Superstições- Sexta Feira 13

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Continuamos a apresentar mais algumas superstições, muitas delas bem enraizadas na experiência popular, revelando a sabedoria do povo acerca de uma dada realidade ou assentando nas suas crenças, muitas vezes ligadas aos cultos religiosos ou aos mitos tradicionais.

Hoje falamos da conhecida superstição da «Sexta Feira 13». É uma superstição recheada de história e de múltiplas experiências em diferentes épocas e locais. A memória conjunta de todas elas acabou por aglutinar-se num único significado conjunto guardado no imaginário universal.

Por exemplo, o número 13 indica um «excesso», algo que é acrescentado  ao número completo que é o 12: o ano tem doze meses, os deuses do Olimpo eram doze, os apóstolos de Jesus eram doze… por isso, acrescentar um outro número  é perturbar uma ordem perfeita, destruindo-a. Abundam as histórias do 13 relacionado com um 13º  elemento que , não tendo sido convidado, aparece , com a intenção secreta de fazer mal: um mito nórdico conta a história de um jantar em que doze deuses estavam a confraternizar até que apareceu um elemento não convidado, que tinha a intenção de mandar matar um deles, Balder, o deus da alegria. Este foi morto e a terra escureceu, em luto e tristeza; Judas foi o 13º convidado para a última ceia de Cristo e sabemos o resultado: atraiçoou o Cristo, fazendo com que ele fosse preso pelos romanos e martirizado; na Antiguidade, acreditava-se que as bruxas formavam grupos de 12 e que o 13º elemento era o demónio.

Quanto à sexta feira, acredita-se que Eva tentou Adão, no paraíso, numa sexta feira e que algumas das catástrofes mencionadas na Bíblia, como o dilúvio e a morte de Jesus, também ocorreram na 6ª feira, o que tornou este dia  um dia «aziago» na mente popular. Acrescentam-se a isto alguns costumes em países como Inglaterra, que , no passado, escolheram   a sexta feira como o dia em que faziam as execuções públicas por enforcamento. A ideia de que neste dia  tudo pode correr mal vulgarizou-se.

A ligação entre a sexta feira e o número treze fez com que este dia se tornasse, na mente popular, um exemplo máximo da má fortuna. Por exe., quando os condenados caminhavam para a forca onde iriam perder a vida, acreditava-se que eram 13 os passos necessários para lá chegar. E, quando, em 1306, o rei de França prendeu o grão mestre da ordem dos cavaleiros templários (e todos os cavaleiros que apanhou desprevenidos) e os martirizou , para lhes confiscar  os muitos bens e tesouros que a ordem possuía, para encher os depauperados cofres de França, a crença popular, apoiada nesta matança que chocou e atingiu a mente popular de forma muito viva, reforçou-se, transformando cada dia 13 que calha numa sexta feira num dia de muita má sorte.

Esta crença é tão forte no imaginário coletivo que se tornou bem visível  na vida das cidades muitos séculos depois e apesar da mente supostamente científica do homem atual: muitos arranha-céus não têm 13º andar; em Itália, não existe número 13 na loteria e a numeração das habitações nas ruas também omite o 13: passa-se do 12 para o 12 e meio e depois para o 14… nos países e nas cidades que nomeiam as ruas através de números, não existe 13ª rua nem 13ª avenida.  O mesmo acontece com os  aeroportos, em que não existe a 13ª saída, hotéis e hospitais que não têm o quarto nº 13…  Crendices, dirá o leitor mais cético mas a verdade é que, mesmo quem não acredita em superstições, sente um arrepio perante um quarto de hotel que exiba o nº 13. O imaginário é uma poderosa força inconsciente  a influenciar os comportamentos humanos, individuais e coletivos. A compilação de memórias de «má sorte» associada a um dia da semana ou a um número continua viva no inconsciente coletivo.  E os apoiantes da tradição não se cansam de mencionar exemplos entre o dia 13 e a «má sorte»: a missão lunar Apollo 13 e o seu falhanço; o facto de alguns dos assassinos mais famosos e cruéis terem 13 letras no nome: Jack the Ripper; Jeffrey Dahmer; Theodore Bundy, etc. ter 13 letras no nome dá  muito azar, afirma-se.

Devido a esta superstição, há várias coisas que se acredita que dão azar se realizadas numa sexta feira: mudar a cama  de lavado; lançar um navio ao mar pela 1ª vez; iniciar uma viagem; começar a fazer uma peça de roupa (a menos que seja acabada no mesmo dia), etc..

Uma outra superstição curiosa diz que não se devem cortar as unhas à sexta feira (nem ao domingo) e que as unhas cortadas não devem ser deixadas ao «deus dará» mas devem, ou ser guardadas (?!) queimadas ou enterradas.

 Mas nem todas a sextas feiras dão azar, como acontece com a sexta feira santa, devido à crença de que o martírio de Cristo foi um ato de amor pela humanidade e a sua santidade torna-se, por esse facto, protetora. Assim , a crença diz que uma criança nascida na sexta feira santa e batizada no domingo de Páscoa terá o dom da cura (tal como Cristo) e, se for um rapaz, chegará a ministro («se for um rapaz», esta parte da crença tem as marcas do tempo e dos  condicionalismos históricos que reservavam certas carreiras exclusivamente para os homens).

Outras crenças associadas com a sexta feira santa, são que cortar o cabelo na sexta feira santa previne dores de cabeça no ano inteiro; se uma pessoa morre na sexta feira santa vai imediatamente para o céu (os portões estão abertos sem restrições neste dia); e há ainda a afirmação de que não se deve derramar sangue neste dia nem trabalhar em madeira nem pregar pregos, numa alusão ao  sofrimento de Cristo na cruz e aos seus algozes: fazer esses trabalhos seria encarnar  simbolicamente os algozes de Cristo e tornar-se como eles.

 Para a semana continuaremos a apresentar mais algumas superstições e os seus significados.