Os animais e a Relação com o Sagrado


A humanidade desenvolveu a sua vida e evoluiu ao longo do tempo na companhia dos animais.  Para obter comida, peles para vestuário e abrigo;  para transporte  e deslocação e como estratégia de combate (o combate em montaria surgiu como uma inegável vantagem relativamente ao combate a pé) e, inevitavelmente, como companhia, homens e animais têm vivido sempre lado a lado. Muitas vezes de forma desarmónica e exploratória por parte do homem, que cede à ganância e se esquece de respeitar o esquema universal da vida mas em  outras  ocasiões revelando respeito e devoção.
Falamos hoje da relação entre os animais e o sagrado no comportamento humano.  Esta relação é muito antiga e bem visível em  todas as religiões.  Ela tem várias explicações: muitos povos acreditavam que os espíritos divinos encarnavam em determinados animais para, desse modo, estabelecerem uma relação privilegiada com os seres humanos e, normalmente,  o ou os animais em causa eram aqueles que partilhavam a vida e o ambiente de um determinado povo, tendo um significado especial nas suas vidas. 
Alguns povos acreditam que os animais são uma morada temporária ou permanente  para as almas dos mortos e, por esse facto, são sagrados. Entre os animais assim considerados  estão o corvo ou o cão;
Para outros povos, a sacralização de um animal deve-se à sua importância para a sobrevivência desse povo. Temos como exemplo o bisonte americano para os índios norte – americanos, que dependiam inteiramente deste animal para sobreviver, usando a carne para se alimentarem e as peles para o vestuário e a construção das tendas; 
Outros povos, como os egípcios, consideravam alguns animais sagrados por acreditarem que eles ajudavam as almas dos mortos a atingir a sua última morada após a morte física e, outras vezes, porque encontravam alguma analogia entre esses animais e as qualidades dos deuses: assim, os egípcios consideravam os macacos babuínos como filhos de Ra (o Sol) porque estes se deliciavam com a exposição ao Sol; o gato era associado com a deusa Bastet e era um animal de estimação favorito, sendo embalsamado quando morria; outro animal, o escaravelho «rola bosta», devido aos seus hábitos de empurrar pesadas bolas de excremento comparativamente com o seu tamanho, era sagrado porque se acreditava que o animal tinha uma analogia com o princípio que, em cada dia, empurrava o sol pelo céu fazendo-o renascer diariamente;
Para os antigos gregos, a sabedoria era  associada ao mocho. Athena, deusa da sabedoria, era considerada como tendo uma ligação profunda com esta ave. E a simbologia manteve-se  até hoje, arraigada na cultura popular ocidental.
Entre os cristãos, é  conhecida a analogia entre Jesus Cristo e o cordeiro, devido ao facto de, tal como aquele animal tantas vezes oferecido em sacrifício aos deuses, Jesus ter oferecido a sua vida em sacrifício pela humanidade. Outro símbolo comum entre os cristãos, celebrizado na história de Noé e do dilúvio (história na verdade de origem suméria e continuada na tradição posterior pelos cristãos) é a pomba e o raminho de oliveira que resistiu à  morte causada pela  terrível inundação : paz e renovação da vida após a sua quase destruição.
Na Índia, entre os muitos animais associados ao sagrado, referimos a vaca pela sua associação  simbólica com a «mãe universal», com o princípio universal do amor e da generosidade protectora e nutridora.
Na cultura chinesa o controlo do tempo é associado  a  vários animais: horas, dias, meses e anos, sendo conhecido o zodíaco chinês constituído pela referência a 12 animais. O mesmo sucede com o Zodíaco ocidental em que os signos  são representações de características arquetípicas do homem  e representam aspectos da sua humanidade cósmica (que associa características terrenas e divinas).
Outras culturas veneram os animais associando-lhes os valores mais elevados e sagrados na sua cultura: os índios norte – americanos e do Canadá,durante muitos séculos associaram as penas da águia à bravura, força e poder e ganhavam-nas no campo de batalha. Receber uma pena de águia era a maior honra que um guerreiro podia receber e cada um exibia um toucado com as penas que contavam a história do seu valor como homem e guerreiro digno de respeito. Nesta cultura  um outro animal tinha um significado muito especial:  quando nascia um bisonte branco isso era considerado um bom presságio, um sinal divino  de que havia a possibilidade de estabelecer a paz e a concórdia entre as pessoas  e os povos.
A relação estabelecida entre os animais e o sagrado enraíza-se na ideia ( comum até ao sec. XVII e depois combatida pelo racionalismo que preferiu a visão do universo como uma «máquina») de que, no universo, tudo é animado, isto é ,dotado de alma: os animais e as plantas, as coisas sem movimento- como as pedras e os minerais, tudo isso era considerado como tendo uma alma. Muitos filósofos da cultura ocidental mesmo depois dos tempos renascentistas, acreditavam que existe uma hierarquia evolutiva do desenvolvimento da alma ( cf, por ex., Ravaisson, De L’Habitude) e que este se faz através das eras, após a descida do espírito na matéria, do inanimado para o animado, passando pelas plantas  e pelos animais e encontrando no homem o ponto  intermédio, a mediação pela qual a vida pode, globalmente, regressar à fonte divina que é a sua causa primeira. 
Vemos deste modo que, desde sempre, homens e animais partilham uma história comum  e que a necessidade  de dar sentido às várias acções e experiências humanas desde sempre conduziu a esta união entre o homem, os animais e o sagrado.

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