Reflexão de Fim de Semana- Segredos da Espiritualidade, o Dualismo Alma /Corpo

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Muitos têm uma conceção dualista do ser humano , segundo a qual este é composto por duas «partes» ou naturezas: o corpo físico, mortal ; e a alma, espiritual e imortal. Público em geral , religiões e muitos filósofos têm defendido esta caracterização da natureza humana.  Um dos filósofos mais conhecidos nesta matéria,  René Descartes, que viveu no sec. XVII, defendeu esta hipótese com grande convicção, tendo mesmo  considerado, num primeiro momento, na sua obra «Meditações Metafísicas», que tinha provado a imortalidade da alma quando mostrou que podemos provar com total certeza a existência do pensamento mas não com a mesma certeza a existência do nosso corpo.

Porém, a questão é por demais complexa e o próprio Descartes aceitou a objeção que lhe foi feita  quanto a este aspeto pois o facto de o pensamento se  poder «desligar» do corpo físico não prova, só por si, que a mente é imortal.

E chegamos aqui a um outro ponto comum, quando se fala da alma. Descartes e muitos outros referem-se à alma como sendo  sinónimo de «pensamento» ou de uma  «coisa que pensa». Neste aspeto, a alma é encarada como  sendo aquele princípio que, para além de atribuir a vida aos seres, os  torna  conscientes , pensantes e capazes de terem consciência de si próprios.  Esta conceção da  alma é bastante restrita pois  apenas atribui uma alma  aos seres que são capazes de se pensar a si mesmos, para além de poderem pensar acerca de qualquer outra coisa. Nesta aceção, considera-se que os animais que não são auto conscientes, as plantas e os restantes seres não têm  uma alma superior, têm apenas um princípio anímico enquanto «seres viventes». Teremos oportunidade de refletir sobre este ponto em outro artigo.

Esta conceção de alma estabelece assim um dualismo entre os homens e  os  animais  auto conscientes (que são uma minoria)  e os demais  seres, considerando que só os primeiros partilham de uma natureza imortal  que lhes é dada por esse princípio que pensa e  que sente de forma superior ou espiritual  e que todos os outros seres dispõem apenas de uma natureza física que é inevitavelmente mortal e perecível. Esta ideia está na base das crenças segundo as quais os animais não humanos são «inferiores» aos seres humanos porque seriam desprovidos deste princípio nobre e espiritual presente no ser humano.  E estabelece uma hierarquia entre os seres, que ficam divididos entre os que «têm alma» e os que são desprovidos dela.  Isto é bem visível nas conceções do filósofo Descartes que considerava que , da mesma maneira que o nosso corpo é equiparável a uma máquina, os animais são puras máquinas biológicas desprovidas de alma por não terem a capacidade de pensar. A superioridade dos seres humanos nesta matéria estaria em que, por serem dotados de uma alma, independente e autónoma em relação ao corpo físico, os seres humanos podem aspirar à imortalidade pois a alma não se dissolve no momento da morte do corpo, permanecendo para além dele: o homem seria um ser superior por ter uma natureza imortal.

Esta conceção dualista que atribui aos seres humanos duas naturezas, uma mortal e outra imortal, separadas entre si, tem sido objeto de contestação pelos materialistas e  por vários cientistas. Veja-se, por exe., o livro «O Erro de Descartes» do neurocientista português António Damásio, no qual este  investigador nega a existência de uma mente separada do cérebro e, consequentemente, não aceita  a existência de um princípio pensante separado do funcionamento cerebral.

No próximo artigo falaremos desta conceção «materialista» da alma. Por agora, referimos apenas que nem o cientista referido nem qualquer outro ponto de vista nem investigação conseguem negar em absoluto a existência de uma capacidade de consciência que ultrapassa o funcionamento cerebral, como comprovam muitas experiências de «quase morte» referenciadas por muitas pessoas diferentes que descrevem  estados de  consciência  e perceções em momentos em que o seu cérebro esteve totalmente inativo, pois estava «clinicamente morto».

Evidentemente  esta questão é demasiado complexa para ser respondida de uma forma cabal e definitiva porque não possuímos um saber absoluto acerca da existência da alma e os pressupostos da ciência são hipóteses de trabalho e não leis absolutas e incontestáveis.  Para além disso, a experiência de todos os povos ao longo de muitos séculos sobre as «evidências» de que «alguns princípios»  dos seres humanos persistem após a morte do seu corpo físico não podem ser todas descartadas como  meras superstições ou crenças totalmente infundadas.