Os Animais e a Cultura- A Serpente do Eden, Tentação pela Liberdade


A serpente, cobra ou «dragão» são animais que têm sido alvo, ao longo da história da humanidade, alvo de sentimentos ambivalentes: alguns  sentem-se atraídos e fascinados por eles; outros recuam com  aversão e repugnância pelos significados que eles evocam.  Mas, para além do animal físico que desperta estas emoções, há um vastíssimo mundo simbólico que inclui a serpente, a cobra ou o dragão, e lhes atribui significados extremamente ricos , embora por vezes contraditórios, sobre os mistérios da vida e da morte, do bem e do mal,  da ignorância e  do conhecimento, etc.
E, como em geral sucede com a generalidade das experiências humanas, nunca há só um lado da «história». E, porque este tema simbólico é tão recorrente na nossa e em muitas outras culturas, vamos demorar-nos um pouco a analisar alguns dos mitos que envolvem este animal e a sua simbologia. E começamos pela história bíblica da «tentação da serpente».
A história bíblica é bem conhecida: Satã, assumindo a forma de uma serpente , aproximou-se sub-repticiamente de Eva, no jardim do Eden, e sussurrou-lhe que,  se ela comesse o fruto de uma certa árvore, obteria o conhecimento que lhe permitiria distinguir o bem do mal» e se «tornaria, em via disso, semelhante a Deus pois saberia tanto como Deus.» O «convite» da serpente é uma tentação e é considerado maléfico porque, justamente, Deus havia proibido o casal de provar aquele  fruto. De acordo com a narrativa bíblica, Eva não resistiu à tentação e não só comeu o fruto como o  deu a comer ao seu companheiro Adão.  A narrativa continua informando que, após a transgressão,  ambos perderem a inocência e repararam que «estavam nus, etc». O resultado não se fez esperar: ambos foram expulsos do Eden para sempre como punição pelo seu pecado . 
Como todas as narrativas simbólicas, esta também tem várias leituras. A menos interessante é sem dúvida aquela que lembra que a serpente está associada ao órgão sexual masculino e que vê a Eva original  como a mulher que, originalmente,  tenta o homem para o pecado «do sexo» e  que vê a perda da inocência deste primeiro casal como a descoberta da sexualidade que lhes terá feito perder a dimensão casta original.
A nosso ver, existe uma outra leitura bem mais interessante deste mito. Centremo-nos na tentação da serpente: o que esta disse a Eva foi que, ao comer do fruto, adquiriria o poder de distinguir o bem do mal. Ora, tal poder apenas se pode desenvolver quando o indivíduo tem consciência de que «pode escolher». Como bem mostrou o filósofo kierkegaard, «Deus proibiu o homem de comer o fruto («deste fruto não comerás» ) mas proibiu-o precisamente  porque o homem podia desobedecer-lhe. A tentação da serpente no Eden corresponde deste modo ao momento em que o ser humano descobre que «tem» que obedecer (porque recebeu a ordem divina) mas «pode» desobedecer porque é livre de escolher.
E a consciência  de que podemos fazer escolhas é aquela que nos mostra que há mais do que  um caminho único e inexorável à nossa frente; a consciência de que alguém, um ser divino ou humano pode indicar-nos um caminho, pode até dizer-nos que aquele é o único caminho que podemos seguir mas, em última análise, quem decide se obedece ou se  escolhe um caminho diferente somos  sempre nós,  porque, dentro de todos os limites que cercam a nossa existência, nós podemos fazer escolhas e  esta consciência é simultaneamente fonte de angústia e de exaltação porque é a consciência da nossa liberdade individual. 
Tal consciência é a origem do conhecimento do «bem e do mal» porque, quando temos consciência da nossa capacidade para escolher, tornamo-nos responsáveis pelo caminho que escolhemos e pelos frutos que alcançamos no final desse caminho. Perdemos a inocência porque não podemos culpar o  «destino» ou as circunstâncias ou Deus, ou mil e uma outras razões pelas consequências das nossas decisões e das nossas ações.
Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, onde viviam inocentes porque não tinham consciência da sua liberdade e da sua capacidade de decisão individual. A sua «inocência» era a  ignorância de quem vivia a vida sem se aperceber verdadeiramente das suas possibilidades. Ficaram «nus» porque tiveram que tomar consciência de que mais nada nem ninguém, a não ser eles próprios, podia fundamentar as suas ações. Esta «queda» do Paraíso consiste na escolha de o homem viver a sua vida encontrando por si mesmo a «razão de ser» do próprio destino, em vez de ir buscá-la às crenças ou à religião. É um caminho solitário, muitas vezes mergulhado na escuridão e no sofrimento de quem  perdeu todas as crenças e tem que recomeçar o sentido da vida a partir do zero, no confronto  entre a consciência e a própria vida. E é um «pecado» ou um  «mal» porque o homem transgride desse modo as regras vigentes, atrevendo-se a querer um caminho que é o seu.
A «serpente» do Eden, é a curiosidade, o desejo racional de explicar e compreender por si o  que a vida e o mundo nos podem oferecer. Saliente-se que também no mito grego de Pandora, é  a figura feminina quem, movida pela curiosidade e pelo desejo de conhecer, acaba por roubar a chave da «misteriosa caixa» ao marido, Epimeteu, quando este , significativamente, estava a dormir.  E, tal como a caixa de Pandora liberta todo o tipo de males sobre a Terra mas deixa, no final, a Esperança para mover a  humanidade na sua luta, também a serpente do Eden significa o desejo de conhecer e compreender  o mundo, que é inerente a cada ser humano, dando-lhe assim um motivo- pode não ser o único nem o melhor ou o mais fácil, mas seguramente é um motivo importante- para ele viver: a liberdade de poder ser quem ele decidir ser, de ser o autor das suas vitórias e dos seus fracassos e de crescer com eles e através deles, rejeitando ser alguém totalmente definido à partida como se fosse uma figura inerte no jogo de Deus. Esta opção pela liberdade é também a origem do «mal» no mundo porque o conhecimento, como temos visto ao longo da história dos dois últimos milénios, pode ser usado para o bem mas também pode causar o mal. Temos um bom exemplo na história da ciência e da tecnologia que nos melhoraram as condições de vida mas também têm contribuído para a deterioração da vida na terra; a ciência salva vidas mas também pode destruí-las quando se aplica em armas de destruição maciça. Mas, em última análise, o conhecimento é neutro, são as decisões e as ações que o tornam «bom»  ou «mau».

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