Reflexão de Fim de Semana- Astrologia Versus Liberdade?


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Porque hoje comemoramos em Portugal o 25 de Abril, data que consideramos muito importante  histórica e simbolicamente, hoje rompemos a sequência  temática da «Reflexão de Fim de Semana» para podermos falar da Liberdade. E, porque o nosso é um blog de Astrologia, parece-nos relevante discutir a ligação entre a Astrologia e a Liberdade. Existe uma contradição entre ambas ou não?

Desde a nossa primeira juventude que a questão da Liberdade nos interessa. Filosoficamente e no sentido prático das «liberdades» do dia a dia. Temos liberdade para escolher o nosso destino ou ele está pré-traçado? Acreditar na Astrologia não é inviabilizar a nossa liberdade e poder de escolha no plano pessoal , profissional etc? Não é partirmos da mera crença e deixarmos de refletir por nós acerca do que queremos para a nossa vida?

Durante muitos anos, o estudo filosófico da questão entreteve-nos o pensar e ajudou-nos a balizar experiências e conceções: passámos pelos argumentos dos  deterministas que negam a liberdade e por aqueles que acreditam no seu poder criador como Kant e Sartre. E fomos contrapondo aos argumentos a nossa própria vida, para ver a conta corrente  de tudo o que nos acontecia comparado com aquilo que era produtos das nossas escolhas .

Fomos atraídos para a Astrologia pelo fascínio da mera possibilidade de podermos saber o que «nos iria acontecer». Seria isto possível?  E quais os fundamentos dessa possibilidade? A ideia de que é possível, usando uma linguagem simbólica como a da Astrologia, prever eventos futuros, pressupõe que a vida humana não é arbitrária; tem uma causalidade inerente, e um sentido por descobrir.  Mas, admitindo isto, donde vem esse sentido e essa causalidade?

Sempre gostámos de pensar que a vida humana se desenvolve a partir das escolhas individuais e não de um ser que nos ultrapassa e escolhe por nós, seja ele bom ou mau, uma entidade divina ou o mero acaso.  E, ao longo do tempo, compreendemos que a nossa vida é uma sequência de coisas que nos acontecem e que muitas vezes não podemos evitar, e de coisas que escolhemos e que surgem na nossa vida porque somos livres de as escolher.

Assim, a primeira conclusão que podemos tirar é que existe liberdade, mas ela não é um poder absoluto, como de resto nada é absoluto na vida humana: cada escolha que fazemos impede que outras escolhas sejam possíveis ao mesmo tempo. A Liberdade é a afirmação de uma possibilidade que, ao tornar-se real, torna inviáveis todas as outras porque só podemos viver uma vida de cada vez. Não podemos casar e não casar, ter filhos e não ter, etc. A liberdade é por si mesma um sistema de escolha de umas possibilidades à custa da eliminação de outras.

Mas nem tudo o que se passa na nossa vida é escolhido por nós, como bem sabemos. E é aqui que surge o espaço em que a Astrologia nos ajuda a compreender como é que a matriz  inicial da nossa vida, expressa na identidade de uma carta astrológica de nascimento, vai determinar o nosso futuro. Essa determinação não é absoluta, mas digamos que tem 75% de possibilidades de se vir a manifestar porque a vida humana é condicionada, e o destino humano , salvo muito raras exceções, não consegue ultrapassar, pelo menos totalmente, as condições que formam o plano causal inicial a partir do qual podemos fazer escolhas.  Porque quando escolhemos isto ou aquilo  para a nossa vida, não podemos escolher tudo. Não partimos do nada. Como bem referiu o filósofo Sartre, estamos sempre num determinado contexto, que começa por ser a sociedade a cultura  onde nascemos e o momento em     que nascemos. Depois, a família,  o grupo social, etc. Poderíamos continuar lembrando as nossas características pessoais, como o género, as nossas capacidades e competências, as características psicológicas a que associamos  o nosso nível de ambição, etc. etc.. Tudo isso nos condiciona à partida. Mas, para além disto, a Astrologia Jyotish, assente na sabedoria milenar da Filosofia Védica, afirma ainda que a nossa vida presente é também condicionada pelo «Karma», ou seja, pela cadeia causal que cada um de nós construiu ao longo de diversas vidas e que é essa cadeia causal que explica porque é que nascemos com uma matriz  de condicionantes e não outra; porque é que à partida, temos uma carta astrológica que mostra um futuro cheio de possíveis eventos desafiadores ou, pelo contrário,  nascemos com uma matriz cujas condicionantes são leves e determinam um futuro cujos eventos oferecem a possibilidade de experiências aparentemente fáceis e bem sucedidas.

Há muito que compreendemos que o acaso, em sentido absoluto, não existe. Acreditamos que o novo, o imprevisível, acontece a cada instante porque acreditamos na Liberdade e na possibilidade de cada ser humano poder mudar os eventos futuros prometidos na sua carta de nascimento através das escolhas que fizer e do estilo de vida que decidir viver, e isto para o bem e para o mal.  O tempo, tanto no plano cósmico como no plano pessoal da vida de cada um, não é algo estático, muda a cada instante: uma escolha que faço agora acaba por inviabilizar uma possibilidade  futura que eu tinha há uns instantes atrás. Mas, entre o que podemos e não podemos mudar, está uma alquimia muito complexa de fatores que, por mais que  os tentemos racionalizar completamente a cada instante, nos fogem sempre também de algum modo, mantendo o mistério.

A Astrologia ajuda-nos a compreender melhor as nossas possibilidades de  vida e a tirar partido  dos nossos pontos fortes ou fracos, mas não abre completamente as portas do mistério do destino pessoal   pois, em muitos aspetos, não sabemos explicar porque é que temos este destino em vez de outro. Tudo o que podemos fazer é tirar o máximo partido daquilo que sabemos e apostar na nossa capacidade de acreditar que podemos  ser melhores. E, a este respeito, ser melhor é sem dúvida sermos  mais livres, sobretudo no plano prático em que temos que fazer aquelas escolhas que decidem a nossa vida e mudam o nosso futuro.

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