Mitos da Cultura Ocidental, Prometeu, o Génio Humano e a Cultura

A história de Prometeu

O Mito de Prometeu é um dos mais conhecidos da cultura ocidental; é apresentado muitas vezes como ícone das capacidades humanas para criar a ciência, a cultura e a civilização.
Prometeu era filho de um titã e de uma ninfa, pertencendo à categoria dos «heróis». Incumbido de criar o homem, moldou- a partir do barro e a deusa Athena  insuflou-lhe a vida através da respiração.
 
Prometeu e o irmão Epimeteu estavam encarregados de criar os seres terrestres. Prometeu encarregou-se do homem, dando instruções a Epimeteu para distribuir pelos  seres  da Terra uma série de qualidades: inteligência, rapidez, asas, força, pelo, etc. Epimeteu aplicou-se nessa tarefa, começando pelos animais não humanos e, quando chegou ao homem, já não tinha mais nenhuma qualidade para dar ao homem e, por isso, Prometeu resolveu dar-lhe a posição bípede, semelhante à dos deuses, e o fogo.
 
Prometeu revelava grande carinho pela sua criação, gostando mais do homem do que dos  deuses do Olimpo.  Por isso, lutou pelo homem e enganou Zeus de várias maneiras: por exe., quando foi preciso estabelecer quais as oferendas sacrificiais que os homens deveriam dar aos deuses, Prometeu fez dois modelos de  oferendas: uma feita de carne suculenta escondida num «embrulho» pouco apetecível, num estômago de boi; e outra composta por ossos embrulhados em gordura brilhante, com excelente aspeto. Colocou as oferendas perante Zeus e pediu-lhe que escolhesse qual delas deveria servir como modelo futuro dos sacrifícios que o homem devia aos deuses. E Zeus escolheu a oferenda que parecia melhor à primeira vista mas que, no interior, tinha apenas ossos. É claro que, quando se apercebeu disso, ficou furioso mas teve que manter a sua palavra e , deste modo, os homens puderam guardar a melhor parte da carne para si próprios e dar os ossos em oferenda.
 
Como retaliação, Zeus resolveu retirar o fogo que Prometeu tinha dado aos homens. Prometeu, inconformado e desafiando a  autoridade de Zeus, agarrou numa tocha e foi acendê-la no Sol, trazendo o fogo de volta para os homens.
 
Foi a última gota: Zeus enviou de imediato os seus servos Força e Violência e mandou-os agarrar Prometeu e acorrentá-lo no Monte Cáucaso com o castigo de uma Águia (emblema de Zeus) lhe devorar o fígado a cada dia: após ser devorado este voltava a crescer para ser comido no dia seguinte. Para escapar a este castigo, Prometeu teria que contar a Zeus quem era a mãe do filho que o destronaria um dia- coisa que Prometeu recusou; ou então um imortal teria que se voluntariar a morrer por ele ao mesmo tempo que um mortal deveria lutar com a águia e vencê-la, matando-a.
 
Ao que parece, Quíron, o centauro, aceitou morrer por Prometeu e Hércules, num dos seus célebres trabalhos, venceu a águia e libertou Prometeu.
Algumas Pistas de Interpretação do Mito
Este é um mito bastante complexo  que se situa no contexto do confronto entre o plano humano secular  e o da religião. É um mito  que representa a tomada de consciência  do homem em relação aos seus próprios méritos e capacidades, que levou ao questionamento do lugar dos deuses na vida e nas decisões dos homens.
 
Houve um tempo em que os homens se viam como não tendo qualquer palavra a dizer em relação ao seu destino, que consideravam estar totalmente dependente da vontade divina; um tempo em que os deuses eram considerados omnipotentes e omniscientes e em que o homem se via como servo impotente dos seus caprichos e poder. Os poemas homéricos- a Ilíada  e a Odisseia- são um exemplo claro de como os homens se viam como meros joguetes dos caprichos e da vontade divina.
 
Mas o surgimento das cidades gregas, das atividades económicas e das ciências como a Matemática, a Astronomia, etc que permitiram o florescimento e a riqueza com base no comércio e já não na posse de terras, colocou o homem no centro de todas as decisões. E esse homem, tendo descoberto o diálogo racional como a forma fundamental de descoberta do mundo, começou a sentir que era preciso colocar os deuses no seu lugar próprio e dar ao homem a oportunidade para brilhar em primeiro plano, como autor de um novo mundo totalmente construído por si: o espaço das cidades e a sua organização política e económica eram obra humana e não dos deuses.
 
É este homem revolucionário, virado para o futuro e orgulhoso das suas próprias capacidades e inteligência, que Prometeu simboliza: o fogo, símbolo da tecnologia que, desde os antigos  gregos, permitiu ao homem moldar o mundo ao seu jeito, «foi roubado aos deuses» e tornou-se pertença do homem; as oferendas sacrificiais aos deuses passaram a ser feitas mantendo «o melhor pedaço» para o homem e dando o «menos bom» aos deuses, num significado claro da sua passagem para «segundo plano».
 
 
Ao longo da História este mito foi usado para mostrar as contradições do homem que «quis  ser igual aos deuses»: a ciência, a cultura e a civilização não são  apenas conquistas maravilhosas do engenho humano;  elas também transportam tragédias e consequências nefastas e destrutivas do próprio mundo que o homem quis que fosse  «melhor», alertando para a necessidade de  fazer um uso consciente dos conhecimentos e das  tecnologias que o homem desenvolveu.
 
A parte final deste mito, das condições impostas por Zeus para libertar Prometeu, também é  uma referência clara à inversão da ordem tradicional que punha os deuses em primeiro lugar  e passou a  coloca-los  em «segundo»: a alusão ao sacrifício de um imortal para que  Prometeu pudesse viver-  a disponibilização de Quíron, o Centauro, para morrer por Prometeu- mostra a elevação do estatuto do ser humano que, através da cultura e do refinamento que ela permite, se separou da animalidade e ascendeu à categoria de um  ser espiritual; a salvação de Prometeu por Hércules, um herói nitidamente relacionado com os signos do Zodíaco e a simbolização do «homem universal», mostra que o homem, através das suas experiências na Terra e do conhecimento que vai adquirindo, se vai transformando num ser  verdadeiramente divino.
 
De modo que a «inversão» de valores que se efetuou da divindade para o homem consistiu verdadeiramente na substituição de uma ordem pela outra e esta inversão explica   a complexidade dos valores humanos e as muitas contradições  que são visíveis no mundo humano atual.

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