entrar noutro, quando ele existe, e alimentar-se dos animais que aí estejam colocados. Já têm sido observados a «assaltar» barcos de pesca, para onde sobem, à procura do pescado aí guardado, sobretudo quando se trata da sua comida favorita: caranguejos. 
Em alguns países, como a Grã- Bretanha, os polvos fazem parte da lista dos animais protegidos por lei contra a crueldade para com os animais e não podem ser utilizados para  experiências ou cirurgias sem anestesia.
Para alguns investigadores,  estudar o comportamento e a inteligência de um polvo é quase como estar de caras com um alienígena. Na verdade, eles são apenas um exemplo extraordinário da enorme variedade de formas e de padrões de comportamento que a vida encontrou neste nosso planeta Terra.

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