Os Animais na Cultura- O Lobo e os seus Mitos

O Lobo é um animal muito presente no imaginário popular , na mitologia e nas crenças coletivas desde a mais remota antiguidade e em muitas culturas. É por vezes o «lobo mau» da história tradicional , mas também o animal associado a atos de generosidade para com os humanos.

Lenda Cherokee sobre o Lobo

Esta é uma história inspiradora e tradicional: um dia à noite, enquanto o fogo crepitava e aquecia a família, um velho Cherokee falou ao neto de uma batalha que tem lugar no íntimo de cada um de nós: «a batalha- disse ele- é entre dois lobos que existem dentro de cada ser humano: um é mau, cheio de raiva e inveja, ciúme, zanga, ganância, arrogância, falso orgulho, sentimento de superioridade, tristeza, arrependimento, inferioridade, mentira, culpa e ressentimento.»
O outro é bom, cheio de alegria, paz, amor , esperança, serenidade, bondade, humildade, empatia, verdade, compaixão e fé. »
A criança pensou um pouco durante um momento e em seguida enfaticamente: «e qual  é  o lobo que vence?»
E o velho Cherokee respondeu:« Aquele que tu alimentares».
Entre os índios norte americanos existem muitas histórias acerca do lobo. Uma lenda Lakota fala de uma mulher que se feriu quando viajava, tendo caído sem forças. Foi encontrada por uma matilha de lobos que a levaram e cuidaram dela. No tempo que permaneceu com os lobos, a mulher aprendeu os seus costumes e, quando voltou para a tribo, usou o seu novo conhecimento para ajudar as pessoas. Ela aprendeu a distinguir com toda a clareza quando algum predador ou inimigo se aproximava. Esta lenda enraíza-se na realidade conhecida pois há vários casos registados que mostram lobos ajudar e cuidar dos humanos , sobretudo crianças, como se fossem membros da matilha. Nos anos 20 do sec. XX, os casos de duas meninas, Amala e Kamala, encontradas em Midnapore, Índia, é um desses exemplos. As crianças viviam com a matilha de lobos que cuidava delas, alimentando-as e defendendo-as dos perigos. O comportamento das meninas era idêntico ao dos restantes filhotes e, quando foram descobertas, a matilha defendeu todas as crias contra os humanos e foi preciso matar os lobos adultos para recuperarem as crianças (caso relatado em As Crianças Selvagens, de Lucien Malson).
Uma outra lenda Cherokee conta como, no início, o cão vivia nas montanhas e o lobo vivia junto do fogo. Mas o cão teve frio e veio para junto do fogo , tendo expulsado o lobo, que foi para as montanhas. Mas, quando chegou às montanhas, o lobo descobriu que gostava de aí viver e ficou por lá, tendo formado um clã próprio enquanto o cão permaneceu junto do fogo e na companhia dos homens. Desde então o cão tornou-se o companheiro fiel do homem. Esta lenda explica simbolicamente a relação entre o lobo e o cão , uma vez que, como sabemos, o cão tem no lobo o seu ancestral.
Entre nós, o lobo Ibérico tem sido alvo de atenção e cuidados que tentam preservar a espécie, mal vista pelas populações locais devido ao ataque aos animais domésticos como galinhas e ovelhas.
O fascínio pelo lobo é bem visível em várias culturas onde os deuses são associados ao animal. Em Roma e na Turquia, é a própria fundação da nação que está associada a uma mãe loba.
Apresentamos seguidamente alguns aspetos sobre o comportamento do Lobo
 

O Lobo, entre o Alfa e o Ómega na Estrutura Social

Os lobos vivem em grupos familiares compostos por cerca de 8 a 15 elementos e são animais sociais, vivendo em matilha, caçando em grupo, etc., o que lhes dá vantagem quando têm que enfrentar predadores de respeito, como um urso, por ex.
A matilha está organizada de acordo com um ranking em que há um casal «alfa» que ocupa o topo; nos grupos muito grandes pode haver um ou mais animais «beta» que são os segundos na hierarquia . Mas não existe uma liderança imposta pelo  lobo alfa. Este e a companheira simplesmente têm  prioridade para escolher o que fazer , onde e como, sendo seguidos pelos restantes. O lobo que ocupa o lugar mais baixo na comunidade é o «ómega» e este é o que tem menos privilégios entre todos os outros, e também o que é tratado com mais agressividade pelos outros. O lobo ómega é conhecido como «lobo solitário», expressão vulgarizada na linguagem corrente. Este por vezes é afastado da comunidade pelos outros lobos e, se tiver sorte e encontrar uma companheira, poderá escapar ao destino de ser um pária rejeitado , podendo então formar a sua própria matilha.
A maior parte dos casais alfa são monógamos mas, se a fêmea alfa for muito próxima em termos biológicos- irmã, por ex.,- do macho alfa, este poderá escolher uma fêmea de ranking mais baixo para acasalar. Quando um dos lobos alfa morre isso não afeta o estatuto do que fica, que arranja rapidamente um outro companheiro- «rei morto, rei posto».
A maior importância do casal alfa está no facto de que estes são os primeiros a ter possibilidades de criar os seus filhotes. Os outros casais não estão impedidos de ter filhos mas raramente conseguem criá-los até à maturidade: toda a matilha está envolvida no cuidado e alimentação das crias do casal alfa. Muitas fêmeas adultas podem escolher ficar com o grupo de origem e, nesse caso, ajudam a criar os filhotes do casal alfa.
Na maior parte dos casos os lobos não escolhem o lobo alfa baseados na luta aberta ou na força ou no tamanho: usam formas rituais de luta que só raramente se torna luta aberta e o vencedor é-o mais pelas características da personalidade e da atitude do que pelos atributos físicos. Talvez este comportamento seja um dos motivos que nos levam a sentir fascínio pelos lobos.
Nas matilhas grandes a hierarquia pode mudar continuamente. Nas matilhas de lobos jovens a hieraquia pode ser circular: um animal controla um outro que por sua vez controla outro e este por sua vez controla o primeiro.
Se um lobo alfa é desafiado na sua posição , e se for velho, pode simplesmente desistir e ceder o lugar a outro sem violência. Quando o lobo alfa responde pela luta, só raramente existe derramamento de sangue. O que perde é afastado da comunidade. Por vezes outros lobos podem reagir em conjunto e matá-lo mas é um comportamento raro embora possa acontecer na época de acasalamento (Inverno).
Os lobos são animais bastante territoriais e, em conjunto, podem defender o território contra animais como ursos, coiotes, raposas, etc.. Os encontros entre lobos e cães são normalmente muito agressivos e, se um cão atravessa o território de um lobo, é certo que será atacado.
Os corvos seguem muitas vezes a matilha de lobos, na esperança de receberem restos de comida. Por sua vez, os lobos prestam atenção ao voo dos corvos, pois aprenderam que, quando estes voam em círculo, existe «comida » por baixo.
Os lobos inspiram temor e admiração, na realidade e nos mitos, são uma presença muito viva embora na Natureza o seu destino seja preocupante e seja, em muitos locais, uma espécie em perigo.

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