Os Animais e a Cultura: a Águia, Hábil Construtora

A águia é um animal reverenciado por muitas culturas desde a antiguidade: entre os gregos, por ex., a águia Harpia atormentava a família dos que não prestavam as honras devidas aos mortos, sendo considerada uma entidade vingadora da honra familiar.
Mitos do médio oriente falam de uma relação estreita entre a águia e o Sol, frequentemente representado com asas de águia. Os antigos consideravam que a águia é a única que pode olhar diretamente para o Sol. Ela era considerada como um símbolo de coragem, de força, de poder e de liberdade. Os romanos também partilhavam esta simbologia.
Na América do Norte, a águia de cabeça branca (bald eagle) é o animal nacional dos US e um símbolo da liberdade; é reverenciada por todos os povos nativos, que a consideram uma mensageira do criador.
Para os Navajo, a águia surgiu quando um guerreiro, chamado Nayenezgani prendeu um monstro em Wings Rock e, depois, dirigindo-se para o ninho deste onde se encontravam dois filhotes, impediu que estes se tornassem maus quando crescessem, transformando o mais novo num mocho e o mais velho numa águia. Com as penas de ambos fizeram-se ritos especiais daí para a frente, e com os seus ossos, fizeram-se assobios.
Os índios Comanche contam que a águia apareceu quando o jovem filho de um chefe morreu. Inconformado com a sua perda, o chefe dirigiu preces aos deuses pedindo que  lhe trouxessem o filho de volta e o jovem foi transformado numa águia em resposta às preces do pai. A dança Comanche da águia celebra este acontecimento mítico.
Os índios Pawnee consideravam a águia um símbolo de fertilidade porque estes animais constroem ninhos muito grandes e protegem valentemente os seus filhos. Assim, faziam canções e honravam a águia com cantos e danças.
De modo geral, os índios norte-americanos consideravam que o relâmpago e o trovão eram causados por uma grande águia mítica quando esta batia as asas.
Em outros povos, como os Aztecas, estabelecidos no vale do México, a águia era reverenciada como um símbolo da força e as suas penas eram usadas apenas pelas elites sociais.
Entre o povo Kwakiutl há uma lenda que diz que houve um tempo em que a águia tinha uma visão fraca. Mas, como era capaz de voar a grande altura, e acima das copas das árvores mais altas, um chefe pediu a uma águia que vigiasse a possível chegada de canoas inimigas. Cheia de vontade de ajudar mas com medo de fracassar devido à falta de visão, a águia foi ter com a lesma que, naquela altura, tinha uma visão excelente e convenceu-a a trocarem de olhos temporariamente para poder desempenhar com sucesso a sua missão. A lesma aceitou mas,quando os deveres de sentinela da águia terminaram, feliz com a sua nova capacidade de visão, a águia recusou trocar de olhos outra vez. E, assim, a águia obteve a sua fantástica visão e a lesma, sem os os seus olhos , tornou-se muito lenta.
E poderíamos recordar muitas outras lendas sobre esta majestosa ave, pois ela encontra-se em todo o mundo (à excepção da Antártica) e tem fascinado os povos ao longo de tempo.
Mas, quais as características do seu comportamento? Vamos apresentar de seguida alguns elementos para conhecermos melhor este animal de respeito.
A Águia de Cabeça Branca , uma Construtora de Ninhos Gigantes
Conhecem-se várias espéceis de águias , com diferentes tamanhos, formas e plumagens, divididas por 4 classes: as do mar e que se alimentam de peixe; as que se alimentam de répteis; as Harpias; as águias calçadas. Encontram-se na Rússia, Europa e Ásia, mas, uma delas, a de cabeça branca, habita especificamente nos US. Esta águia foi uma espécie ameaçada até 1999. Vive na maior parte do território dos Estados Unidos e também na maior parte do Canadá e no norte do México. Encontra-se em habitats diferentes, incluindo as zonas desérticas de Sonorah e as florestas caducas do Quebec. Esta águia vive em qualquer zona húmida como grandes lagos, costas marítimas, rios, etc, onde pode encontrar água e peixe em abundância. Também precisam de árvores de grande porte , geralmente coníferas com madeira dura para nidificar ou se empoleirar, e com mais de 20 m de altura. Constrói o maior ninho de aves em toda a América do Norte e o maior de todo o reino animal construído em árvore: tem mais de 4 metros de profundidade com 2,5 metros de largo.
O macho e fêmea têm plumagem semelhante mas, ao contrário do que habitualmente sucede no reino animal, a fêmea é maior em tamanho do que o macho. Esta ave é uma voadora poderosa: atinge velocidades entre 56 e 70 km por hora e 48 quando carrega peixe.
É uma ave parcialmente migratória: se as fontes de água de que necessita para se alimentar congelam no inverno, migra para o Sul da costa. É um animal «oportunista«, isto é, aprendeu a usar em seu proveito as correntes de ar ascendente para impulsionar o voo.
Apesar de apreciar especialmente o peixe, tem capacidade predatória para um grande número de espécies: num estudo, verificou-se que cerca de 56 % da sua alimentação era composta por peixe, 28% por aves, 14 % por mamíferos e 2% por outros. Quando precisa de competir pela comida, pode roubar comida aos coiotes, raposas e corvídeos. Esta águia não tem predadores no estado adulto mas, ocasionalmente, os coiotes também podem roubar comida das águias se a ocasião se proporcionar.
Quando atingem entre 4 e 5 anos de idade estão prontas para acasalar e para se reproduzirem. Quando isso sucede regressam muitas vezes ao local onde nasceram. Pensa-se que estas aves acasalam para a vida. Porém, se um dos companheiros morre ou desaparece, encontram um novo companheiro. Os rituais de corte incluem chamamentos espetaculares e exibições de voo. Cada casal dispõe de cerca de 1 a 2 km de território junto a uma fonte de água. 
A época de reprodução estende-se de Fevereiro a Maio. Nos ninhos enormes que constroem são colocados entre 1 e 3 ovos, habitualmente 2, incubados por ambos os progenitores mas principalmente pela fêmea. Pelo menos um dos progenitores está permanentemente no ninho.
As crias, ao nascer, recebem um «imprint» , aspeto estudado por Karl Lorenz, e segundo o qual se constata que os animais seguem o primeiro ser  que veem ao nascer e que lhes dá comida ou assistência. Esta estratégia instintiva do imprint dura desde os 9 dias de idade até cerca das 6 primeiras semanas: durante este período o filhote aprende a distinguir a mãe e a sua espécie e adquire comportamentos específicos que lhe permitem sobreviver. Se, em vez da mãe, a jovem ave vir um ser humano, imprimirá de forma permanente esta espécie como se fosse sua e procurará os humanos para lhe darem de comer. É por isso que, nestas fase, não deve haver qualquer contacto entre os seres humanos e as crias. Um filhote que tenha feito o imprint de um ser humano recusar-se-á a acasalar com a sua espécie quando for adulto.
Por vezes, quando há uma diferença de tamanho entre as crias nascidas, o mais velho ataca e mata o mais novo. Quando têm 8 semanas de vida, as crias voam pela primeira vez mas permanecem perto do ninho e dos pais. Cerca de 8 semanas após o primeiro voo começam a dispersar . Nos 4 anos seguintes vagueiam até terem a plumagem adulta e poderem acasalar e reproduzir-se.
No estado selvagem, a águia vive em média 20 anos. O animal mais velho encontrado tinha 28 anos. Em cativeiro já se observou um que atingiu os 50 anos. Mas, nos US não é permitido capturar esta ave e só instituições públicas com fins educativos podem ter a ave cativa. Uma excepção são os animais feridos que, por causa disso, já não podem sobreviver sozinhos no estado selvagem.

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