As Origens da Astrologia 2

O  conhecimento da astrologia tornou-se mais sistemático e documentado a partir do séc. I antes de Cristo permitindo-nos deste modo ter uma ideia mais objetiva sobre as origens da astrologia.

Ao longo da história  da astrologia discussões filosóficas sobre a oposição «destino/livre escolha» têm sido uma constante:  autores como Cícero na Roma Antiga argumentaram que a noção de liberdade de escolha era incompatível com a noção de destino que podia ser «adivinhado» pela Astrologia.  Porém, para os filósofos estóicos, que influenciaram decisivamente o desenvolvimento da astrologia helenística e posterior,  há que distinguir entre as coisas que nós podemos influenciar com a nossa vontade e a nossa escolha  e as que estão fora do nosso controle (ta eph hémin).  As coisas que  podemos influenciar dependem da disposição do nosso caráter e não são uma causalidade necessária; porém, levam-nos a fazer boas  ou más escolhas pois somos seres racionais. Além disso, como os seres racionais eram considerados  «sementes da mente divina», as escolhas humanas correspondem ao destino cósmico cíclico e acabam por corresponder àquilo que a astrologia é capaz de prever com razoável eficácia.  Deste modo, o «destino» e a condicionada liberdade humana podem não ser vistos como contraditórios, ambos seguem o ritmo do ser universal e as suas potencialidades.

Por esta razão, um dos autores fundadores do saber da astrologia, Chrysippus, considerava-a como uma ciência empírica e factual e não como uma mera relação lógica conceptual que articule passado, presente e futuro. Para os estóicos ( e Cícero) o fundamento desta ciência consistia em que os deuses planetários, sendo capazes de conhecer o futuro e amando a espécie humana, deram á Humanidade o conhecimento dos signos para que esta possa antever o futuro. Estes deuses não podem alterar o futuro mas deram aos homens o conhecimento e a forma de interpretar os signos de modo a que estes possam  adquirir o conhecimento do futuro. Ora, aqui cabe fazer uma pergunta: porque seria importante dar a conhecer tal futuro se os homens não fossem capazes de o alterar em parte? Naquela parte da causalidade que depende do seu próprio caráter e criou uma certa sequência do destino que pode ser destrutiva ou negativa para um certo ser ou indivíduo? Tal conhecimento do futuro torna-se assim uma «segunda oportunidade» para que uma pessoa possa escolher mudar o rumo da sua  forma de agir e, desse modo, alterar o seu destino naquilo que «está sob o seu controlo». Há uma parte do «destino» que não depende do ser humano- a tradição astrológica  quantifica a parte do destino que não pode ser alterada pelo homem como tendo um peso de 75%. Porém, sobram 25% do «destino» individual, que são produto das escolhas e da «disposição de caráter» do indivíduo (bom ou mau segundo os antigos) e  podem alterar  em parte o destino como «lei que rege a vida universal», incluindo a do ser humano que se integra na vida cósmica global.

Os astrólogos ligados à corrente filosófica do estoicismo consideraram que o caráter de uma pessoa reflete as potencialidades inatas dos signos do Zodíaco e dos planetas. Deste modo, ao analisar a carta natal, era possível determinar o potencial de cada indivíduo para ser virtuoso ou corrupto. Por outro lado, as circunstâncias externas e os eventos da vida da pessoa eram, para estes astrólogos,  determinados pelo trânsito dos planetas em relação à carta  natal através do tempo e durante certos períodos da vida em que as configurações da carta natal eram dinamicamente energizadas. Autores como Teukros da Babilónia atribuíam a cada signo do Zodíaco (e tendo em conta os decanatos), uma lista de traços do caráter da pessoa que nascia com o Ascendente num certo signo.  Os astrólogos helenísticos também afirmavam que as circunstâncias em que se deu a  conceção, tal como as do nascimento, afetam o indivíduo. Desse modo, levantavam horóscopos, não apenas para o momento do nascimento mas também para o momento da conceção. Acreditavam que essas circunstâncias da conceção ou nascimento se refletiam em todas as coisas da Natureza, nesse momento e em todas as atividades iniciadas nesse momento.  Assim, a partir da posição dos signos e planetas, determinavam a cadeia causal do destino individual.

As ideias do filósofo Platão no diálogo Timeu foram  expressas num texto helenístico atribuído a Timaeus Locrus,  do séc. I antes de Cristo, que teve grande impacto nos conceitos da astrologia. Este texto sumariava as teses de Platão sobre a criação das almas pelo «Demiurgo», segundo as quais a Natureza (princípio feminino da divindade) criou as almas humanas a partir de uma composição entre os 4 elementos (criados pelo Demiurgo). Cada alma humana teria diferentes destinos de acordo com  uma diferença na proporção destes elementos na sua composição.   Esta ideia de que cada ser humano tem um «destino diferente» pode ter estado na base da procura, pelos astrólogos da antiguidade, do «planeta regente» de cada indivíduo. Por ex., esta ideia aparece na astrologia da Índia  através do conceito de «atmakaraka». Alguns autores na época acreditavam também que um dos «jovens deuses» encarregados de moldar o corpo humano e livrá-lo de todos os  males, durante a vida, seria aquilo que os astrólogos da antiguidade tentavam determinar , ao procurar o « planeta regente do indivíduo».

Plutarco, figura proeminente da segunda metade do séc. I depois de Cristo, contribuiu para a popularidade da astrologia que se tornou grande nos 3 primeiros séculos da era cristã. Autor muito culto, editor das obras de Platão e adepto do pitagorismo e hermetismo, Plutarco  desenvolveu algumas conceções interessantes:  sendo um sacerdote de Apolo, considerou as outras divindades como aspetos simbólicos de um único Deus, invisível e ininteligível. O Sol não era identificado com esse Deus mas era a sua  cópia terrena e inteligível. Plutarco considerava o Sol como o coração do cosmos, o Nous (intelecto)  do cosmos. A Lua associa-se por sua vez à alma cósmica (e ao baço) e á Terra através dos intestinos. Plutarco defendeu a existência de duas almas do mundo, uma benéfica e outra  maléfica. Afirmava que a alma maléfica do mundo era responsável pelos movimentos irracionais que ocorriam na Terra. Era crença de Plutarco que esta alma maléfica do mundo já existia antes da criação do mundo terrestre e do homem. A natureza desta alma não é totalmente maléfica, ela é a causa do mal no mundo terrestre, misturando-se com o bem para causar tensão cósmica. Tal como Platão havia dito (Timeu 30 b)  a alma individual é um microcosmos, refletindo a alma do mundo na qual existem dois poderes inerentes:  o bem e o mal e está sujeita à tensão cósmica entre estes dois poderes.  No  mundo  terreno, as almas estão sujeitas a uma mistura de destino (heimarménê), sorte (tukhê) e livre escolha (eph ‘hêmin) . Quanto aos  jovens deuses de que fala Platão (Timeu, 42 d-e) ou deuses planetários que dirigem as almas, são considerados por Plutarco como a parte irracional da alma. Na sua cosmologia, Plutarco também afirma a existência de 4 princípios cósmicos: Vida, Movimento, Geração e Decomposição ( declínio e morte). Quanto á interação entre estes princípios, a Vida liga-se ao movimento através da Mónada Invisível, o Movimento liga-se á Geração através da Mente Cósmica (Nous); a Geração liga-se à Decomposição através da alma. Estes princípios ligam-se ao Destino – as 3 Moiras- da seguinte forma: Clotho, a 1ª Moira, localiza-se no Sol e preside à Vida; Atropo, a 2ª Moira localiza-se na Lua e preside ao Movimento; Láquesis, a 3ª Moira, localiza-se na Terra  e preside à Geração. Segundo Plutarco, no momento da morte a alma deixa o corpo e vai para a Lua; a mente deixa a alma e vai para o Sol. No momento de a alma renascer, o processo inverte-se. Esta cosmologia de Plutarco serviu de fundamento para a astrologia helenística, embora Plutarco ele próprio , tenha tido uma atitude ambígua em relação ás artes divinatórias.  Há por ex., textos em que ele critica os generais por se apoiarem mais na astrologia dos que nos conselhos dos militares experientes e treinados. Também diz, no entanto, na obra Sulla, 37.1 como Sulla, depois de ter consultado astrólogos babilónios, foi capaz de prever a sua própria morte.

Os textos da astrologia helenística mais antigos parecem remontar ao séc. III antes de Cristo, segundo autores reputados como Cícero ou Teofrasto. Manuais técnicos de astrologia terão estado disponíveis desde o séc. II antes de Cristo. No próximo artigo falaremos de alguns destes primeiros astrólogos.

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