Segredos da Espiritualidade- Os Animais têm Alma?

alm

Muitos de nós, que convivemos com os nossos animais de estimação, já pudemos constatar  evidências reais  de que os animais não são muito diferentes de nós quando  se trata da capacidade de exprimir emoções, de distinguir o certo e o errado, de  manifestar altruísmo para ajudar outros ou mesmo vergonha ou culpabilidade… muitas vezes, ao olharmos para o nosso animal, vemos nitidamente que os seus olhos revelam  inteligência, capacidade para compreender o que fazemos e dizemos, amor, alegria e tristeza… e perguntamo-nos se existirá alguma diferença substancial de natureza que os separe dos humanos.

Somos uma cultura marcada pela tradição bíblica. E esta, tradicionalmente, tem visto os animais como sendo inferiores aos seres humanos. Os animais são «criaturas viventes» animadas pelo sopro da vida física ; mas não têm ,segundo a tradição, uma «alma imortal». Nesta conceção, o homem aparece como um ser especial, como uma criação  separada daquela que originou  os outros animais. Ele é visto como «criado à imagem de Deus» e os outros animais são vistos como «criados para o benefício do homem». Assim, segundo esta tradição, o homem tem uma alma imortal mas os animais não.

No entanto, será que podemos separar o homem do resto da criação? O avanço da ciência genética trouxe evidências que, da mesma forma que destruíram quaisquer bases credíveis para o conceito de «raças» humanas na atualidade, também põem em causa que o homem tenha uma origem separada da evolução geral das espécies: entre o ser humano e o resto dos animais existe uma partilha do mesmo processo da vida e a descodificação do genoma do homem e de outras espécies animais, que incluem as que lhe estão mais próximas na escala evolutiva, como o chimpanzé ou o orangotango mas não só, comprovam que é ínfima a parte genética que nos separa como espécies. É uma só a cadeia da vida e ela é partilhada pelo homem e pelos outros seres.

Ao longo do tempo, a ideia de que todos os seres  possuem uma alma  tem sido defendida por muitas teorias e culturas. Já aqui mencionámos o Hinduísmo, que considera que a alma divina está presente em toda a criação  mas na cultura ocidental, esta ideia também foi aceite por muitos: por ex.,o filósofo  Aristóteles aceitava que, não apenas os seres humanos e animais têm uma  alma mas também as plantas a têm. E acrescentava que a alma não tem as mesmas faculdades em todos os seres, acreditando que a alma humana era a única dotada todas as capacidades pelo  facto de o homem ser um ser auto consciente, racional , capaz de pensar, etc. Muitos místicos no Ocidente e muitos filósofos   do Renascimento e no dealbar da era Moderna, afirmaram que a alma, como «essência  divina» está presente em toda a criação. E foram muitas vezes combatidos e rejeitados , acusados de serem «panteístas» e «animistas» (por acreditarem num Mundo cuja  essência é o próprio Deus).  Alguns pensadores  do século XIX, (Ravaisson, por ex) exprimem uma ideia familiar a muitos místicos do passado segundo a qual toda a criação é penetrada pela essência divina mas esta só se exprime completa e perfeitamente no ser humano porque este tem as funções da alma mais desenvolvidas do mundo terreno e isso faz dele um mediador: ele está no meio do mundo material e do mundo espiritual, entre a criação «abaixo» dele em termos de auto consciência e desenvolvimento racional e espiritual e Deus: caberia ao homem trazer  de novo para o plano espiritual  a  divina essência que se cristalizou nos «mundos inferiores» – que incluem os minerais, as plantas em geral e os animais não humanos- para que estes possam aspirar ao «regresso» à fonte espiritual que os criou.  Em suma, nesta perspetiva, todos os seres são obra do espírito mas alguns- os que não são capazes de auto consciência- possuem um espírito cristalizado e incapaz de se manifestar livremente, por estar totalmente mergulhado no plano material. Mas o processo evolutivo, segundo várias destas abordagens,  fá-los-á prosseguir até ao regresso espiritual final do qual a auto consciência é o ponto intermédio. Deste ponto de vista, os animais estão destinados a tornarem-se auto conscientes acordando a essência divina «adormecida» no seu ser.

Mas para além destas discussões filosóficas, que podemos realmente dizer sobre a alma dos animais? Se a alma existe nos seres dotados  de inteligência e capazes de ter consciência de si  próprios, sabemos que é  hoje pacífico entre os estudiosos do comportamento animal que várias  espécies têm autoconsciência (falámos de várias dessas espécies na reflexão de fim de semana, «Animais como nós») ; também se tem comprovado sem dificuldade de maior que os animais têm comportamentos éticos altruístas em que sacrificam muitas vezes o seu bem estar e a sua segurança para ajudarem e salvarem outros, humanos  e não humanos. E a nossa experiência diz-nos mesmo que muitos deles são mais capazes destes comportamentos do que a maioria dos seres humanos que conhecemos. Muitos deles são também altamente inteligentes e capazes de raciocínios complexos. De modo que, se a linha demarcadora entre quem tem uma alma imortal ou somente uma «alma como princípio vital» for ser dotado de competências racionais e éticas , temos que admitir que a diferença entre os seres humanos ( e não são todos) e os restantes animais é apenas uma questão de grau de desenvolvimento e não uma diferença de natureza. Parece-nos pacífico, deste modo, admitir que, se o homem tem uma alma imortal, pelo menos uma razoável quantidade de outras espécies também a tem.

Mas nós não somos «especistas» segundo o conceito de J. Bentham  que, como outros, defendeu  a não relevância da inteligência ou das capacidades de raciocínio para ajuizar sobre o valor intrínseco de uma determinada espécie. Assim,  pensamos que esse não deve ser o critério determinante para ajuizar se um determinado animal tem ou não uma alma imortal. O Hinduísmo e o Budismo ou a Teosofia, parecem-nos mais aceitáveis nas suas conceções quando distinguem entre «possuir» uma alma imortal» e «estar consciente de que ela existe em si próprio». Estes saberes pressupõem que  todos os seres possuem uma essência divina e imortal mas só alguns se individualizaram o suficiente para terem consciência da presença dela em si próprios. E, por isso, a Teosofia, por ex., afirma que os animais possuem uma «alma-grupo»  e que cada animal individual possui uma centelha dela que regressa à origem após a morte física. Porém, os animais não são todos iguais e, se há muitas espécies em que, nitidamente prevalece o instinto em programas biológicos fechados, muitas outras, à semelhança do homem, têm programas genéticos abertos e dependem das suas experiências e aprendizagens para se desenvolverem. Quem pode negar que estas possuem, pelo menos, uma alma a caminho de se individualizar?

Poderá Gostar de Ler