Animais como Nós, o Canguru

Os cangurus são animais pertencentes à família dos marsupiais, uma das mais antigas em termos evolucionários e caracterizada pela existência de uma bolsa abdominal nas fêmeas, na qual as crias, que nascem muito prematuras, terminam o seu desenvolvimento até estarem aptas para a vida autónoma.
Em 2004 a Austrália e os USA estabeleceram o projecto conjunto de descodificação do genoma do canguru pois, para além do interesse específico na espécie, existe também o interesse comparativo com a espécie humana, uma vez que os marsupiais constituem um grau evolucionário de divergência em relação à nossa espécie, podendo a comparação ajudar a compreender melhor ambas as espécies e o modo como evoluíram.
Na Austrália o canguru está fortemente enraizado na cultura , no imaginário e na simbologia popular, aparecendo em muitos símbolos e imagens do país. Os primeiros europeus, quando viram o canguru pela primeira vez (um oficial do capitão Cook levou um espécime morto para Inglaterra no século XVIII, tendo sido embalsamado), descreveram-no como um animal com cabeça de veado que se põe em pé como os homens e salta como as rãs.
Quanto ao comportamento e ao modo de ser deste simpático e tímido animal, trata-se de uma espécie social que vive em unidades de cerca de 8 a 10 indivíduos; estas unidades sociais juntam-se a outras formando um bando com centenas de animais que é designado por «mob». Os cangurus são, deste modo,  animais sociais e a sua  existência numa estrutura organizada permite-lhes  defenderem-se  melhor dos predadores, entre os quais estão os dingos, as águias e os seres humanos, que tradicionalmente os caçam por causa da carne e da pele.
São herbívoros , ainda que a preferência por certos tipos de vegetação varie de uma espécie para outra: os  cangurus cinzentos, maiores em tamanho, preferem comer erva de vários tipos  enquanto que os cangurus da espécie vermelha preferem vários tipos de arbustos. O canguru tem um estômago com várias câmaras, como outros herbívoros, e começa por engolir a comida sem a mastigar, regurgitando-a mais tarde numa espécie de bolo que mastiga e volta a engolir para terminar a sua digestão.
Têm hábitos noturnos, o que não é de estranhar devido às particularidades do clima, seco e quente, pelo que passam o dia deitados à sombra saindo ao crepúsculo e de manhã cedo para procurar comida e água. Podem percorrer distâncias consideráveis nessa procura, pelo que a sua área territorial costuma ser grande.
Os cangurus deslocam-se aos saltos, são  os animais  com maior  tamanho que usam este tipo de locomoção. Possuem tendões grandes e elásticos nas patas traseiras e armazenam energia de esforço nos tendões, usando essa energia de cada vez que saltam, em vez de fazer esforço muscular. A sua fisiologia respeita um princípio perfeito de economia de esforço, existindo uma ligação entre a acção de saltar e a respiração: quando os pés deixam o chão o ar é expelido pelos pulmões; quando os pés se lançam para a frente os pulmões voltam a encher-se de ar aumentando-se  a eficácia energética dos movimentos . Isto é muito importante numa espécie que vive num território muitas vezes seco e que obriga a percorrer grandes distâncias para conseguir alimento e água.
Existe uma adaptação também ao clima seco no que respeita à reprodução: as fêmeas estão permanentemente grávidas: cada gestação dura entre 31 e 36 dias e, logo após o recém nascido entrar  na bolsa abdominal,  outro óvulo desce no útero para  ser fertilizado. A cria recém-nascida sobe para  o interior da bolsa onde imediatamente se agarra a uma teta para se alimentar. Permanece dentro aí cerca de 180 a 320 dias até assomar para fora da bolsa por períodos curtos de tempo; é alimentada pela mãe até cerca dos 18 meses. Mas, se o alimento for escasso devido à  falta de chuva e ao tempo demasiado seco, a fêmea pode «congelar» o novo embrião até o novo «joey» (designação que se dá à cria do canguru) estar apto a estar mais crescido ou até haver alimento suficiente cá fora para o alimentar. Do mesmo modo, os machos podem deixar de produzir esperma se não houver suficiente alimento para as novas crias, o que é um magnífico esquema de adaptação da natureza para economizar e diminuir a perda de vidas. A mãe canguru também pode produzir em simultâneo dois tipos de leite, de acordo com as necessidades das crias: um para o recém nascido e outro para o bebé mais velho.
Quanto ao comportamento social, o macho dominante tem todos os direitos de acasalamento em relação às fêmeas. A decisão de quem é o macho dominante tem a ver com o tamanho do animal e a sua força. O macho dominante mantém os seus direitos até à morte ou até ser desafiado por outro  e ser vencido por ele.
As interacções entre os animais podem ser amigáveis ou agressivas. Quando confraternizam, esfregam os narizes, cheiram-se mutuamente e podem também efectuar «grooming» uns aos outros; especialmente a mãe e os filhos reforçam os seus laços dessa forma bem como os jovens adultos. Quando se trata da relação entre machos e fêmeas, os machos esfregam o focinho na bolsa das fêmeas, tocam os lábios uns dos outros, cheiram-nas etc. durante a corte o macho segue a fêmea para todo o lado, cheirando-a para ver se está pronta para acasalar. Pode golpear o seu peito, pescoço ou cauda.
Quando mostram comportamentos agressivos  lutam mas estas lutas não duram habitualmente muito tempo e parecem-se bastante com lutas de boxe: os cangurus apoiam-se nas patas traseiras e na cauda e agarram o outro com os «braços» tentando atirá-lo ao chão. Por vezes a luta não acontece porque um deles simplesmente desiste e vai embora. As lutas pelas fêmeas são em geral breves . Ambos os sexos podem lutar pelos locais para beber devido à sua escassez. Mas as lutas de «boxe» são habitualmente levadas a cabo pelos machos. A luta termina quando um dos animais desiste. O vencedor pode então empurrar o outro para trás ou deitá-lo ao chão. Estas lutas servem para estabelecer as hierarquias dominantes no grupo.
Não se conhecem  muitos casos de  cangurus  que  tenham atacado seres humanos mas ,quando provocados , os cangurus  podem responder. Se estiverem perto da água, como são bons nadadores,  fogem para a água e se o perseguidor for atrás deles, agarram-no com os «braços» e mantêm-no debaixo de água para o afogarem.
Existem casos de cangurus que salvaram vidas humanas. Um desses casos refere-se a uma fêmea, Lulu que, quando um homem ficou ferido pela queda de um ramo de árvore, ela foi alertar a família para esta ir salvá-lo. Isto sucedeu em 2003 e o animal recebeu o prémio, concedido na Austrália, «National Animal Valour Award» de 2004.
Devido aos hábitos noturnos da espécie, um dos maiores perigos para a vida destes animais – que, no habitat selvagem vivem cerca de 6 anos, contra o 20 que vivem se estiverem em cativeiro-  é o tráfego automóvel: os animais ficam encadeados pelas luzes dos automóveis e ficam feridos , causando vários acidentes que também ferem humanos. Existem grupos que atendem a estas situações na tentativa de conciliar a coexistência do modo de vida humano e animal.

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