os Animais e a Cultura. O Simbolismo da Serpente


Continuamos a descrever o simbolismo associado à  serpente, um animal que originou alguns dos símbolos mais antigos  num grande número de culturas conhecidas.  A palavra serpente significa «animal rastejante» e algumas das suas características morfológicas, como a renovação periódica  da sua pele, associaram-na com a imortalidade e com os ciclos da vida. Como essa renovação se repete continuamente, surgiu também a relação com a  eternidade e a regeneração contínua da vida.
Algumas culturas  consideram  que a serpente é o símbolo do «cordão umbilical» que liga a humanidade à Mãe Terra.  Na antiga civilização cretense a serpente era a guardiã dos mistérios da vida e da morte. As serpentes são  consideradas guardiãs naturais dos templos e de outros espaços sagrados, são  vigilantes  dos «tesouros secretos».
A associação entre as serpentes e a fertilidade é muito comum:  os índios Hopi, nativos americanos, têm uma dança anual ritual,a serpente, que celebra a união entre a serpente  celeste masculina  com a serpente fêmea que habita o submundo. Nessa dança erguem serpentes verdadeiras, que são soltas no final, nos campos, para renovar a fertilidade da natureza   e garantir boas colheitas.
A serpente «Ouroboros» é outro símbolo de fertilidade e de eternidade:  é  representada como uma serpente  dobrada formando um anel circular  e mordendo a própria cauda. Este símbolo revela a eterna renovação e continuidade dos processos da vida: a vida recria-se a si mesma à custa do seu autossacrifício: a serpente devora-se a si mesma pagando esse preço para que a vida possa continuar, transformada e renovada. Este símbolo também representa o infinito e  a totalidade da existência, bem como o caráter cíclico do cosmos. Os gregos e os egípcios partilhavam estes significados.
Algumas culturas juntam a este significado de fertilidade a associação entre a serpente e o arco – íris pois este está associado à chuva e ao processo regenerativo que é estabelecido pela união entre a Terra e a Água. Ora, muitas serpentes vivem na água ou em buracos no chão e a forma da serpente também a relaciona facilmente com o órgão genital masculino, tradicionalmente considerado como fecundador.   Na China  é tradicional a associação entre a serpente e a chuva que faz brotar e renascer a vida. Na Austrália e América do Norte e também em África, a serpente é relacionada com o arco-íris, partilhando o  significado da associação entre a chuva e a fertilidade.
Mas, para além destes significados, a serpente também foi desde tempos antigos associada à cura:  para os gregos a serpente era sagrada para Asclépio, deus da medicina, e este transporta um caduceu com 2 serpentes enroladas e que continua a ser o símbolo da medicina atual. O veneno das serpentes associava-as com as propriedades químicas das plantas que tanto podem curar como matar ou produzir efeitos alucinogénios, etc. Atribuía-se às serpentes o conhecimento das ervas e dos seus poderes  e isso fez com que fossem consideradas animais próximos do divino. Elas estavam simultaneamente próximas do divino e da terra pois habitam no chão e isso associou-as também com o submundo e a dimensão pós-terrena. E porque  as serpentes podem ser letais  pelo veneno que instilam sem aviso quando mordem, foram também consideradas  símbolos do bem e do mal. Algumas culturas veem-nas como as guardiãs do submundo. Esta ligação também fez surgir o significado de que elas representam a sabedoria dos mistérios, os conhecimentos ocultos e, como se crê que após a morte as almas habitam no submundo, a serpente foi associada à morte e ao mal.
A tradição hindu e budista contribuiu grandemente para a relação entre a serpente , o bem e o mal.  Esta mitologia fala do povo dos Nagas, com cabeça humana e corpo de serpente, que viviam debaixo da Terra e debaixo de Água e que se acreditava terem o poder de  controlar as chuvas. Serviam também de intermediários entre os homens e outros deuses. Para esta tradição, alguns destes  «deuses-serpente» eram bons, como o Rei-Serpente Muchalinda, que protegeu Budha durante uma tempestade, mas outros eram considerados maus e vingativos.

As mitologias antigas combinavam muitas vezes características de vários seres devido aos significados simbólicos que lhes atribuíam: assim, os dragões das diversas mitologias e as serpentes têm características semelhantes; na mitologia grega, por ex., Echidna, era semi-humana e semi-serpente, e incluía dragões na descendência; Quetzalcoatl, na tradição Tolteca e Azteca. era um deus semi–ave e semi-serpente. Na Europa dos tempos medievais, acreditava-se no Basilisco, uma serpente enorme com corpo de dragão, que matava apenas pelo olhar ou por respirar próximo das vítimas.

Nos mitos em que a serpente aparece como representação do mal, ela é vista como inimiga tanto dos homens como dos deuses. Inclui-se nesta categoria o mito do Génesis de que falámos na última semana. Na Mitologia Nórdica considera-se que uma enorme serpente, Midgard ou Jormungand estava enrolada à volta da terra no início dos tempos. Esta serpente vivia no mar e os seus movimentos causavam tempestades por todo o mundo. O deus Thor lutou com ela para ela libertar a Terra. Outro mito nórdico refere o monstro Nidhogg, uma serpente que se enrolou à volta das raízes do Yggdrasill, a Árvore do Mundo. Esta serpente ,eternamente, tenta destruir o mundo, apertando ou mordendo a árvore. Estes mitos têm a ver com a associação entre a Serpente e a eternidade: a finitude do mundo é assim descrita como a atividade desta serpente maléfica que é uma representação do tempo. (o tempo que em cada ciclo destrói a vida antes de a renovar).
No Egipto, o caos era representado  como a serpente Apófis que, em cada noite, atacava o deus- Sol Ra.  Outra grande serpente, Meheu, enrolava-se todas as noites à volta do barco onde viajava Ra, protegendo-o de Apófis  e garantindo desse modo que o dia voltaria a nascer como previsto.
Mas a serpente também aparece como símbolo do bem e da criação, como referido atrás.  Por ex., entre os índios Dieguénio, US, foi uma grande serpente chamada Umar- Huhhlya-Wit que deu aos homens os segredos da civilização.  Esta ideia aparece em muitas tradições em que «as serpentes» são a representação mítica de «seres sábios» mais do que humanos , que orientaram a humanidade quando esta estava pouco desenvolvida e lhes transmitiram muitos segredos e conhecimentos.
Em África, o povo Fon conta que Da, uma serpente de 3500 anéis, suporta o oceano cósmico  onde flutua  a Terra . Outros 3500 anéis suportam o céu. Quando há um arco-íris no céu ou quando a luz se reflete na água, isso é uma imagem de Da, que se  mostra aos homens nesses pálidos reflexos.
Na mitologia Chinesa a serpente faz parte do Zodíaco. Nesta cultura, a  simbologia da serpente está largamente espalhada na religião e nos contos tradicionais, sendo uma representação simbólica das mais significativas em termos culturais.
Misteriosa e insinuante, a serpente acompanha muitas representações das várias culturas mas também é um símbolo poderoso no plano  subconsciente, associando-se aos medos e às esperanças da humanidade; dualista, como é dual a eternidade/finitude da vida , o bem e o mal , a ignorância e o conhecimento, a que ela está associada.

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