Mitos da Cultura Ocidental, o Suplício de Tântalo

 

A história de Tântalo

Tântalo foi um rei mítico da Frígia ou da Lídia, filho de Zeus e da ninfa Plouto. Por ser filho de Zeus, foi recebido no Olimpo à mesa dos deuses.  Um dia, para testar a omnisciência deles,Tântalo fez-lhes uma oferenda  macabra: matou e desmembrou  o seu filho, ainda criança, Pélope, e serviu a sua carne num banquete destinado aos deuses. Deméter, que se encontrava desgostosa e com a mente ausente por causa da perda da filha, Perséfone, que se tornara companheira de Hades no submundo, comeu um pedaço do ombro do rapaz, antes  de se aperceber da natureza da carne mas os restantes deuses, apercebendo-se do que estava a acontecer, não lhe tocaram.
 
Zeus deu ordem a Cloto, uma das 3 encarnações do destino (Moiras), para que trouxesse de novo o rapaz à vida, o que aconteceu. O jovem cresceu , após este incidente, belo e forte, tendo sido levado por Poseidon para o Monte Olimpo para aprender a conduzir as carruagens  dos deuses até ser expulso por Zeus devido à raiva que o rapaz sentia em relação ao pai que o assassinara.
 
Uma outra versão desta história refere que Tântalo despertou a ira dos deuses por ter roubado o néctar divino, ou Ambrósia para partilhar quando  regressou ao mundo terrestre e, por causa disso, foi castigado.
 
Seja por uma razão seja por outra, Tântalo recebeu o castigo  que se conhece: foi metido numa poça de água no Tártaro, a parte do submundo mais escura onde os criminosos expiam o castigo pelos seus crimes. Estava rodeado de água cristalina e pura e tinha uma árvore com belos frutos a pender de ramos baixos junto às suas mãos- mas, sempre que  aproximava a boca para beber, a água recuava; sempre que estendia a mão para a árvore onde pendiam os frutos os ramos  moviam-se para longe, retirando-os  do alcance de Tântalo. Deste modo a  água e os frutos pareciam totalmente ao alcance da sua mão mas, simultaneamente, é como se estivessem infinitamente longe.  E, para todo o sempre, ele tinha sede mas não podia beber; tinha fome mas não podia comer.
 
Mas este não foi o único castigo que ele recebeu: também havia uma pesada pedra pendente sobre a sua cabeça  ameaçando continuamente cair-lhe em cima. Este castigo, segundo consta, deveu-se ao facto de Tântalo ter  participado no roubo de um cão de ouro  que foi moldado por Hefesto a pedido de Reia, para vigiar Zeus quando este era criança. Segundo a história, um amigo de Tântalo, Pandareu,  roubou o cão e depois pediu a Tântalo para o guardar em lugar seguro até as coisas acalmarem. Porém, quando Pandareu pediu a Tântalo que lhe devolvesse o cão de ouro, este terá respondido que nunca viu nem ouviu falar de um cão de ouro na sua vida e assim, Tântalo guardou o cão para si. Para o castigar por esta má ação, os deuses condenaram-no a sentir-se ameaçado para todo o sempre, receando continuamente  ver cair-lhe em cima aquela pesada pedra.
 
 

Algumas Pistas para a Interpretação do Suplício de Tântalo

A história de Tântalo marca um ponto importante na consciência da humanidade em relação ao modo de encarar a dignidade e os direitos dos seres humanos: no mundo antigo, durante muito tempo, vários povos praticaram sacrifícios humanos, sendo que as crianças, pela sua pureza e inocência, eram muitas vezes alvo privilegiado  desta prática. O canibalismo, em tempos recuados era também comum e é outro aspeto presente neste mito.
 
Do mesmo modo, os pais tiveram, durante muito tempo, a prerrogativa  de decidir a vida  e a morte dos recém-nascidos na família,  como um direito que a tradição lhes concedeu, embora na Grécia antiga a forma mais praticada fosse a «exposição» da criança, isto é,  se o chefe de família decidisse que a criança não devia viver, ela era colocada num pote de barro e colocada no caminho para morrer por «causas naturais»: fome, sede, frio ou calor, ataque de animais…  dessa forma os pais pensavam  que não cometiam pecado nenhum pois os deuses ou alguém que passava podia salvar a criança e impedir a sua morte.
 
Os sacrifícios humanos e de crianças eram feitos em tempos mais recuados e eram uma prática comum por exemplo na antiga Cartago. A razão pela qual se matavam as crianças podia variar: por ser do sexo feminino ou doente, deformada, por ser um fardo demasiado pesado para a família suportar, para agradar aos deuses  como uma «oferenda» especial e, desse modo propiciar  benesses  e ajuda divina que se pretendia alcançar.
 
Deste modo, esta história de Tântalo, que foi punido pelos deuses por ter assassinado o próprio filho para o dar como oferenda aos deuses  – e  recusada por estes-  mostra uma viragem na mentalidade e nas crenças religiosas e, de facto, a partir de certa altura o infanticídio e os sacrifícios humanos passaram a ser condenados como práticas dos «bárbaros» ou pessoas incivilizadas e foram proibidos pelas leis e pelas regras morais como inaceitáveis, embora a prática da «exposição» tenha continuado por bastante tempo.
 
A  história de Tântalo  exemplifica a nova visão da sociedade em relação às práticas de canibalismo e assassínio de outros seres humanos, seja qual for a razão, incluindo a religiosa, ensinado que elas não são aceites nem permitidas e merecem  o castigo equivalente de ser privado de comer e de  beber, levando os indivíduos  a respeitar a dignidade  de outros seres humanos, principalmente quando estes não são capazes de se defender a si mesmos, como é o caso das crianças.
 
Quanto ao castigo por roubar o «cão de ouro» de Zeus –criança, sofrendo o medo de ser esmagado a qualquer momento por uma pesada pedra, este elemento reforça a ideia de que a proteção das crianças é algo que deve ser praticado pela sociedade, cujo dever é dar  a estes seres indefesos a vigilância adequada para apoiar as suas necessidades de segurança. O mito corresponde deste modo ao assumir, pela sociedade, da responsabilidade pelo bem estar e proteção das crianças, penalizando simultaneamente de forma pesada  aqueles que falham esse dever de proteção.

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