Mitos da Cultura Ocidental- Édipo, o Destino contra a Liberdade

 
Os mitos encerram importantes significados sobre o funcionamento da mente humana e das lições que esta vai tirando na sua relação com o mundo. Vários especialistas do estudo da mente mostraram isso com muita clareza, sendo que os mais notáveis me parecem ser Freud e Jung. Eles mostraram a relação  profunda destes mitos com os comportamentos, os valores e os  padrões da cultura em que surgiram.  Mostraram também que compreender os significados  de cada um destes  mitos é lançar luz e visibilidade sobre a nossa identidade como seres humanos.
 
Hoje analisamos o mito de Édipo, largamente conhecido e explorado, por ex., por Freud,  na Psicanálise ; mas também na Literatura, Arte,etc.
A História de Édipo
Laio e Jocasta reinavam sobre Tebas. A rainha estava grávida e um terrível oráculo profetizou que a criança que iria nascer haveria um dia de matar o pai e de casar com a mãe. Quando a criança nasceu, Laio de imediato furou-lhe os pés, prendeu-os com uma «fíbula» metálica e entregou-o a um pastor com a ordem de abandonar a criança nos declives do Monte Citérion para, desse modo, evitar a terrível profecia. O rei não a matou diretamente para evitar  ser culpado de impiedade. Uma das versões do mito diz que o pastor, com pena da criança, entregou-a aos reis de Corinto, que não tinham filhos e o criaram  como se fosse seu. Numa alusão aos pés furados da criança, esta recebeu o nome de Édipo, que significa «pés inchados».
 
Quando Édipo cresceu, ouviu uma indiscrição numa conversa, sobre o facto de o seu destino ter sido profetizado e, para se certificar, foi consultar o oráculo de Delfos. Ouviu então, do oráculo, a terrível profecia: ele estava destinado a matar o pai e a casar com a mãe. Horrorizado, Édipo  decidiu abandonar a cidade de Corinto e nunca mais voltar para, desse modo, impedir que tão terrível destino se pudesse concretizar. Mas ignorava que Políbio e Mérope não eram os seus verdadeiros pais.
 
Na viagem que então iniciou, para se afastar o mais possível daquele destino profetizado, Édipo chegou perto de Tebas que, sem ele saber, era a sua terra natal. Numa encruzilhada estreita, em que só podia passar um cavaleiro de cada vez,  foi interpelado rudemente, por um homem, do outro lado, com a ordem de «deixar passar!» Édipo hesitou um momento, desagradado pelo tom de voz que tinha ouvido e, antes de poder reagir, o outro matou um dos seus cavalos. Furioso, Édipo investiu contra o cavaleiro e outro homem que estava na carruagem e matou-os. O homem na carruagem era Laio, o seu pai verdadeiro , mas Édipo não sabia disso.
 
Édipo demorou-se por Tebas. E deparou-se então com um ser monstruoso, a Esfinge- esta ser tinha corpo de leão, asas e uma cabeça de mulher- que aterrorizava a cidade pois  apresentava enigmas aos que chegavam à cidade e, quando estes não acertavam, (o que acontecia sempre) ela matava-os. A Esfinge colocou então a Édipo as questões: «qual é o ser vivo que, com  uma só voz tem 4 patas, 2 patas e 3 patas?» Édipo, imperturbável, respondeu: «é o homem pois na infância caminha a 4, na idade adulta a 2 e na velhice apoia-se num bastão»; furiosa, a Esfinge apresentou outra adivinha: «são duas irmãs, uma engendra a outra e esta por sua vez é engendrada pela primeira». Mais uma vez, Édipo respondeu:« a noite e o dia». A Esfinge não aguentou a humilhação de alguém conseguir adivinhar as respostas e despenhou-se, atirando-se no abismo. Ao vencer a Esfinge, Édipo foi aclamado como o salvador da cidade e, como prémio, casou com Jocasta, a esposa do rei falecido e que, sem ele saber, era a sua verdadeira mãe. A profecia concretizou-se deste modo, apesar da total ignorância de Édipo.
 
 
Mais tarde, quando tinha já filhos com Jocasta, Tebas foi invadida por uma terrível praga  que causava doença e fome e foi vaticinado que a razão era o facto de o culpado pela morte de Laio, o rei anterior, não ter sido encontrado. Édipo iniciou uma ação enérgica para encontrar esse culpado e, desse modo, livrar a cidade daquela praga. Até que, ao falar com o adivinho cego Tirésias, este lhe disse que o culpado era ele, que tinha cumprido o seu destino ao matar o pai e casar com a mãe. Devastado com esta tragédia, sem suportar encarar a realidade terrível da sua vida, Édipo cegou-se a si a mesmo pois a visão não o tinha impedido de anular o seu terrível destino e um cego tinha visto mais do que ele quando tinha olhos.

Algumas Pistas sobre os significados do Mito de Édipo

Esta história, como todos os mitos, tem muitas «camadas» de significados. Mas um dos mais evidentes – e interessantes- é  a metáfora da relação entre o destino e a liberdade humana. Os gregos   tinham uma noção pesada de destino, que viam como uma fatalidade perante a qual é inútil todo o esforço ou vontade humana de lhe escapar.  A história de Édipo é a história de um homem que quer escapar ao seu destino porque escolheu opor-se-lhe. Mas observamos que, quanto mais ele se esforçava para lhe escapar, mais na verdade se aproximava de o cumprir. A conclusão do mito, de acordo com a visão grega original é esta: não se pode escapar ao  destino, a vontade humana nada pode contra a «necessidade»  que nos restringe.
 
É claro que a cultura ocidental desenvolveu, depois dos gregos, a ideia de liberdade, que nos permite  pensar que somos autores do nosso destino, que podemos mudar, até certo ponto. Mas este mito «fala fundo» em cada um de nós porque,  nos cantos escondidos da nossa psique, continuamos a ser gregos em muitos aspetos.
 
Outro fator muito relevante deste mito tem a ver com a «cegueira» da inteligência perante as forças do destino que se joga contra nós.
 
Veja-se a capacidade de Édipo para desafiar a Esfinge, que venceu quando a inteligência racional estava em jogo: ele compreendeu   e respondeu sem hesitar aos enigmas da Esfinge, mostrando-se nisso superior a todos os outros que tinham enfrentado este ser até então e que pagaram com a vida a sua ignorância ou fragilidade  intelectual. Mas, com toda a sua inteligência, Édipo mostrou uma «cegueira total» em relação às forças que controlavam a sua vida e que ele não foi capaz de antever nem de evitar: por isso se cegou, simbolicamente, no final, porque a inteligência humana nada pode contra as forças maiores do destino. A inteligência dá-nos vaidade e capacidade de brilhar perante uma audiência, mas falha na compreensão  da realidade que comanda a nossa vida.
 
 
Sófocles, que dramatizou esta história na forma de uma tragédia, tentou, como homem religioso que era, chamar a atenção para a necessidade de sermos humildes em relação àquelas coisas que não conhecemos nem podemos controlar. Pretendia mostrar a necessidade de admitirmos que nem tudo pode ser «explicado» à luz da razão e que esta é motivo, muitas vezes, de uma vaidade que acaba por nos prender a um conjunto de ilusões: ilusões de poder, de domínio, que são cancelados quando nos confrontamos com situações decisivas da nossa vida que não escolhemos mas que nos acontecem e que não conseguimos evitar.
 
O homem moderno não tem o mesmo fatalismo que era visível na cultura grega antiga. Porque aprendeu a confiar em si próprio e sabe que nem tudo escapa ao poder humano de decisão. Mas talvez precise de reaprender os limites da sua liberdade pessoal porque, tenha ou não consciência deles, a verdade é que uma parte significativa da nossa vida não é escolhida: acontece-nos e temos que a aceitar. Sem fatalismo, e este é outro aspeto que é importante na história de Édipo: a revolta, a capacidade para «querer ser livre» pois a liberdade não aparece de mão beijada, é preciso conquistá-la. Édipo falhou no desejo de ser livre  e por isso o seu destino foi trágico. Mas hoje, a tragédia é esquecer que também temos uma palavra a dizer, naquilo que queremos que nos aconteça.

2 comentários em “Mitos da Cultura Ocidental- Édipo, o Destino contra a Liberdade”

    1. O autor deste e de todos os artigos deste blog é o que encontra no menu «sobre nós» e «inicio». Não publicamos nada que não seja escrito por nós, a menos que o indiquemos expressamente. Temos uma longa experiência na Filosofia e na análise dos mitos da nossa cultura.

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