O Lal Kitab, o Livro de Remédios da Jyotish

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Astrologia Védica/Jyotish  tem na obra Brihat HoraShastra atribuída ao sábio Parashara o seu conjunto fundamental de princípios e métodos que  são  seguidos pela maioria dos astrólogos da Jyotish. Esta obra é muito antiga, datando de muitos séculos antes do surgimento do cristianismo. 

Mas, ao longo do tempo, várias trocas culturais trouxeram novos contributos para a Astrologia Védica/Jyotish. É o caso do «livro vermelho»  ou Lal Kitab também chamado de «o livro maravilha da Astrologia». Este livro surgiu no sec. XIX em língua Urdu e é  atribuído  a origem persa. A versão  que chegou até hoje  dos 5 livros que formam o conjunto do Lal Kitab foi escrita entre 1939 e 1952.

Lal Kitab   baseia-se nos princípios da Jyotish  desenvolvidos por Parashara para levantar o horóscopo mas não tem em conta os signos , apenas as posições dos planetas nas casas e a relação entre eles. Nesta abordagem, estabelece princípios específicos de interpretação que fazem deste método um método autónomo e um sistema próprio de previsão. Outro aspecto que o torna único é o facto de estabelecer um paralelo entre a Astrologia e a Quiromancia, considerando os defensores deste sistema que é possível levantar o horóscopo, mesmo sem saber a hora de nascimento, pela leitura das linhas da mão. Afirmam que o Destino da pessoa está expresso nas linhas da mão , as posições dos planetas no horóscopo são refletidas na palma da mão.

Mas o Lal Kitab não é um mero livro teórico. Muitos afirmam que a sua popularidade está em que ele permitiu pela primeira vez traduzir numa linguagem simples ,que o homem comum pode entender,  os princípios essenciais necessários para efetuar previsões. Mas, mais do que isso, ele contém também um conjunto de remédios simples  para as aflições dos planetas, que qualquer pessoa pode aplicar por si mesma e que a tradição considera que são eficazes, ainda que pareçam estranhos para a mente do homem ocidental.

Nós não temos  experiência na aplicação deste sistema sui generis da Astrologia Védica e, por isso, não podemos adiantar provas dessa eficácia. Mas, muitas pessoas que usam o Lal Kitab estão satisfeitas com os resultados dos «remédios» que ele  prescreve para cada uma das «aflições» dos planetas. Na Índia e no Paquistão este sistema tornou-se muito popular.

Um aspeto curioso é a insistência que o autor do livro faz em relação à capa deste livro, que deve ser vermelha para este ser auspicioso. cor vermelha na Índia está associada ao sucesso e à riqueza, símbolo de Lord Ganesh e da deusa Lakshmi.

 Lal Kitab baseia-se na ideia de que existem efeitos dos planetas que podem ser modificados na sua expressão energética, tornando-se positivos pela aplicação dos «remédios» específicos sugeridos; outros efeitos, no entanto, permanecem inalterados e o nativo deve sofrê-los,conformando-se com isso pois revelam o karma que não pode ser mudado . Os remédios sugeridos vão desde atirar moedas num curso de água a «ter um cão e tratá-lo bem» ou simplesmente abster-se de determinadas práticas. Geralmente não são dispendiosos e devem ser praticados pelo próprio nativo.

Uma coisa é certa, embora seja difícil para a mente ocidental perceber porque é que «alimentar uma vaca» ou «deitar leite num determinado local» pode alterar a  expressão energética dos planetas inauspiciosos no horóscopo, a verdade é que esses «remédios» também não podem ter qualquer efeito negativo.  Basicamente, julgamos que a ideia principal aqui subjacente  e que foi adaptada à mentalidade dos povos a quem se dirigiu este livro em primeiro lugar, é a ideia de que o reequilíbrio energético das forças que comandam o Destino pode ser  feito através do «serviço» e da prática de boas ações. Pois, de contrário na nossa modesta opinião, não há «remédio» que possa surtir efeito na modificação das influências negativas se o nativo persistir em manter, no âmago de si próprio, energias negativas e continuar a praticar ações globalmente incorretas. Cada um de nós exprime  um conjunto de energias integradas e é esse conjunto que pode  modificar as energias que interagem connosco, não atos isolados.

A perspectiva do Lal Kitab sobre Saturno e os Nodos Lunares

Saturno e os nodos são encarados como um todo inseparável  nesta obra. Tal deve-se à interpretação, muito  interessante e logicamente irrepreensível de que, no destino terreno, o Karma, representado por Saturnodepende do tempo e, no tempo, da relação cíclica entre o passado e o futuro. Ora, em cada horóscopo, Rahu/Ketu representa o impulso que traz cada alma para o mundo terreno, com todos os desejos do Karma da encarnação presente que moldarão a vida do nativo e determinarão a acumulação de novo Karma no futuro; Ketu indica a acumulação de Karma passado, contém os resultados do karma passado, representando as tendências e as expressões mais cristalizadas da alma em anteriores encarnações, e o impulso de libertação em relação a todos os apegos e desejos; ele é o impulso para destruir todos os laços e todos os desejos criados por Rahu de modo a atingir a iluminação interior e a libertação em relação ao mundo terreno.

Saturno representa a «Lei do Karma», o princípio ou regra universal; os nodos são a expressão prática dessa lei tal como cada um de nós a exprime a partir da forma como vive e das ações que realiza. Saturno é a lei impessoal e universal; os nodos são a expressão individualizada dessa lei, na «serpente cíclica do tempo», individualizada nas ações e no Karma de cada um.

Assim, parece-nos que a expressão dos nodos no horóscopo é sempre mais individualizada e diferenciada do que a de Saturno; os nodos são o símbolo do nosso passado e futuro individualizados pelas escolhas feitas  durante a espiral da encarnação. E, simbolicamente, o facto de, na Astrologia védica tradicional, aparecerem como duas metades separadas e eternamente opostas uma à outra também tem um significado simbólico importante: isso mostra que é possível quebrar a linha causal do Karma, romper com o karma passado e criar um futuro desligado dele. 

A ideia de «libertação final» expressa por Ketu só pode entender-se se  aceitarmos que a cadeia dos desejos que nos prendem uma e outra vez no ciclo terreno pode ser «rompida»; podem ser  quebrados os nós que  ligam passado e futuro até que fiquemos apenas com o «tempo» de Saturno que não tem «começo nem fim», pois representa a eternidade.

O Lal Kitab exprime previsões e uma interpretação  dos efeitos de Saturno e dos nodos para o homem comum, preso na teia dos ciclos de morte e  de renascimento que ligam a vida individual e os desejos que a motivam à lei do karma. Por isso, faz todo o sentido apresentar os princípios de Saturno e dos nodos ligados porque é desse modo que eles atuam no homem comum.

No Lal kitab, Saturno  mantém vários significados tradicionais na Astrologia Védica/Jyotish: é o significador da longevidade, rege a 10ª casa (correspondente ao signo de Capricórnio), é um planeta geralmente muito favorável para os nascidos com o Ascendente nos signos de Vénus, especialmente o signo Balança. Mas, apesar de, na Jyotish tradicional, Saturno ser neutro para os signos de Mercúrio, no Lal Kitab, Saturno é considerado maléfico para estes signos. Tal deve-se à diferente dinâmica de relacionamentos entre os planetas e as casas estabelecida neste sistema.

No Lal Kitab Saturno é simbolizado por uma serpente cuja cabeça é Rahu e cuja cauda é Ketu. Esta imagem simbólica ajuda a perceber  porque é que,  no «Livro Vermelho», se considera que, se Ketu estiver colocado em casas anteriores a Saturno este dará resultados benéficos na vida do nativo; caso contrário torna-se «venenoso». É conhecida a analogia entre ketu e todo o tipo de venenos e obsessões, simbolizando os processos gerais de «intoxicação». E, de modo geral, esta obra considera que, quando Ketu e Rahu estão  posicionados em casas posteriores à   de Saturno este é mais forte do que eles e os nodos  atuam como seus agentes ; mas, se Ketu ou Rahu  estão  colocados numa casa anterior à de Saturno, os nodos produzem bons resultados porque são os protagonistas conduzindo as forças kármicas. Muitos aspetos relacionados com as caracterizações e resultados dos planetas no Lal Kitab implicam conhecimentos simbólicos e esotéricos dos significados dos planetas e só aparecem de forma velada e, por isso ,não explícita na previsão dos seus efeitos.

Alguns Exemplos

Saturno, o «pai do tempo» e regente da lei kármica, nunca dá resultados negativos nas casas de Júpiter que são, no Lal kitab, a 2ª, 5ª, 9ª ou 12ª. Júpiter, pelo seu lado, dá maus resultados nas casas de Saturno.

Saturno também nunca pode, segundo a obra, dar resultados maléficos quando está colocado numa casa em conjunção com o Sol e com Júpiter.  Saturno fica exaltado na 7ª casa e debilitado na 1ª.  As casas auspiciosas para Saturno, segundo este sistema são  as casas 2, 3 e de 7 a 12. As casas más são as casas 1ª 5ª e 6ª.

O Lal kitab apresenta ainda algumas ideias curiosas, como o de considerar que, como Saturno e Vénus são grandes amigos, quando Saturno recebe o aspecto do  Sol ,Vénus é destruído no horóscopo. Saturno dá bons resultados se colocado numa casa anterior à do Sol.

Segundo este sistema, Rahu não pode dar maus resultados no horóscopo se a 4ª casa ou a Lua estiverem livres de aflição. Rahu está exaltado nas casas 3ª e 6ª e fica debilitado nas casas 8ª,9ª e 11ª. Também dá muito bons resultados na casa 4ª. O mesmo acontece se está colocado em conjunção com Mercúrio ou se  recebe  o aspeto dele.  Neste sistema também se considera que, se Marte está na 3ª ou na 12ª casa ou se o sol e Mercúrio estão na 3ª casa, Rahu dá bons resultados. Dá maus resultados se o Sol e Vénus estão em conjunção e o mesmo acontece se Ketu estiver colocado em casas anteriores a Rahu e, neste caso, considera-se que os efeitos de Ketu são anulados. Quanto a Ketu, dá efeitos de exaltação quando colocado na 5ª, 9ª ou 12ª  casas e resultados de debilitação quando está colocado  na 6ª ou  na 8ª casas.

Este sistema é complexo e  singular  e merece sem dúvida um aprofundamento. Os seus cinco grossos livros apresentam um considerável desafio que exige tempo e uma mente aberta para serem decifrados. Uma tarefa a explorar  no futuro.