Reflexão de Fim de Semana- Segredos da Espiritualidade, o que é a Alma?

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Ao longo dos milhares de anos  de duração  da história registada da Humanidade, encontramos a discussão acerca da Alma e da sua natureza.  A complexidade deste tema, bem como a aura de mistério que o envolve, explicam as muitas abordagens diferentes, ao ponto de encontrarmos  alguns registos que, além de  aceitarem a  sua existência , também descrevem as «instâncias da alma», enquanto outros negam linearmente a sua existência. A alma não é percetível da mesma forma que o corpo físico e, por isso, a sua aceitação depende da conceção que o homem tem da realidade  e  das suas crenças. Os que tendem a acreditar apenas numa «realidade» material, tendem a rejeitar a existência  alma,  por não conseguirem ter uma evidência imediata desta, da mesma forma que têm em relação ao corpo e afirmam  que ela é uma mera crença ou objeto de superstição ou de crença associada à religião; aqueles que têm uma visão mais espiritual da   realidade, e que têm uma perceção mais interiorizada e consciente em relação às suas experiências, afirmam que  a alma é percetível para todos os que têm a mente desperta e são capazes de sintonizar com os aspetos mais subtis da realidade, tanto exterior como interior .

Apesar da controvérsia, este é, no entanto, um tema que não deixa ninguém indiferente pois trata-se de algo que mexe com a necessidade que os seres humanos têm de conhecer o seu destino e de responder à questão «porque temos que morrer?»  «Qual é o sentido de uma vida que se constrói  lentamente como algo complexo e tão rico  se, subitamente, tudo se perde no processo da morte?» etc.

 Temos ou não temos uma «alma»? E, se a resposta é afirmativa, qual é a sua natureza? É a alma imortal ou , pelo contrário, é perecível, morrendo com o corpo físico?

Será que, ao acreditarmos na imortalidade da nossa alma estamos apenas a exprimir o desejo de que a nossa vida tenha mais sentido do que a morte inevitável que nos espera a todos ou há efetivamente algo na nossa essência que continua a existir para além da morte?

Vamos aqui percorrer algumas conceções acerca da alma, sem entrar em território religioso mas mantendo-nos no plano filosófico  e experiencial. E escolhemos, para iniciar esta discussão, a que é expressa pela conceção da cultura Hindu e acerca da qual já falámos implicitamente no último artigo da reflexão de fim de semana.

Para muitos sistemas filosóficos e religiosos, a alma  tem sido entendida como o princípio divino que dá a vida, como o «sopro» ou respiração vital  que anima ou move os seres, tornando-os seres vivos.  E, para muitas conceções, a alma distingue-se do espírito, pois alguns veem-na como ligada ao corpo físico enquanto o sopro de vida que o anima. Mas, no Hinduísmo, não são apenas os seres vivos que têm alma, também o reino mineral é visto como tendo alma, fazendo-se, no entanto, uma distinção importante relativamente ao modo como se «exprime» essa alma.

A conceção da alma na tradição popular do  Hinduísmo identifica-se com Atman , o princípio que é a presença divina imortal tornado manifestado na criação. Ele está em tudo o que existe pois o que existe teve que ser criado a partir de algo que era pré-existente. «Do nada não  se pode criar nada», este era um princípio aceite pelos antigos para quem não fazia sentido afirmar que a divindade tinha «criado» o mundo a partir do nada. Porém, se Atman está presente em tudo o que existe, não significa que esteja presente de forma ativa em todos os seres pois ele só poderá ser ativo naqueles seres que estão preparados para  se tornarem conscientes. E, por isso, é só no homem que  Atman pode «acordar»: através da consciência humana, da sua atividade de pensamento e de reflexão, da sua consciência moral e da capacidade  que o homem tem de fazer escolhas tendo em conta o conceito , apontado pela mente interna, de «bem» e de «mal».

Atman é, no homem, o self interior, profundamente «enterrado» na essência humana, e  não está desperto enquanto cada homem não «nascer» para a vida espiritual. Segundo o Rigveda, Atman é a parte não nascida do homem, eterna, divina e imutável, e que nunca se confunde com qualquer parte da mente individual. Não é o «ego» pois este é pessoal;   não é a psique, pois esta corresponde ao desenvolvimento de um «eu» capaz de experienciar o mundo interior e exterior através da interação entre a mente e os sentidos e da expressão das emoções; é o divino no homem, com o qual é possível sintonizar sem nos identificarmos de forma pessoal  com ele, através de uma vida pura , espiritual e moral. A prática da meditação e  yoga, as boas ações e a disciplina de uma vida que segue os princípios espirituais sem ceder aos desejos egoístas ou demasiado sensuais, são  caminhos que permitem a experiência momentânea da ligação com essa «alma universal».

Para o Hinduísmo, a criação tem um objetivo universal que é o de permitir o desenvolvimento da consciência  desta «alma universal» que está adormecida no conjunto da criação e que pode despertar através do desenvolvimento da mente como atividade de reflexão e de escolha intelectual e  moral . É por esta razão que muitos místicos, de todas as áreas culturais,  têm colocado o homem «no meio» da criação entre a matéria e o espírito afirmando que é através do homem que os seres do mundo material podem «regressar a Deus» ou ter a esperança de não perecer como meros seres materiais. No homem, o desenvolvimento desta consciência permite ao homem reconhecer a sua verdadeira natureza que é a de ser divino em essência.

Esta conceção da alma afirma ainda que o completo desenvolvimento do  homem, até que este seja uno com o princípio divino que está no seu âmago, exige muitas vidas e contínuas experiências  em que a alma universal  Atman e o seu veículo de expressão, o corpo búdico ou «causal», reincarnam sucessivamente de acordo com o karma  ou princípio causal das ações humanas – cada ser humano é atraído para o tipo de  corpo e de existência relacionados com o seu karma específico num ciclo que só terá fim quando a alma pessoal esgotar todo o desejo e todo o karma formado pelas suas ações.

Quando Atman entra num corpo físico, forma, em conjunto com os vários princípios humanos de que já falámos* , uma identidade provisória, uma personalidade que permite a cada indivíduo ter um sentido individual das suas experiências. Porém, o objetivo da existência humana, segundo o Hinduísmo, é que cada indivíduo supere essa consciência de ser um «eu separado» , reconhecendo a sua união com tudo o que existe na criação pois tudo é penetrado pela mesma essência de Atman. Nessa altura, o homem compreende que a sua verdadeira natureza é divina e que o corpo é um veículo de experiências no mundo físico e deve ser tratado com respeito e ser mantido com boa saúde, pois é o «templo da alma». Porém, o corpo físico não deve ser confundido com a total identidade do ser humano.

O ciclo de reincarnações continua até que a alma pessoal se torna una com a alma universal, no final de um longo percurso de existências  em que se torna plenamente consciente da sua verdadeira natureza. Então, cessa o ciclo de reincarnações, a menos que, por alguma razão compassiva, a alma deseje regressar  ao mundo terreno para ajudar o processo evolutivo deste. É isso que têm feito os chamados «Mestres» ou Avatares que se libertaram desta cadeia do karma.

* Por favor, veja os nossos últimos artigos da Reflexão de Fim de Semana:

O Homem Mental e Espiritual

O Homem, Prana e o Corpo de Desejo

O homem e o  Corpo Astral

O homem e o  corpo Vital 

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