Reflexão de Fim de Semana- Segredos da Espiritualidade, O Homem Mental e Espiritual

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Ao longo de séculos, místicos e filósofos têm descrito a realidade humana como algo bem mais complexo do que a maravilhosa máquina que é o  corpo físico de que todos somos dotados. Na Renascença, ficaram célebres as  referências como a de Pico della Mirandola à extraordinária natureza humana que , no seu entender, é superior à dos anjos que invejam a sorte do homem porque  ao contrário deste, «não podem mudar a sua natureza»; o homem, pelo contrário, é capaz de escolher e de criar a sua própria natureza porque está na confluência entre dois mundos: o da animalidade e da sensualidade e o da espiritualidade e da divindade; o homem pode tornar-se divino, se essa for a sua escolha, ou pelo contrário negar a sua divindade e viver simplesmente como animal no reino natural.

Estas ideias muito antigas deram  fundamento a muitos princípios éticos e fundaram a moralidade como sistema norteador da ação humana. Foram defendidas por muitos filósofos orientais e ocidentais, incluindo o máximo expoente do  Iluminismo racionalista, Immanuel Kant, no sec. XVIII, quando este defendeu que  o homem pode ou não atingir  a  sua verdadeira natureza potencial , pois esta depende de uma  escolha inaugural  que serve de princípio para a sua existência moral : o homem pode escolher a sua natureza inferior, tornando-se mais um entre os seres animais; ou escolher elevar-se acima da condição humana mortal, escolhendo-se como ser livre  , uno com qualquer  outro ser racional universal…

Não andam muito longe destas ideias filosóficas os princípios místicos que, desde a mais remota antiguidade, atravessaram o  Hinduísmo e, mais recentemente, a Teosofia e que  defendem  que a natureza humana é setenária : Falámos anteriormente do «quaternário inferior», que nos torna seres do mundo natural. Falaremos hoje do «ternário superior» constituído por Atma, Buddhi e Manas. E compreenderemos como todas as teorias místicas tradicionais  e filosóficas acabam por confluir e concordar nos aspetos mais essenciais, acerca da  natureza e do destino do homem.

A Tríade Mental e Espiritual no Ser Humano: Atma, Buddhi e Manas

Comecemos por fazer referência  a Atma, o princípio mais elevado presente na essência do homem  e que corresponde à centelha divina presente em todos os seres e que corresponde  à dimensão do divino na essência de toda a vida universal. Como tal, a tradição considera que se trata do Uno que corresponde ao Ser Universal manifestado, uno com Brahman, segundo a nomenclatura Hinduísta. É fácil depreender que não se trata de um princípio individual, ninguém pode dizer que esta essência divina universal é apenas sua, pois corresponde ao Ser Eterno que, na verdade, é tudo o que existe no mundo manifestado (do nada nada se cria, como bem mostraram os místicos). Não está «dentro» de nós porque não pode ser contido nem limitado pela nossa individualidade mas está ligado a nós, como a nossa essência absoluta e imortal.  Enquanto tal, este princípio não está sujeito ao karma nem se pode dizer que encarne ou reincarne é, simplesmente, uma presença que nos une ao todo dos seres e do universo.

Buddhi corresponde ao 6ª princípio do  ser  e tem sido mal interpretado pois ,habitualmente, é confundido com a faculdade da intuição. No entanto, Buddhi é apenas o «veículo» que permite a conexão do divino Atma com o plano manifestado da vida. Atma é puro espírito e, por si só, é incapaz de se manifestar de forma direta no mundo material. Por isso precisa de um «veículo» ou mediação e este é Buddhi, também designado por «alma espiritual». Não se trata, mais uma vez, de um princípio exclusivo  de um indivíduo-  tal como Atma, Buddhi tem caráter impessoal e universal, embora tenha um papel muito importante no desenvolvimento da espiritualidade humana, como referirei a seguir. Para já, compreendamos que estes dois princípios, Atma e Buddhi formam, em conjunto, aquilo a que os místicos têm chamado de «mónada universal» ou «alma universal». É através de Buddhi que Atma pode irradiar a sua luz para a alma individual.

Se Atma é a expressão  divina no ser humano e Buddhi é a expressão da alma no homem, Manas, o 5º princípio, é a dimensão mental do homem e esta é individualizada e pessoal.  Representa o «ego» ou eu presente no nosso ser  e é ele que, pela ação, pela palavra e pelo pensamento, gera karma e experiencia a cadeia causal por ele produzida na existência individual. A natureza de Manas é dual, trata-se de um princípio que coloca o homem, como bem viram os filósofos e místicos do passado, «no meio» entre dois mundos: o mundo inferior da sensualidade e da animalidade e o mundo superior da espiritualidade  e da divindade. Quando o homem se compromete com os aspetos espirituais da vida , quando escolhe viver a sua vida de acordo com os princípios morais superiores, quando se identifica com os valores morais mais elevados que a humanidade desenvolveu, eleva a alma humana e o seu ego pessoal até que este se torna uno com Buddhi, recebendo então a luz da alma universal e acedendo, dessa forma à luz irradiada pela centelha divina universal. Mas, quando o homem escolhe ligar a sua mente, através do pensamento e da ação à sua natureza sensual, aos desejos egoístas  e à procura dominante dos prazeres sensuais, a sua mente agarra-se ao veículo «kama rupa» de que já falámos, ligando-se dessa forma ao «quaternário« inferior da  natureza humana e afastando-se, dessa forma, da sua dimensão mais elevada. Tal como o filósofo Kant brilhantemente mostrou, o destino de cada ser humano decide-se numa  batalha inaugural em que cada um escolhe como quer viver. E, uma vez Manas agarrado  ou ao princípio inferior, Kama rupa (corpo de desejo) ou a Buddhi,  o caminho do homem assume contornos definidos para  ele se tornar , ou naquilo que, segundo Pico della Mirandola o homem está destinado a ser- divino- ou, no caso da escolha ser em direção ao plano inferior da nossa natureza, no prisioneiro  que busca satisfazer  desejos egoístas e insaciáveis, procurando uma felicidade que nunca está totalmente presente  porque a escolha pela «animalidade» do homem é contrária ao princípio evolutivo da vida, que é «realizar o melhor daquilo que cada um pode ser.» Assim, o  homem escolhe verdadeiramente   qual a natureza de que quer partilhar e, neste propósito, Manas, o ego pessoal mental, tem um importante papel a desempenhar: a consciência permite acordar o homem, fazendo surgir os valores e  a capacidade de crítica que , mais tarde ou mais cedo, há-de abrir a porta para uma existência superior. Mas, quando a escolha da sensualidade é repetida uma e outra vez, esse destino final pode tardar por muitas vidas e  exigir  a aprendizagem de muitas lições .Porém, segundo o Hinduísmo,  não há excluídos do caminho de salvação. Há apenas alguns que aprendem as suas lições mais cedo ou mais tarde do que os outros.

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