Reflexão de Fim de Semana- Mitos e Tradições de Natal


É oficial: o Natal está aí e, com ele, as tradições que seguimos com gosto, muitas vezes sem saber qual a sua origem: simplesmente sentimo-nos mais completos repetindo os rituais habituais todos os anos pela mesma altura.

Celebramos o Natal em 25  de Dezembro e esta data é um misto de tradição cristã, crenças pagãs, estratégia da Igreja contra os pagãos e muito marketing comercial. A verdade é que é pouco provável que Jesus tenha nascido em Dezembro. Segundo relatos da Bíblia, os pastores estavam nos campos com os animais, quando se deu o nascimento. Mas, em pleno coração do Inverno, o frio e a escassez de pastos para os animais tornavam muito pouco credível que andassem no campo. Depois, a Bíblia também refere que Jesus e Maria estavam a caminho para se recensearem mas o costume era que o recenseamento fosse feito logo após as colheitas e antes que o Inverno chegasse pois este tornava muito difíceis as viagens. Assim, provavelmente, segundo alguns, Jesus terá nascido em finais de Setembro. Outros relatos apontam para o mês de Fevereiro. O improvável  é que tenha sido em Dezembro. Mas, então, perguntamos: porque é que é celebrado neste mês?!

Bem, por um lado, parece que os contemporâneos de Jesus nunca deram grande importância ao dia do seu nascimento. Davam, isso sim, importância à Páscoa, pois o seu significado simbólico estava associado à ressurreição de Jesus e à promessa da vida eterna. Mas os povos pagãos desde tempos imemoriais que celebravam os solstícios, incluindo o de Dezembro. E estes rituais pagãos estavam de tal modo arraigados nos costumes que a igreja resolveu dar-lhes a volta, sobrepondo um acontecimento cristão importante à festa tradicional do solstício.  E, deste modo, a partir do sec. IV, o dia 25 de Dezembro foi instaurado como o dia oficial do nascimento de Jesus, tendo-se tornado um dia importante nas celebrações cristãs como forma de combater os rituais pagãos.


O início de Dezembro encontra-nos envolvidos na tarefa de decorar a árvore de Natal.  Mas, apesar de esta ser hoje uma tradição , não há nada de cristão na  «árvore de Natal» nem relacionado diretamente com os acontecimentos do nascimento de Jesus. Ela é fruto da aculturação, da mistura de histórias e de crenças e da partilha de tradições entre pessoas de diferentes origens: segundo parece, o costume de decorar uma árvore por esta altura é bastante recente, datando do sec. XVIII, quando imigrantes alemães trouxeram este costume para os Estados Unidos. A árvore é um importante símbolo religioso na tradição nórdica. Pelas raízes liga-se à Terra mas pela copa aproxima-se do céu ; é uma metáfora da  promessa de vida eterna , de união entre o mortal e o divino ,de abundância e de felicidade. No sec. XIX há relatos de alguns, incluindo o presidente T. Roosevelt, insurgindo-se contra este costume que se começou a implantar desde finais do sec. XIX .

Não há quem não goste de decorar uma árvore nesta altura, nos dia de hoje, embora a maioria , devido à consciência ambiental, se contente com decorar uma artificial. Os enfeites e as luzes iluminam-nos e é no conforto da árvore que os presentes tendem a acumular-se  até à véspera de Natal.

E, por falar em presentes, outra grande tradição de Natal  – o Pai Natal– é também fruto da aglutinação de várias figuras e tradições:

Comecemos com o bispo turco do sec. IV, S. Nicolau, que era uma alma caridosa: conta-se que ele gostava de dar dinheiro aos pobres. Mas fazia-o de uma forma especial- pela calada da noite, secretamente, deixava dinheiro nas meias e nos sapatos das pessoas. Este bispo morreu no dia 6 de Dezembro. Após a sua morte foi canonizado e  os pais davam instruções às crianças, na véspera do dia da morte do santo, para deixarem as meias e os sapatos para que S. Nicolau deixasse lá presentes- como fruta, nozes, doces, etc.( o marketing comercial ainda não tinha sido inventado).  Esta foi uma tradição seguida em vários países.

Mas, nos sécs XV e XVI,  começou a haver uma alteração da figura mítica de S. Nicolau: este começou a ser designado por «Pai Natal». Este era uma figura alegre, que não poupava nos festejos nem na bebida. Quando os holandeses imigraram ,levaram para os US as histórias e relatos sobre o seu S.  Nicolau , a quem chamavam Sinterklaas. A pouco e pouco es
te nome foi  americanizado para «Santa Claus» e, no sec XX, fez-se uma síntese de todas  estas figuras – a «Coca cola» deu uma ajuda com a sua campanha de marketing-  e o Pai Natal e S. Nicolausintetizaram-se na figura redonda, de alegre barba branca e olhar bondoso que traz prendas na véspera de Natal.  Apesar de em vários países esta síntese ter sido adotada, mantém-se, em alguns outros, a celebração de S. Nicolau no dia 6 de Dezembro.
Mas a figura que conhecemos do Pai Natal nem sempre foi como é hoje, foi sendo construída ao longo do sec. XIX. Por ex., em 1821 surgiu a imagem de Pai Natal a conduzir o seu trenó com renas. Em 1837 veio a ideia de que ele entra nas casas através da chaminé. A figura arredondada  e avantajada,  com ar feliz e sorridente , vestida de vermelho e reluzente na sua farta barba branca ,é de 1863.

Outra tradição de Natal- enviar um Postal de Boas Festas– data de meados do sec. XIX.  Hoje em dia, com as novas tecnologias da informação, reinventámos esta tradição mas o costume de desejar boas festas – e, logo a seguir , um Bom Ano- mantém-se forte embora muitos troquem o habitual postal por uma mensagem nas redes  sociais ou no telemóvel.

O comércio soube aproveitar como sempre, as tradições de  Natal, transformando os presentes simbólicos em grandes proveitos de vendas de todo o tipo de produtos. Mas, para os que se movem no sonho do que o Natal representa , esse é um preço menor que todos estamos dispostos a pagar.

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