Mitos da Cultura Ocidental, Narciso e as Armadilhas da Identidade

 
O Mito de Narciso é um dos mais conhecidos da cultura ocidental e também um dos mais relevantes para esta cultura, que tem, ao longo do tempo, considerado que o «indivíduo» e as suas qualidades  são um dos valores fundamentais. Porém, este mito adverte para os efeitos nefastos de um foco excessivo no eu e nas suas qualidades.

A História de Narciso

Existem muitas versões deste mito. Referiremos a que aparece na obra de Ovídeo, Metamorfoses :
 
Narciso era um jovem caçador da Beócia que tinha a particularidade de ser muito belo e, por essa razão, era amado por um grande número de ninfas. Mas ele encontrava-se demasiado concentrado nas suas qualidades pessoais para dar atenção a qualquer delas e desdenhava do seu interesse.
 
Echo era uma ninfa dos bosques que, por ter desagradado a uma deusa, foi privada por esta daquilo que ela  mais gostava de fazer: falar, exprimir os seus pensamentos através da voz;  os únicos sons que conseguia emitir eram a repetição das palavras que os outros acabavam de dizer.
 
Um dia Echo viu Narciso nos bosques e apaixonou-se por ele. Começou  a esperar por ele no bosque para o ver e seguia-o, na esperança de que ele reparasse nela. Um dia, ao sentir que era seguido, Narciso perguntou: «Quem está aí?» Echo repetiu a pergunta «Quem está aí?».
 
Curioso e algo irritado por ver as suas palavras repetidas, Narciso disse: «mostra-te». A ninfa, incapaz de falar, lançou-se nos seus braços para lhe mostrar o seu amor mas Narciso repeliu-a de imediato: «Tira as mãos de mim, afasta-te, nunca me terás;  deixa-me sozinho.»
Com o coração despedaçado, Echo retirou-se para as montanhas onde definhou com o desgosto, até que o seu corpo se tornou uno com a montanha e só ficou o som que replicava a voz dos outros quando estes falavam.
 
Nemesis deusa da vingança, teve conhecimento   do que tinha acontecido à ninfa Echo e, porque Narciso continuamente tratava com desprezo todas as ninfas que se apaixonavam por ele, resolveu castigá-lo, obrigando-o a apaixonar-se por algo que não era real e que nunca poderia retribuir o seu amor.
 
Atraiu-o para um lago de água onde Narciso, ao olhar para a superfície, viu a imagem do seu próprio rosto refletido  e pensou que  aquela era a imagem do espírito da Água. Reparando na sua imensa beleza, apaixonou-se perdidamente por ela. Inclinou-se para atrair  si o que pensou  ser alguém real e  pareceu-lhe que ela fazia o mesmo em relação a si; sorriu-lhe e a imagem devolveu-lhe o sorriso. Porém, ao colocar as mãos na água para abraçar o espírito, este desvaneceu-se subitamente. Perplexo e angustiado, Narciso recuou e, momentos depois, quando a água voltou a ficar quieta, o rosto pelo qual se tinha apaixonado voltou a aparecer. Narciso não foi capaz de se afastar daquela imagem . Mas, ao compreender que o seu amor nunca seria retribuído nem poderia obter o objeto do seu desejo, teve o mesmo destino de Echo: definhou  com o desgosto e morreu . No local onde tinha estado o seu corpo, imóvel perante a imagem que o seduzira, nasceu uma flor.
 

Pistas para a Interpretação do Mito de Narciso

O mito de Narciso está relacionado com a simbólica do signo de Leão: a descoberta da individualidade permite o surgimento da consciência do próprio valor, permite a expressão de uma criatividade e de uma vontade pessoal que faz as suas próprias regras e não tem que receber imposições nem regras de mais ninguém;  permite o pensamento inteligente e  personalizado de alguém que é autónomo e auto suficiente , pura liberdade de ser e de agir.
Mas esta liberdade encerra, na verdade, muitas armadilhas porque o «eu» precisa de continuar as suas experiências, depois de descobrir as suas potencialidades  e valor próprio; precisa de  descobrir os «outros», pois um eu fechado sobre si próprio e recusando abrir-se aos outros acaba por se tornar estéril.
 
O eu completa-se nos outros e com os outros e, sem eles, é apenas um fragmento parado num mundo de ilusão; o eu não é capaz de ser criativo nem verdadeiramente produtivo se ignorar uma das experiências mais importantes do ser humano: o amor que o leva a tecer laços afetivos com outrem. É o outro que espelha o que somos, que nos devolve uma imagem com a qual nos identificamos e podemos crescer.
 
No mito, Narciso recusou o amor de todos os seres que o amavam por não os achar dignos dele. O orgulho nas suas qualidades era tão elevado que ele pensou que não precisava de mais ninguém: a satisfação consigo próprio bastava-lhe. Mas essa recusa em dar-se e abrir-se aos outros condenou-o a não se conhecer a si próprio: viu a sua imagem refletida nas águas do lago mas não se reconheceu nela e por isso permaneceu obcecado pela sua ilusão definhando e acabando por morrer.
 
A lição de Narciso, tal como a do signo de Leão , é que a expressão e desenvolvimento das qualidades individuais são um momento fundamental no desenvolvimento humano, sem elas não pode haver consciência pessoal nem verdadeira aprendizagem; não pode haver vontade , inteligência  ou criatividade nem verdadeira autonomia e iniciativa que nos distinguem dos outros; porém, a individualidade não é um fim em si mesma, não é a «última etapa do desenvolvimento humano»- precisamos de permitir que essa individualidade se fortaleça e complete no encontro com o outro. O ser humano não é, por definição, um ser isolado, ele nasceu para ser «um ser com», completando o seu destino através da experiência do afeto como a única experiência que é capaz de nos ensinar a desenvolver uma consciência autêntica de quem somos. Sem essa experiência, somos seres estéreis perdidos nas teias das nossas ilusões que nunca serão reais.

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