Mitos da Cultura Ocidental, as Harpias, as Bruxas Gregas

 
Na mitologia grega existem algumas criaturas temíveis, que estiveram na origem das figuras das «bruxas»: eram as Harpias, também designadas por «os cães de caça de Zeus» e eram vistas como instrumentos de punição ou  de castigo.

O Mito  Grego das Harpias

Phineus era  rei da Trácia e tinha o dom da profecia. Mas era de tal modo bom no que fazia que Zeus ficou zangado com ele porque achou que ele revelava demasiado conhecimento para um mortal ;  via demasiado e usurpava assim um conhecimento que era dos deuses. Por isso, Zeus decidiu colocá-lo no seu lugar enviando as Harpias para o atormentar.  Cegou Phineus e colocou-o numa ilha e, sempre que lhe era servida comida, mal este lhe  pegava com as mãos, as Harpias arremetiam para baixo e roubavam-lhe a comida,  estragando todos os restos, de tal modo que ele ficava sempre com fome. Isto continuou até à chegada de Jasão e dos Argonautas, filhos do Vento Norte (Bóreas) e que também podiam voar. 
 
Os Argonautas perseguiram as Harpias mas não conseguiram matar nenhuma delas pois Iris, a deusa do Arco-Íris e mensageira/criada pessoal de Hera, parou-os e ordenou-lhes que deixassem as Harpias em paz.  Em troca prometeu que estas não voltariam a  atormentar  Phineus. Este, agradecido por se livrar daquele tormento, ajudou os Argonautas a  atravessar a passagem do Bósforo sem serem esmagados pelos rochedos basculantes que chocavam um com o outro, esmagando desse modo todos os que tentavam atravessar. Quanto às Harpias, regressaram à sua caverna, em Creta.
 
As Harpias eram inicialmente 2 e eram descritas como mulheres belas com asas, observando-se esta descrição em Hesíodo. Mais tarde passaram a ser vistas como tendo faces horrendas ( o modelo para todas as bruxas futuras!), e como tendo a parte inferior do corpo semelhante à de uma ave. Ésquilo, nas Euménidas, dá-nos uma imagem horrífica destas criatura, a quem chama «cadelas». Os romanos, posteriormente, e a Idade Média, conservaram esta imagem.
 
As Harpias eram espíritos do vento e este, pelos males que era capaz de fazer, quando irrompia súbito e violento, era visto como um instrumento da ira divina.  Os nomes das Harpias – Aello (Tempestade Súbita); Celaeno (Escuridão); Ocypete (Asa Veloz) revelam  esta ligação com as rajadas súbitas de vento forte que podem ser tão destrutivas.  Assim, estas criaturas eram consideradas instrumentos de castigo que raptavam e torturavam pessoas levando-as para o Tártaro após a morte para continuarem a ser castigadas  pelos pecados cometidos contra os deuses. Em si mesmas, as Harpias eram vistas como más, violentas, cruéis. Quando alguém desaparecia misteriosa e repentinamente, isso era atribuído às Harpias.. A relação destas com o castigo e com  a destruição ajudou a vê-las também como criaturas do «submundo», utilizadas para os castigos infernais após a morte.
 
 
Pistas para a  Interpretação do mito das Harpias
 
Como personificação das forças do vento e das suas características de violência e destruição, as Harpias são uma  tentativa  humana para compreender as forças da natureza, numa época em que   a visão religiosa e mítica do mundo fornecia a explicação mais plausível para todos os fenómenos e em que a «Natureza» era vista como um instrumento  divino que podia  beneficiar ou prejudicar a vida humana de forma imprevisível.
 
Como se explicava que, num evento repentino, uma tempestade ou um fenómeno associado ao vento destruísse  culturas, habitações e todo um modo de vida para o qual os seres humanos tinham trabalhado durante meses ou anos? A resposta , para quem  se habituou a pensar que «há uma razão para tudo acontecer como acontece», só podia ser, naquele contexto, a ira divina por algum «mau comportamento do homem perante os deuses». Antes da ciência, o mito tentou explicar, tentou dar a cada homem a  perceção  de que a sua vida não era fruto do acaso e que ele não estava sozinho no esquema universal; se certas coisas aconteciam – boas ou más-  era porque ele tinha agradado  ou desagradado aos deuses. E as forças da Natureza, como a força do vento, eram certamente das mais devastadoras para a vida humana.
 
Constatamos deste modo que os mitos surgiram como consequência da necessidade de o homem sentir que não estava só no mundo, da sua necessidade de pensar que, se agisse de acordo com certas regras, seria protegido , viveria na abundância e a sua vida na Terra seria facilitada; se, pelo contrário, transgredisse, o resultado seria o castigo, nesta vida e para além dela.
 
Deste modo, vemos que tanto o «Inferno» como as «Harpias»  e outros seres descrito de forma terrível para suscitar o medo que obriga a refrear os  comportamentos de transgressão, desempenham um papel importante na manutenção da ordem do mundo e asseguram a  necessidade humana de proteção e segurança.
 
Por esta razão também, os seres humanos , para evitar os males que os que já  partiram desta Terra possam  fazer aos vivos, reservam-lhes um dia para que possam voltar a habitar este mundo, atribuem-lhes  honras,  oferendas e lembram-nos  na esperança de que continuem em paz  e não atormentem os que  ainda vivem uma vida na Terra.

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