Reflexão de fim de Semana- Segredos da Espiritualidade, Conceção Materialista da Alma

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O materialismo relacionado  com a visão filosófica da realidade é muito antigo. Na Índia floresceu no sec.VI a.c. e, no ocidente, os filósofos gregos Demócrito e Leucipo , no sec. V. a. c.  estiveram na origem da conceção segundo a qual tudo o que  existe no universo é composto por átomos agregados entre si e movendo-se no espaço. Para os materialistas, desde então, não existe nada no Universo que não seja composto por átomos que eram, na antiguidade, vistos como as partículas mais pequenas e invisíveis da matéria A matéria era  também vista como algo perecível e mortal , identificável com a «realidade» que podemos percepcionar através do uso dos sentidos.

A consequência imediata desta conceção foi que, já na antiguidade, começou-se a rejeitar a ideia de que haveria no homem alguma substância que fosse separada do corpo; a mente ou alma mais não era do que um «certo arranjo» entre as partículas materiais, que se considerava apenas  existirem enquanto o ser humano  é vivo , desfazendo-se, no momento da morte, com o corpo físico. Alguns grandes filósofos da antiguidade, como Epicuro, defenderam uma ética materialista, baseada na convicção de que não existe nenhuma alma imortal.

A Época Moderna, no Sec. XVII, ao desenvolver uma visão mecanicista da Natureza, trouxe novamente o materialismo  como tema principal para o pensamento ocidental e, com o surgimento das ciências experimentais, os séculos seguintes, com destaque para o sec. XIX e a sua visão positivista da ciência, definitivamente estabeleceram um confronto com a ideia de que o ser humano era  ser composto por duas substâncias: uma  substância material- o corpo físico- e outra substância espiritual e imortal- a alma. De facto, para o materialismo, a alma simplesmente não existe. Os defensores desta teoria consideram que a alma é uma crença, uma superstição. Afirmam que só existem os fenómenos que podem ser estudados pelas ciências da Natureza e que a mente é inseparável do corpo. Consideram que o indivíduo é apenas um corpo físico vivo e nada mais: no momento da morte, nada mais resta. Acrescentam ainda que aquilo a que chamamos alma é a atividade mental  do nosso cérebro e que essa atividade não é uma «substância», é apenas algo que o nosso cérebro é capaz de fazer: pensar, sentir, determinar-se a agir.

A esta ideia acerca do homem correspondeu também, pelo menos desde o Sec. XVIII, a ideia de que o mundo obedece a leis mecânicas eternas, fruto do acaso e que não existe Deus nem Alma.

É claro que as descobertas que a ciência Física fez desde o final do sec. XIX e ao longo do Sec. XX obrigaram a alterar o conceito de Matéria, que é hoje bem mais complexo do que o que existiu em épocas anteriores. Os átomos revelaram-se como divisíveis em subpartículas e a matéria tornou-se sinónimo de energia e de tipos  de forças.  A matéria deixou de ser acessível aos sentidos e de ser vista como algo sólido para passar a ser encarada como algo que só podemos experienciar indiretamente.  E os materialistas do nosso tempo, que acreditam que a realidade é apenas aquilo que as ciências naturais nos permitem apreender, afirmam  que o que chamamos  de alma não é mais do que a atividade explicável do funcionamento cerebral e do corpo; continuam firmes na convicção de que, no momento da morte, nada mais resta; nem do indivíduo nem da sua  atividade pensante, nem da pessoa que amou e que odiou, que desenvolveu valores, projetos e lutou por esta ou por aquela Causa: o momento da morte é o nada absoluto  e há apenas acesso à  pessoa através do rasto das memórias que ela deixou atrás de si.

Porém, curiosamente,  no âmago da própria ciência da Física, o conceito de matéria  faz fintas e entra outra vez na Metafísica: não é por acaso que a célebre e tão procurada partícula  última da matéria, o bosão de Higgs, é chamada de a «partícula de Deus». Os investigadores da ciência, que perscrutam a matéria nos seus mais recônditos segredos, são atraídos pelo mistério e avançam para os campos que são proibidos pelos materialistas de serviço: falam da «inteligência» escondida na estrutura da matéria , da «incerteza» em relação à sua definição (é uma partícula ou uma onda de luz? Parece que é ambas , passe o paradoxo, como determinou Heisenberg) e por mais arbitrário que pareça este nosso mundo, homens de reputada natureza científica como Einstein, («Deus não joga aos dados com a natureza») olham para o fundo da matéria e, ao invés de meras partículas arbitrariamente agregadas e movidas, parecem ver uma inteligência que o acaso mecanicista é incapaz de explicar.

Cada vez faz menos sentido o dualismo matéria espírito: na verdade parece, não que o espírito é matéria disfarçada, mas que a matéria esconde propriedades que, durante muitos séculos, apenas eram atribuídas ao espírito.   De modo que a pergunta que hoje faz sentido  fazer é esta :pode realmente alguém, cientista ou homem do senso comum, acreditar de forma objetiva nas ideias chave do materialismo?

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