mitos da Cultura Ocidental, Tradições do Natal #2

 
Muitos  dos costumes e rituais que praticamos têm a sua origem em tempos remotos, tendo passado por alterações resultantes do contacto com diferentes culturas. Continuamos hoje a  falar de algumas tradições do Natal e das suas origens por considerarmos importante a  compreensão dos comportamentos típicos da época natalícia, que seguimos muitas vezes sem saber realmente porquê, simplesmente porque é «tradição» ou «costume». Seguir a tradição é um fator importante da coesão social mas também importa perceber o significado das tradições que repetimos todos os anos.
A Origem de algumas Tradições do Natal na Cultura Ocidental
A Árvore de Natal-  Os povos do norte da Europa atribuíam significados simbólicos importantes a várias árvores, considerando-as sagradas. Era o caso do carvalho, entre as tribos germânicas. Antes dos festejos do solstício de Dezembro (cujo significado já explicámos) decoravam um carvalho. No século 8, diz-se que S. Bonifácio, na tentativa de converter estes povos ao cristianismo, cortou uma grande árvore de carvalho, que era um elemento essencial de adoração de uma das tribos referidas e, no seu lugar nasceu de imediato um abeto, que foi oferecido a essa tribo como símbolo cristão. Diz-se que as tribos passaram a decorar um abeto, a partir de então, por esta altura, após a conversão ao cristianismo. No século 19, quando a rainha Vitória de Inglaterra casou com o príncipe alemão Alberto este levou o costume de decorar uma árvore pelo Natal para Inglaterra. Por sua vez, a vaga de imigrantes alemães que chegaram à Pensilvânia, na América, também levou para lá este costume que, após alguma resistência inicial ,se vulgarizou e espalhou por todo o mundo ocidental, sendo comum em toda a parte nos dias atuais. Guardámos deste costume os aspetos decorativos, por esta altura, tendo esquecido por completo os significados simbólicos e religiosos da árvore «sempre verde» escolhida para decorar por esta época, numa expressão de vida que persiste e se renova, como uma  ligação entre a Terra e o Céu.
 
 
Visco- Este arbusto era considerado sagrado entre os druidas , que acreditavam que ele «caía do céu» e que, de imediato, crescia uma árvore na Terra a que ele se agarrava para se alimentar. Esta crença assenta no facto de este arbusto ser um «parasita aéreo», crescendo agarrado a outra planta através de raízes modificadas, a partir das quais se alimenta. Por causa desta característica, o visco, um arbusto sempre verde, com as suas folhas lustrosas e bagas vermelhas, é um símbolo da união entre o céu e a terra e da reconciliação entre o plano divino e o plano terrestre. A tradição de dar um beijo por baixo deste arbusto é uma expressão de reconciliação e harmonia entre as pessoas, unidas pelo perdão divino. Este hábito de beijar debaixo do arbusto teve origem  entre os druidas, para quem esta planta era sagrada e estava associada a muitas crenças, incluindo a de que ela curava várias doenças (crença comprovada nos dias de hoje pois a planta tem princípios ativos importantes usados em medicamentos). Na Europa, a espécie deste arbusto mais espalhada é o «Viscum Album» que parasita especialmente  as macieiras. A espécie mais vulgar na América e no Pacífico parasita principalmente coníferas.
 
 
Azevinho- Esta planta é muitas vezes confundida com a anterior, sendo também um arbusto sempre verde (qualidade simbólica essencial para os significados relacionados com o solstício, de renovação das forças do Sol e da vida pois uma planta «sempre verde» não enfraquece mesmo quando o Sol parece ter perdido as forças). As suas folhas, para além de serem lustrosas são também pontiagudas, com recortes característicos e não faltam nas decorações de Natal  num simbolismo que mistura muitos dos significados tradicionais relacionados com a ressurreição de Cristo e que fazem parte da tradição da Páscoa, aqui aglutinada com a celebração do nascimento de Cristo: as folhas pontiagudas deste arbusto natalício simbolizam a cruz de espinhos que Jesus carregou na sua paixão. As bagas vermelhas simbolizam o sangue derramado.  Indicam que o sofrimento de Jesus e a sua morte são aspetos que não ofuscam a realidade essencial de que ele voltou a viver e de que a sua vida é eterna. As decorações de Natal com o azevinho simbolizam esse processo eterno da associação entre a vida e a morte, o sofrimento tantas vezes associado à vida, mas para que, no final, esta triunfe sempre e não seja destruída.
 
O Tronco de Natal- Já aqui dissemos que a tradição de acender um enorme tronco nos dias que antecediam o solstício de Dezembro, é muito antiga, tendo sido muito forte no norte da Europa .  Entre muitos povos germânicos e anglo-saxões, festejava-se o «dia-criança», ou «Yule» dia, costume que, desde o século 13, era comum também em França e Itália, tendo depois sido vulgarizado em toda a Europa. Esta tradição consistia em cortar um grande tronco na véspera de Natal  e colocá-lo na lareira. O tronco era salpicado com sal, óleo e vinho quente e eram feitas orações para pedir que a casa fosse protegida dos demónios e dos relâmpagos. Em algumas regiões, as raparigas da família acendiam o tronco com lascas do tronco do ano anterior. Em outras regiões era a «mulher da casa» que era incumbida de acender o tronco.  Na revolução industrial, com os fogões de ferro que substituíram as lareiras, esta tradição foi modificada, passando a usar-se os troncos apenas como decoração, acompanhados de verdura e de velas. Os pasteleiros entretanto começaram também a criar «troncos» doces que acabaram por substituir os velhos troncos acesos nas lareiras.
 
Postais de Natal e de Boas Festas- O hábito de escrever a desejar «Boas Festas» surgiu no século 19, quando o Natal assumiu alguns dos significados mais fraternos e associados à paz, à relação com a família, com os amigos, etc., tal como vulgarizado pela mensagem do Conto de Natal de Dickens. As cartas eram demasiado longas e um simples cartão, já com os votos escritos, com decorações e imagens  e que era apenas necessário assinar, tornou-se rapidamente num sucesso. Como todas as tradições, adaptou-se às mudanças nas formas de comunicação, sendo hoje cada vez mais raro enviar um postal físico, pois a maioria é enviada através da Internet, competindo com as simples mensagens através do telemóvel e das redes sociais.
 
Muitas são as tradições , por vezes com origens inesperadas, dos nossos festejos de Natal mas o importante é que, ainda hoje, e com os significados que entretanto foram sendo aglutinados a outros anteriores, elas sirvam para fortalecer a união e a paz entre todos.  Feliz Natal.

 

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