Superstições – A Chaminé, a Cama e a Vassoura

 limpa

Continuamos a apresentar algumas superstições que têm acompanhado  a humanidade desde tempos que se enraizam na memória. Algumas destas superstições perderam algum do seu significado vivo devido à mudança nos hábitos  de vida e à tecnologia que está em uso nos nossos tempos. É o caso das superstições associadas à «chaminé», produto da revolução industrial e que, no século 19, proliferou pelas casas trazendo um novo conceito de conforto e de bem estar  mas também novos mitos e crenças. Não nos admira que assim tenha acontecido: a chaminé estabelece uma ponte entre o mundo humano «térreo» e o céu, pois abre-se para o céu  e para o infinito, como uma ponte que leva até à divindade. Não é por acaso que o «Pai  Natal» desce pela chaminé para entregar os seus presentes no dia de Natal. Ele usa a «ponte» entre a morada divina e a morada terrena dos homens.  E, por isso, as pessoas que habitualmente se dedicam a limpá-las, os «limpa chaminés», ficam tocadas da mesma transcendência. É por isso que a crença dizia que encontrar um «limpa chaminés» por acaso (quem não se lembra do inesquecível e mágico «Mary Poppins»?) isso é um excelente sinal de boa sorte. E, se formularmos um desejo nessa ocasião, é certo que ele se concretizará.

A cama é mais do que uma peça de mobiliário que nos acolhe nas horas de sono. Ela está também associada a mil segredos pois, afinal, quem sabe o que se passa quando estamos a dormir? E os sonhos, ou pesadelos ou simplesmente o despertar misterioso após umas horas de sono em que a consciência nos deixou, tudo isso apela para o desconhecido e, consequentemente, para o surgimento de crenças e superstições. Ao mesmo tempo, vários saberes atentos às energias que nos cercam, ajudam-nos a ter  a percepção de qual o melhor local para colocarmos a nossa cama, peça tão importante onde passamos uma boa parte da nossa vida.  E assim, Caro(a) Leitor (a), fique sabendo que colocar a cama de frente para norte ou para sul traz má sorte; do mesmo modo, devemos levantar-nos da cama pelo mesmo lado em que nos deitámos ou teremos má sorte (é melhor assegurar que a pessoa que se levanta é realmente a mesma que se deitou anteriormente); e, quanto a fazer a cama, se começámos essa tarefa, não devemos interrompê-la ou, nessa noite, teremos um sono intranquilo (talvez porque alguma má influência ocupa o nosso espaço, nesse intervalo?) E se  a leitora for uma pessoa  que decidiu fazer uma colcha para a sua cama, é melhor acabá-la pois, se não o fizer, nunca se casará (esta parece-nos fácil de entender, se nos lembrarmos de que em tempos idos as futuras noivas iam fazendo o seu enxoval  e, se este não estivesse completo, é claro que o casamento não viria, por falta  de preparação).

E se você é um(a) ou jovem à espera de encontrar o seu «príncipe» ou «princesa» encantado (a) mas na verdade quer assegurar todas as possibilidades e tem um caderninho com nomes de possíveis  eleitos  ou eleitas em vista mas gostava de saber se algum deles lhe está destinado, a coisa é simples: pegue numa maçã com o  pedúnculo agarrado e vá torcendo o pedúnculo  com os dedos ao mesmo tempo que vai dizendo os nomes das pessoas que lhe andam no horizonte do pensamento  casamenteiro. A pessoa com quem você  casará será aquela cujo nome  estiver a ser dito  quando o pedúnculo da maçã finalmente ceder e partir… simples, não? (Mas não é para levar muito a sério, dizemos nós) .

Outra crença curiosa e passada de moda agora que temos ecografias que mostram de forma objetiva esta informação, era a usada para  saber qual o sexo de uma criança quando a mãe estava grávida: o princípio usado é o mesmo do pêndulo. Pegando na aliança de casamento, ate-se -lhe uma linha  e, sobre a mão da mulher grávida, suspenda-se este pêndulo improvisado concentrando-se na aliança e deixando que o subconsciente mova o anel, sem que a mão o faça voluntariamente: se a aliança se mover num movimento oval ou circular, a criança será uma menina; se, por outro lado, o movimento for direito ou em linha reta, será um rapaz.  Diga-se o que se disser, este era um métodos bem mais  interessante  do que  olhar para um monitor. Pelo menos mantinha a dúvida até ao fim…

Agora, as campainhas. No artigo da semana passada falámos de uma tradição em que as noivas tocam campainhas no casamento para afastar os maus espíritos. Agora percebemos porquê: estes têm medo de barulhos ruidosos. E porquê? Porque, quando uma campainha toca, um novo anjo acabou de receber as suas asas.

A cor azul está associada ao divino e ao bem, ao amor, à fidelidade… não admira, pois , ao olharmos para o céu , este parece-nos azul.  E, por isso, também não há razão para nos  admiramos de que, se usarmos um colar de contas azuis,  com isso afastamos as «bruxas» e, por falar em bruxas, as vassouras, protagonistas principais do lar no tempo em que não dispúnhamos de outras utilidades menos cansativas, são um dos objetos  do lar mais carregados de superstições. Também não nos espanta: as vassouras servem para remover o lixo, estando por isso em contacto com as impurezas  e , simbolicamente, estas associam-se ao mal. É por isso que a  crença diz que nunca devemos levar a vassoura quando mudamos de casa. Devemos deitá-la fora e comprar  uma nova. Caso contrário, levamos connosco todos os «maus espíritos »  e más influências ligados à vassoura. E, em continuidade, é também compreensível porque é que não devemos encostar a vassoura à cama. Se isso acontece, as más influências agarradas à vassoura lançam um feitiço para a cama. E, se alguém ao varrer  varre por cima dos nossos pés, nunca casaremos ( não sabemos o que acontece se já tivermos «dado o nó»). Para afastar um convidado indesejado que recebemos em casa, devemos varrer imediatamente o compartimento onde a pessoa esteve , mal ela saia. Calculamos que, dessa forma, atiramos fora as  energias que ela deixou na casa e, por isso, não voltará.  Finalmente, não devemos  varrer o lixo para fora de casa depois do anoitecer, a  menos que desejemos receber a visita de um estranho.

E quando seres voadores nos entram pela casa? Segundo a crença, isso  também tem significado pois, na mente do homem tradicional, o acaso não existe e tudo tem uma razão de ser: assim, se nos entra uma abelha em casa, ela anuncia uma visita em breve. Não devemos matá-la pois isso traz má sorte (ou então a visita será desagradável). Se pensarmos que as abelhas são animais de extrema utilidade para os seres humanos e para o bom andamento das colheitas, etc, devido à polinização, torna-se fácil perceber a origem desta superstição; se um melro nos entra em casa pela janela, uma morte ocorrerá em breve (ou não fosse este animal preto);

Finalmente, terminamos por hoje com a referência a outra superstição: quando nos despedimos de um amigo ou ente querido, não devemos fazê-lo numa ponte pois isso indica que jamais nos voltaremos a ver. As pontes ligam locais separados mas  essa ligação pode ser muito frágil, sobretudo nos tempos antigos em que as pontes nem sempre obedeciam a critérios de robustez de engenharia; e, por outro lado, são tradicionalmente locais por onde   a passagem não é grátis e, por vezes, sobretudo no passado, podia  ser objeto de impedimentos vários (defendidos com a espada). Daí o simbolismo da separação difícil de remediar.

Voltaremos na próxima semana com mais algumas superstições.