Animais como Nós, O Quetzal,a Ave da Liberdade

O pássaro Quetzal  ResplandecentePharomachrus Mocinno-  é uma das  aves  mais belas do mundo mas, independentemente disso, tem um passado de lenda e de simbologia espiritual atrás de si.
Na antiga civilização Maia, esta ave era considerada como o protector espiritual do  chefe e acompanhava-o para todo o lado, incluindo o campo de batalha. Só a realeza e os altos sacerdotes podiam usar as suas penas que eram muito valiosas e eram também usadas como dinheiro nas  trocas comerciais.
O Quetzal Resplandecente é a ave que simboliza a Guatemala e, na  fundação deste país, esta ave aparece associada ao trágico destino do chefe Maia Tecum Uman, morto pelo capitão invasor espanhol Alvarado. Segundo a lenda, quando os espanhóis atacaram, em 1524, o quetzal real apareceu aos gritos  e bicou o capitão. Quando este desferiu o golpe que matou o chefe Maia, o quetzal sagrado fez silêncio e mergulhou para baixo, indo cobrir o peito ensanguentado de Tecum Uman com as suas belas penas. Passada a noite a velar o corpo do guerreiro, o pássaro ter-se-á transformado e, no seu peito antes verde iridescente surgiu uma grande mancha  carmim, simbolizando o sangue Maia derramado naquele ataque desigual: os Maias não tinham armas de fogo nem cavalos e, por isso, mais de 30 000 guerreiros caíram sob o fogo inimigo.  A cor vermelha que tinge os tons de azul ou verde  desta ave é  considerada a memória gravada  deste  acontecimento trágico  para a civilização Maia sob domínio dos espanhóis.
Nos tempos da civilização Maia era proibido matar o Quetzal Resplandecente. Quem o fizesse era punido com a morte. Para colherem as sua penas , as aves eram apanhadas e depois libertadas novamente.
Com a chegada dos espanhóis,  esta ave perdeu a protecção e o carácter sagrado e começou a ser caçada , não só pelas penas mas também pela carne e para ser vendida para museus, parques e coleccionadores, pelo que a população desceu drasticamente, obrigando, no sec. XIX, a legislação específica para impedir a sua extinção.
Na Guatemala, o Quetzal Resplandecente  simboliza a liberdade  reconquistada porque esta ave morre se for capturada e se  a puserem numa gaiola. Não se adapta ao cativeiro, precisando de voar livremente.
O Quetzal Resplandecente faz parte da família dos Trogan.  O seu habitat  é alargado, podendo encontrar-se desde o Sul do México , Guatemala, El Salvador, Honduras, Norte da Nicarágua, Costa Rica e oeste do Panamá.  Prefere as florestas das altas montanhas, com vegetação sempre verde a uma altitude de 4000 a 10 000 pés.
O Quetzal  tem um sistema digestivo diferente da maioria das aves, com algumas singularidades fisiológicas, adaptadas à ingestão de frutos com sementes grandes. Tem uma mandíbula e clavícula flexíveis que lhe permitem engolir frutos volumosos, possuindo um esófago elástico com anéis musculares circulares que ajudam a regurgitar sementes grandes.  O intestino procede, provavelmente, à digestão com o auxílio de bactérias.
O Quetzal é um animal cauteloso e prudente, podendo ficar imóvel por longos períodos de tempo  para não ser visto por intrusos. Tem sido visto a olhar para ambos os lados atentamente, por períodos de 1 a 3 minutos.  Ao levantar voo, machos e fêmeas muitas vezes deitam para trás de si um ramo.
Dedicam bastante tempo a cuidar e alisar as penas. Fêmeas têm sido vistas a deixar  o ninho  por um período de 5 minutos para cuidar  e alisar as penas,  após o que regressam ao ninho.
Esta espécie é solitária. Investigadores como Bowes e Allen em 1969 reportaram nunca ter visto mais de 3 indivíduos juntos simultaneamente. Quando há muita abundância de frutos, como os abacates que eles muito apreciam, podem juntar-se ocasionalmente cerca de 20 indivíduos para se alimentarem mas não permanecem juntos.
O Quetzal estabelece um território de cerca de 300 m  de raio a partir do ninho. Os ninhos são escavados em troncos de árvores mortas numa clareira.  Já foram observados casais a escavar em diferentes sítios num mês até finalmente se decidirem por um deles. A abertura do ninho tem cerca de 10 cm e, no interior do tronco, escavam mais 20 cm.
Na Primavera o macho exibe-se no alto da copa das árvores, voando e vocalizando para atrair a fêmea. Quando formam um casal, a fêmea põe, duas vezes por ano, dois ovos no  ninho que são  incubados por ambos durante um período que varia entre 17 e 19 dias. As crias  são alimentadas  pelos dois progenitores com  alimentos variados,  metade  frutos e metade larvas, insectos e lagartos.( Os adultos são essencialmente frutívoro.)  Aos oito dias abrem os olhos e, com 20 dias, já sabem voar. O macho deixa a longa cauda de fora do ninho para não magoar os juvenis.  Nos últimos 5 a 6 dias da criação, a fêmea deixa de os  alimentar  e essa tarefa passa exclusivamente para o macho.
A reprodução adapta-se à quantidade disponível de comida , podendo ser adiada quando não há comida suficiente. Assim, a época reprodutora estende-se maioritariamente pelos meses de Março a Junho, quando há mais frutos.
Em 2009 estimou-se que a população do Quetzal Resplandecente   tem entre 20 000 a 50 000 indivíduos . Ainda não  é uma espécie   em perigo de extinção mas é considerada como  próxima dessa ameaça.
Não se sabe em que idade estas aves começam a procriar nem qual é a sua longevidade média.  Mas a incursão humana no seu território, deitando abaixo muitas das árvores da floresta das altas montanhas para aproveitar o terreno para a agricultura é um dos factores que interferem mais com as suas possibilidades de sobrevivência. Mais países onde se situa o habitat desta maravilhosa ave  deviam seguir o exemplo da Costa Rica que, desde 1948 dedicou largas extensões de terras para formar parques naturais que protegem o quetzal e trazem riqueza para o  país sob a forma do Eco turismo.

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