As Experiências de Quase Morte

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Terminamos o nosso ciclo de reflexão sobre a constituição espiritual do ser humano com este artigo sobre uma das mais intrigantes experiências, aquela que é designada entre os especialistas como de «quase morte». Este é um tipo de experiência bem documentada e estudada pelo menos desde os anos 70 do século XX, altura em que o público mundial despertou para este assunto mercê do sucesso de alguns livros como «Vida Após a Vida» de Raymond Moody.

Estas experiências, narradas por um grande número de indivíduos de todas as culturas , referem-se a  fenómenos produzidos normalmente em ambiente hospitalar e  provocados por situações de paragem cardíaca, enfarte do  miocárdio,  coma devido a lesões cerebrais, etc.

Não são experiências reportadas por religiões mas são antes objeto de estudo científico em várias áreas, que vão desde a Psicologia e a Psiquiatria à Medicina Hospitalar  e atravessam outras ciências menos convencionais como a Parapsicologia.

Embora em muitas revistas e jornais médicos as experiências de «quase morte» sejam descritas como «alucinações», há um grande número de cientistas que recusa  que elas sejam produto da imaginação ou que sejam uma espécie de produto da memória, considerando que a sua origem é fisiológica, embora as perceções em causa aconteçam fora do contexto sensorial uma vez que, na altura em que acontecem, a pessoa está clinicamente morta.

Desde os anos 70 que estas experiências têm sido alvo de interesse, narrativa e objeto de muitos livros  e é conhecida por todos  a descrição de experiências de bem estar, paz , de entrada num túnel de luz,  etc, mas os cientistas descobriram que há dois tipos opostos de «experiências de quase morte»: as que descrevem  ambientes de luz , de paz ou de amor  e outras que, pelo contrário, revelam sentimentos aterrorizantes ,  angústia e  ambientes infernais.

À partida não é possível encontrar  uma explicação que indique claramente porque é que algumas pessoas passam pela experiência de bem estar enquanto outras passam pela experiência negativa . Sabe-se apenas que as experiências negativas de quase morte abrangem um número bem menor de pessoas- entre 1 e 20 % – de todas as experiências de quase morte  embora alguns especulem que algumas pessoas não se sentem à vontade para descrever as experiências extremamente desagradáveis.

De todas as narrativas conhecidas das pessoas que passaram por experiências positivas de  «quase morte», destacam-se os seguintes elementos comuns nas fases destas experiências. Nem todas as pessoas passaram por todas estas fases- cerca de 60% experienciaram as primeiras  fases mas apenas 10% chegaram à última fase (Keneth Ring, 1980):

  • A sensação inicial de um ruído desagradável;
  • A consciência de estar morto;
  • Sentimentos de paz e de ausência de dor acompanhado de emoções positivas e de abandono do mundo material;
  • Sensação de estar fora do corpo e distanciado dele, percepcionando muitas vezes os médicos e enfermeiros a tentarem ressuscitá-lo;
  • A experiência do túnel, ou de um movimento para cima, ou através de uma passagem  ou  uma escadaria;
  • Um movimento rápido que leva a pessoa para a luz acompanhado da comunicação com essa luz e de um sentimento de paz e  de amor ;
  • Encontro com seres luminosos, seres vestidos de branco, encontro com entes queridos falecidos, etc;
  • Obtenção de conhecimento em relação à sua vida e ao  propósito da vida universal. Revisão da sua própria vida e aproximação de um ponto em que o próprio indivíduo ou outros decidem que  ele deve  voltar para o corpo físico ( sentimento de relutância em regressar).

As experiências negativas de quase morte incluem fases semelhantes às que acabámos de descrever mas são vividas com sentimentos muito negativos:

Têm início com sentimentos de medo extremo e de pânico, experiências fora do corpo, sensação de uma força maligna, entrada num ambiente inóspito e hostil, estéril, escuro, descrito muitas vezes como triste e cheio de desespero, ou muito frio ou muito quente, um sentimento de profunda solidão , espaço habitado por criaturas malignas que troçam e insultam o sujeito aumentando a sua sensação de pânico de e de  desespero.

Alguns referem a experiência de um imenso abismo  ou vazio com diferentes níveis, habitado por seres malévolos ou sem esperança. Descrevem ainda um sentimento de anulação absoluta, uma profunda sensação de vazio em que a total ausência de sentido é a sensação predominante  acompanhada do sentimento de que a sua vida terrena foi uma cruel e inútil ilusão.

Muitos descrevem ainda cenas semelhantes às do Inferno de Dante, com seres em expiação , sofrendo penas infligidas por si próprios  devido aos remorsos, etc.  Em todas estas experiências a pessoa sente-se armadilhada , presa e completamente fora de controle.

Agora, o que explica que as pessoas que passaram por estas experiências enquanto estiveram clinicamente mortas por algum tempo tenham  o tipo de experiência «celestial» enquanto outras tenham a experiência «infernal»?  em primeiro lugar, estudos como o de Greyson, em 2006, consideram que a religiosidade ou a situação – por ex., a tentativa de suicídio- que levou à experiência de quase morte não é  relevante para isso.

Por outro lado sabe-se que algumas das experiências são diferentes de acordo com a cultura em que as pessoas viveram- por ex. um cristão pode ver,  «no  outro lado da luz» um santo do panteão cristão enquanto um índio  vê uma entidade que é venerada pela sua cultura mas, basicamente, as experiências têm a mesma configuração geral e a cultura não explica «porque é que uma pessoa  tem um ou o outro tipo de  experiência.

Mas muitos escritores têm alertado para o fator moral  que foi tantas vezes descrito nas narrativas dos místicos no passado – esse estado de consciência que a pessoa vive na experiência de quase morte é profundamente subjetivo e controlado pelas emoções do indivíduo:

e no momento em que este sente que a sua vida é revista, num ápice, se tiver má consciência em relação a muitas das ações que realizou na experiência terrena, passa pela «experiência infernal» produzida pelos sentimentos de culpa, de vergonha e de remorso, numa expiação que apenas termina quando o indivíduo está pronto para se perdoar a si próprio  ou, como dizia o filósofo Platão, ao falar das «almas presas no rio infernal do Tártaro quando aqueles que foram alvo das suas más ações lhe perdoarem».

Uma coisa é certa: estas experiências são em elevado número em todo o mundo pois o desenvolvimento de técnicas de ressuscitação da medicina atual permite que muitas das pessoas que «viram a morte» durante alguns minutos, possam «regressar» à sua vida no plano terreno.

Mas nunca voltam ao mesmo estado anterior de consciência nem à mesma atitude que tinham anteriormente: regressam modificadas, muitas delas tornam-se fervorosamente religiosas quando foram não crentes a vida toda e  todas  elas se tornam muito mais conscientes acerca dos aspetos  éticos e espirituais das suas ações. Isso basta para provar que «a vida após a morte» é um facto? O (A) leitor (a) decida por si. Nós achamos que sim.

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