Mitos da Cultura Ocidental, A Guerra de Tróia

 

A guerra de Tróia é um dos episódios mais conhecidos da mitologia antiga grega e aparece celebrizada nos poemas homéricos, Ilíada e Odisseia: na Ilíada  testemunhamos a parte final do cerco de 10 anos que os Aqueus (gregos) fizeram à cidade e, na Odisseia, somos informados das peripécias que o herói grego Ulisses viveu até regressar ao lar donde partira 10 anos antes.
 
Mas não pensemos que esta guerra foi puramente mítica. No século dezanove, um homem que cresceu  lendo os poemas homéricos, sonhou  que um dia haveria de encontrar a cidade soterrada de Tróia. Chamava-se Heinrich Schliemann e, seguindo as indicações encontradas nos textos homéricos, encontrou  no local indicado, correspondente a Hissarlik, hoje território turco, os restos de uma cidade que foi várias vezes incendiada e reduzida a cinzas. A época? Século 11 ou 12 a.c., tal como os poemas homéricos indicavam.
 
Agora, onde é que o mito se cruza com a realidade? Isso cabe à sua imaginação decidir, Caro/a Leitor/a. O certo é que, durante séculos, os poemas homéricos foram a base essencial do ensino histórico de muitas gerações de gregos que não tinham dúvidas de que eles «contavam como tudo se passou» no tempo dos heróis.

O Mito da Guerra de Tróia

Esta guerra teve origem na contenda entre deusas frívolas que não tinham muito com que se ocupar: Eris, a deusa da Discórdia, resolveu enviar uma «maçã dourada» com a mensagem «para a mais bela», a três das Deusas do Olimpo- Afrodite, Hera e Atena. É claro que cada uma delas achou estar na posse das qualidades que lhe permitiriam receber a «maçã dourada para a mais bela» e, como elas eram três e só havia uma maçã, o resultado foi uma briga pouco digna do estatuto que elas ocupavam no Olimpo. Para acabar com a contenda, Zeus interveio e resolver enviar a maçã e as deusas para se submeterem ao juízo de Páris, um jovem e belo príncipe de Tróia.
 
Páris não hesitou na escolha: ofereceu a maçã a Afrodite que ficou naturalmente radiante com a escolha do jovem e, sendo a deusa do Amor,  resolveu recompensar o «bom gosto» do príncipe com o amor da mais bela mulher que vivia na Terra, Helena. Esta , sob a  influência da deusa, apaixonou-se pelo jovem Páris e não  ofereceu qualquer resistência quando este a levou com ele para Tróia. Porém, havia um «pequeno problema» com este arranjo: Helena era casada com o rei Menelau de Esparta e, quando viu a esposa desaparecer na companhia de um estranho sentiu-se profundamente humilhado e insultado. E o mesmo  pensou o irmão dele, Agaménon, rei de Micenas,  que conduziu uma expedição militar a Tróia e pôs  um cerco à cidade que durou 10 anos.
 
Estes são os «factos» humanos mas, na verdade, segundo os poemas homéricos, os homens nada decidiram e pouco podiam nesta guerra pois as deusas – Afrodite que ganhou a frívola contenda e as outras que a perderam – imediatamente se puseram a conspirar chamando aliados e batalhando por detrás das ações dos homens e dos heróis, razão pela qual a guerra durou tanto tempo. Afrodite, é claro, protegia as forças de Tróia, associadas ao jovem Páris e à amada Helena; Hera e Atena, por seu lado, protegiam os Aqueus (gregos) com todos os recursos sobrenaturais de que dispunham. No final, antes dos homens que perderam, perdeu Afrodite, pois os Aqueus, como é sabido, venceram esta guerra. Nela pereceram grandes heróis, de um lado e do outro: Heitor e Páris entre os troianos; Aquiles e Ajax entre os gregos.
A guerra foi vencida pelo recurso a uma artimanha por parte dos gregos: construíram um belo cavalo de madeira, cujo tamanho era suficiente para albergar um número considerável de homens armados escondidos. O cavalo foi apresentado como uma oferenda e os Troianos, ingenuamente, acreditaram que esta era uma real oferta de paz e levaram o cavalo para dentro da cidade. Uma vez lá dentro, os soldados irromperam e abriram as portas da cidade. Os seus habitantes, estupefactos, nada puderam fazer ,tendo morrido às mãos dos invasores (os que não morreram foram feitos escravos).
 
Ganha a guerra e «limpa a honra» do marido espoliado de esposa, os gregos fizeram-se ao mar, após terem reduzido a cidade a cinzas.

Pistas para a Interpretação do Mito da Guerra de Tróia

Quase admitimos, um pouco em jeito de brincadeira, que sai caro desafiar a vaidade das mulheres. Esta guerra começou por motivos fortuitos e frívolos, só porque três mulheres – divinas ainda por cima –  se puseram a discutir qual delas era mais merecedora de ser considerada  «a mais bela». Tão simples e tão estúpido como isto, como estúpidas são todas as guerras. Por isso, se há lição a tirar desta guerra é, antes de mais, que a humanidade muito facilmente envereda pelo caminho da violência que ceifa muitas vidas inocentes só para satisfazer a «vaidade» , o  «sentido da honra» ou outras razões semelhantes. Esta guerra durou 10 intermináveis anos, durante os quais a vida de todos os habitantes foi dramaticamente alterada. E tudo isto para vingar a humilhação de um marido e duas deusas despeitadas?!
 
Pois, Caro/a Leitor/a. Tenho para mim que a lição mais preciosa deste mito nada tem a ver com a «astúcia»  do cavalo que permitiu enganar os Troianos e vencer a guerra: tem a ver com a exemplificação de como as contendas  humanas não deveriam ser resolvidas: a guerra é sempre uma má solução; não há glória em morrer, por mais valente que se seja, se os motivos que conduzem a essa morte são puramente fúteis, o que torna todas as mortes que daí decorrem desnecessárias e injustificadas. Esta foi uma guerra que ficou para a história como a lição que devemos aprender com todas as guerras: são quase  sempre injustas e evitáveis.

 

Quanto  à ligação entre  este mito e os factos reais que ocorreram na história destas duas cidades, que de facto estiveram em conflito na época referida, elas existem certamente e terão sido a única justificação plausível que os normais cidadãos gregos encontraram para explicar uma tão longa guerra  para a qual não encontravam  fortes motivos humanos: a culpa foi das deusas.

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