As Superstições do Teatro

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Falamos neste artigo sobre as superstiões associadas ao teatro.

O teatro é um meio tradicionalmente associado às superstições. É um meio onde abundam as emoções , causadas pela alegria das atenções do público, da consagração do trabalho dos atores que vibram no palco, deixando nele energias que se perpetuam, razão pela qual os teatros, sobretudo quando estiveram ativos durante muitos anos, são dos edifícios mais assombrados pelos que, outrora, nele encontraram a razão de ser das suas vidas, a glória e a fama.

Mas, para além destas energias positivas, nem sempre as coisas correm bem num determinado espetáculo e, quando isso sucede, há sempre uma explicação que se vai buscar à tradição, às memórias do próprio teatro, que é como um ser com vida própria, daí a associação entre o teatro e as superstições.

Tudo parece ter começado no século 6 a. C. com um ator grego chamado Thespis que terá sido o primeiro ator individual a proferir palavras em palco, supostamente no dia 23 de novembro de um determinado ano. Assim, quando algum ator  ainda hoje se engana nas falas, sobretudo quando isso calha no dia 23 de novembro, o evento é associado à ação fantasmagórica de Thespis. (talvez ciumento de não poder ele próprio continuar a proferir as suas falas como ator).

Diz-se que muitos atores famosos continuam, após a sua morte, presentes no teatro que viu as suas representações, muitas vezes ao longo de anos e os atores atuais  contam muitas histórias em que essas antigas glórias do teatro se manifestam de alguma forma.

Assim, tornou-se tradição reservar um dia por semana sem representações no teatro – normalmente a 2ª feira- para que os fantasmas possam ter o palco para si e reviver a sua antiga glória. Este dia semanal sem espetáculo é respeitado por todo o mundo e, para além do óbvio dia de descanso dos atores e restante pessoal, tem também este significado que é deixar o palco livre para os fantasmas do teatro.

Das várias superstições associadas com o teatro, nenhuma é tão conhecida (nem temida) como aquela que foi associada à peça de Shapkespeare, Macbeth.  Como sabemos , a peça inclui a referência a bruxas e a encantamentos por elas utilizados.

Ora, parece que logo na primeira representação da peça, o ator que fazia o papel de Macbeth morreu ou imediatamente antes ou depois da produção da peça (existem várias versões do sucedido). A má sorte associada à peça dever-se-á ao facto de Shakespeare ter retratado bruxas reais e  de estas  supostamente não terem gostado do modo como foram representadas pelo dramaturgo, amaldiçoando a peça.

Algumas versões dizem que o diretor da 1ª representação terá roubado um caldeirão às bruxas reais para usar na peça e estas vingaram-se; outra versão diz que a peça revelou segredos das bruxas e que, por essa razão, elas se vingaram; outra versão ainda diz que a produção original usou bruxas reais e bruxaria e que, por isso, a peça está amaldiçoada.

O que é certo é que ninguém  diz o nome da peça no teatro- «Macbeth» – referindo-se-lhe como «a peça escocesa» e, se alguém, por lapso terrível diz o nome fatal, deve sair do teatro, correr 3 vezes à volta do teatro , depois de cuspir   e amaldiçoar, e só  depois pede para o deixarem entrar novamente no teatro. Nenhum ator repete os encantamentos das bruxas antes da representação.

Quando esta acaba, porém, e fora do teatro, pode falar-se da peça abertamente.  Quanto à origem destas superstições, talvez o público tenha ficado impressionado com as cenas assustadoras com as bruxas e se tenha convencido de que a peça era mais do que uma simples representação. E talvez isso tenha sido terreno fértil para associar qualquer evento negativo que acontecesse  na proximidade da representação da peça como uma prova de que a peça estava amaldiçoada.

O que é um facto é que se trata de uma peça muito popular  que, por causa disso, era por vezes usada pelos diretores de teatros em dificuldades e com dívidas, para tentarem, através de maior número de pessoas que vinham ver a peça, superar as dívidas e as dificuldades.

Acontece que muitos não conseguiam superar essas dificuldades e, por isso, pouco tempo depois da produção da peça, entravam em falência, o que terá originado a fama de que a peça produzia má sorte e a falência do teatro. Afinal, a mistura dos encantamentos das bruxas e as maldições casa muito bem com a ideia de  azar e de  má sorte.

Outra superstição muito difundida entre as pessoas do teatro e cuja popularidade acabou por se estender além dele, como manifestação do desejo de «boa sorte» é a expressão «parte uma perna», para desejar sorte aos atores antes de uma representação. É sem dúvida uma expressão algo inesperada como sinónimo de boa sorte mas a sua origem acaba por mostrar uma conexão lógica com esse desejo.

Esta expressão parece ter-se originado nos espetáculos de teatro de «Vaudeville», quando os atores só recebiam se a peça tivesse um número razoável de audiência e pudesse ser representada no palco. No teatro, há diversos espaços separados por cortinas, e umas dessas cortinas são conhecidas por «pernas». Se o ator passasse além delas, (sinal de que o público estava a gostar e não o corria com todo o tipo de objetos atirados, frutos, ovos, etc etc que estivesse à mão) teria o seu pagamento garantido.

Daí o «parte uma perna» isto é, o  desejo  de que o ator que passe além da cortina «perna». Além disso, nos tempos de Shakespeare, o público, quando estava satisfeito com a representação dos atores, atirava dinheiro para o palco, sendo necessário que os atores curvassem o joelho para o apanharem. Neste sentido, o «parte uma perna »  é sinónimo de «flete a perna» ou seja, equivalente ao desejo  de  que o público goste da representação do ator e lhe atire dinheiro por isso.

Existem ainda outras superstições associadas ao teatro. Uma delas é que não deve usar-se roupa azul no palco a menos que seja usada ao mesmo tempo que alguma coisa em prata. Tal superstição parece ter-se originado nos tempos em que a produção de tintura de tecido para obter roupa azul era difícil de obter e, por isso, as roupas azuis eram muito caras.

Ora, parece que alguns diretores de teatro, para tentarem esconder as dificuldades financeiras, por vezes usavam roupas azuis para alardear uma situação de sucesso financeiro inexistente e, logo depois dos espetáculos, muitas vezes as dividas caíam-lhes em cima , produzindo a falência, o que era atribuído ao uso (dispendioso) de roupa azul. Daí a ideia de que esta cor usada em palco dá azar.

A menos que, ao mesmo tempo, a pessoa use prata. (pois isso indica que ela tem mesmo dinheiro para se dar ao luxo de as usar).

Outra superstição ligada ao teatro é a de que dá azar usar penas de pavão em palco, tanto nos cenários como na roupa. Existem histórias que contam que, ao usar essas penas, houve cenários que caíram, cortinas que pegaram fogo e outros eventos desastrosos quando se usavam estas penas numa peça.

A razão para esta crença parece estar no mito grego que conta como um monstro coberto de olhos foi transferido para a cauda do pavão. Assim, usar penas de pavão no palco é levar «mau olhado» para este e, dessa forma, despoletar má sorte para o espetáculo.

E, por falar em mau olhado, os espelhos estão proibidos de entrar em palco, dando um azar extremo. Esta crença ter-se –á originado na superstição antiga de que o espelho reflete a alma e de que, ao parti-lo inadvertidamente,(situação fácil de acontecer com a movimentação em palco) isso traz 7 anos de azar tanto para a pessoa como para o teatro.

Esta superstição parece ter um fundo prático pois o uso de tal objeto pode provocar muitos efeitos indesejáveis como interferir com a iluminação da peça, criar distrações, etc. , não sendo desejável de todo , de modo que os azares podem acontecer de facto quando se usa este objeto em palco.

E finalizamos este artigo de hoje, que articula as superstições e o teatro com o costume de oferecer, depois de finalizado o espetáculo e noite dentro, um ramo de flores roubadas do cemitério, ao diretor e ator /atriz principal da peça. Simboliza-se assim a «morte» do espetáculo e o facto de , agora, este poder descansar até à próxima sessão pois decorreu com sucesso.

E nunca se deve oferecer flores antes do espetáculo, acreditando-se que isso traz muita má sorte. (pois recompensa o que ainda não se obteve).

Na próxima semana continuaremos a falar das superstições que se ligam ao viver humano.

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