Reflexão de Fim de Semana- Animais como Nós. As Abelhas, Comunicação em Acção

As abelhas do mel são insectos cuja acção de polinização é absolutamente essencial para garantir boas colheitas em todo o mundo. Mas têm uma «vida secreta» e aptidões extraordinárias, incluindo uma linguagem complexa cujos mecanismos têm sido estudados mas em relação aos quais ainda há muito por saber.
Você sabia que as abelhas melíferas ,apesar de serem insectos, estão incluídas no grupo dos animais com um comportamento mais complexo? Elas utlizam, na verdade, comportamentos sofisticados para aprender a localizar as preciosas flores para colheita do pólen e têm uma linguagem cuja complexidade faz delas animais extraordinários. Isoladamente, as abelhas não têm nada de especial; mas, funcionando na organização do enxame, estão colocadas no ranking dos animais mais inteligentes, sendo capazes de contar até 4, entre outras capacidades cognitivas realmente surpreendentes.
O investigador Von Frisch , em 1974, descreveu pela primeira vez a «dança das abelhas» que é um mecanismo extraordinariamente preciso para passar informação às companheiras, constituindo um código complexo de comunicação que indica não só a direcção onde se encontram as flores, mas também a sua distância, cheiro e sabor!
Quando uma abelha encontra uma nova fonte de alimento e regressa à colmeia, na escuridão do favo, inicia a sua coreografia dançante: a abelha começa por fazer uma curta corrida a direito, sacudindo-se de um lado para o outro e fazendo o característico ruído de «bzzzz» ao mesmo tempo; depois vira-se para a esquerda ou para a direita, conforme a direcção que pretende indicar, e caminha em semi-círculo, até ao ponto de partida. Depois repete a corrida até ao meio, faz um semi-círculo até ao lado oposto e regressa outra vez ao ponto de partida. Se desenharmos uma linha unindo o favo e a fonte de comida e outra linha conectando o favo e o ponto do horizonte apontando para o Sol, o ângulo formado pelas duas linha é o mesmo que o ângulo da corrida da abelha até à linha vertical imaginária onde a abelha iniciou a sua dança. Incrivelmente, as abelhaas são capazes de fazer triangulação, tão bem como um engenheiro civil!
Von Frisch constatou que a abelha que acabou de descobrir alimento, ao chegar à colmeia, sacode o abdómen de forma distintiva e dança adoptando um ângulo vertical que indica o ângulo do favo em relação ao Sol. Um ângulo de 100º , para a esquerda , por ex., indica que as flores podem ser encontradas a 100º para a esquerda do Sol, tal como este é visto a partir do favo. Se a comida se encontrar na direcção oposta à do Sol, a abelha dançará para baixo em vez de no sentido vertical em relação ao favo. A duração da dança também informa as outras abelhas da distância da fonte do pólen – quanto mais longa a dança, maior essa distância. E, para informar sobre o cheiro e o sabor da comida, a abelha roça o tórax contra o favo , regurgitando fragmentos do pólen ingerido e soltando, deste modo, o odor que informará as outras abelhas de modo completo sobre essa fonte de comida.
Estas investigações valeram a Von Frisch o prémio Nobel. Depois do seu trabalho, outros investigadores, como Wolfgang Kirchner da Universidade de Wurzburg e William F. Towne confirmaram os resultados obtidos por Von Frisch e determinaram, adicionalmente, que as abelhas, ao contrário do que alguns outros investigadores afirmaram, não são surdas e não só ouvem os sons produzidos nas «danças sacudidas» como este é um elemento necessário para ajudar a localizar a fonte de comida quando uma abelha efectua a sua «dança», tal como o odor libertado durante a mesma.
Uma experiência realizada em 1986 por Gould confimou também outras importantes capacidades cognitivas das abelhas: elas formam mapas cognitivos detalhados pelos quais optimizam as rotas de localização das flores, tomando o caminho mais curto quando visitam diversos locais à procura de pólen. Experiências realizadas provam que as abelhas se recusarão a responder a uma dança que aponte para uma localização falsa, como o meio de um lago; mas respondem se a dança apontar para terra no lado oposto desse lago. Apesar de ser muito pequeno, o cérebro da abelha, comparativamene com o tamanho total do seu corpo, é bastante complexo, possuindo mais de 200 000 células nervosas.
Entre as aptidões cognitivas destes pequenos animais descobriu-se que as abelhas sabem contar (até 4) e são capazes de se lembrar dos rostos humanos, o que as coloca no ranking dos animais mais inteligentes. A sua coreografia da dança é um processamento biológico muito complexo de informação em que as alterações do campo magnético da Terra alteram os ângulos produzidos durante as danças. Porém, embora biologicamente determinado, este processo inclui, como fica claro pelo estudo das danças das abelhas e da sua linguagem, importantes factores de aprendizagem, não se trata de um instinto cego. As abelhas são realmente e por mérito próprio, animais muito inteligentes!
Embora ainda não se conheça exactamente como é que estes animais procedem na codificação da informação complexa que comunicam, ou até talvez mesmo por isso, as abelhas continuam a fascinar aqueles que observam directamente o seu comportamento. E, caro leitor, se por acaso possui uma ou mais colmeias, fique consciente de que as suas abelhas o conhecem e, provavelmente, apreciam os seus cuidados.

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