Mitos da Cultura Ocidental. O Mito de Sísifo, Maldade e Absurdo

 
O mito de Sísifo originou muitas reflexões acerca da natureza humana, a mais conhecida das quais é a que Albert Camus, o grande escritor francês do «absurdo», prémio Nobel da Literatura, fez no «Ensaio  sobre o Absurdo- O Mito de Sísifo».
 
Mas, como todos os historiadores e filósofos ocidentais perceberam, os Gregos antigos refletiram nos seus mitos os  melhores e os piores aspetos da natureza humana de uma forma tão completa que nós, as gerações atuais, nos limitamos, com poucas exceções, a redescobrir as lições que eles nos deixaram nesses mitos.
 
O Mito de Sísifo é sobre uma característica bem marcada da natureza humana, causada pela «hubris» (vaidade desmedida) que é o desejo insensato de ser «o melhor», isto é, a consciência inflada de certas qualidades do  ego que levam o homem a sentir-se  omnipotente e invencível e, por esse facto, é levado a pensar que tudo  lhe é permitido , incluindo cometer crimes  de todo o tipo, apenas para  «levar a sua avante». A história de Sísifo é a história do patife mais ardiloso  de sempre, um embusteiro e assassino altamente inteligente e que, por esse facto, por ter  a capacidade de enganar os próprios deuses, pensou que podia suplantá-los e vencer a morte.

A história de Sísifo

 
Sísifo era filho do deus dos ventos, Éolo e foi o fundador da cidade de Éfira, mais tarde designada por Corinto e também é considerado o fundador dos jogos ístmicos.  Mas a história do seu reinado é uma história de crimes, de enganos e de  patifarias de toda a espécie.  Sísifo tinha um caráter extremamente manipulador e ardiloso, mentia tão bem e escondia de tal forma as suas verdadeiras intenções que conseguia levar sempre a sua avante. Apesar disso também promoveu boas práticas que trouxeram a prosperidade a Corinto, como o comércio e a navegação e passava por ser o «melhor dos artesãos».
 
Mas a sua maneira de ser levava-o a conseguir o que desejava usando a mentira, o crime e a traição. Eis alguns exemplos: assassinou viajantes e convidados sempre que isso lhe trazia alguma vantagem; por odiar o irmão, Salmoneus, consultou o oráculo de Delfos para saber como poderia matá-lo sem sofrer consequências por isso. Em consequência  seduziu  Tyro, filha de Salmoneus e teve filhos com ela, planeando usá-los numa conspiração para estes tirarem  o pai do trono. Esta intenção falhou no momento em que Tyra descobriu isto e acorrentou os filhos para que isso não pudesse acontecer; incorreu na ira de Zeus quando o traiu, ao contar ao deus Asopo  (deus do rio) que Zeus lhe tinha raptado a filha, Egina,  em troca de um favor do Asopo para fazer florir a Primavera na Acrópole.
 
Assim, Sísifo via-se a si mesmo como semelhante aos deuses, incluindo Zeus. Tal era a sua enorme autoconfiança em relação à sua capacidade para enganar  e para manipular,  que pensou que essa «habilidade»  haveria de o  manter sempre a salvo.
 
Furioso com Sísifo, por este ter contado a sua «indiscrição amorosa», Zeus enviou Tanathos (deus da morte) e mandou-o prender Sísifo no Tártaro. Antes de ser preso, Sísifo deu instruções à esposa para que não enterrasse os seus restos mortais e para que  deixasse o seu corpo abandonado ( o que constituía um crime grave- não enterrar os familiares mortos com todas as honras e respeito devido era considerado um crime religioso na Grécia antiga e era punido pelas «Fúrias» ou Harpias e Sísifo contava aproveitar-se disso).  E antes que Hermes ,o deus cuja tarefa era guiar as almas no mundo dos mortos, chegasse, Sísifo tratou de arranjar forma de se safar: pediu ao deus Tanathos (em algumas versões do mito Hades) que   lhe mostrasse como funcionavam as correntes que o iriam prender e, quando Tanathos se distraiu Sísifo , numa reviravolta, prendeu-o a ele. Ora, enquanto Tanathos estava preso, nenhum humano podia morrer e Ares, (Marte) deus da guerra, ficou aborrecido porque ninguém morria nas suas batalhas pelo que interveio e libertou Tanathos, entregando-lhe novamente Sísifo. Já no submundo, Sísifo usou outra cartada: queixou-se a Perséfone (em algumas versões do mito Hades) de que não poderia descansar no além porque o seu corpo não tinha recebido honras fúnebres e pediu-lhe  que o deixasse regressar temporariamente ao mundo dos vivos para poder castigar a mulher pela sua impiedade. 
 
O  pedido  de Sísifo foi bastante convincente e ele obteve autorização para voltar. E, ao voltar, Sísifo descarregou a sua ira pelo facto de a esposa ter obedecido às suas instruções  porque isso lhe mostrava a sua falta de amor por ele. Mas, satisfeito por estar de novo «à superfície», recusou-se a voltar para o mundo dos mortos. Tendo perdido toda a paciência, os deuses acharam que bastava: Hermes arrastou  Sísifo até ao mundo dos  mortos e , como castigo pelas suas trapaças, causadas pela vaidade de ele pensar que era mais esperto do que Zeus, Sísifo foi condenado a arrastar um enorme pedregulho por uma encosta acima (Zeus enfeitiçou a pedra: quando estava mesmo a chegar ao topo, ela rolava imediatamente para baixo outra vez e Sísifo tinha que recomeçar tudo de novo  empurrando-a  novamente para cima e voltando para baixo  a seguir para a empurrar outra vez, até à eternidade). Sísifo foi assim condenado pelos deuses a ter que  se esforçar continuamente  e a sentir a imensa frustração da inutilidade desse esforço por  toda a eternidade como castigo pela sua arrogância e vaidade.
 

Pistas para a Interpretação  do Mito

É claro que existe uma  «lição» religiosa óbvia neste mito,  e que alerta para  o facto de os seres humanos se deslumbrarem com as suas capacidades e inteligência e, por causa disso, pensarem que «já não precisam dos deuses». Alguns autores dramáticos, como Sófocles, lamentaram a «secularização» excessiva da vida humana ,fruto do florescimento da civilização, do pensamento racional e da ciência e da filosofia e não se cansaram de mostrar que, por mais brilhantes que sejam os seres humanos, ou por maior que seja a sua «esperteza», jamais poderão tornar-se «iguais a Deus».
 
Porém, julgo que a lição mais básica deste mito é o de que, por mais «esperto, manipulador , embusteiro ou enganador que o homem seja, por mais inteligência que  tenha para vencer os próprios deuses, levando-os a acreditar «no que lhe convém» isso não o livra do destino mais inevitável de todos os seres humanos: a morte.
 
É por isso que a vaidade de Sísifo surge como «hubris», como vaidade desmesurada e sem fundamento porque ela não passa de uma ilusão: Sísifo, por ver como conseguia levar a sua avante sempre que desejava alguma coisa, convenceu-se de que era capaz de vencer tudo e de que tinha  enorme poder. Se ele até os deuses  manipulava e enganava, isso provava, pensava ele, que ele era melhor do que eles. Mas a morte não pode ser enganada, pelo menos para sempre e, no final, o poder de Sísifo esboroou-se na impotência para lhe escapar. A sua maldade e falta de caráter deixou uma memória de absurdo  para  lembrar a sua vida, que aparece aos olhos dos outros como esforço desperdiçado.
 
Camus depreendeu, a partir daqui, que a vida humana, por ser mortal, «não tem sentido»: é fruto do absurdo ,ao qual Deus condenou o homem quando o fez mortal. Mas esqueceu-se da lição de outro  filósofo grego chamado Epicuro,  segundo o qual   um ser humano só  merece admiração  quando, tendo consciência da sua vida mortal,  se esforça mesmo assim por  «ser o melhor possível», sem  ter outra  recompensa  do que a de saber que  só somos humanos quando  lutamos para concretizar a excelência no nosso modo de ser; mesmo quando acreditamos que, após a morte, há apenas o nada.

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