os Animais e a Cultura- Os Gatos, Magia e Mistério

 
Os gatos têm apaixonado os seres humanos desde a Antiguidade : quando foram decifrados  os caracteres das tabuinhas de argila que revelavam aspetos da antiga civilização Suméria, a mais antiga a surgir no chamado «crescente fértil»,  encontraram-se frases como «cruzar-se com um gato preto dá azar» mostrando que muitas das ideias que fazem parte do folclore atual são muito antigas e que o interesse pelos gatos vem de há muito tempo.
A cultura que mais importância concedeu aos gatos, na Antiguidade parece ser, no entanto, a egípcia: o gato era considerado uma encarnação do deus Sol Ra, chamado Mau. No Egipto os gatos eram domesticados e eram membros importantes da família e muitos eram mumificados quando morriam. Quando algum gato morria  toda a família rapava as sobrancelhas em sinal de luto;  se algum ser humano matasse um gato a pena  que sofria  era a morte.
Os gatos eram muito valorizados no Egipto, não apenas por estarem associados aos deuses – o gato doméstico era considerado uma manifestação da deusa Bast, deusa protetora associada à Lua e à fertilidade e considerada protetora dos gatos e daqueles que cuidam destes animais- mas também porque desempenhavam tarefas muito importantes na sociedade : eram usados para caçar aves e peixe e para destruir os ratos que pululavam pelos depósitos de grão ao longo do rio Nilo. Este animal era também considerado um ícone de beleza para os egípcios.
Os gatos eram  adorados e reverenciados no Egipto e a sua exportação era proibida mas, furtivamente, fenícios e depois os romanos roubavam-nos e vendiam-nos para outros países do mediterrâneo. Nos séculos os gatos domésticos proliferavam por toda a Europa encontrando-se também na Índia, China, Japão e Médio oriente. Entre os séculos 9 e 11 era possível encontrá- los  como animais de estimação mas eram usados  principalmente na  função de caçadores de ratos: as cidades estavam infestadas com estes roedores, pelo que os gatos eram considerados preciosos, havendo multas pesadas  para quem os matasse: no século 9, por ex., quem matasse um gato teria que pagar 60 medidas de milho de multa. No século 11, devido à  infestação das cidades por  ratos,  a população felina aumentou consideravelmente.
Na Europa, no entanto, a história deste animal sofreu várias reviravoltas: a cristianização trouxe também a luta da Igreja para acabar com o «paganismo» e os gatos foram associados à crença  de que estes eram familiares das bruxas, ou mesmo encarnações das bruxas e isso fez com que tivesse havido uma perseguição sem quartel a estes animais, com muitas mortes que reduziram muito  a população. Com o número de gatos reduzido, doenças como a peste começaram a levar a melhor pois os ratos transportavam a doença. Os gatos foram usados instrumentalmente para combater os ratos mas, quando o número de roedores era  reduzido voltavam a ser caçados devido aos preconceitos e à associação entre os gatos, a bruxaria e a magia negra.
 
Mas nem todos os povos atribuíam características maléficas a estes animais na Europa: para os celtas, por ex.,, os gatos, domésticos e selvagens, eram vistos como os guardiões de um dos portões do «outro mundo» servindo de ligação espiritual entre o mundo dos humanos e o mundo espiritual.  Mas também entre os celtas os gatos pretos eram alvo de discriminação e eram sacrificados por serem vistos como maléficos.
 Nos países nórdicos os gatos estão associados à fertilidade e à beleza, de modo semelhante ao que acontecia no antigo Egipto: os gatos eram sagrados para a deusa Freya, deusa do amor, da fertilidade e da beleza. Esta deusa protegia os fracos e era uma curadora. Era  também vista como a fonte do amor e da paz . A sua carruagem era dirigida por dois grandes gatos de pelo comprido. Estes gatos simbolizavam a Terra Mãe, a fertilidade e a criatividade. Assim, nestes países, os agricultores  davam leite aos gatos para assegurar os favores da deusa na proteção das colheitas.
 
Outra crença da Idade Média refere que as mulheres dos pescadores conservavam um gato preto em casa porque isso assegurava que os maridos regressariam do mar. O gato era visto como tendo poderes mágicos. No território que é hoje a Checoslováquia, o gato tradicionalmente era associado à fertilidade.
No Japão o gato está associado à boa sorte: o uso de um ídolo de gato, o «gato feliz» que se popularizou no século 19 e 20  é considerado como trazendo boa sorte e prosperidade, espantando os maus espíritos. Marinheiros também colocavam, tradicionalmente, efígies de gato nos navios para lhes proporcionar sorte.
Na China, uma antiga lenda contava que o gato surgiu de uma relação entre uma leoa e um macaco, cada um tendo dado aos filhotes características específicas: a leoa deu-lhe dignidade; o macaco deu-lhe o espírito curioso e o gosto de brincar.
 
Uma antiga lenda polaca conta que uma mãe gata estava a chorar ao lado de um rio, impotente ao ver os seus gatinhos prestes a afogarem-se. Os salgueiros que estavam junto ao rio apiedaram-se  do sofrimento da mãe gata e estenderam os seus longos ramos até estes  entrarem na água  para salvar os gatinhos que tinham caído quando perseguiam borboletas. Os gatinhos agarraram-se aos ramos e foram trazidos a salvo para terra. Desde então, conta a lenda, na Primavera os salgueiros cobrem-se de botões que rebentam na zona usada pelos gatinhos para trepar.
O olhar misterioso dos gatos, a luz que refletem à noite no olhar, as características sensuais e felinas fizeram deste animal, ao longo do tempo, um ser admirado e adorado como um deus ou, pelo contrário, uma criatura  considerada maléfica, associada a rituais de feitiçaria combatidos pela igreja durante séculos. Porém, as suas capacidades de caçador largamente compensaram desde sempre os significados negativos atribuídos, pois este animal foi um elemento muito valioso na salvaguarda da vida humana ao manter as cidades livres dos roedores que transportavam doenças terríveis como a peste, para além de ter sido desde sempre apreciado como animal doméstico e membro das famílias. Símbolo de beleza, de  fertilidade e  de proteção, o gato mantém uma aura de mistério no imaginário coletivo, fruto do cruzamento de tantas crenças durante milénios.
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