Mitos da Cultura Ocidental- O Minotauro, Monstro e Símbolo Celeste

O Mito do Minotauro

Este é um mito com muitas nuances políticas e religiosas e até astronómicas, revelando mudanças no domínio político, com Creta a perder gradualmente esse  domínio, à medida que novas potências, como Atenas, iam adquirindo cada vez mais protagonismo, com consequentes alterações também no plano das crenças religiosas.
 
O rei Minos, de Creta, tinha ascendido ao poder mas estava preocupado com a competição dos irmãos e, no esforço para manter o poder, pediu a Poseidon, deus dos oceanos, que lhe enviasse um boi branco em sinal de apoio. Poseidon ouviu a prece de Minos e enviou-lhe o boi. Porém, extasiado com a beleza do animal, Minos não o sacrificou, como seria de esperar, em honra de Poseidon: guardou-o para si e sacrificou ao deus um outro boi que lhe pertencia. Porém, Poseidon  não gostou de ser desrespeitado e Afrodite , deusa do amor, fez com que a mulher de Minos, Pasiphae, se apaixonasse perdidamente pelo boi branco. Tendo acasalado com este, dessa união nasceu uma criatura que tinha corpo de homem e cabeça e cauda de boi. Durante a infância, Pasiphae cuidou dela mas, à medida que foi crescendo,  este ser tornou-se um problema pela sua ferocidade  e  pela particularidade de gostar de se alimentar com carne humana.
 
Para se livrar deste problema, Minos consultou o oráculo de Delfos, que lhe sugeriu como solução que encerrasse o Minotauro num labirinto. Assim, Minos ordenou a  Dédalo, um artesão, que construísse   um labirinto gigantesco perto do palácio real ,em Knossos . Este labirinto tinha tantos caminhos intrincados que era muito difícil, depois de alguém entrar, conseguir encontrar a saída;  o Minotauro foi aí colocado.
 
Durante algum tempo Minos enviou para o labirinto os seus inimigos para estes servirem de alimento ao Minotauro. Porém, numa ocasião em que o seu filho Androgeu foi a Atenas  para participar nos jogos Panatenaicos, foi morto quando corria a maratona, pelo boi branco que tinha engravidado a sua mãe Pasiphae. Furioso com o que considerou ser um ultraje, Minos, que mantinha Atenas sob vassalagem, passou a exigir que a morte do filho, que entretanto tinha dado origem a uma peste que se fazia sentir no reino, fosse punida com o tributo de sete jovens rapazes e sete raparigas virgens, para serem sacrificados ao Minotauro. A periodicidade deste tributo variava, segundo as fontes: umas dizem que ele era anual; outras dizem que era de sete em sete ou de nove em nove anos. O que se sabe é que, no 3º ano, o filho do rei de Atenas, Teseu, quis fazer parte do grupo de jovens que iam ser sacrificados ao Minotauro ,embora não estivesse nas suas intenções  deixar -se matar pela criatura. Minos temeu pela vida do filho pois sabia que, mesmo que ele conseguisse matar o Minotauro, provavelmente não conseguiria sair do labirinto com vida.
 
Num certo ponto após sua chegada, o jovem Teseu encontrou-se com Ariadne, a princesa filha do rei Minos e esta apaixonou-se perdidamente por ele, tendo resolvido ajudá-lo, de modo a que ele conseguisse, após a vitória sobre o Minotauro, sair do labirinto vivo: deu-lhe um novelo de fio e disse-lhe para o ir desenrolando à medida que penetrava no labirinto. Teseu assim fez e conseguiu, graças  ao fio que ia deixando atrás de si, encontrar o caminho de volta  após ter vencido e morto o Minotauro. O que se passou depois mostrou que Ariadne foi um meio de que Teseu se serviu pois, tendo-a levado de Creta, parou em  Naxos e deixou-a ficar por lá: umas versões dizem que ela adormeceu na praia e, como estavam todos bem bebidos depois da celebração da vitória, não se aperceberam  de que ela não estava no navio; outras versões dizem que Ariadne foi deliberadamente deixada ficar para trás por um «herói» que já não precisava dela. Mas Teseu também não teve muita felicidade a seguir: tendo prometido ao pai que mudaria as velas negras do navio se vencesse o Minotauro e faria içar velas brancas que mostrariam a sua vitória quando o navio se aproximasse de terra, parece que Teseu se distraiu e se esqueceu  de substituir as velas negras por velas brancas e o pai, Egeu, quando esperava  em terra a chegada do navio, tendo visto as velas negras deduziu que o filho estava morto e atirou-se às águas, suicidando-se, razão pela qual aquele mar se passou a chamar Egeu.
 

Pistas para a Interpretação do Mito do Minotauro

Uma primeira evidência curiosa é o papel das mulheres neste mito: duas mulheres apaixonaram-se  perdidamente e, por causa disso, mudaram o curso dos acontecimentos: Pasiphae, mulher de Minos, apaixonou-se pelo «boi branco», que é uma personificação do deus solar. O Minotauro era muitas vezes designado também por Asterion , que significa «estrela».  A «paixão» de Pasiphae pelo boi, ele próprio um dos símbolos do «céu» e  uma força poderosa, masculina, mostra uma ideia mística de «união entre o ser terreno e o ser celeste» numa alusão a elementos que são religiosos e astronómicos.
 
Acredita-se que houve, em Creta, um culto religioso que tinha por alvo o boi enquanto personificação do deus solar e que, no âmbito desse culto, eram feitas oferendas de sacrifícios humanos, nos quais corria sangue, pois as vítimas eram amarradas a um boi vermelho e torturadas.
 
A vinda do herói Teseu para lutar com o Minotauro representa a queda do domínio político e religioso de Creta  e a substituição das crenças e das práticas usadas em Creta pelas práticas e crenças de Atenas, então em ascensão: a paixão de Ariadne pelo herói ateniense mostra como as antigas crenças de Creta foram ultrapassadas pela visão do mundo do povo ateniense, que não aceitava, a partir de certa altura, os sacrifícios humanos (embora eles também tivessem sido praticados na Grécia). Teseu enfrenta o Minotauro porque Atenas está farta de mostrar subserviência em relação ao reino de Creta e porque quer impedir que mais jovens rapazes e raparigas atenienses sejam objeto de oferenda sacrificial a um deus que não veneram.  Por outro lado, o «desprezo» que Teseu mostra em relação a Ariadne, que se limita a usar como parte da sua estratégia para «vencer o Minotauro» revela a separação entre as crenças praticadas pelos dois povos, e que eram vistas como  inconciliáveis.  Mitos como este ajudaram a cimentar as crenças religiosas dos atenienses, separando-as das de outros povos e marcando assim a identidade grega.

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