Animais como Nós, O Pardal, Uma Ave Muito Urbana

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O Pardal é a ave canora mais comum em todo o mundo. E, apesar de não ser uma ave que sobressaia pela plumagem ou até mesmo pelo canto, habituámo-nos a vê-la partilhar o ambiente à nossa volta ou até a atrever-se a vir para junto de nós a pedir comida  e sentimo-nos encantados com ela.

 Há muitas espécies de pardais, embora todas com características físicas algo semelhantes, pois as cores não variam muito, indo  do castanho  escuro  a tons mais claros e ao acinzentado passando pelo branco e pelo preto. Apesar disso, há umas espécies maiores do que outras e, devido à extraordinária disseminação desta ave pelo mundo inteiro – só não existem na Antártida as várias espécies desenvolveram características ambientais de adaptação aos diversos climas dos habitats onde vivem.

 O pardal não é uma ave migratória. Assim sendo, como se explica que exista em todo o mundo?

 A explicação é simples – esta ave foi levada sistematicamente para várias regiões do mundo pelo próprio homem. Calcula-se que o pardal tenha evoluído na região do mediterrâneo há muitos séculos atrás. E, à medida que as populações humanas se foram espalhando pela Europa, as aves acompanharam as suas migrações. O pardal raramente se afasta muito dos habitats humanos, preferindo as zonas da cidade pois  há muito que se habituou a tirar partido dos recursos  humanos para  seu proveito.

 Os pardais atuais são todos descendentes destes pardais europeus.  A razão pela qual chegaram à Índia , à  América Central e do Norte, Brasil, Havai, México, Bahamas,  teve origem no século XIX quando vários grupos destas aves foram largadas: primeiro em Brooklyn, Nova Iorque, no Outono de 1851 e na Primavera de 1852; depois mais aves  foram libertadas nas décadas seguintes: no Havai em 1871 , no Brasil em 1872, etc.

 Ora, o que levou a esta sistemática libertação  de pardais para fora do seu habitat de origem? A razão é simples –  na altura pensou-se que era uma excelente estratégia para diminuir os insetos nas colheitas: libertaram-se  pardais para este comerem os insetos que ameaçavam as culturas. As a estratégia foi baseada na ignorância dos hábitos alimentares desta ave, que  só se alimenta de insetos na estação reprodutiva, para alimentar os juvenis e, no resto do ano, come sementes e grãos: ou seja, procura alimento nas próprias culturas que era suposto proteger.

 Este é um caso flagrante de como a ação impensada do homem, baseada em suposições não fundamentadas, pode alterar gravemente os ecossistemas: ao tentar resolver um problema ,criou outro, pois as capacidades adaptativas desta ave fizeram com que a população crescesse estrondosamente, tendo levado, ainda no século XIX, a uma operação desenfreada de caça desumana às aves para controlar a sua disseminação.  Os animais acabaram por pagar pelo erro dos homens.

  A  partir da história evolutiva  considera-se  que todas as espécies de pardais pertencem a duas grandes famílias, designadas por «Pardais do Velho Mundo» e «Pardais do Novo Mundo». Os «Pardais do Velho Mundo espalharam-se pela Europa, Ásia e África. Um dos mais comuns, o «pardal doméstico», é de tal forma adaptável que , em muitas regiões, é considerado uma espécie invasiva.  Os «Pardais  do Novo Mundo» são comuns na América do Norte e do Sul e mostram muitas diferenças morfológicas e comportamentais devido à adaptação a habitats muito diversificados. O pardal  europeu conta com 11 subespécies com variações nos tamanho e diversas adaptações ao clima.

 Apesar destas diferenças, a plumagem tem cores semelhantes em todas, o que torna muito difícil distinguir as diversas espécies.

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 Os pardais são espécies solitárias, encontrando-se aos pares ou em grupos familiares; mas, no Outono e no Inverno formam bandos mistos com várias espécies de pardais e incluindo várias grandes famílias.

 A alimentação dos pardais baseia-se essencialmente  em sementes e grãos – no sec. XIX  os pardais aproveitavam o facto de os grãos das colheitas serem transportados por cavalos, entornando-se quase sempre uma parte que caía dos sacos, para se alimentarem oportunisticamente.

 Na Primavera e no Verão, quando estão na estação reprodutiva, também ingerem uma quantidade   considerável de insetos pois as proteínas são  fundamentais para alimentar os juvenis.  Quando visitam os quintais à procura de comida não são esquisitos e comem de tudo: sementes de girassol, milho partido e milho painço, alpista, pão aos pedaços, etc. Quando  estão no habitat natural procuram  comida no chão  ou nas partes baixas das árvores ou arbustos , bicando com os seus bicos cónicos fortes para abrir as cabeças das flores para retirar sementes ,  abrindo as bagas, etc. São muito agressivos para com outras aves que se alimentem perto e o seu comportamento pode muitas vezes ameaçar as aves nativas.

 Como não fogem ao contacto com os seres humanos, os pardais aprenderam a encontrar fontes  praticamente inesgotáveis de alimento: procuram comida nas quintas  e nas  hortas e até já foram vistos a bicar as  grelhas dos automóveis para extraírem os  insetos, não sendo raro encontrá-los junto a varandas e janelas, paragens de transportes (sempre à espera de um pedacinho de pão ou de bolo); e se você é daqueles que colocam comida para os pássaros no seu quintal, fique sabendo que os pardais fielmente regressam diariamente à procura da sua  refeição grátis. (Mas, se também tem um gato em casa, vigie-o quando as aves se alimentam, pois tentará caçá-las).

 Os pardais são monógamos e constroem os ninhos em diversos locais – fendas ou reentrâncias nos telhados, cavidades naturais das árvores, ninhos do ano anterior deixados pelas aves que entretanto migraram: como os pardais  não migram, começam a estação reprodutiva mais cedo do que as outras aves e apropriam-se dos melhores locais de nidificação, o que em parte explica o seu enorme sucesso como espécie . Por vezes expulsam outras aves dos ninhos para se apropriarem deles.  Se houver falta de comida no seu habitat, no entanto, podem tornar-se nómadas à procura de comida.

 O Pardal  faz 2 a 3, por vezes 4 criações por ano, bastante mais do que a média de outras aves.  A fêmea põe de 4 a 6 ovos que são incubados por 14 a 18 dias e depois ambos os progenitores alimentam as crias por mais duas semanas ou um pouco mais até estas deixarem o ninho. Dada a grande fertilidade desta ave e a sua grande capacidade de adaptação, a população destas aves cresce bastante.av2

 Os pardais têm poucos predadores se bem que, atualmente , os gatos domésticos sejam um predador de respeito para todos os que visitam os quintais e as varandas das habitações. Os pesticidas usados na agricultura também são  uma ameaça pois matam os insetos de que a ave necessita na época reprodutiva.

 Apesar disto, existem centenas de milhões desta ave no mundo, partilhando os espaços urbanos  onde permanecem como a ave mais familiar que se cruza connosco todos os dias: apesar do «temperamento»  agressivo para com as outras aves, o pardal  interesseiramente «domesticou» o ser humano, que não resiste a dar-lhe umas migalhas do que quer  que seja que esteja a comer. Afinal crescemos a ver estas aves junto de nós, quotidianamente,  e gostamos da sua falta de timidez em procurar-nos. Esta é mais uma espécie, como o gato ou o cão, que cresceu connosco evolutivamente, por isso custa-nos imaginar um mundo sem pardais. E, pelo volume da sua população, eles hão-de resistir enquanto houver humanos pois acompanham o nosso destino e aproveitam-se dos nossos hábitos alimentares e de cultivo.

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